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No teatro: Hairspray

Depois de uma temporada no Rio, chega à São Paulo a versão brasileira de “Hairspray”, musical de sucesso da Broadway, transposto também para os cinemas em 2007. A inspiração foi um outro filme homônimo, dirigido pelo esquisito John Waters em 1988. Na trama, ambientada na Baltimore do início dos anos 60, uma gordinha radiante chamada Tracy vai perseguir o sonho de se tornar uma estrela da dança – mas encontra os obstáculos de uma sociedade repressora e preconceituosa. Com a melhor das intenções, Tracy se desvia do estrelato para apoiar os amigos negros na luta pelo fim da segregação. A maior conquista para eles seria o direito de dançarem juntos num programa de TV local, assistido e idolatrado por todos os jovens da cidade.

Quem costuma roubar a cena, no entanto, é Edna, a mãe da heroína, uma lavadeira obesa e extravagante, geralmente interpretada por homens! Na primeira versão, o papel foi do travesti Divine – amigo de Walters, com quem rodara o cult “Pink Flamingos”. Na adaptação para os palcos, ficou por conta do lendário Harvey Fierstein, que descolou o prêmio Tony pelo desempenho. E no novo filme, Edna ganhou o rosto de John Travolta, com enchimentos para parecer mais gordo! Por isso, tão crucial quanto encontrar uma Tracy convincente – o que a equipe brasileira conseguiu com a ótima Simone Gutierrez -, seria escalar um homem à altura de viver uma mulher – cargo que acabou nas mãos de Edson Celulari. Muitos apostavam que o global não daria conta do recado: afinal, atores que se fazem na TV não costumam ter a mesma desenvoltura daqueles que se focam especificamente no teatro musical. Pois seja qual for o treinamento que ele tenha recebido, funcionou! Celulari está divertidíssimo, fazendo graça com a silhueta rechonchuda e segurando as notas direitinho!

Infelizmente, esses dois trunfos não seguram a montagem. Não bastam para esconder as imperfeições que vem desde a versão original, ou os outros empecilhos que foram gerados por escolhas equivocadas. Se Celulari funciona como uma piada de si mesmo, o mesmo não pode ser dito sobre Arlete Salles e Danielle Winits, que não deveriam se arriscar a cantar nem no chuveiro de suas casas. Se elas não tivessem um nome forte – ou se o processo de seleção fosse no mínimo justo -, teriam sido proibidas até de passar perto do coro! Mas o pior não é nem o despreparo vocal, e sim a incoerência do tipo físico: ora, a personagem de Winits, a nojenta patricinha Amber, deveria ser uma jovem de colegial! Alguém achava que seria possível tomá-la por essa faixa etária? De jeito nenhum. É estranho e desconfortável demais para o público. O restante do elenco se divide entre o satisfatório e o neutro. Jonatas Faro chega a ser uma grata surpresa como o metidinho Link (na Broadway o papel foi de Matthew Morrison, o Will de “Glee”, e no cinema foi de Zac Efron). Para quem não se lembra, Jonatas esteve em “Chiquititas” quando era pequeno (sim, eu assistia!) e dublava aquele clipe “Penso em ti”; um tempo atrás participou da dança do Faustão. É bonito, bom cantor e bom dançarino, alguém a se olhar. Ou seja, deram prioridade para uns nomes mais conhecidos, para garantir atenção e badalação (na exibição de hoje, provavelmente vendo a peça pela enésima vez, estava Cláudia Raia com os filhos, sentada a algumas poltronas de distância de mim).

