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Em defesa das séries teen

Há uma regra implícita em toda premiação de TV que preze pelo título de séria: os programas adolescentes – ou teen, como chamam os americanos – devem ser sumariamente ignorados. No raciocínio estúpido e preconceituoso dos votantes, seria uma afronta indicar, ao lado de shows adultos, densos e intensos, uma série vista em peso pelo público jovem. Generalizam, com isso, seriados distintos entre si, que muitas vezes só compartilham o ambiente em que a história se passa – as quatro paredes de um colégio. É um erro usual, mas tão imbecil quanto o de generalizar as “séries médicas” e julgar as propostas diferenciadas de “Grey’s Anatomy” e “Scrubs” pelos mesmos critérios. Pior ainda: é uma demonstração de desprezo por essa geração de adolescentes, como se nada que tivesse o seu aval pudesse ser interessante o bastante para os intelectualmente iluminados. Neste post, pretendo contestar essa visão errônea através da citação de programas notáveis e memoráveis. Não vou comentar sobre coisas como “Gossip Girl” ou “10 Coisas Que Eu Odeio em Você”, que são guilty pleasures divertidos, mas onde fica evidente a preguiça na elaboração dos roteiros. Vou, em vez disso, me aprofundar naqueles que desafiaram a fórmula (ou se aproveitaram muito bem dela) e ofereceram um material criativo, delicioso e instigante. Começando pelo filé mignon…

“Buffy, A Caça-Vampiros” era uma série teen. É também a minha série favorita de todos os tempos. É uma homenagem honesta a gêneros subestimados e incompreendidos – que vão das fitas de terror B às comédias trashs de colegial -, amparada por um roteiro esperto, por um elenco talentoso e pelos moldes de série de exportação, que condensa nos episódios todos os artifícios sensacionalistas que a TV possibilita. Criação de Joss Whedon, um dos nomes mais requisitados da indústria do entretenimento, “Buffy” usava constantemente monstros lendários como metáfora para a angústia juvenil. Mas por mais que essa carta fosse utilizada, o resultado jamais soava pretensioso, chato, desinteressante ou repetitivo. Ainda que a cada temporada nós acompanhássemos o fortalecimento de uma força maligna (que a protagonista e seus amigos refreariam no desfecho), não nos desligávamos ou bocejávamos por já ter visto aquilo antes. Pelo contrário: ficávamos com o coração na mão como se fosse um caso totalmente inédito. Não temíamos pela vida dos personagens, que estavam sempre protegidos por uma ampla margem de segurança, mas não podíamos deixar de voltar na semana seguinte para reencontrá-los, torcer por eles, e constatar a evolução – sempre modesta e sutil, a passos de bebê – de cada um. “Buffy” era, em resumo, uma série sobre adolescentes desajustados tentando encontrar o seu lugar no mundo, e eventualmente salvando-o da destruição. Precisa ser vista, no entanto, de coração aberto, para captar o valor artístico e não sair botando defeitos em elementos que, na verdade, funcionam como um charme adicional (como a precariedade dos efeitos).

Igualmente bem-sucedida, mas à sua maneira, “Veronica Mars” era a “Buffy” do mundo real – ou o que “Buffy” seria se subtraíssem a fantasia e maneirassem nas artes marciais. Na série de Rob Thomas, a personagem-título era uma garota perceptiva e inquisitiva, que seguindo os passos do pai, um detetive da polícia local, resolvia os mistérios cotidianos do colégio que frequentava (a cada temporada, prolongava-se ainda um mistério maior, menos rotineiro e mais ameaçador, que só a astúcia de Veronica poderia solucionar). Cada investigação era balanceada perfeitamente com a vida pessoal da protagonista, em capítulos redondos e fluidos. A heroína era irresistível, e os coadjuvantes esbanjavam carisma – em especial quando disparavam entre si diálogos afiados e auto-referenciados. Para os detratores, diálogos como estes são inverossímeis – ora, ninguém pensa tão rápido e formula o tempo todo frases com estofo pop! Pois Veronica fazia isso, e os roteiristas, por tomarem os espectadores pelo mesmo nível de inteligência da garota, mereciam o nosso respeito. As falas amaneiradas também eram comuns em “Gilmore Girls” (embora neste caso fossem declamadas pelo elenco à velocidade da luz). Ninguém conversa desse jeito no mundo real, mas lembrem-se de que é um seriado, e não um documentário. Essa série em questão, criada por Amy Sherman-Palladino, conseguia englobar um público imenso, desde garotas pré-adolescentes até suas bisavós. Era, sim, bastante irregular, chegando ao horrendo quando pesavam a mão. Mas se acertava o tom, não tinha quem não se rendesse: ao finalzinho do episódio, ficava todo mundo atônito no sofá, suspirando ou contendo uma lágrima rebelde.

