Início > Cinema > Nine

Nine

Estava desconfiado da falta de qualidade de “Nine” desde antes das críticas negativas começarem a pipocar. Ainda que o elenco seja do mais alto nível (quase todos vencedores do Oscar) e que o diretor Rob Marshall tenha experiência com musicais (é coreógrafo premiado da Broadway e acertou com “Chicago”, que não é tão ruim quanto pintam os detratores), alguma coisa ali – e ficava difícil precisar o que – cheirava a bomba. E eis que a bomba explodiu. Nem crítica nem público conseguiram se conectar com o filme. Há suspeitas de que os primeiros já foram assistí-lo de má vontade, e aproveitaram a chance para pisar no prepotente produtor Harvey Weinstein, cuja companhia vai mal das pernas. Parece até que o estúdio corre risco de falência com este fracasso, que despontava como um típico “filme de Oscar” e acabou recebendo quatro reles indicações, e em apenas uma categoria nobre (Melhor Atriz Coadjuvante para Penélope Cruz). A verdade é que nem tudo é perda total – mas é uma fita extremamente fácil de desgostar, com erros tão evidentes que fica impossível defender de coração aberto.

Foi inspirado num musical homônimo da Broadway, que por sua vez faz uma pausterização da bem-amada obra de Fellini, “Oito e Meio”, inserindo números musicais no imaginário do protagonista. Como você deve se lembrar pelo plot do original, o herói (Daniel Day-Lewis) é um cineasta em crise criativa e pessoal. Com muitas ideias na cabeça e nenhuma no papel, ele estagnou-se na elaboração do roteiro do próximo filme, e sofre pressão de todos os lados – do seu produtor, de sua figurinista, de sua mulher, de sua amante e de sua estrela. É assombrado também por um passado conturbado, do qual traz lembranças da mãe exigente, da rígida educação religiosa e de uma certa prostituta, que por alguns trocados mostrava as partes íntimas para ele e os amiguinhos. Nessa inconstância emocional cabem muito bem os devaneios, aqueles momentos em que a ficção se sobrepõe à realidade. Só que tudo é mostrado de forma desajeitada, sem indícios de inspiração.

O roteiro, que é co-assinado por Anthony Minghella (em sua última – e desnecessária – contribuição para o cinema), é especialmente caótico, sem ritmo ou rima. Fica difícil levar a sério quando parece que estamos assistindo a tudo na tecla SAP: a trama é ambientada na Itália, mas os personagens falam inglês com sotaque de estrangeiro, e de vez em quando soltam algumas palavras aleatórias na língua materna (só coisas o que o público que não fala o idioma consegue entender, como “maestro”, “pronto!” e “arrividerci”; isso para não mencionar as frases completas proferidas em italiano e repetidas em seguida em inglês). Tá, é musical, não dá para cobrar coerência… Seja como for, pesa-se a esse script uma montagem mal estruturada, que transita sem fluidez entre o real e o alegórico, e uma fotografia que chega ao cúmulo de alternar colorido e preto-e-branco num mesmo número. Dá para sair da sessão se sentindo uma Gisele Bündchen, porque não é brincadeira o tanto de flashs e zooms que vem à nossa cara.

Mas daria para abstrair com muito esforço essas imperfeições técnicas se o ponto principal funcionasse. Num musical, é imprescindível que as canções sejam marcantes, e apresentadas de maneira vibrante e empolgante. Nada disso acontece aqui. As letras são fraquinhas, quase sacais, das originais às compostas especialmente para o filme (uma delas, “Take It All”, concorre ao Oscar da categoria; a outra, “Cinema Italiano”, tem ritmo contagiante, mas significado nulo). E pelas músicas serem fruto de imaginação, Marshall se contenta em situá-las num mesmo cenário (o set do filme que está para ser realizado), como se o espectador estivesse à beira de um palco, vendo não um longa-metragem, mas a filmagem de uma peça kitsch e cafona. As coreografias são um horror. É espantoso que, depois do próprio “Chicago”, o único musical a ser coreografado com ímpeto foi a sensação teen “High School Musical” – que de certa forma, é mais bem-sucedido que este aqui. A tal “Cinema Italiano”, desempenhada por Kate Hudson, parece mais um número de “cabelografia”, como eles explicam num certo episódio de “Glee” (ou seja, os bailarinos agitam a cabeça e balançam o cabelo para desviar a atenção dos passos pífios e do vocal displicente).

Vocalmente falando, aliás, o ápice é “Be Italian”, ótima redenção da cantora Fergie (de quem se esperava pouco, ou nada). Mas a melhor do show é mesmo Marion Cotillard, a única que saiu ilesa da retaliação geral. No papel da esposa traída, ela transforma “My Husband Makes Movies” na luz do filme, afiada tanto na cantoria quanto na interpretação. Somado ao seu trabalho em “Inimigos Públicos”, a francesa foi uma das grandes coadjuvantes do ano passado, e merecia ter tomado, num piscar de olhos, a vaga que Penélope ocupa na lista do Oscar. A espanhola, por sua vez, não faz nada de memorável, adicionando uma inflexão italiana ao seu já pesadíssimo sotaque. Seu grande número, “A Call from Vatican”, é quase incompreensível (sem as legendas eu não teria entendido uma só palavra, e tenho certeza que os americanos tiveram problemas com a dicção). Nenhuma outra figura feminina tem chances de fazer qualquer coisa: Judi Dench, Nicole Kidman e Sophia Loren surgem inexpressivas em meras pontas de luxo (e ao menos no caso das duas últimas, dá para atribuir muito dessa falta de expressão às cirurgias plásticas). Loren, inclusive, é vergonhosa cantando. Como é que consegue desafinar, mesmo depois de terem filtrado e embelezado a voz no estúdio de gravação?

Por falar em cantar, chegamos ao inatacável Daniel Day-Lewis, que – dizem por aí – finalmente encontrou algo que não saiba fazer. Sem alcance e potência vocal, ele passa por seus dois números não cantando, mas falando apressadamente, numa espécie de prosa ritmada. É um truque mequetrefe para tornar as canções mais fáceis de sustentar, utilizado também por Johnny Depp em “Sweeney Todd” e por tantos outros intérpretes limitados enquanto cantores. Aqui, Day-Lewis ocupa o papel que foi de Raul Julia e Antonio Banderas nas duas montagens teatrais. Banderas não escondeu em entrevistas que ficou desapontado por não ter sido considerado para a adaptação. E pelo que se vê em vídeos do YouTube, o espanhol conferiu ao cineasta uma versatilidade muito maior. Para vocês verem: alguém imaginou testemunhar o dia em que Daniel-Day Lewis e Antonio Banderas bateriam de frente, e que o primeiro é quem sairia aos pedaços? Nein!

.:. Nine (Idem, 2009, dirigido por Rob Marshall). Cotação: C-

Anúncios
Categorias:Cinema
  1. Rafaella Sousa
    17 fevereiro 2010 às 5:15 am

    Eu fui ver o filme já sabendo que não seria uma beleza, mas ainda assim me surpreendi. Pensei, “Gente, como assim o Anthony Minghella escreveu esse roteiro?!”. Fiquei com vergonha alheia no número da Penélope Cruz. Juro. Ah, e você disse no Twitter que algumas pessoas saíram da sala. Quando eu fui ver aconteceu a mesma coisa, algumas pessoas saíram da sala antes de uma hora do filme. E eu tinha dormido mal na noite anterior, então eu fiz um esforço sobre-humano pra não cochilar. Fui ver com a minha mãe e ela cochilou. E eu super pensei em “Hairography” também! Mas foi bom, porque a música era animada e me “acordou”. Me revoltei com a indicação pra Penélope. Sem a Marion Cotillard, eu definitivamente teria dormido vendo “Nine”.

  2. 17 fevereiro 2010 às 12:21 pm

    não, mil vezes não.
    Penélope Cruz é o tipo de atriz que me faz virar atleta/corredora de maratona. fujo léguas de filmes com essa mulher. pra ajudar, tem Kate Hudson tb, que é outra que contribui pro meu fôlego (se bem que eu vi mais umas mil vezes as reprises de Skeleton Key na universal/axn, e comecei a achar a moça até que mais fofinha).
    e tem essa coisa de ser musical; até hj não tive coragem de ver Moulin Rouge, por exemplo… e não é nem porque eu não goste, mas é que… é que. sei lá. melhor não ver nunca.

    • 17 fevereiro 2010 às 7:48 pm

      Rafaella, tivemos uma percepção parecidíssima do filme!!! O número da Penelope foi uma das minhas maiores decepções, não só pela péssima pronúncia dela, mas também porque só tentam realçar a sua sensualidade, e não a comicidade da letra! Marion é a melhor do elenco by miles! 🙂

      Quéroul, eu tinha os dois pés atrás com a Penélope tb, mas estou curtindo os trabalhos dela ultimamente (ainda que não tenha sido o caso aqui). Ela está mais eloquente que nunca, e boa atriz a danada! Kate Hudson eu acho fofíssima desde Quase Famosos, que é meu filme do coração, mas andou escolhendo muito mal os projetos. E CORRA ver Moulin Rouge!!! Esse sim é um musical que aquece o coração mesmo dos que não se bicam com o gênero…

  3. 17 fevereiro 2010 às 8:00 pm

    Acho que todos esqueceram esse ano, do quanto o roteiro é importante!

  4. Kamila
    17 fevereiro 2010 às 9:01 pm

    Alguma coisa deu MUITO errada mesmo nesse filme. Incrível como a recepção, no geral, tem sido muito fraca. Só mesmo a Marion Cotillard que tem saído ilesa disso tudo. Uma pena, porque sou fã de musicais e quero muito conferir “Nine”. Beijo!

    • 18 fevereiro 2010 às 3:19 am

      Jack, é bem capaz!

      Ka, erraram a mão mesmo! Confira, mas já preparada para uma possível decepção – e tendo o show da Marion como principal incentivo! 😉 Beijo.

  5. Jon
    21 fevereiro 2010 às 7:54 pm

    Meu, tentei assistir com a mente mais aberta possível, mas cheguei ao cúmulo de rezar para q o filme acabasse logo, tamanha a chatice q exalava desde o começo. Só mesmo revendo Moulin Rouge para esquecer essa experiência traumatizante q é assistir Nine…

    • 22 fevereiro 2010 às 6:46 am

      Jon, reações extremas como essa sua são muito comuns com esse filme! Não cheguei a achar essa hecatombe, mas entendo o ponto de vista!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: