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Simplesmente Complicado: o que mesmo?

A diretora e roteirista Nancy Meyers nunca conseguiu disfarçar a ânsia de se provar uma profunda conhecedora dos dilemas femininos. Seus filmes são praticamente de auto-ajuda, repletos de ensinamentos para mulheres de meia-idade, que levaram um pé na bunda dos maridos, e que tentam se reerguer antes de cair em clichês típicos de seu grupo, tais como cortar o cabelo estilo joãozinho, aprender a tricotar e comprar um gato. Creio, no entanto, que este público-alvo estaria melhor acompanhado por um bichano do que pelos filmes de Miss Meyers. O que falta à cineasta é um amigo verdadeiro, que chegue até ela, sente para uma conversa, e explique, com calma e paciência, que ela entende as mulheres – ou a própria arte de fazer Cinema – tanto quanto eu entendo da plantação de nabos do Afeganistão.

O problema é óbvio: Meyers se julga uma mulher independente, moderna e senhora de si, e tenta escrever personagens femininos com a mesma força. Vamos esquecer por um momento que essas criações são totalmente inverossímeis – em “Alguém Tem Que Ceder”, por exemplo, a protagonista interpretada por Diane Keaton era uma dramaturga de sucesso; em “O Amor Não Tira Férias”, Cameron Diaz tinha uma puta mansão em Hollywood, onde editava trailers para os grandes estúdios (!); e neste recente “Simplesmente Complicado”, Meryl Streep é a rainha dos confeitos, dona de uma padaria de grande porte. Acontece que nenhuma dessas mulheres aparece trabalhando em mais de uma cena. Parecem saídas da cabeça do Manoel Carlos: cagam dinheiro e tem reputação impecável nos ramos de atuação, mas jamais caem na labuta. Só faltou uma pedalada pelo Calçadão ou um vôlei matutino nas praias do Leblon para completar o ócio.

Prosseguindo… Todas essas “grandes” mulheres que Meyers idealiza são frustradas e mal amadas. Todas tentam superar uma separação dolorosa e vencer adversidades, mas nunca estão satisfeitas consigo mesmas. E no final, só encontram a real felicidade quando se acertam com um homem ao lado. Isso já é, por si só, uma traição aos ideais feministas, e um blefe tão grande quanto o final de “Sex and the City” (que só se redimiu no filme que sucedeu a série, quando a Samantha deixa o namorado porque “se ama mais do que ama a ele”). E não me venham com essa de que “o amor é mais importante que tudo”. Não é questão de se apaixonar ou de ter alguém ao lado – disso todo mundo precisa eventualmente. É questão de se deixar definir pela pessoa com quem sai. Um ingrediente certo para o fracasso (tanto que tenho certeza de que todos os relacionamentos selados por Meyers estarão ruídos assim que acabarem os créditos).

Na trama de “Simplesmente Complicado”, Streep afirma que uma mulher de 60 anos pode valer por duas de 30. É o que percebe o ex-marido (Alec Baldwin), que a trocou por outra mais nova, mas que volta a se interessar por ela dez anos após o divórcio. Na mesma época, um arquiteto bem intencionado (Steve Martin) também vai se aproximar da heroína, dando origem a um triângulo amoroso. O diferencial, aqui, é a idade avançada do trio – não há muitas comédias direcionadas a uma plateia mais madura, embora já tenha sido atestado, no início do texto, que a diretora visa as divorciadas recalcadas. Abaixo deles, o maior destaque vai para John Krasinski, de “The Office” (noivo de Emily Blunt, boa pinta, com potencial para virar astro) – mas o pobre tem um papel muito mal escrito, o do noivo da filha, que não lhe acrescenta em nada.

Não consigo explicar como Meyers é capaz de reunir elencos tão conceituados em suas empreitadas fuleiras. Em alguns casos (como Jack Nicholson e Diane Keaton em “Alguém Tem Que Ceder” e Meryl neste filme), pode até acontecer dos personagens ingratos serem enriquecidos pelo bom humor natural dos atores. Uma observação é que Meryl faz enormes restrições ao uso de sua imagem. Ela costuma fugir das cenas de nudez como o diabo da cruz, mesmo quando o momento exige. O jeito foi apelar para aquele recurso ridículo do pós-sexo: a mulher que fica segurando o lençol para não mostrar os peitos, assim que acaba de transar loucamente. Vergonha de quê, Meryl querida?

Os mais atentos vão notar uns erros grotescos na edição – pulos de eixo aqui e ali, como na cena em que Meryl e Alec se encontram no bar do hotel (num instante ela está levando a taça à boca, no seguinte a taça está repousada no balcão) ou naquela em que Meryl e Steve entram na doceteria no meio da madrugada (os braços ao redor do outro mudam abruptamente de posição). Não esperava que Nancy, com suas limitações, captasse a falha, mas era de se esperar mais do montador ou do fotógrafo! Realmente mal feito, sem inspiração e sem vida. Embora, é claro, o público que precisa se apegar às lições que o filme traz deva considerar um entretenimento de qualidade. E recomendar com afinco. Se este é o seu caso, não custa conferir. Nem que seja por Meryl: a coroa é fogo! Estreia brasileira prevista para o próximo mês.

.:. Simplesmente Complicado (It’s Complicated, 2009, dirigido por Nancy Meyers).

Cotação: C-

Categorias:Cinema
  1. 26 janeiro 2010 às 1:36 am

    texto bastante joia sobre Nancy Meyers, Louis. pra falar verdade, só tenho interesse em ver este quando lançar em DVD. mas gosto de alguns filmes da diretora, como tu mesmo disse, uma espécie de ‘Manoel Carlos’ dos cines. abraço🙂

  2. Rafaella Sousa
    26 janeiro 2010 às 2:06 am

    A penúltima linha disse tudo. Vou ver esse filme no cinema, com a minha mãe, lógico, porque nós duas somos fãs da Meryl Streep e vemos qualquer coisa que ela faça. Ah, minha mãe adorou “Alguém Tem Que Ceder”.😄

    • 26 janeiro 2010 às 5:15 am

      Jeniss, valeu. Meyers super é a Manoela Carla dos cinemas rsrs… Nem se incomode em ver, mesmo se for em DVD. Abs! o/

      Rafaella, Meryl até o fim!! Ela é, de fato, o maior incentivo para assistir a este filme – mas não consegue salvá-lo. Quanto ao Alguem Tem Que Ceder, achei irregular, mas bem melhor que este e que O Amor Não Tira Férias, por exemplo.

  3. Caroline®
    26 janeiro 2010 às 1:21 pm

    “O amor não tira férias” só vale pela Kate Winslet e pelo velhinho que faz um roteirista premiado. Cameron Diaz é canastrona até a alma!

  4. 26 janeiro 2010 às 5:26 pm

    hahaha, eu ri de muitas partes do seu belo texto, sobretudo quando entra Manoel Carlos. adorei os nabos do Afeganistão.
    então, pensei em ver por Meryl sim, mas é desses que só no dvd, só no dvd…

    • 26 janeiro 2010 às 9:44 pm

      Caroline, nem o velhinho e a Winslet me fariam ver aquilo de novo!

      Quéroul, exato: não recomendaria ninguém a gastar dinheiro com ingresso. Aliás, nem com aluguel de DVD. Meryl pode ser vista em coisas muito melhores.😉

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