Até agora, só mencionamos séries protagonizadas por mulheres – e há uma outra porção digna de atenção. Para não me estender pelo resto do ano, me atenho a uma outra apenas: “My So-Called Life”, que tinha Claire Danes no papel principal. Era um drama sincero e palpável sobre uma menina qualquer, dessas que se bandeia para uma outra turma e tinge o cabelo de uma cor diferente na tentativa desesperada de firmar sua identidade. Durou uma única temporada, que hoje tem a chancela de produto cult. De qualquer forma, essas figuras femininas fortes, ainda que oportunas, não atestam que as séries teen são vistas apenas por menininhas apaixonadas, que rabiscam o caderno com coraçõezinhos e borboletinhas. Cada uma dessas séries, quando analisadas a fundo, apresenta qualidades muito mais extensivas, apesar da estética feminina ser indelével. E o mesmo ocorre com as demais do nicho, focadas igualmente – ou predominantemente – no público masculino. É o que acontece com a atual “Friday Night Lights”, sobre o time de futebol americano de uma escola texana. Os garotos são motivados pelo esporte, e os jogos, filmados com realismo e autenticidade, fazem o coração de qualquer moleque bater mais rápido. A finada “Freaks and Geeks” se comunicava com o mesmo sucesso com seu público-alvo: os meninos impopulares que enfrentavam ostracismo na escola. Por trás do brilhantismo comprovado dessas duas séries, porém, nota-se nas tramas alguns recursos requentados: a formação de casaizinhos, as trocas de par, as pequenas contravenções. Isso, para os representantes desses prêmios especializados – como o maior de todos, Emmy Award, conhecido por ser particularmente careta e ultrapassado -, invalida os programas. É o suficiente para catalogá-los como “séries teen” e para que todos os outros méritos passem desapercebidos. Uma curiosidade é que na história recente do Emmy apenas uma série protagonizada por uma adolescente chegou a ser indicada na categoria máxima: a honra coube a “Joan of Arcadia”, modernização de Joana D’Arc e finalista a Melhor Drama em 2004.

As vitórias da contagiante “Glee” – primeiro como Melhor Comédia no Globo de Ouro, que é mais receptivo aos gêneros esquecidos, e depois como Melhor Elenco pelo Sindicato dos Atores – deixam pendentes as suas chances no Emmy. Afinal, a série de Ryan Murphy é um verdadeiro fenômeno. Assim como “Gossip Girl”, “Glee” lança moda e revive estilos, mas vai além na influência: emplaca as músicas apresentadas no topo das listas do iTunes e está para fazer turnê mundial, criando uma marca cara que há de trazer muito dinheiro para a FOX. Os episódios mais parecem pequenos filmes, com começo, meio e fim – um ritmo canhestro que a princípio gera estranheza. Apesar dos altos e baixos, dá para notar que tem gente inteligente trabalhando por trás, seja pelos personagens que conseguem se sustentar (a treinadora interpretada por Jane Lynch já é uma das mais hilárias da TV, dentre qualquer série), seja pelo clima de sátira e de zoação à competitividade dos americanos. Ajuda que o grupo seja repleto de revelações, atores jovens e proficientes que cantam, dançam e representam. Para escalar novos membros para a próxima temporada, a produção está fazendo testes pelo país afora, encorajando os garotos que queiram se fazer como artistas a submeterem gravações de áudio e vídeo. Ou seja, assim como a moral da série, “Glee” tem caráter inspirador, é feita com visível desvelo, ajuda a projetar talentos, dá bom exemplo, reforça a importância de uma educação artística nas escolas e incentiva não só o reconhecimento das diferenças, mas também sua celebração. Generalizando por uma última vez: não estamos mal nessa safra de séries teen. Não mesmo. Só precisamos perder o costume de diferenciá-las dessa maneira. Deixo a pergunta: qual é a sua favorita deste filão?

