Início > Cinema > Os Coen de sempre

Os Coen de sempre

Em “Um Homem Sério”, os irmãos Coen se voltam para o tema mais frequente da carreira deles: a sátira ácida e cheia de cinismo à vida do americano comum. Somos apresentados, desta vez, ao cotidiano de uma família judia qualquer, que vive num daqueles subúrbios característicos dos Estados Unidos, em algum ponto dos anos 60. A ênfase da narrativa é no patriarca, interpretado com brilhantismo por Michael Stuhlbarg (indicado ao Tony por peças da Broadway) – um professor de matemática fracassado, que não tem voz ativa na sala de aula, e tampouco dentro de sua própria casa. O núcleo familiar é especialmente caótico: o irmão desempregado e maníaco-depressivo se apossou do sofá da sala, a filha mais velha quer fazer uma plástica no nariz para renegar sua ascendência judia, o filho caçula está estudando para o bar mitzvah e se revelando um pequeno trambiqueiro, e a esposa está de caso com um membro da congregação.

Ao contrário do que atestaram em “Fargo” e em “Onde os Fracos Não Tem Vez” (onde os personagens de Frances McDormand e Tommy Lee Jones, respectivamente, preservavam um senso de humanidade diante de situações potencialmente devastadoras), os Coen se focam, aqui, na metade vazia do copo. Fazem um retrato pessimista de um sujeito igual a muitos que conhecemos: um homem temente a Deus, um cidadão que respeita as leis, e alguém que, em sua ânsia de viver em paz e agradar a todo mundo, nunca se impõe. Ao redor dele, ninguém presta – todos tiram proveito de sua passividade e até o infantilizam (observem a forma condescendente com que o amante da esposa se aproxima para uma conversa). Para os Coen, é uma questão de tempo até que pessoas como esta – que passam a vida em estado catatônico – sejam corrompidas pelo meio hostil, ultrapassem seus limites e caiam, também, na corrupção.

É um ponto de vista válido e bem defendido. Quer concordemos ou não com a posição, ela é firmada pelo roteiro com inteligência, numa história bem contada e bem amarrada. O humor é refinado e sutil, ainda que não especificamente judeu; e o elenco é nada menos que excepcional, dos atores principais aos meros cameos. Mereceria, ainda, indicação ao Oscar em qualquer categoria técnica a que seja nomeável – os figurinos e a cenografia, particularmente, são extraordinários, super no clima do filme. Não é programa para sair rindo à toa, mas a quem estiver a fim de se divertir com classe e até pensar um pouquinho, está mais que recomendado.

.:. Um Homem Sério (A Serious Man, 2009, dirigido por Joel e Ethan Coen). Cotação: A-

Categorias:Cinema
  1. 30 janeiro 2010 às 12:52 pm

    Achei diferente e estranho, porém sempre agradavel apesar da lentidão bem presente.
    Temos mais um excelente roteiro dos Coen

    • 30 janeiro 2010 às 1:00 pm

      Jack, a lentidão pode, de fato, desligar alguns espectadores da trama! Concordo que o roteiro seja excelente…

  2. 30 janeiro 2010 às 1:30 pm

    eu era groupie dos Coen por conta de Fargo. aí assisti Onde os fracos… e passei a desprezá-los com força. :/

    • 31 janeiro 2010 às 9:11 am

      Quéroul, por quê??? Não curtiu Onde os Fracos…? Explica isso direito, menina!!!🙂

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: