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Visão celestial?

As expectativas para “Um Olhar do Paraíso” não eram pequenas. Afinal, o diretor Peter Jackson vinha de uma sequência de acertos, que se iniciara com o drama “Almas Gêmeas”, em 94, passando pela subestimada aventura “Os Espíritos”, em 96, e culminando com a cultuada trilogia “O Senhor dos Anéis” (01-03) e com a refilmagem de “King Kong” (05), que ele tinha na cabeça desde criança. Mas a maré de sorte, pelo visto, terminou. Esse novo projeto está longe de ser uma unanimidade. Recebido com frieza pela crítica, também não deve ser grande êxito de público, e não é difícil apontar os defeitos que impedem essa conexão.

Apesar da competência comprovada, Jackson nunca atinge o que se propõe com este filme. Baseado num romance de Alice Sebold, e adaptado pelo mesmo trio dos anteriores (Jackson, a esposa Fran Walsh e Philippa Boyens), “Um Olhar do Paraíso” é a visão de uma garota assassinada sobre os eventos que sucederam sua morte. Ela, muito bem interpretada por Saoirse Ronan (de “Desejo e Reparação”, uma craque em incorporar outros sotaques), fora estuprada e morta por um pedófilo (Stanley Tucci), que vivia na vizinhança disfarçado de cidadão de bem. De uma realidade alternativa, um meio-termo entre este mundo e o Além, fica observando a família se recuperar da perda (o pai é Mark Walhberg, a mãe é Rachel Weisz e a avó é Susan Sarandon; há ainda dois irmãos menores), e a investigação policial que levaria até seu assassino. Narra tudo com uma voz etérea, praticamente sussurando, como uma copycat da Mary-Alice Young, de “Desperate Housewives” – uma pequena defunta obcecada, que não vai embora nem à base de exorcismo.

Piadas à parte, a história tem potencial e todos os elementos para ser arrebatadora (não li o livro, mas alguns amigos me garantem que, enquanto literatura, o efeito é este). Acontece que Jackson errou totalmente na abordagem. Ameniza o tema sério com um tom leve e, por vezes, cômico. Mas não angaria os espectadores mais sensíveis com o recurso: apenas afasta o público que já tem. Reparem, por exemplo, numa das cenas iniciais, quando o irmão caçula tem uma crise de asma, e Saoirse sai dirigindo com ele até o hospital: enquanto o moleque quase sufoca até a morte no banco de trás, a ênfase do diretor é nas desastradas manobras da garota em meio ao trânsito! São opções canhestras, que geram profundo estranhamento na plateia, e que deixam a amarga sensação de que tópicos pesados – como o próprio assassinato, mostrado em flashs – estão sendo tratados com leviandade. Da mesma forma, os personagens carecem de substância, e nenhum membro do notável elenco tem a chance de se sobressair – com exceção de Saoirse, uma guria brilhante! Tucci, o psicopata, está até cotado a receber uma indicação ao Oscar de Coadjuvante, mas não pode fazer nada com o papel raso e unidimensional, cujas motivações básicas sequer são explicadas.

O preço por essa infelicidade do diretor é um filme frio, sem clima e sem tensão, onde todas as tentativas de emocionar não se concretizam. Fraco ao explorar o luto do núcleo familiar, insatisfatório na condução da investigação, e nulo quando se volta para o plano espiritual. Até nos efeitos, onde Jackson nunca erra, há problemas: o Limbo, de onde a menina observa os que ficaram, é kitsch e derivativo (para não mencionar os péssimos vislumbres que ela tem do mundo real, muito mal intercalados com o universo fantástico). Boa vontade não faltou, mas o resultado é, de fato, bastante ruim – ruim pelo que poderia ter sido, e ruim mesmo extinguindo todas as expectativas.

.:. Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, 2009, dirigido por Peter Jackson). Cotação: D-

Categorias:Cinema
  1. 22 janeiro 2010 às 12:21 am

    Pô, gostei desse seu texto, dos melhores que já li. E meu desinteresse recente pelo filme tá virando o mais genuíno medo. Uma pena. Que Inception não siga pelo mesmo caminho.

  2. 22 janeiro 2010 às 12:44 am

    tive interesse, mas já tinha lido sobre esses erros, o que me deu aquela brochadinha (ando brochando muito facilmente).
    li que a personagem da Susan Sarandon é super deslocada, porque coube à ela o alívio cômico. e eu não entendo porque insistir na comicidade. pela história, esse filme tinha que ser daqueles de você chamar a ambulância pra te tirar do cinema, depois de desidratar assistindo.

    vou esperar sair em dvd, e aí, quem sabe.

