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Motivos para amar e odiar o American Idol

Não tem quem não goste do “American Idol”. Ano após ano, o programa se mantém como o mais assistido da TV americana, mesmo reajustando os números após a queda geral de audiência. Andam dizendo, há pelo menos três temporadas, que a fórmula se esgotou, que os candidatos não empolgam e que os jurados se repetem nas tiradas – mas todo mundo continua assistindo mesmo assim.

Que fique claro que não há nada de excepcional na estrutura, para começo de conversa: é um show de calouros qualquer, onde aspirantes à estrelas da música se apresentam para uma banca e vão avançando de uma fase para outra da competição (a partir de certo ponto, a permanência é definida pelo voto do público). Tipo Raul Gil. Mas acabou dando certo – até porque teve início quando esse tipo de reality era visto como careta e ultrapassado. Surgindo como uma alternativa mais juvenil e descolada, os participantes se revezavam entre apresentações de clássicos da música e outros sucessos pop do momento. Boa parte do êxito se devia, também, ao trio de jurados originais – Randy Jackson, Paula Abdul e Simon Cowell -, que deliciava o público com suas avaliações das performances, muitas vezes carregadas de veneno (em especial da parte de Simon, que firmou seu tipo antipático). O apresentador Ryan Seacrest, por sua vez, era eficiente, espontâneo e bom de improviso.

Tudo é mostrado de maneira divertida e ‘entertaining’. Como recompensa, os primeiros colocados das edições ganham destaque na mídia, angariam fãs e muito provavelmente conseguem contrato com gravadora para um disco próprio – se farão sucesso posterior é um detalhe secundário. Kelly Clarkson, vencedora do primeiro capítulo, teve um álbum de estreia bem sucedido e chegou a ganhar Grammy. Mesma coisa para Carrie Underwood, da quarta temporada, hoje uma das mulheres mais conhecidas e influentes da música country brega. Fantasia, vencedora do terceiro ano, virou estrela Broadway. Mas quem se deu bem mesmo foi a colega Jennifer Hudson, revelada na mesma edição (a qual terminou como sétima colocada): ela conseguiu, em seguida, o papel principal no musical “Dreamgirls”, pelo qual ganhou o Oscar. David Cook, da temporada retrasada, também conduz uma boa carreira.

Vitória: garantia de sucesso?

É claro que há fiascos e polêmicas. Na segunda temporada, por exemplo, venceu o azarão Ruben Studdard, aparentemente porque as linhas de votação do favorito Clay Aiken ficaram congestionadas. Hoje, Studdard só aparece às custas do próprio “American Idol”, quando o chamam como convidado nas etapas finais. Aiken, entretanto, é um performer respeitado no teatro. No ano passado, Adam Lambert era, incontestavelmente, o mais talentoso dos concorrentes – chegou à final, mas por ser homossexual assumido (o que ainda é um escândalo para o grande público americano), perdeu o título de “idol” para Kris Allen. Obviamente, Lambert é quem faz mais sucesso atualmente. A própria Jennifer Hudson saiu da experiência traumatizada, e depois da vitória no Oscar, declarou em entrevistas que fora submetida à intensa pressão psicológica, devido à tentativa dos produtores de encaixar os participantes em estereótipos.

Dentre os micos e controvérsias do “American Idol” está ainda um filme produzido pela equipe do programa. “From Justin to Kelly” foi lançado logo após o término da primeira edição, tendo os dois finalistas como protagonistas – mas acabou sendo um fracasso de público e crítica, indicado ao prêmio de piores do ano. Logo em seguida, um participante da segunda temporada alegou que tinha feito sexo com Paula Abdul, em troca de bons comentários sobre suas apresentações! O fato não foi confirmado nem negado pela emissora. Também nunca cessaram os rumores de que a banca não se dava bem – Paula e Simon viviam se espezinhando no ar, sobre assuntos que iam muito além das discordâncias sobre determinado candidato. No oitavo ano, juntou-se a eles um quarto elemento, uma certa Kara DioGuardi. Abdul não faz parte dessa nona temporada, em exibição nos Estados Unidos e no Brasil desde a semana passada – numa decisão excêntrica, os produtores convidaram Ellen DeGeneres para ocupar a vaga restante (ela deve aparecer nas etapas posteriores).

Parece que esta será a última temporada de Simon como membro do júri – ele está levando o “X-Factor”, que produz na Inglaterra com uma temática semelhante, para os Estados Unidos, e será impossível conciliar as duas funções. Resta saber como o canal vai contornar a saída do integrante mais popular de seu carro-chefe… Mas eles se esforçam! Tentando criar uma imagem favorável e positiva – e, quem sabe, ganhar o Emmy de Melhor Reality de Competição, monopolizado pelo (superior) “The Amazing Race” -, o “American Idol” inventou de realizar uma campanha beneficiente. Desde a sexta temporada, o “Idol Gives Back” – como o especial é chamado – reúne alguns dos artistas mais consagrados do mundo do espetáculo para uma apresentação ecumênica. As pessoas fazem doações pelo telefone ou pela internet, assim como no Criança Esperança ou no Teleton. A renda é convertida para projetos de combate à pobreza na África.

Entrementes, “American Idol” se tornou uma franquia mundial. A versão brasileira vai ao ar anualmente pela Record, depois de duas temporadas discutíveis no SBT. Pegam emprestado o mesmo escopo do original, até mesmo na sala de concentração dos calouros, decorada com as cores da patrocinadora oficial Coca-Cola. Ainda que, ocasionalmente, descubramos talentos tão puros quanto os da edição ianque, esses filhotes ficam devendo para a matriz. Falta química entre os jurados e, sobretudo, personalidade (querem imitar tanto o “AI” que sempre tem algum fazendo panca de mal-humorado, uma mulher para ser a boazinha do grupo e daí em diante). E apesar das enormes divergências culturais de lá para cá, ainda percebemos as insistências nos mesmos estereótipos (sempre tem a negra com vozeirão e atitude de diva, um cantor country/sertanejo que não tira o chapeu, etc). Fora que as músicas de cunho popular por aqui incluem coisas inaudíveis como forró e funk.

Num nível pessoal, considero o “American Idol” a cara do show business: cruel, impiedoso, tenso, sensacionalista e culpadamente prazeroso. Costumo assistir à fase de audições, que parece mais um freak show (vai gente de tudo que é parte perseguindo estrelato, às vezes acreditando que tem talento quando não tem, às vezes ciente de que é um zé-ninguém e só querendo aparecer). Chega a ser deprimente, mas nunca menos que hilário – até porque, tirar sarro da desgraça alheia é coisa que todo mundo faz, como bem dizem numa das melhores canções de Avenida Q, “Schadenfreude”. Se alguém ganha minha simpatia nessa etapa – porque muita gente boa é revelada, também -, continuo acompanhando nos palcos, quando a disputa se torna séria. Nesse esquema, vi displicentemente os dois últimos anos, já que desde Melinda Doolittle, da sexta temporada, não torço intensamente por alguém. Será que, dessa vez, terei garra para acompanhar até o fim?

Categorias:Música, TV
  1. marcelo
    21 janeiro 2010 às 3:54 am

    muito obrigado

  2. 21 janeiro 2010 às 1:22 pm

    eu broxei de AI há anos já. sempre crio planos de assistir ao menos às audições, mas nem isso eu faço mais.:/

  3. 21 janeiro 2010 às 2:51 pm

    Louis, acho uma porcaria American Idol, mas porcaria ainda são os jurados tentando causar e as caras de decepções dos participantes. Ninguém merece.

    • 21 janeiro 2010 às 4:58 pm

      Marcelo, disponha! o/

      Quéroul, também estava meio desanimado depois das duas últimas temporadas, mas quando pego firme na fase de testes, vira vício!

      Mark, não seja mal-humorado! huahuahuahua… Os jurados bitch são demais! Adoro rir da desgraça alheia, não tem jeito. Dó mesmo eu tenho de quem tem talento mas é humilhado mesmo assim. Os freaks que só vão para se aparecer tem mesmo é que se ferrar!🙂

  4. 21 janeiro 2010 às 11:08 pm

    Eu nunca assisti, e pode parecer meio idiota mas, não tenho nenhuma vontade!

    • 22 janeiro 2010 às 12:19 am

      Cleber, te garanto que é só questão de dar uma chance até viciar!😉

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