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Nip/Tuck, um adeus

Em “Nip/Tuck”, dois cirurgiões plásticos se vêem às voltas com os seres humanos mais bizarros do planeta. A cada episódio, aberrações de tudo que é tipo vão procurá-los em busca de reparações físicas, e sempre pelos motivos mais irreverentes. É fácil adivinhar que esses casos afetarão os protagonistas num âmbito pessoal, e que ambos saírão modificados das experiências. No entanto, a fórmula “aprenda uma lição com os pacientes” nem se longe se assemelha ao modo com que é empregada, por exemplo, em “Grey’s Anatomy”. Não espere por saídas sensíveis, catarses escancaradas e uma musiquinha da Sarah McLachlan ao fundo. Na realidade distorcida de “Nip/Tuck”, impera a crueza, a brutalidade, e o pessimismo. Mais do que ocasionalmente, os médicos chegam à uma conclusão negativa e desanimadora sobre a condição humana – e essa sucessão de anormalidades no trabalho, somada às relações desonestas que os dois mantém em suas vidas privadas, contribui para a podridão a que se resumem suas existências.

Sean e Christian, os cirurgiões que emprestam os sobrenomes à clínica McNamara/Troy, estão tão embrenhados nesse espiral de caos que, ao final das seis temporadas de “Nip/Tuck”, não sabem aonde termina o certo e aonde começa o errado. Eles são melhores amigos dentro e fora da sala de operação, inseparáveis desde a faculdade. Ainda assim, são distintos como água e vinho. Sean é um metódico e sossegado pai de família; Christian é um solteirão convicto que dorme com uma modelo diferente por noite. Se a princípio ambos parecem ser arquétipos, a pesadíssima bagagem emocional que carregam, mais o envolvimento com uma mesma mulher (Julia, a esposa de Sean), os transformarão em personagens fascinantes de acompanhar. Com esse ponto de partida, não é de se estranhar que a série tenha estreado como uma das mais polêmicas e interessantes da temporada de 2003. De lá para cá, se manteve como um dos grandes trunfos do canal FX, tendo sido reconhecida por público e crítica (chegou a ganhar o Globo de Ouro de Melhor Drama, embora não tenha recebido o mesmo prestígio dos Emmy Awards). Até seu último suspiro – o episódio final, exibido ontem nos Estados Unidos – “Nip/Tuck” segurou o infame título de série polêmica. O de “série interessante”, porém, veio a perder.

O criador do show, Ryan Murphy, soube destrinchar seus anti-heróis com brilhantismo durante, pelo menos, três temporadas. Do quarto ano em diante, alguns deslizes criativos dos roteiristas comprometeram a qualidade de um programa até então uniforme. O afastamento da protagonista feminina – a luminosa Joely Richardson, que costumava ser o elo mais forte do elenco – em função dos problemas familiares da atriz foi outra desvantagem. Suas aparições em episódios mais e mais espaçados, e as justificativas para essa ausência, se tornaram inverossímeis até para uma série com um pé fincado no irreal. Mesmo nos anos de glória, também não se podia elogiar abertamente os atores principais. Dylan Walsh e Julian McMahon nunca comprometeram, mas por vezes deixavam a sensação de que não conseguiam sustentar as implosões emocionais dos personagens. O fraquíssimo John Hensley, escalado como Matt, o filho biológico de Christian que fora criado por Sean, é outro erro: primeiro pelo seu físico, que não corresponde ao de McMahon, e segundo por sua assumida inexpressividade. Os outros nomes que marcaram presença nos créditos oficiais são os de Roma Maffia (como Liz Cruz, uma anestesista que funciona melhor como escada para as piadas de Christian) e Kelly Carlson (como Kimber, uma ex-atriz pornô com quem Christian tem um relacionamento atribulado).

