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Archive for fevereiro \28\UTC 2010

A história de Toy Story

28 fevereiro 2010 10 comentários

No post anterior, ficou faltando articular melhor sobre a importância de “Toy Story” para a animação atual. Não há dúvidas de que é um programa fantástico para essa semana, ainda mais para quem perdeu na época da estreia original, quinze anos atrás, ou para quem sequer veio a descobrir em vídeo. Não foi preciso de quinze anos, no entanto, para que o peso de “Toy Story” fosse sentido. De imediato, público e crítica perceberam que estavam diante de algo diferente e inovador. Afinal, este fora o primeiro longa de animação computadorizada, um feito notável que renderia um Oscar honorário ao diretor John Lasseter. O apuro técnico abriria alas para outras produções, e novos e consideráveis progressos seriam atingidos através delas. Igualmente surpreendente, porém, era o modo com que a história que estava sendo narrada encantava nas mesmas proporções, graças a um enredo inteligente e inventivo.

Todos os empenhos da Pixar, antes conhecida apenas como produtora de curtas neste formato, pareciam concentrados nessa realização. Lasseter não só dirigiu, como também bolou o conceito inicial, além de ser um dos mais altos executivos do estúdio. Também se envolveram Andrew Stanton e Pete Docter, até hoje parte da família Pixar (o primeiro dirigiria “Procurando Nemo” e “Wall.E”, e o segundo, “Monstros S.A.” e “Up – Altas Aventuras”). Dentre o time de roteiristas também estava Joss Whedon, craque nos diálogos espertos, que depois se tornaria cultuado pela série de TV “Buffy – A Caça-Vampiros”. Daí para um desastre seria muito fácil, como geralmente acontece onde há muito cacique para pouco índio. Pois ocorreu o oposto: pelo resultado, fica muito claro que houve um senso de colaboração, e que foi essa união que tornou tudo possível.

Sem dúvidas era uma empreitada ousada – e à sua maneira, tão trabalhosa e custosa quanto a fermentação de “Branca de Neve e os Sete Anões”, o pioneiro dos desenhos no Cinema, pelas mãos de Walt Disney. Nada mais coerente, portanto, que o envolvimento da Disney no processo: esse toque de frescor era exatamente o que o estúdio procurava. Enquanto esteve sob a supervisão de Jeffrey Katzenberg, no início dos anos 90, emplacara uma sequência de acertos, como “A Pequena Sereia”, “A Bela e a Fera”, “Aladdin” e finalmente “O Rei Leão”. Daí em diante, as animações no formato tradicional foram se tornando cada vez mais escassas. Não que a magia do desenho rústico tivesse se esvaído – o estúdio é que simplesmente parecia ter chegado a uma bifurcação criativa. O acordo de distribuição com a Pixar – que representava a novidade, com histórias boas para contar e técnicas para desenvolver melhor – foi, de longe, a melhor solução. Não demorou para que a Pixar se tornasse o maior trunfo da Disney, a ponto de uma incorporação em 2006.

Em resumo, é difícil mensurar o quanto cada filme de animação computadorizada deve a “Toy Story”, e à pesquisa, afinco e trabalho duro da Pixar. Mas mesmo ignorando o plano geral, o resultado isolado ainda é, por si só, uma obra-prima absoluta. A continuação, quebrando as regras que ditam a inferioridade de qualquer segundo capítulo, foi igualmente competente, feita com capricho e desvelo (ainda que o plano inicial tenha sido lançá-la em home video, ou seja, poderiam ter feito nas coxas, com indiferença e desmazelo). Aparentemente, a Pixar é incapaz de entregar alguma coisa ruim – e pela confiança que depositamos nela, podemos esperar grandes feitos da terceira parte, que tem estreia prometida para Junho (confira o trailer aqui)!

