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Comédias, Family Guy e Sarah Palin

Comédia é um assunto extremamente relativo e pessoal. O que para um é engraçado, para outro pode ser de mau gosto; o que para fulano é inteligente, para beltrano pode parecer aborrecido. Isso vale para tudo: filmes, rotinas de stand-up comedy, aquele parente chato que bebe demais e solta seu Ary Toledo interior, e claro, séries de TV. As séries cômicas são tradição da televisão americana, a ponto de toda e qualquer premiação referente dividir os programas de ficção em duas categorias. Com o tempo foi-se esgotando a fórmula da sitcom tradicional, com claque e cenários fixos, e hoje estas são minoria no gênero, comprimido ainda pelas “dramedys” (junção de drama, comédia e outros elementos a mais).

Aproveitem os risos enquanto podem.

Ultimamente tenho me desapontado com algumas das comédias mais elogiadas. Tivemos boas aquisições com as recentes “Modern Family” e “Glee”, mas as veteranas perigam se perder. “Entourage”, da HBO, teve a última temporada irregular, “Ugly Betty” foi cancelada pela ABC sem chances de apelação, e “Weeds” já nem se assemelha à série que foi nos anos iniciais, devido às nem sempre positivas mudanças de rumo. A mais referenciada, “30 Rock”, é divertida, tem grande número de piadas boas por minuto e me faz rir alto – mas não é de agora que tenho a sensação de que Tina Fey deixou o posto de “mente inteligente da TV” lhe subir à… bem, cabeça. O show volta e meia envereda para a indulgência, com deixas pretensiosas que convidam o público a se sentir inteligente junto dele. É a mesma sensação que eu tinha com “Flight of the Conchords”, embora muito mais incômoda neste caso: a série, sobre dois músicos de rua neozelandeses passando perrengue na América, era diferente e bem defendida pelo elenco. Mas parecia feita sob encomenda para seus admiradores se vangloriarem de apreciá-la.

“Family Guy” não me deixa essa impressão. Ainda assim, é outra que às vezes erra, às vezes acerta. Vivem traçando comparações com “Os Simpsons”, cujos episódios inéditos eu nem mais acompanho (aliás, me pergunto se já não passou da hora deles jogarem a toalha). Hoje, rio mais com a família Griffin do que ria com a família amarela, mas admiro (admirava) mais os roteiros da segunda – o texto nunca carecia de substância, e o apanhado de coadjuvantes que povoava Springfield era nada menos que formidável em sua totalidade. Em “Family Guy”, os roteiros parecem coletar piadas avulsas e sem conexão, para depois intercalá-las ao plot do episódio de qualquer jeito (exemplo: Peter comenta “Lembra do dia em que Jesus Cristo veio jantar aqui em casa?” e corta para uma cena aleatória com Jesus sentado à mesa, deixa perfeita para uma avacalhação com os cristãos).

Às vezes, parece que “Family Guy” não quer mais propor uma discussão – só quer fazer polêmica, ofenda a quem ofender. A última que se doeu foi Sarah Palin, outrora candidata à vice-presidência dos Estados Unidos. No capítulo mais recente, uma personagem com Síndrome de Down foi introduzida através de um número musical politicamente incorreto. Mais adiante, quando Chris Griffin pergunta à garota qual a profissão dos pais dela, tem como resposta: “Minha mãe é a ex-governadora do Alasca”! Palin, que governou o Estado de 2006 a 2009, tem ela própria um filho com a mesma deficiência, e não achou nada engraçado na brincadeira. Uma de suas filhas soltou uma declaração no Facebook, dizendo que está acostumada a ser atacada por sua ligação com uma figura pública, mas que insultos ao seu irmãozinho são dolorosos demais para não se pronunciar.

O que talvez Palin, a filha e todos os demais que se doeram não tenham percebido é que a personagem em questão – dublada por uma moça também portadora da Síndrome de Down – parecia ser a mais articulada e decente do episódio. Verdadeiros debilóides são os membros da família Griffin (ou os americanos comuns que eles representam). Essa intenção de Seth McFarlane – criador de “Family Guy” e voz oficial de vários personagens – poderia até ser interpretada como nobre por alguém com a cabeça um pouco menos estreita. Muito mais pesado, por exemplo, foi o episódio da temporada passada, transmitido em plena época de eleição norte-americana, em que o bebê Stewie e o cachorro Brian viajam no tempo para a Alemanha Nazista; lá eles encontram oficiais da SS com broches da campanha de John McCain e Sarah Palin pregados aos uniformes. E não me lembro de nenhum escândalo por causa daquilo… Nem sempre aplaudo as opções de Seth McF. (cheguei a abandonar o spin-off “The Cleveland Show” por falta de interesse), mas dessa vez ele e “Family Guy” tem todo o meu apoio! O que você acha?

Categorias:TV
  1. 5 março 2010 às 1:07 am

    de todos de seu texto, apenas FOTC habita em meu coração. o resto eu dispenso com gosto, sobretudo 30 Rock, que eu acho uma das coisas mais nojentas da tv. falo meeeeeeeeeeermo. 😉

  2. 5 março 2010 às 5:13 pm

    Nem acho que “30 Rock” está tão ruim como todo mundo diz, é que as três primeiras temporadas foram tão geniais que a gente acostuma.

    Já “Family Guy” está sendo uma total decepção nesta temporada. Pra mim Seth McFarlane se perdeu completamente e nem risada eu ando dando.

    Mas pra mim, o prêmio zzzZZZzzz da temporada até agora foi de Weeds. Gente, como aquilo ficou ruim!

    • 5 março 2010 às 11:25 pm

      Quéroul, pior que, mesmo adorando 30 Rock, eu SUPER entendo a sua reação! Vai entender… LOL

      L. Vinícius, mas 30 Rock não está ruim! Só partindo para umas piadas pretensiosas demais pro meu gosto… Eu ainda rio com Family Guy, mas achava mais inspirado há alguns anos, de fato. O que me incomoda é que as vezes querem criar umas polêmicas mt gratuitas. Quanto a Weeds, não acho que ficou ruim, mas de fato não é mais a mesma. Decaiu DEMAIS!

  3. 6 março 2010 às 12:03 am

    Nunca assisti “Family Guy”, mas acompanhei o imbróglio entre o programa e a Sarah Palin. Pelo jeito, não é somente o brasileiro que não sabe rir de piadinhas infames. Os norte-americanos, alguns, pelo menos, também não possuem senso de humor. Beijo!

    • 6 março 2010 às 1:03 am

      Ka, exatamente! Americanos são ainda mais sensíveis que os brasileiros pra essas coisas… Beijo!

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