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Direito de Amar

Ainda que “Direito de Amar” chegue ao Brasil com esse título de novela das seis, não tem em sua trama a pieguice que o título anuncia. Não é sobre ninguém lutando por direito algum, apesar da temática gay indicar essa possibilidade. Na verdade, por sua ambientação, na Los Angeles do início dos anos 60, o homossexualismo é quase encoberto – nessa época as minorias se escondiam para evitar a intolerância. Eram “invisíveis”, de acordo com o termo empregado por George (Colin Firth), um professor inglês radicado nos Estados Unidos que se vê envolto numa tragédia pessoal.

Ele perde seu parceiro de mais de dezesseis anos num acidente de carro, e sequer tem a permissão da família do outro para comparecer ao funeral! Não reivindica o direito de participar da despedida, mas passa a sofrer consigo mesmo, compartilhando o luto apenas com uma amiga de longa data (Julianne Moore). Depois de meses de angústia, George decide que, para ele, já basta: nada na vida sem o amado vale a pena. Ele planeja se suicidar com um tiro na boca, e quando tem tudo programado, vai vivenciar um último dia antes de botar fim ao desespero. É esse dia específico que será retratado no filme, dirigido com ímpeto pelo estilista Tom Ford.

Uma referência no ramo, conhecido por ter levado a Gucci ao sucesso comercial, Ford faz sua estreia no comando de um longa-metragem com surpreendente virtude (também é co-autor do roteiro, baseado num romance de Christopher Isherwood). O mais evidente no trabalho dele é a preocupação com a estética. Não só a cuidadosa reconstituição de época chama atenção, mas também a fotografia – que passa de lavada de cores à saturada, de acordo com o estado de espírito do personagem principal – é curiosíssima e muito útil à narrativa. Ela nos ajuda a compreender que estamos acompanhando tudo do ponto de vista do George. Tendo esse referencial (de que não vemos as coisas como elas de fato aconteceram, e sim como o protagonista as percebeu) é mais fácil aceitar certas opções.

Afinal, nesse último dia de vida ele acabará cruzando com um punhado de pessoas que, mesmo desconhecendo o plano de suicídio, acabarão lhe mostrando que há muito de positivo nesse mundo para continuar vivendo. Talvez as aproximações de alguns indivíduos soem insistentes e forçadas demais. O relevante, porém, é que a moral cafona não é transmitida por meios convencionais. A narrativa pode parecer episódica, mas é consistente, e mais do que ocasionalmente encontramos diálogos carregados de verdade (costumam ser reflexões simples sobre a condição humana, coisas que você deveria ter pensado por conta própria e que fazem todo sentido quando transpostas em palavras). Só a narração em off, do próprio George, poderia ter sido maneirada no início – assim como a câmera lenta e a intrusão da trilha (ótima, diga-se) podem parecer excessivas aqui e ali.

O grande trunfo da produção, no entanto, é mesmo a interpretação de Colin Firth. Ele sempre foi um ator sólido, em quem se podia confiar para não comprometer. Mas nunca antes havia arrebatado, entregado uma atuação tão poderosa e calculada nos mínimos detalhes. Um equilíbrio perfeito entre expressividade e contenção, que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar – aliás, a única do filme. Certamente uma das performances do ano, e dessa vez, num projeto à altura. A melhor estreia da semana!

.:. Direito de Amar (A Single Man, 2009, dirigido por Tom Ford). Cotação: B+

P.S.: Amanhã, post completo com as previsões finais para o Oscar!

Categorias:Cinema
  1. 6 março 2010 às 12:36 am

    credo, quero agora.
    só tinha visto algo sobre a atuação do Firth, mas até o que li do seu post (parei, porque eu sempre acho que vai ter spoiler, hahaha. trauma de fã de lost), já sei tudo: preciso!
    =*

  2. markhewes
    6 março 2010 às 1:38 am

    Louis, eu dou “A+” porque até agora estou pensando se vai se tornar meu filme preferido, há tempos Closer ocupa esse espaço mas realmente nunca tive certeza sobre essa escolha (não é como Nip/Tuck que tenho certeza ser minha série favorita, talvez porque eu seja mais viciado em séries que filmes) e esse chegou numa fase propícia da minha vida. É um filme que fala sobre perda sem dar escorregões, o que é realmente perder a pessoa que ama. E o Colin Firth passou todas as sensações que ele estava sentindo pra quem estava do outro lado da tela. Ao assistir esse filme a gente fica com vergonha dos filmes com a temática gay (como Brokeback Mountain). É um filme maduro, muito bem construido. É um filme pra sair da sala do cinema e refletir. Julianne Moore também estava ótima, quando ela ficou sorrindo na mesa, eu sorri também. Eu poderia passar aqui falando sobre cada detalhe, mas estou até sem palavras, porque eu esperava que fosse bom mesmo, mas acho que mesmo assim eu fui surpreendido.

    • 6 março 2010 às 1:43 am

      Quéroul, e precisa MESMO! É um filmão! E podia ter lido sem medo porque eu tomei cuidado com spoilers! LOL. Comentei só sobre os detalhes da trama que já constam na sinopse oficial.

      Mark, filme favorito? Gostou mesmo, hein? Concordo com você que o filme atende bem à sua proposta principal e que Colin Firth tá paranormal (sem dúvidas a performance da vida dele, que não há de se repetir em lugar nenhum). Também achei Julianne muito boa – viu só como ela incorporou bem o sotaque britânico? Não notei uma hesitação sequer na pronúncia dela! Só não saquei sua menção a Brokeback. Você acha que o filme não faz jus à temática gay como este aqui?

      • markhewes
        6 março 2010 às 4:40 am

        Louis, eu adorei. Vi, ela é demais. Talvez foi um engano mencionar. É que prefiro muito mais um filme como esse que tem apenas um beijo gay que outros que usam e abusam de cenas de sexo. Sem falar que prefiro muito mais o roteiro desse que fala mais sobre perda e através disso consigo ver o amor que existia, que outros que falam de um amor que nem consigo enxergar.

      • 6 março 2010 às 7:26 pm

        Mark, acho as propostas levemente diferentes. Numa comparação, ficaria com Brokeback! o/

  3. 6 março 2010 às 1:46 am

    O MELHOR FILME DO ANO!

  4. markhewes
    6 março 2010 às 1:55 am

    O MELHOR FILME DO ANO! [2]

    • 6 março 2010 às 4:29 am

      Jenson e Mark, eu fiquei com a impressão, logo no início, de que o filme seria mesmo o melhor do ano, mas uma ou outra irregularidade no decorrer me fizeram considerá-lo apenas “um dos melhores”!😉

  5. 6 março 2010 às 7:07 pm

    Considero “um dos melhores”, mas tem umas passagens tão over, coisa que eu acho que é culpa do Tom Ford… Colin Firth e a trilha sonora impecáveis, e o Firth merece tanto o Oscar, né?

    • 6 março 2010 às 7:27 pm

      L. Vinícius, concordo. Algumas passagens foram mesmo exageradas. E Firth é, de fato, o melhor da categoria a que está indicado! Uma pena que não vai ganhar…

  6. 6 março 2010 às 8:56 pm

    O MELHOR FILME DO ANO! [3]

    • 7 março 2010 às 12:15 am

      Matt, vi que você até atualizou sua lista de filmes no Orkut para incluir este aqui. Gostou mesmo, hein?🙂

  7. filipe
    29 dezembro 2010 às 3:46 pm

    pessoal prestigem meu blog tudoaomesmotempoagora.com.blogspot

  8. filipe
    29 dezembro 2010 às 3:49 pm

    pessoal errei meu blog!!!!é tudoaomesmotempoagora-filipe.com.blogspot

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