Categorias:TV
  1. 14 fevereiro 2010 às 10:03 pm

    Poxa, Louis, você citou aí várias séries que adoro, mas só mencionou por cima “Joan of Arcadia”, que era um belo exemplo de série teen de qualidade. Pena que foi prematuramente cancelada, porque tinha tanto potencial ainda e só estava crescendo nesse sentido. Beijo!

  2. 15 fevereiro 2010 às 3:00 pm

    Até concordo quanto a Gilmore Girls, Veronica Mars, Joan of Arcadia, My So-Called Life (a melhor série teen ever and ever), Freaks and Geeks (a mais cool ever) e um pouquinho de Buffy, mas… em Gossip Girl eu nunca vi nada, e Glee, bom, eu acho que é muito inconstante. Mas enfim… adoro séries teen.

    E podia dar um adendo a The Wonder Years né? Tudo bem que quanto mais o Kevin crescia, mais ele ficava chato e inverossímil, mas foi um divisor de águas na minha opinião.

  3. 15 fevereiro 2010 às 3:04 pm

    E graças a você, fã xiita, estou dando uma 4ª ou 5ª oportunidade para a 2ª temporada de Greek. Já vi 2 e… é… legal.

    • 15 fevereiro 2010 às 4:15 pm

      Ka, até pensei em me estender mais sobre Joan of Arcadia, mas o post já estava grandinho rsrs… Adoro a série, que vi numa maratona no ano passado! Fez por merecer as indicações que recebeu e poderia ter se sustentado muito bem por outro par de temporadas. O cancelamento precoce foi uma judiação! Beijo.

      L. Vinícius, um pouquinho de Buffy não – um poucão!🙂 The Wonder Years era uma série mais familiar, que os adultos, que já deixaram a infância, a adolescência e a cidade natal para trás se identificam mais facilmente. Os elementos ‘teen’ não bastam para classificá-la como série deste nicho. Mas era mesmo muito legal. E Greek não é assim imperdível, mas é irresistível e sempre me deixa leve e satisfeito depois de um episódio. Boa diversão!

  4. 15 fevereiro 2010 às 4:49 pm

    Louis, das séries teens, Glee é a minha preferida porque apesar de teen é escrita de uma forma que me agrada, porque eu não curto muito roteiro de série teen. A única que vi completa foi The O.C. e sai satisfeito justamente porque a última temporada fugiu um pouco do que costuma ser as séries teen.

  5. Tiago
    15 fevereiro 2010 às 5:36 pm

    Glee é a minha serie favorita do momento nesse quesito teen, mas nada supera Buffy eu lembro quando passava os episodios na tv quando eu não sabia ou nem sei se existia o famoso “baixar o ep na net” mas de qlq forma eu adorava.

    • 15 fevereiro 2010 às 8:36 pm

      Mark, mas como eu comentei no post, apesar da gente generalizar as séries teen, é bom tentar vê-las com outros olhos, por trás desse escopo. Quanto a The O.C., vi muito pouco. Era divertidinha, mas os roteiros eram elaborados com ainda mais desleixo que os de Gossip Girl!

      Tiago, viva, outro fã de Buffy!😉 Das teens do momento, Glee é minha favorita, mas faço uma menção a Greek (se ignorarmos o fato de que eles não estão mais no colégio e sim na faculdade; um bom show sobre amadurecimento)!

  6. 22 fevereiro 2010 às 6:50 am

    descobri dia desses umas serie teen que ja é antiga mas que estou curtindo ver: party of five! bem legal! e eu adorava tambem everwood! =) viva as series teens que tem sensibilidade narrativa!

    • 23 fevereiro 2010 às 7:38 am

      Conheço Party of Five de nome, mas nunca vi! Everwood era bem legal, melancólica, bonita! Curtia… Viva séries teen!

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