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Gol do Chile!

Outro ponto positivo para o cinema sul-americano, e não graças ao Brasil. Dessa vez quem acertou em cheio foi o Chile, que fez de “A Criada” uma das melhores descobertas cinematográficas do ano. O filme parte de um plot tão simples que fica difícil imaginar tal história sendo desdobrada num longa-metragem. Apesar disso, os mais de 90 minutos de projeção são de fazer as palmas das mãos transpirarem. O diretor Sebastián Silva tinha apenas um outro filme no currículo, mas é desde já experiente em prender a atenção do espectador e, principalmente, em fazer com que tensão e inquietude advenham de situações mínimas, quase inofensivas.

Não é à toa que foi um dos finalistas ao Globo de Ouro, tendo ganhado prêmios em Sundance e rendido certo prestígio à protagonista, uma certa Catalina Saavedra. É dela o papel da empregada Raquel, que trabalha para a mesma família há mais de vinte anos. Os patrões são bem de vida e tem quatro filhos de idades diferentes, sendo que Raquel trata os três caçulas com carinho, mas reserva antipatia e azedume para a mais velha. De início, Raquel se contenta com pequenas provocações – como ligar o aspirador de pó de propósito quando a garota tenta dormir até mais tarde. Mas à medida em que a história avança, essas maldades vão se intensificando, e não apenas limitadas à menina. Raquel destrata todas as demais empregadas que a patroa contrata para auxiliá-la. Não quer perder o controle absoluto do funcionamento daquela casa, e salvo raras ocasiões, está sempre de cara amarrada. Vai ficando claro que esses atos são a projeção de uma mulher resignada, que sufocada pela solidão e pela falta de perspectiva, tenta imprimir a mesma infelicidade que a consome naqueles que a rodeiam. De qualquer forma, é muito respeitada pelos patrões – e depois de duas décadas de serventia, nem mesmo a patroa tem voz ativa para contrariá-la, que dirá para demití-la! Ou seja, é uma relação benéfica, que ela encara como sinônimo de agravo. Para completar, Raquel tem enxaquecas terríveis que frequentemente a levam ao desmaio.

Muito seguro de si, o roteiro transforma um arco dramático plano numa personagem complexa e matizada, que Catalina encarna com a maior dignidade. Igualmente bem estão os outros atores que lhe fazem companhia – e como a ação se dá quase exclusivamente num único cenário (o sobrado em que a família mora), com os personagens sendo seguidos pelo diretor com a câmera na mão, era indispensável um entrosamento satisfatório entre eles para que a proposta desse certo. O clima é tão tenso que a certo ponto cheguei a pressentir uma tragédia, mas lá pelo terço final o enredo vai ganhando camadas de ternura, que levam a um bom desfecho. Alguns preferem generalizar e encarar como um retrato da hierarquia social chilena (ou mesmo latina, visto que o filme também é próximo da realidade brasileira). Sem dúvida seria bem compreendido por aqui.

.:. A Criada (La Nana, 2009, dirigido por Sebastián Silva). Cotação: A+

Categorias:Cinema
  1. 24 fevereiro 2010 às 10:32 pm

    É fantástico mesmo! Uma pena o Chile não ter escolhido La Nana para ser sua submissão no Oscar, né…abs!

    • 24 fevereiro 2010 às 10:42 pm

      Beto, pois é, fiquei inconformado quando descobri que não foi a submissão oficial. Burrada! Abs.

  2. 25 fevereiro 2010 às 5:57 am

    Um dos melhores do ano, com certeza!! Catalina deveria ter chegado ao Oscar.

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