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Diversão dublada

27 fevereiro 2010 8 comentários

Costumo fugir de filmes infantis como o diabo da cruz – em parte porque faz um tempinho desde que deixei de ser criança, em parte porque os fedelhos mimados que costumam lotar as sessões dubladas não são sempre capazes de se manter em silêncio. Agradeço intimamente pelas animações atuais estarem cada vez mais maduras – as direcionadas às crianças sempre trazem algumas piadas mais avançadas, e outras tantas são bem específicas aos adultos. Ou seja, o monopólio dos pequenos nas salas de cinema diminui gradualmente. Eis as exceções recentes que não me arrependo de ter feito:

* Alvin e os Esquilos 2 (Alvin and the Chipmunks – The Squeakquel, 2009, dirigido por Betty Thomas): Quem gostou do primeiro com certeza vai curtir a continuação, que segue exatamente as mesmas fórmulas e parece estar contando a mesma história. Fora a variação dos detalhes, o plot é idêntico: o vilão é novamente interpretado por David Cross (o eterno Tobias de “Arrested Development”, que não deveria se submeter a esses micos), um inescrupuloso produtor musical que tenta se aproveitar dos esquilinhos cantores; o humano responsável pelos bichinhos (Zachary Levi, da série “Chuck”, substituindo Jason Lee, cujo personagem se acidenta logo no comecinho) mais uma vez aprenderá lições valiosas e sairá amadurecido da experiência; e o que há de mais conhecido e descartável na música pop é remasterizado nas vozes de taquara rachada. Ou seja, a moral positiva se mantém inalterada, numa fita fraquinha e previsível, que tem como charme a fofura dos protagonistas digitais (aos quais se unem três fêmeas, as “esquiletes”, também metidas à cantoras). Talvez por estarem sendo acostumados com a mediocridade desde cedo, o filme parece adequado para o público-alvo – as crianças adoram, vibram com as situações mais bestinhas e saem com amplos sorrisos nos rostinhos angelicais. E, ao menos na sala onde eu estava, conseguiram se entreter o suficiente e não deram um pio durante os mais de noventa minutos de duração. Louis agradece! Recomendado como um programa familiar inofensivo. Cotação: D+

* Toy Story (Idem, 1995, dirigido por John Lasseter): Esse sim pode ser recomendado de peito aberto! Volta aos cinemas por tempo limitado o primeiro “Toy Story”, dessa vez em versão 3D! A segunda parte, lançada em 99, retorna na semana seguinte – é uma jogada oportuna para render uns trocos extras à Pixar, e principalmente, para deixar a franquia fresca na memória do público, frente à chegada do terceiro capítulo no meio do ano. O filme original, pioneiro dos longas em animação computadorizada, encantou não só pela técnica inovadora, mas também por sua história inteligente, inventiva e bem narrada (diferencial que se tornaria constante nos trabalhos do estúdio). Na trama, os brinquedos ganham vida assim que os humanos deixam o quarto – e o boneco cowboy Woody, outrora o favorito do seu dono, tem o posto ameaçado pela chegada de um brinquedo mais moderno, o astronauta em miniatura Buzz Lightyear (que por sua vez, está convencido de que é um patrulheio espacial de verdade)! Quem cresceu assistindo, mas não revê há um bom tempo (como era o meu caso), deverá encontrar ainda mais profundidade e boas sacadas. E a nova geração de crianças que ainda não conhece merece ter seu primeiro contato com esta obra-prima absoluta numa sala de projeção, com as três dimensões e o som vindo de todos os lados. Boa trilha de Randy Newman, também! Cotação: A+

Te apetece?

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Top 10: As mortes mais chocantes da TV

26 fevereiro 2010 16 comentários

Que saudade de montar um lindo top 10 para ser discutido com os leitores! Dessa vez, enumero – em ordem decrescente, para ficar mais emocionante – as mortes mais surpreendentes ou simplesmente tristes que testemunhei nesses muitos anos de fã das séries de TV. Foram milhares de episódios conferidos, e durante esse tempo, tive o desprazer de me despedir de muitos personagens queridos, mortos pelos roteiristas sem dó nem piedade (seja por problemas pessoais com os atores, seja pela necessidade de tal tragédia para que a trama progredisse). Obviamente, a lista está de acordo com os programas que eu vejo – logo, mortes super badaladas como a da mulher de Jack Bauer em “24 Horas” ou da Marisa de “The O.C.” não ganham espaço. Acompanhe o post com cautela para se preservar dos spoilers (embora praticamente todos da lista já tenham sido exibidos na TV brasileira, portanto não constituindo um estraga-prazeres). Vamos nessa:

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10. Tara em “Buffy, A Caça-Vampiros”

A morte da namorada de Willow, por uma bala perdida cravada no peito, pegou todo mundo desprevenido, e botou fim ao casal lésbico mais adorado da História da TV. Foi imprescindível, porém, para a transformação de Willow de uma bruxa do bem numa bruxa das trevas revoltada e vingativa.

