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O Oscarizável Coração Louco

“Coração Louco”, que estreia nos cinemas brasileiros em 05 de Março, estava agendado para entrar em cartaz apenas no final do ano. Mas quando o estúdio percebeu que faltavam favoritos à este Oscar de Melhor Ator,  resolveu adiantar a programação para que o protagonista Jeff Bridges possa disputar pelo prêmio na pole position. O trabalho em questão é sólido, mas cada voto que Bridges está recebendo da Academia não se deve, obviamente, a esta interpretação isolada – deve ser encarado como uma recompensa por uma carreira notável, que já se estende por mais de cinquenta anos, e um tributo tardio e oportuno a um veterano respeitadíssimo pela classe. Ele é, de fato, o maior incentivo para assistir a essa fita irregular, estacionada no mediano do início ao fim. De qualquer forma, não posso evitar a sensação de que há nessa composição um quê de “been there, done that” (uma expressão americana recorrente, significando “estive lá, fiz isso”). Ou seja, uma repetição de fórmulas conhecidas, utilizadas por ele mesmo e por inúmeros outros com resultado semelhante ou superior.

O papel é bem manjado, afinal: um cantor country que já teve seus dias de glória, e que vive de reciclar seus antigos sucessos em shows decantes por bares paupérrimos. Alcoólatra incorrigível, Bad Blake (nome artístico que adota) vai perambulando de cidade em cidade, recebendo telefonemas ocasionais do agente – que, como manda a cartilha, é retratado como uma figura exigente, visto no conforto da mansão ou do escritório enquanto o cliente rala mundo afora. No caminho, Blake vai se envolver com uma jornalista regional (Maggie Gyllenhaal, também indicada ao Oscar) – e, adivinha, como também manda a cartilha, a moça é um encanto e tem um filho pequeno! Ora veja só: com a afeição desse modesto núcleo familiar, o cantor marrento vai amolecendo, tomando jeito na vida e se inspirando mais uma vez (a ponto de voltar a compor canções originais, coisa que ele tinha parado de fazer há três anos, embora não expliquem o porquê; também não explicam porque a intimidade de uma família não o tinha revigorado antes, visto que fora casado quatro vezes e que tem seu próprio filho que mal vê). Para adicionar mais um clichê no tacho, o roteiro inventa um artista mais novo e bem-sucedido, que Blake ajudou a lançar e que agora o suplantou (o personagem cabe à Colin Farrell). Ou seja, uma história antiga e recontada à exaustão, onde o espectador mais experiente conseguirá antever os movimentos e as reações dos personagens à quilômetros de distância.

Todos sabemos que cinema bom não se faz com ineditismo de temática, especialmente com as provas recentes de que é possível extrair vigor de assuntos amarrotados. Foi o que Darren Aronofsky conseguiu um ano atrás com “O Lutador”, que tem sido muito comparado a este aqui (em grande parte pelas redenções definitivas de seus atores principais, Bridges e Mickey Rourke – embora o primeiro não nos deixe em dúvida sobre a probabilidade de atingir a mesma voltagem numa performance futura). A diferença crucial é que no filme de Aronofsky o lutador exala paixão pelo que faz nos ringues – e por consequência, seus dramas soam mais humanos, tocantes e próximos do público. Aqui, o músico empurra a carreira com a barriga, faz seus shows contrariado e visa não a satisfação de estar no palco desempenhando a sua arte, mas sim o dinheiro com que pagaria a próxima garrafa de uísque. Ambos são personagens imperfeitos – mas só um deles conquista abertamente nossa simpatia, e não é difícil deduzir qual. Fica bastante evidente que o diretor e roteirista Scott Cooper é estreante. Cada um de seus frames é derivativo, e as convenções que ele emprega – da excessiva viola acústica na trilha sonora aos concertos retratados sem emoção – consistem nos aspectos mais medíocres de um filme indie. Definitivamente, não teria chamado um décimo da atenção sem Jeff Bridges – e só por causa dele, um vencedor certo do Oscar, “Coração Louco” se torna programa obrigatório para as gerações posteriores de cinéfilos.

.:. Coração Louco (Crazy Heart, 2009, dirigido por Scott Cooper). Cotação: C-

Categorias:Cinema
  1. 21 fevereiro 2010 às 7:33 pm

    Ou seja, o filme só vale mesmo por causa do Jeff Bridges! Beijo!

  2. 21 fevereiro 2010 às 9:58 pm

    Assim como muitos outros deve ser um filme que se limita na atuação do protagonista!

    • 22 fevereiro 2010 às 6:45 am

      Ka, de certa forma sim! Mas Maggie também merece nossos elogios! Beijo.

      Jack, e de uma coadjuvante tb!😉

  3. 23 fevereiro 2010 às 1:10 am

    Quero mt ver! Jeff Bridges é um dos meus atores preferidos, top 3 fácil!

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