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Breve nos Cinemas: A Estrada

“A Estrada” é baseado num best-seller de Cormac McCarthy, também autor do livro que originou “Onde os Fracos Não Tem Vez” – e ainda que o diretor deste aqui, John Hillcoat, não tenha a desenvoltura dos irmãos Coen, a adaptação parece bastante digna e bem aparada.

Na trama, o planeta foi devastado por um evento cataclísmico, que levou a raça humana à beira da extinção. Os poucos sobreviventes tentam resistir ao frio (não há eletricidade e quase nenhum abrigo intacto para proteção) e à fome (vagam em busca dos alimentos em compota remanescentes). Muitos se rendem ao desespero e cometem suicídio, ou simplesmente enlouquecem, como acontece com a esposa do protagonista, interpretada por Charlize Theron. Depois que ela surta e se manda, resta ao herói (Viggo Mortensen) tomar conta do filho pequeno (Kodi Smit-McPhee), enquanto perambulam inutilmente por uma América destruída, na esperança de encontrar salvação.

Ainda que o desastre em si não fique bem explicado, o desenvolvimento do personagem principal é formidável. “A Estrada” tem a alma que falta à esmagadora maioria dos filmes apocalípticos, justamente por realçar a dramaticidade e o sofrimento que tal acontecimento implicaria. Não se volta para sequências de destruição escandalosas, mesmo onde caberia um incêndio aqui e uma inundação ali. Aliás, não notei o uso de CGI em nenhum momento, embora a parte técnica seja apurada, dos figurinos sujos e sem vida à espetacular fotografia lavada de cores. A montagem talvez pudesse ter sido melhor trabalhada: pula constantemente para flashbacks com a figura de Charlize, que não são bem intercalados com o presente e chegam a nos afastar do centro da narrativa.

O roteiro de Joe Penhall, como todo texto adaptado, tem opções a fazer – algumas felizes, outras nem tanto. Não li o livro e não sei se possui a mesma força nesse aspecto, mas na realidade fílmica, o vínculo paternal é desenvolvido com louvor. O protagonista, favorecido pela ótima atuação de Mortensen, passa a importar para o espectador, à medida em que o amor incondicional que nutre pelo filho vai sobrevivendo à provações impronunciáveis. Da mesma forma, somos arrastados para aquele universo caótico e forçados a nos questionar sobre como agiríamos naquela situação. Confrontados com tanta miséria, quem não se sentiria tentado a desistir de tudo? O resultado é marcante, triste e relevante. Apenas confirmo que seria engrandecido por uma estrutura mais ajeitada. Esperava-se algumas indicações ao Oscar (de Maquiagem a, quem sabe, Ator), que não se concretizaram.

.:. A Estrada (The Road, 2009, dirigido por John Hillcoat). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. 5 fevereiro 2010 às 11:18 am

    Achei o Viggo excelente, melhor do que alguns que foram indicados… É ótimo o filme, mas esperava mais, pq o livro é muito bom.
    É um filme forte pra caralho, depressivo e triste.
    Faltou pouco pra ser genial. Prefiro o trabalho anterior do diretor, A PROPOSTA (um western australiano).

  2. 5 fevereiro 2010 às 1:40 pm

    mui me interessei. eu gosto muito do Viggo, apesar de não ser a maior fã da maioria dos filmes em que ele está (tirando SDA, que ele É o Aragorn; perfeito!). eu até assisto filme catástrofe, mas me irrito um pouco com o excesso de efeitos de destruição, e explosão, e blabla… parece que esse, finalmente, aborda o além-espetáculo, né? o que realmente acaba faltando na maioria dos filmes.
    pela sua resenha, achei bem bonito. quero ver! 🙂

    • 5 fevereiro 2010 às 2:58 pm

      Bruno, concordo que o Viggo merecia mais a vaga do que alguns dos indicados ao Oscar, mas não conhecia esse outro filme do diretor.

      Quéroul, exato! Além-espetáculo com seriedade e tristeza. Não perca, se é isso que procura, não tem como não gostar! 😉

  3. 5 fevereiro 2010 às 10:47 pm

    Não tô com tanta curiosidade assim para ver esse filme, que parece ser bem interessante. Beijo!

  4. 6 fevereiro 2010 às 1:41 am

    Louis, tudo ok?
    E lá vamos nós em mais uma adaptação do Cormac, e veremos o quanto suas histórias são boas, vou conferir na estrea.

    • 6 fevereiro 2010 às 2:11 am

      Ka, de início também não tinha curiosidade, mas é sim bem interessante. Beijo!

      Jack, cá entre nós, não li nenhum romance do Cormac! Pecados literários que preciso corrigir…

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