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9. Judith em “Joan of Arcadia”

Num dos episódios mais dolorosos que já assisti, a melhor amiga de Joan é assassinada por traficantes – algo que, obviamente, abalará profundamente a protagonista e seus amigos, a ponto da primeira questionar sua própria fé. Um remédio amargo, mas necessário, considerando o estofo espiritual da série.

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8. Chris em “Skins”

Antes de se tornar banal, a série inglesa “Skins” era conhecida como um retrato ousado e corajoso da juventude. Muito graças a esses elementos, a morte de um dos personagens na reta final da segunda temporada (e tudo o que se seguiu a isso, como a fuga da colega que encontrou o corpo ou o luto compartilhado pelo grupo) atingiu o status de inesquecível.

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7. Amber em “House”

Quando fui apresentado à fria e calculista Amber no início da quarta temporada de “House”, se alguém me dissesse que eu choraria, meses depois, pela morte daquela bitch, eu riria da cara de tal pessoa. Pois essa morte foi tão bem justificada, e firmou tão bem o caráter da personagem (da mesma forma com que trouxe consequências sérias para os demais), que acabou me tocando muito!

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6. Rita em “Dexter”

Os roteiristas foram cruéis com a esposa do personagem principal, justamente quando tudo parecia tranquilo e solucionado – mais ou menos as mesmas circunstâncias em que Teri Bauer foi assassinada em “24”. Um grande momento que elevou nossa percepção da discutível quarta temporada de “Dexter”.

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5. George em “Grey’s Anatomy”

Tendo ou não matado a charada da identidade do Desconhecido, foi impossível não se comover com o desfecho de George, o loser que tanto nos tinha entretido em “Grey’s Anatomy”. Nos bastidores, a causa da morte foi a insatisfação do intérprete T.R. Knight com seu tempo em cena; na ficção, foi vítima de um atropelamento violento, que o deixou desfigurado e irreconhecível para os próprios amigos.

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4. Christopher em “The Sopranos”

Considerada por muitos a melhor série de todos os tempos, “The Sopranos” evitava todo e qualquer artifício sensacionalista. Sequer reservava a morte dos personagens para os finais de temporada, como costumam fazer os outros programas. Esses grandes eventos vinham camuflados em episódios comuns – e ficamos arrepiados com os assassinatos de Ralph, Adrianna, e principalmente Christopher, o mais constante dos coadjuvante, descartado alguns capítulos antes do final definitivo.

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3. Anna Lucía e Libby em “Lost”

A série é ponderada pela morte de personagens de destaque, mas nenhuma soou tão inesperada quanto à de Libby e Anna Lucía, assassinadas em conjunto por Michael sem que nada apontasse para essa solução. De arrepiar!

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2. Nate em “Six Feet Under”

“Six Feet Under” foi a série que melhor lidou com questões sobre vida e morte. Os indícios do falecimento do protagonista na reta final da série vinham sendo plantados alguns episódios antes da concretização. Quando ocorreu, no entanto, foi nada menos que devastador – e abriu alas para um episódio magnífico, em que a família despedaçada lamenta a perda à sua maneira.

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1. Buffy em “Buffy, A Caça-Vampiros”

No episódio “The Gift” – o centésimo da série e último da quinta temporada -, a heroína Buffy tem de se sacrificar para salvar o mundo de mais um apocalipse. Matar a personagem-título foi de uma bravura sem tamanho, por mais que a ressurreição seja perfeitamente possível no universo em que a história se situa. O encerramento com o túmulo de Buffy, onde se lê o epitáfio “Irmã amada, amiga devota, ela salvou o mundo várias vezes”, é de partir o coração e de deixar todo e qualquer seguidor indignado.

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Algo mais a acrescentar?