Mas os problemas não se limitam a má escalação. Dos que vieram da fonte, está a incapacidade de fazer jus ao tema sério – a segregação racial propulsiona a história, mas é meio que banalizada pelas subtramas dispensáveis e mal exploradas, e por uma conclusão repleta de soluções fáceis, finais felizes e personagens que reavaliam suas ações sem motivos palpáveis. Uma bagunça, enfim. Nessa falta de estrutura, as canções – que já não eram excepcionais para começo de conversa – são muito prejudicadas pela tradução de Miguel Falabella. Ele foi o responsável pela importação do musical, mas não tem familiaridade com o gênero, tampouco a experiência e eficiência da dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho, nossos maiores especialistas no ramo. Falabella traduz tão mal que consegue retirar das músicas toda sua essência; encaixa sílabas a mais em refrões onde não há espaço para isso e cria as rimas mais tolas que escuto em muito tempo. Para completar, o som do Teatro Bradesco – onde “Hairspray” fica em cartaz de Quinta a Domingo até o final de Março – estava muito mal regulado. A orquestra tocava um volume acima do microfone dos atores, e era necessário um esforço hercúleo para captar as palavras (o sotaque carioca pesado, tão doído ao ouvido dos paulistanos, também não ajudou). Por vezes, alguns microfones ficavam totalmente desligados, e ninguém além da segunda fila compreendia coisa alguma. Num outro instante, algo inexplicável ocorreu: vazou um áudio que não tinha nada a ver com a peça, e arruinou a atmosfera serena do número “I Know Where I’ve Been” (que seria o ápice da intérprete Graça Cunha). A iluminação também vacilou aqui e ali, mas dá para relevar porque acabaram de estrear neste local.

Acima de qualquer crítica estão os cenários, os figurinos, a maquiagem e as coreografias, trazidos com fidelidade da versão nova-iorquina. Os primeiros são bem planejados: objetos cênicos deslizam para dentro e fora do palco, cortinas diferentes se despendem para auxiliar na caracterização, e o choque de cores primárias convida a plateia a entrar no clima de descontração. No guarda-roupa, todas as peças refletem os anos 60 estilizados e amaneirados (e em alguns números, Celulari tem de se trocar com rapidez). Os acessórios para os cabelos são demais: não dá pra saber se muito daquilo é peruca ou criado à base de muito laquê (afinal, a peça se chama “Hairspray”!). E as coreografias… Uau. Dá para deduzir que os papéis secundários ou meros figurantes sejam bailarinos profissionais, mas é impressionante que os demais membros do elenco consigam acompanhá-los em cada passo (Jonatas e Simone devem estar em todos os números de dança). Tem inclusive um número depois da “curtain call”, quando os atores voltam ao palco para os aplausos. É um momento bacana em que a protagonista convida todos da plateia a dançarem com eles. Esse clima contagiante era bem a intenção de “Hairspray” – e é uma pena que muito do que se prometia fique apenas na teoria.

.:. Hairspray. (Dirigido por Miguel Falabella. Teatro Bradesco. Shopping Bourbon, Piso Perdizes. Rua Turiassu, 2100, Pompeia. São Paulo – SP. De Quinta a Domingo, entre 18/02 a 28/03). Cotação: C-

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Categorias:Teatro
  1. 20 fevereiro 2010 às 5:43 pm

    Desculpa a pergunta, mas qual o preço?

    • 20 fevereiro 2010 às 11:44 pm

      Jack, varia de acordo com o lugar. Nos melhores, o preço é R$120 a inteira e R$60 a meia!

  2. 21 fevereiro 2010 às 12:31 am

    vim pra falar que demorou 15 episódios (talvez mais contando com a última temporada), mas Greici foi fofíssima.
    tô atrasada, eu sei… mas se vc não viu, podia.
    😀

    • 21 fevereiro 2010 às 12:47 am

      Ai tô ouvindo muitos comentários de que a série tá se achando! Só que andava tão inconstante… Pra cada episódio bom ou ótimo tinha três ruins. Não quero voltar a me frustrar! E quero esvaziar minha agenda televisiva no momento pra por Supernatural – sim, que você me recomendou 😉 – em dia! Grey’s quem sabe num futuro distante…

  3. Rafaella Sousa
    21 fevereiro 2010 às 4:54 am

    Eu adoraria ter visto esse musical quando estava aqui no Rio, mas estava muito caro e muito longe da minha casa. E eu iria com a minha mãe, que paga inteira. Por isso que eu nunca vou ao teatro no Rio: é caro e quase todos os teatros ficam muito longe da minha casa. É triste.

    • 21 fevereiro 2010 às 5:58 am

      Rafaella, de fato, teatro é muito caro, e olha que muitas peças chegam a SP mais baratas do que no RJ (já que a competição aqui é maior)! Gostaria de ir muito mais do que realmente vou, mas também preciso me controlar! 😦

  4. Charles Fouquet
    21 fevereiro 2010 às 8:34 am

    Ótima sua crítica! Pelo que pude notar, a unica diferença da peça em SP relação aqui no Rio foram os cenários e as coreografias. Aqui eles eram super pequenos, balançavam e pareciam que iam quebrar a qualquer momento! E também não tinha espaço pra uma coreografia muito decente, eles dançavam todos apertados. Mas isso tudo foi explicado pois a idéia era estrear já ai, como o teatro não ficou pronto, vieram pro Oi (que é menor) e tiveram que fazer essas mudanças que destruíram o que aparentemente ai é bom. De resto, os problemas (tantos técnicos quanto de interpretação e voz) são os mesmos. Entendo como é triste admitir isso pois também amo o musical original, me lembro como se fosse ontem a decepção ao ir assistir a versão brasileira. E o medo de ir assistir agora a Gaiola das Loucas? hahaha, mas vou né… E espero me surpreender, mas sem dúvidas já vou com expectativas baixas pra não quebrar a cara também hahahaha. Abraços.

    • 21 fevereiro 2010 às 9:25 am

      Nossa, Charles, eu me lembro de ter lido alguma opinião sua sobre o desastre, mas imaginei que por não ter muita familiaridade com a montagem original não iria me importar… Ledo engano! Assim, o Teatro Bradesco tem um palco IMENSO, deve ser o mais lindo em que eu já entrei. Então possibilita essa mobilidade, dos objetos cênicos e dos atores (todos os números de dança estavam muito bem ensaiados). Estranhei que um teatro desse quilate tivesse problemas tão amadores com o som. Imaginei que talvez fosse uns vacilos de estreia, mas se você diz que eles já existiam aí… Ainda acho que passa por um programa agradável, mas pensaria duas vezes antes de recomendá-lo a mais alguém. O que é triste é que se fizessem as correções necessárias – se o som não ferrasse, se as traduções fossem mais bem cuidadas e se uma parte do elenco fosse substituída – teria tudo pra ser um grande musical, assim como foi o da Broadway, apesar de seus deslizes e resoluções forçadas. DOIS PÉS ATRÁS com Gaiola!!! Vamos pensar que tão pior que isso não fica! hahaha. Abraço!

  5. Jackeline Gonçalves
    21 fevereiro 2010 às 4:21 pm

    Crítica muito bem feita, concordo com tudo que disse, acho que pra uma peça com elenco galático não deveria haver tantas falhas.Daniela deveria cantar apenas no chuveiro, o som deixou a desejar, teve uma cena que a atriz ficou completamente sem microfone, houve uma mistura de vozes da produção com as dos atores, enfim, achei que por ser estréia, houvesse esses erros, mas pelo que li, esses erros já veem do Rio. Mas com tudo isso, é uma peça divertida,conseguimos dar algumas gargalhadas, mas não chega aos pés da perfeição da Bela e a Fera, O Fantasma da Ópera no Teatro Abril,som, palco, iluminação, atores afinados rs. Haispray ainda precisa dar uma lapidada.

    • 22 fevereiro 2010 às 6:42 am

      Jackeline, exatamente!! Fiquei passado com os erros técnicos, mas imaginei que por ser estreia merecessem certa condescendência. Sei que sem esses defeitos teria curtido a peça muito mais – mas nem por isso se tornaria um programa perfeito, vide à má escalação e às músicas irregulares. Você colocou bem, Hairspray precisa ser lapidado – só espero que não se contentem com a mediocridade e tentem melhorar o musical nas próximas semanas. Ainda estaria longe de ser um A Bela e a Fera, mas ganharia nosso respeito!

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