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Quando o amor soa banal

Os americanos levam muito a sério o Valentine’s Day, que seria o equivalente deles ao nosso Dia dos Namorados. Enquanto aqui os casais celebram sua união em Junho, lá o mesmo ocorre numa certa data de Fevereiro – justamente quando essa comédia romântica de Garry Marshall, entitulada “Valentine’s Day” (e muito mal traduzida para o português como “Idas e Vindas do Amor”), veio a estrear. Foi, obviamente, um sucesso de bilheteria, rendendo horrores no primeiro final de semana – não só por ser o filme certo na hora certa, mas também por ser a fita recente com o maior número de astros por metro quadro. Ou seja, não faltou incentivo para que ninguém conferisse.

Esta é, de fato, uma história bem americana, com todas as convenções hollywoodianas que o público médio costuma adorar, e que aqueles que assistem com um olhar mais clínico costumam abominar. O fato é que no Brasil esse golpe do comércio não tem tanto impacto. Não seguimos de forma rigorosa as regras implícitas dos “dates”, nem sequer temos uma tradução ideal para a palavra (o mais aproximado seria “encontro”). Lá, é de praxe que os pombinhos troquem presentes, mandem flores, saiam para jantar e tudo mais. Ainda que não seja feriado nacional, o país para com esse clima de romantismo – e os que estão sozinhos ficam amargos por não terem com quem trocar chamegos, boicotam as festividades e amaldiçoam o amor.

Todos esses prós e contras, favoráveis e opostos, cínicos e apaixonados, tem espaço no filme. E todos são retratados da maneira mais preguiçosa que se possa imaginar. O cinema às vezes dá para mostrar que Los Angeles é pequena demais para seus múltiplos personagens. O resultado dessas histórias – em que enredos avulsos esbarram uns nos outros até que tudo se complemente e faça sentido no final – vão do excelente (“Short Cuts”, “Magnólia”) ao mediano (“Crash – No Limite”), e por fim ao ruim (como é o caso de “Idas e Vindas do Amor”). Salvo algumas reviravoltas mínimas, as inúmeras tramas convergem para a mediocridade – e não ajuda que o roteiro tente se enveredar para a comédia com as piadas mais batidas e prosaicas de que se tem notícia. Devem ter achado que qualquer um se contentaria com as situações que já conhece: pois eu me senti violentado ao ver coisas tão ridículas quanto um personagem sendo surpreendido pelado e outra deixando o amante embaraçado na frente da esposa (e garanto que também não ouvi risos coletivos durante a sessão).

Essa sucessão de bobagens desgastadas predomina nas mais de duas horas de metragem. Aliás, esta é outra desvantagem: é longo demais para o gênero e inflado por casos que não nos provocam interesse, a ponto de não reconhecermos certos personagens ou de não nos lembrarmos em que pé estavam desde que os vimos pela última vez. No entanto, o fiasco não é inacreditável, se considerarmos que o diretor é bem meia-boca (fiquei indignado quando vi Marshall como jurado daquele reality-show com os novos cineastas patrocinado pelo Spielberg: como assim, o velhinho bocó avaliaria jovens profissionais com talento superior ao dele? Me dói pensar que tanta gente boa está escondida nas universidades, enquanto um babão desses tem verba e astros à disposição).

Aos curiosos, esse filmeco pode ser útil por proporcionar reuniões: de Marshall com suas estrelas Julia Roberts (que ele lançou em “Uma Linda Mulher” e com quem depois rodou “Noiva em Fuga”) e Anne Hathway (filmaram juntos os dois “Diários da Princesa”); de Marshall com seu ator de confiança Hector Elizondo; dos galãs de “Grey’s Anatomy” fora da série (Patrick Dempsey e Eric Dane integram o elenco, embora não interajam); e das revelações da sitcom “That’s 70 Show” (Ashton Kutcher e Topher Grace, que faziam parte do programa e aparecem em situação parecida). A cantora Taylor Swift também marca presença, como par de outro Taylor, o Lautner, da saga “Crepúsculo” (que, como eu bem reparei, tem “GAY” escrito com maiúscula na testa). Dentre os outros perdidos na bagunça estão Kathy Bates, Shirley MacLaine, Queen Latifah, Jamie Foxx, Jennifer Garner, Jessica Biel, Bradley Cooper e, em nada mais que uma fala, Joe Mantegna. Alguns se esforçam bastante, mas não deixam de ser um completo desperdício nesse projeto nulo, que não corresponde a nada além do punhado de dólares que arrecadou.

.:. Idas e Vindas do Amor (Valentine’s Day, 2010, dirigido por Garry Marshall). Cotação: D-

Categorias:Cinema
  1. 25 fevereiro 2010 às 12:14 pm

    Ta ai um filme que você não gostou nenhum pouco e que me agradou, acho que estava sensibilizado no momento e fui cativado por ele, porque sei que em um momento melhor meu eu só teria criticado, o começo já não me agradou, mas fui dando chances e esquecendo as falhas e sai satisfeito do cinema.

  2. 25 fevereiro 2010 às 12:29 pm

    Putz… achei esse filme chatíssimo e não via a hora dele terminar e eu poder, finalmente, me livrar e sair do cinema. Não é um monte de astros que vai salvá-lo de um roteiro totalmente pífio e sem poder algum.

    • 25 fevereiro 2010 às 12:55 pm

      Mark, eu até tentei embarcar na proposta, mas era muita futilidade e banalidade seguida para me envolver! Você deu sorte…

      Robson, com certeza! Olhei no relógio umas cinco vezes torcendo pra terminar de uma vez.

  3. Karol
    25 fevereiro 2010 às 1:00 pm

    O filme é um porrezinho mesmo, não dá pra se comover com algo tão previsivel! So vim pra falar da minha experiencia o quanto eles levam a serio o dia dos namorados por aqui. Alem das coisas de praxe como vc disse (que tambem acontecem no Brasil), aqui todo mundo celebra o dia dos namorados. Eu tomo conta de 2 menininhos aqui e ganhei ursinhos de pelucia e chocolate dos dois, e eles levaram docinhos pra escola para dar para os amiguinhos e voltaram com a mochila cheia, a tarde chega presente da vovó pelo correio. Enfim, fora a parte comercial, o que eles dizem aqui é que no dia dos namorados se celebra o amor em geral, nao so dos pombinhos, mas entre todo mundo.

  4. 25 fevereiro 2010 às 2:54 pm

    é uma conjunção astral que eu não aguento, ainda mais contendo Jessica Alba e Jeniffer Garner (a Biel tá também???).
    enfim, super não quero ver. ainda mais porque a fórmula ‘ummonte de ator mais história de amor’ já deu MUITO errado naquele ‘Ele não está tão a fim de vc’, ou como chama aquilo com a Drew Barrymore.

    • 25 fevereiro 2010 às 8:38 pm

      Karol, exatamente, o país inteiro é contagiado e todo mundo celebra. Os adultos chegam a levar tão a sério que dá até medo! E o filme, ao retratar esses eventos de forma tão insatisfatória, não faz jus ao que deveria.

      Quéroul, me lembre exatamente desse filme com a Drew! Ele Não Está Tão A Fim de Você já era fraquinho, e este consegue ser ainda mais inferior. What a waste!😦

  5. 26 fevereiro 2010 às 2:18 am

    O que mais me encomodava eram as traições, hahaha.

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