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Quando o amor soa banal

25 fevereiro 2010 8 comentários

Os americanos levam muito a sério o Valentine’s Day, que seria o equivalente deles ao nosso Dia dos Namorados. Enquanto aqui os casais celebram sua união em Junho, lá o mesmo ocorre numa certa data de Fevereiro – justamente quando essa comédia romântica de Garry Marshall, entitulada “Valentine’s Day” (e muito mal traduzida para o português como “Idas e Vindas do Amor”), veio a estrear. Foi, obviamente, um sucesso de bilheteria, rendendo horrores no primeiro final de semana – não só por ser o filme certo na hora certa, mas também por ser a fita recente com o maior número de astros por metro quadro. Ou seja, não faltou incentivo para que ninguém conferisse.

Esta é, de fato, uma história bem americana, com todas as convenções hollywoodianas que o público médio costuma adorar, e que aqueles que assistem com um olhar mais clínico costumam abominar. O fato é que no Brasil esse golpe do comércio não tem tanto impacto. Não seguimos de forma rigorosa as regras implícitas dos “dates”, nem sequer temos uma tradução ideal para a palavra (o mais aproximado seria “encontro”). Lá, é de praxe que os pombinhos troquem presentes, mandem flores, saiam para jantar e tudo mais. Ainda que não seja feriado nacional, o país para com esse clima de romantismo – e os que estão sozinhos ficam amargos por não terem com quem trocar chamegos, boicotam as festividades e amaldiçoam o amor.

Todos esses prós e contras, favoráveis e opostos, cínicos e apaixonados, tem espaço no filme. E todos são retratados da maneira mais preguiçosa que se possa imaginar. O cinema às vezes dá para mostrar que Los Angeles é pequena demais para seus múltiplos personagens. O resultado dessas histórias – em que enredos avulsos esbarram uns nos outros até que tudo se complemente e faça sentido no final – vão do excelente (“Short Cuts”, “Magnólia”) ao mediano (“Crash – No Limite”), e por fim ao ruim (como é o caso de “Idas e Vindas do Amor”). Salvo algumas reviravoltas mínimas, as inúmeras tramas convergem para a mediocridade – e não ajuda que o roteiro tente se enveredar para a comédia com as piadas mais batidas e prosaicas de que se tem notícia. Devem ter achado que qualquer um se contentaria com as situações que já conhece: pois eu me senti violentado ao ver coisas tão ridículas quanto um personagem sendo surpreendido pelado e outra deixando o amante embaraçado na frente da esposa (e garanto que também não ouvi risos coletivos durante a sessão).

Essa sucessão de bobagens desgastadas predomina nas mais de duas horas de metragem. Aliás, esta é outra desvantagem: é longo demais para o gênero e inflado por casos que não nos provocam interesse, a ponto de não reconhecermos certos personagens ou de não nos lembrarmos em que pé estavam desde que os vimos pela última vez. No entanto, o fiasco não é inacreditável, se considerarmos que o diretor é bem meia-boca (fiquei indignado quando vi Marshall como jurado daquele reality-show com os novos cineastas patrocinado pelo Spielberg: como assim, o velhinho bocó avaliaria jovens profissionais com talento superior ao dele? Me dói pensar que tanta gente boa está escondida nas universidades, enquanto um babão desses tem verba e astros à disposição).

Aos curiosos, esse filmeco pode ser útil por proporcionar reuniões: de Marshall com suas estrelas Julia Roberts (que ele lançou em “Uma Linda Mulher” e com quem depois rodou “Noiva em Fuga”) e Anne Hathway (filmaram juntos os dois “Diários da Princesa”); de Marshall com seu ator de confiança Hector Elizondo; dos galãs de “Grey’s Anatomy” fora da série (Patrick Dempsey e Eric Dane integram o elenco, embora não interajam); e das revelações da sitcom “That’s 70 Show” (Ashton Kutcher e Topher Grace, que faziam parte do programa e aparecem em situação parecida). A cantora Taylor Swift também marca presença, como par de outro Taylor, o Lautner, da saga “Crepúsculo” (que, como eu bem reparei, tem “GAY” escrito com maiúscula na testa). Dentre os outros perdidos na bagunça estão Kathy Bates, Shirley MacLaine, Queen Latifah, Jamie Foxx, Jennifer Garner, Jessica Biel, Bradley Cooper e, em nada mais que uma fala, Joe Mantegna. Alguns se esforçam bastante, mas não deixam de ser um completo desperdício nesse projeto nulo, que não corresponde a nada além do punhado de dólares que arrecadou.