  3. Rafaella Sousa
    22 janeiro 2010 às 2:23 am

    Ai, que péssimo. Eu super tinha altas expectativas em relação a esse filme… Nem sei se eu vou ver no cinema, porque a minha verba é curta, então é melhor eu escolher bem o que eu vou ver. Uma pena, porque um filme com uma temática dessa podia ter se tornado um clássico instantâneo. Acho que eu vou ler o livro e esperar pra baixar o filme depois.

    • 22 janeiro 2010 às 3:04 am

      Pedro, valeu! Mesmo com as críticas negativas, eu ainda estava interessado – mas não deu!😦

      Quéroul, exato, mas Sarandon é só a ponta do iceberg. Não acho que perca grande coisa se esperar pelo DVD; a comicidade é, de fato, muito esquisita e fora de lugar! E os problemas não param…

      Rafaella, todos tínhamos! Com certeza não vale o ingresso do cinema. E talvez ler o livro, que muitos me garantem ter qualidade, só vá aumentar sua frustração quando ver o filme.

  4. 22 janeiro 2010 às 4:48 am

    Infelizmente, o filme não deu certo. Nosso querido Peter Jackson de fato errou a mão.😦

  5. Caroline®
    22 janeiro 2010 às 5:26 pm

    Invadindo o post pra comentar outro assunto: Avatar. Somente esses dias assisti (atrasada…) e não tinha lido sua crítica pra não me influenciar. Achei que ele é superestimado. Claro que, como experiência visual, sobretudo em 3D, é impressionante, uma bela realização. Mas não pude deixar de notar o roteiro fraquinho, plano e previsível. Entendo a consideração de que, com um efeito visual tão grandioso, não dava pra complicar na estória, sob pena de ficar inassistível. O filme tem muito pouca interpretação. Pra maioria, não é algo que compromete, mas estou acostumada a cinema de roteiro, de atuações, e essa viagem visual pura e simples não é a minha praia, ainda mais em ficção científica (cá entre nós, acho que a viagem foi o ácido que o Cameron tinha na cabeça quando imaginou todo esse universo, muito chapado :D). E o vilão do filme, o tal coronel é ridiculamente clichê e piegas, criatividade zero neste ponto. Em suma, eu recomendaria, caso me perguntassem, mas não foi a experiência extrassensorial tremenda que eu imaginava. Pra mim é B+.

  6. 22 janeiro 2010 às 9:56 pm

    É definitivamente estou ficando com medo de ver este, espero muito …

    • 23 janeiro 2010 às 12:41 am

      Bruno, foi mesmo. Uma pena.

      Caroline, então vamos lá… Todo mundo ataca o roteiro de “Avatar”, mas eu achei bem bom para a proposta. Tem alguns diálogos explicativos e didáticos demais e uma trama absurdamente previsível, mas é graças a isso que o filme se enquadra em seu escopo de filme-pipoca. E há anos, não me lembro desde quando, não via um blockbuster de tamanha magnitude, envolvente, extasiante, e absurdamente bem realizado. Gosto da mensagem ecólogica que o filme trás, bastante oportuna. E também acho corajoso como eles colocam as tropas americanas como vilãs, a ponto de serem derrotados e expulsos no final – são raríssimos os que apostam por esse lado. Curti o vilão, também. Os personagens estão ali pra serem maniqueístas mesmo. Da mesma forma que idolatro “Os Caçadores da Arca Perdida” e a trilogia original “Star Wars”, estou com “Avatar” – e meu A+ para o filme – até o fim!🙂

      Cleber, tem bons motivos para temer!!!

  7. 24 janeiro 2010 às 8:28 pm

    já vi q eus erei a unica criatura d aface da terra q irá gostar desse filme.
    o livro é fantástico. tem um linda menssagem, e independente do estado da pessoa, ela pode aprender muito com esse livro.

    não consigo ler uma critica boa sobre esse filme. é uma pena, pois achei os trailers lindos e pelo q pude ver nos trailers, o “paraiso” ou o lugar para onde ela vai quando morre, está perfeito.

    Terei q esperar o filme extreiar na cidade onde moro, mas espero não ser influenciada pelas criticas q leio dele, pois acredito q o Peter tenha conseguido passar a mesma menssagem q eu consegui captar enquanto lia o livro.

    • 25 janeiro 2010 às 1:27 am

      All_182, cuidado, conheço muita gente que achou o livro divino e que se desapontou imensamente com o filme! Espero de verdade que você consiga gostar!

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