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O homem que desvendou a criação

Geralmente, as cinebiografias de pessoas geniais costumam ser aborrecidas, idólatras e auto-indulgentes. Algumas poucas, porém, chegam para mostrar que até mesmo os gênios podem ser, em seu íntimo, pessoas absolutamente comuns – seja pela vida familiar atribulada, seja pelas regras sociais das quais não conseguem escapar. Nesse ponto, o diretor Jon Amiel acertou com “Criação”: ele se propõe a retratar, aqui, as dificuldades que Charles Darwin encontrou enquanto constatava a teoria da evolução, e reunia o conceito no livro “A Origem das Espécies”. Ao mesmo tempo, enfrentava a incompreensão de uma sociedade prosaica e cristã, e atacava pessoalmente as crenças da própria esposa. Até os filhos pequenos se metiam em problemas, já que aprendiam pelo pai algo diferente do que a escola ensinava.

Embora as intenções sejam corretas, o filme se sabota quando enfatiza um trauma pessoal do biografado. Os conflitos morais e religiosos estão lá, mas são meros detalhes frente ao que realmente impede Darwin de se aprofundar em sua pesquisa: a morte da filha mais velha, em algum ponto da infância. A personagem é um erro gigantesco, reunindo tudo o que há de mais clichê. Graças à montagem não-linear, somos informados, logo de início, sobre o falecimento da garota – mas só depois de dois terços de filme corrido é que descobriremos as circunstâncias em que essa morte ocorreu (ou seja, criam uma incerteza desnecessária no espectador, em relação ao que deveria ser um apêndice da trama). Outra desvantagem é que a atriz mirim é muito fraca, quase inexpressiva. Mas o pior de tudo são suas aparições em forma de alucinação, um verdadeiro fantasminha inconveniente que só serve para tirar o foco da narrativa. Fala sério, o filme é sobre o Darwin! Não sobre Darwin & Gasparzinho.

Para encerrar a retalhação antes de adentrar nos elogios, critico a escolha de Jennifer Connelly para o papel da esposa. Ela parece em forma e bem cuidada demais para uma mãe de tantas crianças pequenas em pleno século XIX – sem contar que incorpora muito mal o inglês britânico (é americana de nascimento). Já o marido (na tela e na vida real) Paul Bettany está brilhante como o protagonista (pronto, de agora em diante é só alegria). Camuflado sob a maquiagem, Bettany compõe, do zero, uma pessoa real de quem não há nenhum registro. Contudo, fica difícil imaginar Darwin como alguém diferente daquilo. Não fosse pela má distribuição do filme, teria até fôlego para chegar ao Oscar de Ator. E bem que “Criação” poderia ser lembrado em algumas categorias técnicas, já que a competência da reconstituição do período é indiscutível. Gostei muito, também, das ilustrações que o diretor faz das histórias que Darwin conta aos filhos – suas experiências com uma tribo de aborígenes e com um orangotango fêmea, por exemplo, são partes relevantes de seu trabalho, mas surgem relatadas num tom quase burlesco. Entre os erros e acertos, pode-se dizer que “Criação” tem saldo positivo; é interessante, bem feito, e o mais importante, não ofende ninguém.

.:. Criação (Creation, 2009, dirigido por Jon Amiel). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 12 fevereiro 2010 às 4:19 pm

    nossa, mas nunca ouvi falar desse filme!
    Jennifer Connelly adora ser esposa de gênio e cientista, né? Lindona ela.
    não me interessei :S
    não vou ver. aloka.

    • 12 fevereiro 2010 às 5:34 pm

      Quéroul, jura que não tinha ouvido falar? Acabou passando despercebido, mas fiquei super empolgado na época que divulgaram as primeiras imagens, com Bettany caracterizado etc. De fato, Connelly adora pagar de esposa de grandes homens – mas mesmo sendo linda, não cai bem num filme de época, e ainda por cima inglês! Não perde muita coisa, além da ótima atuação do Paul!😉

  2. 12 fevereiro 2010 às 9:48 pm

    Louis, tudo em ordem?
    O filme tem passado em branco, não?

    • 13 fevereiro 2010 às 8:25 pm

      Jack, tudo, e com você? De fato, o filme não “aconteceu”. Culpa da péssima distribuição…

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