.:. Idas e Vindas do Amor (Valentine’s Day, 2010, dirigido por Garry Marshall). Cotação: D-

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Gol do Chile!

24 fevereiro 2010 4 comentários

Outro ponto positivo para o cinema sul-americano, e não graças ao Brasil. Dessa vez quem acertou em cheio foi o Chile, que fez de “A Criada” uma das melhores descobertas cinematográficas do ano. O filme parte de um plot tão simples que fica difícil imaginar tal história sendo desdobrada num longa-metragem. Apesar disso, os mais de 90 minutos de projeção são de fazer as palmas das mãos transpirarem. O diretor Sebastián Silva tinha apenas um outro filme no currículo, mas é desde já experiente em prender a atenção do espectador e, principalmente, em fazer com que tensão e inquietude advenham de situações mínimas, quase inofensivas.

Não é à toa que foi um dos finalistas ao Globo de Ouro, tendo ganhado prêmios em Sundance e rendido certo prestígio à protagonista, uma certa Catalina Saavedra. É dela o papel da empregada Raquel, que trabalha para a mesma família há mais de vinte anos. Os patrões são bem de vida e tem quatro filhos de idades diferentes, sendo que Raquel trata os três caçulas com carinho, mas reserva antipatia e azedume para a mais velha. De início, Raquel se contenta com pequenas provocações – como ligar o aspirador de pó de propósito quando a garota tenta dormir até mais tarde. Mas à medida em que a história avança, essas maldades vão se intensificando, e não apenas limitadas à menina. Raquel destrata todas as demais empregadas que a patroa contrata para auxiliá-la. Não quer perder o controle absoluto do funcionamento daquela casa, e salvo raras ocasiões, está sempre de cara amarrada. Vai ficando claro que esses atos são a projeção de uma mulher resignada, que sufocada pela solidão e pela falta de perspectiva, tenta imprimir a mesma infelicidade que a consome naqueles que a rodeiam. De qualquer forma, é muito respeitada pelos patrões – e depois de duas décadas de serventia, nem mesmo a patroa tem voz ativa para contrariá-la, que dirá para demití-la! Ou seja, é uma relação benéfica, que ela encara como sinônimo de agravo. Para completar, Raquel tem enxaquecas terríveis que frequentemente a levam ao desmaio.

Muito seguro de si, o roteiro transforma um arco dramático plano numa personagem complexa e matizada, que Catalina encarna com a maior dignidade. Igualmente bem estão os outros atores que lhe fazem companhia – e como a ação se dá quase exclusivamente num único cenário (o sobrado em que a família mora), com os personagens sendo seguidos pelo diretor com a câmera na mão, era indispensável um entrosamento satisfatório entre eles para que a proposta desse certo. O clima é tão tenso que a certo ponto cheguei a pressentir uma tragédia, mas lá pelo terço final o enredo vai ganhando camadas de ternura, que levam a um bom desfecho. Alguns preferem generalizar e encarar como um retrato da hierarquia social chilena (ou mesmo latina, visto que o filme também é próximo da realidade brasileira). Sem dúvida seria bem compreendido por aqui.

.:. A Criada (La Nana, 2009, dirigido por Sebastián Silva). Cotação: A+

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Gol da Argentina!

23 fevereiro 2010 5 comentários

Está aí mais uma confirmação de que o cinema argentino tem dado uma goleada no nosso: “O Segredo dos Seus Olhos”, finalista ao Oscar de Produção Estrangeira e em cartaz em salas selecionadas, é não só uma preciosidade frente aos filmes brasileiros, mas também um dos exemplares mais notáveis do ano dentre qualquer nacionalidade. Junto com os indicados pela Academia – o alemão “A Fita Branca” (meu favorito), o peruano “A Teta Assustada”, o francês “O Profeta” e o israelense “Ajami” -, “O Segredo dos Seus Olhos” chama a atenção do espectador para o fato de que os filmes mais interessantes partem não só dos Estados Unidos, mas também (e principalmente) dos países ao redor do mundo. Só falta o Brasil entrar nesse ritmo para que obras superlativas como “Cidade de Deus” deixem de ser felizes exceções para se tornar uma constante. Mas isso é outra história…