Mas o que realmente prejudicou a série a partir da quarta temporada (caso tivesse mantido o nível antigo até o desfecho, ouso dizer que estaria entre as melhores coisas já feitas para TV) foi a falta de freios na bizarrice. Nem tanto pelos casos médicos, que já eram cabulosos desde o início, mas principalmente pela trama contínua dos personagens fixos. Como já tinham mostrado o inimaginável, pesaram a mão sem dó na tentativa de continuar surpreendendo. Nisso, caíram sem pestanejar no exagero, e deixaram a sensação de que queriam “chocar por chocar”. Simples assim, sem considerar o desenvolvimento adequado para os personagens, ou como eles seriam tocados pelo que presenciavam. Além, é claro, de se enveredar por cenários ridículos, tramas sonolentas (o bebê deficiente de Julia na quarta temporada, o tráfico de órgãos em que eles se envolvem, a cadeia de burrices do Matt, a inclusão da psicopata Teddy – e a troca da atriz que a interpreta!) e forçadas de barra (como mudar a ambientação de Miami para Los Angeles e criar razões para que todos tenham que partir de lá pra cá). Esses episódios finais foram marcados pela mais pura inconstância: um capítulo ruim, outro regular, outro morno, outro muito bom. De excelente, muito pouco. Mas para quem aguentou firme até aqui, o que custa ver como termina? Estou partindo logo mais para ver o desfecho – não por acaso, o centésimo episódio da série, com uma aparição de luxo de Famke Janssen (como a travesti Ava, ponto alto da segunda temporada) e uma conclusão amarga, de acordo com o que prometeu o criador. Fui!

Categorias:TV
  1. 4 março 2010 às 12:45 am

    Eu desisti dessa série há muito tempo! As tramas ficaram absurdas demais! A série se perdeu por completo. Beijo!

  2. 4 março 2010 às 1:52 am

    como a colega acima, desisti há muito tempo.
    até a terceira temporada eu assisti com certa regularidade; mas foram colocando cada coisa horrorosa na história, que a gente só ficava esperando o momento que um carro ia explodir e um dos atores virasse o Jack Bauer. até onde me lembro, pelo menos isso ainda não tinha acontecido.
    e o filho lá – que na verdade era o Michael Jackson, né? – só não era pior por falta de espaço. enfim, uma série que eu achei brilhante quando comecei a ver, e que me virou uma vaga lembrança. e não daquelas boas.

  3. markhewes
    4 março 2010 às 2:07 am

    Louis, eu acho as 3 primeiras temporadas brilhantes, mas depois do grande deslize da quarta temporada eu comecei ver Nip/Tuck como uma viagem bizarra ao impossível e desde então deixei de levar a série tão a sério e nunca deixou de ser meu programa favorito. Na quinta temporada eu amei quase tudo, a participação do divertido e gato Bradley Cooper. A vilã Eden (apesar de ter sido interpretada por uma péssima atriz). A entrada da Sharon Gless como a maluca Colleen é uma coisa que teria detestado se não tivesse tirado da minha cabeça as primeiras temporadas, mas eu sei separar as temporadas e consegui aceitar bem as mudanças. E prefiro que uma série mude totalmente que ficar insistindo em assuntos repetidos e tentar fazer algo que não consegue mais. Acho que entende o que quero dizer, alguns episódios da sexta temporada fizeram isso bem, mas acabaram sendo entediantes e sem muita criatividade, é por isso que digo que adorei os episódios cômicos da quinta temporada, melhor ser diferente e agradar que ser parecido como antes e dar sono. Amei todo aquele humor que Los Angeles trouxe, os dois primeiros episódios pra mim foi um sopro de originalidade, mas claro que Nip/Tuck é um drama e foi inevitavel eles permanecerem naquele clima por muito tempo. Sabemos que muitas séries chegam num ponto onde não sabem pra onde estão indo. Mas hoje a série termina e estou aqui com o mesmo interesse que tinha anos atrás, até porque os últimos episódios foram muito bons. Volto pra comentar o final da série hein, haha.

    • 4 março 2010 às 10:51 am

      Ka, eu persisti, mas entendo sua reclamação! Beijo.

      Quéroul, concordo com você. Eu mesmo me senti tentado a largar, depois de tantos exageros! E o Matt parece MUITO o Michael Jackson, PQP!!! huahuahuahuahuahua. Feio e mau ator, o ponto mais baixo de todas as temporadas de MT longe.

      Mark, eu te entendo em partes. Acho que as séries tem que evoluir, andar pra frente sempre! Nip/Tuck passou por várias mudanças, mas nem todas positivas, se levarmos em conta a forma com que aqueles personagens evoluíram (e nisso, ficaram empacados ou presos na redundância, como as idas e vindas com a Julia, por parte dos dois). Weeds, por exemplo, nem parece hoje a série que era no primeiro ano – ambientação totalmente diferente, personagens explorados por novos ângulos, e nunca entediante. Nip/Tuck tentou, mas não foi feliz em todas as mudanças. Seja como for, ainda NÃO vi o último episódio (o sono me impediu ontem à noite e agora estou sorrateiro no computador da faculdade huahuahua). Logo mais assistirei pra comentar ctg! o/

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