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Mais macho que muito homem

O cinema já contou, por inúmeras vezes, histórias de mulheres desempenhando trabalhos dominantemente masculinos, e vice-versa. Em “Trucker”, onde a heroína interpretada por Michelle Monaghan ganha a vida como caminhoneira, essa trama é requentada mais uma vez. O bacana aqui é que a profissão incomum é vista apenas como um detalhe. Acompanhamos a protagonista na estrada com seu veículo, parando nos postos para abastecer, fazendo as entregas. Mas tudo é tratado com a maior normalidade, como se uma mulher caminhoneira não fizesse parte de uma minoria, ou tampouco sofresse preconceito pelo sexo. Acho que as coisas são mesmo evoluídas lá nos States…

O lado bom dessa abordagem é que a prioridade se torna o desenvolvimento da personagem. É uma armadilha da qual muitos filmes (mesmo alguns melhores que “Trucker”) não escapam – filmes sobre uma profissão pouco convencional, sobre uma determinada doença, sobre pessoas superdotadas, e daí em diante, correm sempre o risco de se limitarem a esse diferencial, como se ninguém se interessasse por conhecer o personagem se não fosse por aquela condição específica. Vejam “O Curioso Caso de Benjamin Button”, por exemplo: a fábula do homem que nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo da vida carece de substância, justamente porque não nos dão a chance de conhecer Benjamin a fundo; acaba se firmando como a biografia de um sujeito medíocre, sem motivações, e sem nada de relevante além do ciclo vital invertido.

Já em “Trucker”, somos apresentados ao que a caminhoneira tem de melhor e de pior. Percebemos de cara que a vida daquela mulher não é bolinho. E que também não será fácil se simpatizar com a personagem, à medida em que as escolhas que fez na vida vão sendo reveladas. Ela é grossa com as pessoas ao seu redor, faz sexo casual com um vizinho casado (Nathan Fillion) sem qualquer peso na consciência, e reluta em ficar alguns dias com o filho pequeno (Jimmy Bennett), que deixou nas mãos do ex-marido há dez anos – mesmo quando este (Benjamin Bratt) está internado com câncer e incapacitado de cuidar do garoto. Essa frieza e indiferença, no entanto, serão desconstruídas ou ao menos justificadas pelo roteiro. Para a protagonista, a vida como mãe de família anulava a pessoa que ela sempre fora. Trancar-se em casa pageando um bebê era uma afronta à família que ela conhecia e amava: o caminhão e as estradas. E discordando ou não de suas opções, jamais nos sentimos tentados a julgar suas atitudes.

Os problemas dizem respeito ao abuso que o diretor James Mottern faz dos clichês do cinema independente. Aquelas convenções que já viraram banais de tão utilizadas dão as caras por aqui: a viola acústica, ora triste ora feliz, marcando o tom das cenas; as tomadas onde a protagonista, com expressão de sofredora, acende um cigarro quase que em câmera lenta; os diálogos trocados em meros sussurros para provocar efeito dramático, e tantos outros. Bobagens que predominam do início ao fim, e que podem chegar a irritar o espectador experiente. Também há um erro comum na construção do menino, o filho inconveniente: ele tem uma percepção avançada e respostas certeiras demais para alguém daquela idade. Não a ponto de cair na caricatura, mas o suficiente para se tornar uma daquelas crianças sabe-tudo dos filmes americanos, que tanto nos amedrontam. Recomendado a quem já está familiarizado com essas produções de pequeno porte.

.:. Trucker (Idem, 2008, dirigido por James Mottern). Cotação: B-

Categorias:Cinema
  1. 28 janeiro 2010 às 1:06 am

    Vou conferir o filme apenas por tabela, mas pelo seu texto acho que verei um filme bem batido. Parabéns pelo blog. Já estou acompanhando.

  2. 28 janeiro 2010 às 6:55 am

    Pô, algo me diz que esse papel poderia ter sido facilmente feito pela nossa querida Michelle Rodriguez.

    Hahaha.

    Filme interessante, vou atrás.

    • 28 janeiro 2010 às 9:07 am

      Tais, batido não deixa de ser, mas é autêntico o bastante para interessar! Obrigado, te espero por aqui mais vezes!

      Bruno, bem lembrado rsrs… Mas Monaghan é mais sensível e delicada, não pisa forte como Rodriguez, por mais masculinizado que possa ser o papel!😉

  3. 28 janeiro 2010 às 9:42 pm

    Quero assistir a este filme somente por causa da elogiada performance da Michelle Monaghan, mas este teu texto deu um plus bem grande nessa vontade.🙂 Beijos!

  4. 28 janeiro 2010 às 10:57 pm

    Ah, não conheço! Mas, olha me desculpe mas esse tipo de filme é meio complicado pra mim, mas irei procurar sim!

    • 29 janeiro 2010 às 5:53 am

      Ka, que bom, era isso que eu pretendia!🙂 Beijos…

      Jack, não precisa pedir desculpas! Tem muita gente que não gosta desse tipo de filme… Se nunca assistir, é perdoável. O filme é bonzinho, mas não imperdível.

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