Aqui, testemunhamos um investigador recém-aposentado (o sempre ótimo Ricardo Darín) recordando o caso mais marcante de sua carreira: o assassinato brutal de uma jovem mulher, e a degradação moral dos indivíduos que foram de alguma forma afetados por isso. Os relatos se dão de acordo com as lembranças do protagonista, que passa a transcrevê-las numa máquina de escrever caindo aos pedaços (os eventuais exageros devem ser atribuídos à liberdade criativa, mais ou menos como acontece em “Desejo e Reparação”). Impressiona como tudo é minimamente calculado, como os personagens não são meras engrenagens desse crime (aliás, o filme não se limita ao gênero policial), e como todas as situações, todas as brechas, são exploradas e desenvolvidas por completo, correspondendo ao seu potencial e possibilitando à trama novas leituras. A realização é impecável. Uma cena em particular – uma perseguição num estádio de futebol lotado – merece desde já uma menção entre as mais deslumbrantes da temporada.

O ritmo é irretocável: há diversas ações paralelas, mas tudo se encaixa e se complementa, permitindo que a narrativa englobe passagens tristes, engraçadas, tensas e surpreendentes sem que a transição entre um tom e outro gere estranheza. Para mim, o mais inesperado não foram as reviravoltas do caso, mas os momentos de pura humanidade que nos cegam com a verdade – como aquele em que o amigo alcoólatra discursa sobre as paixões que não podemos deixar para trás. Não estava preparado para encontrar tanta sensibilidade e, no final das contas, uma mensagem positiva e otimista. São fitas como esta, que conseguem me pegar pelo estômago através da simplicidade, que mais me enriquecem como cinéfilo e como pessoa.

.:. O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos, 2009, dirigido por Juan José Campanella). Cotação: A+

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O Lobisomem que ladra e não morde

22 fevereiro 2010 11 comentários

O Cinema ajudou a firmar a lenda dos lobisomens, moldando-a da forma que a conhecemos hoje. Ainda assim, faltam filmes memoráveis sobre o tema. Talvez o mais conhecido e querido seja “O Lobisomem Americano em Londres”, que mesclava com sucesso terror e comédia. Já este recente “O Lobisomem”, protagonizado por Benicio Del Toro, insiste em se focar apenas no primeiro gênero, dando origem a uma fita lúgubre, escura e – por que não? – insuportável. A intenção é clara: atestar que todo homem carrega um monstro dentro de si, e que este só está à espera para ser libertado. Por mais brega e batida que seja essa moral, poderíamos aturar a pretensão se fossemos recompensados com sequências empolgantes. Pois os ataques da besta nem de longe correspondem a tudo o que poderiam atingir, tampouco o roteiro – assentado em soluções comuns e desperdiçando elenco e personagens – tem algo a acrescentar a esse caldo. Os parâmetros da história você já conhece: lobisomens são aqueles que, por uma maldição ou por um ataque perpetrado por outro membro da espécie, transformam-se involuntariamente em caninos violentos sempre que a Lua Cheia desponta no céu. O corpo humano ganha novas feições, os olhos se estreitam, os dentes se tornam pontiagudos e os ossos do nariz se arrebitam num charmoso focinho. E sai de perto! Dominado pela fera, o homem perde os sentidos e é capaz de atacar as pessoas mais estimadas de sua vida. Bobinho e enfadonho, o filme submete os atores ao ridículo (Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving surgem constrangidos) e não é levado a sério nem pelo próprio astro – Del Toro é terrivelmente inconstante: quando acerta, é o melhor ator do mundo; quando erra, é um preguiçoso de aspecto macilento e embriagado (as olheiras salientes também não contribuem para sua imagem). Os efeitos beiram o amadorismo, a maquiagem podia ser melhor e até a reconstituição de época é nada mais que neutra. Decepcionante – para os que esperavam grande coisa ou não.

.:. O Lobisomem (The Wolfman, 2010, dirigido por Joe Johnston). Cotação: D-

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