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Onde Vivem os Monstros

“Onde Vivem os Monstros” é um desses livros considerados “inadaptáveis”. Assim como “O Expresso Polar”, é direcionado a crianças bem pequenas, cheio de gravuras e com um mínimo de texto. Narra as aventuras de um garotinho inventivo, que se imagina rodeado de monstros da selva, junto dos quais faz as maiores estripolias. Desdobrar um plot tão simples e limitado num longa-metragem seria tarefa complicada. E o idiossincrático Spike Jonze talvez não fosse a pessoa mais adequada para a tarefa. Ex-marido de Sofia Coppola, Spike fez carreira como diretor de videoclipes antes de levar sua excentricidade para os cinemas. Arrebatou em sua estreia com “Quero Ser John Malkovich” e manteve o prestígio com “Adaptação”, ambos escritos por Charlie Kaufman. É ainda um dos criadores de “Jackass”, aquela bobagem da MTV onde um grupo de rapazes se submete aos maiores absurdos.

O resultado dessa nova empreitada é discutível, em grande parte por causa dele. Tenho meus problemas pessoais com essas viagens de ácido envolvendo crianças. Gosto das versões de “Peter Pan” e de “Ponte Para Terabíthia”, mas abomino com todas as minhas forças coisas como “Alice no País das Maravilhas” (o livro de Lewis Carrol é insuportável, e nenhuma das adaptaçôes para o cinema me agradou) e “História Sem Fim” (mesmo assim, quando eu era pequeno, gostava de fingir que meu cachorro era o Falkor). Em geral, essas histórias tem um ponto de vista psicológico coerente – mas são também chatinhas, auto-referenciadas e indulgentes. É o que acontece com “Onde Vivem os Monstros”. Esqueça a proposta inocente e pueril do livro. Jonze transforma o personagem de “garoto feliz” em “garoto problema”, e usa os monstrinhos camaradas de sua imaginação como uma projeção da raiva infantil (nesse caso, o protagonista-mirim foge de casa depois de ter um ataque com a mãe – Catherine Keener -, frente ao novo namorado dela).

Não sei que mercado Spike estava mirando. Com essa abordagem – e com a predileção pelo ritmo lento e pela economia de diálogos -, vai ser muito difícil envolver as crianças a quem se dirigia o livro. Os adultos também podem se repelir pela proposta infantilizada que o trailer anunciava (porque muitos elementos ali não apetecem mesmo o público mais maduro). E eis que um programa aparentemente leve e bonitinho se torna enfadonho e inflado. Os elogios vão para a trilha sonora (tem canções de roda e melodias inspiradas, que parecem ter captado o espírito do livro melhor do que o diretor e roteirista), para a identidade visual (os monstros são convincentes e o reino imaginário não cai nos excessos) e para o ator principal, um menino lindo e talentoso chamado Max Records. Só não consigo recomendar a experiência de coração aberto. Uma pena, porque com um pouco mais de calor, e um pouco menos de pretensão, Jonze teria chegado lá! Mais uma vez.

.:. Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, 2009, dirigido por Spike Jonze). Cotação: C-

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P.S.: Também estreia essa semana nos cinemas brasileiros o drama policial “Vício Frenético”, dirigido por Werner Herzog e protagonizado por Nicolas Cage. Vi o filme no ano passado, na Mostra Internacional de São Paulo – e deixo o link da resenha a quem possa interessar.

Categorias:Cinema
  1. 19 janeiro 2010 às 12:32 am

    Não espero nem nunca esperei nada desse filme pra ser sincero e me espanta que tantas pessoas estejam esperando… mas enfim, não sei se confiro no cinema!

  2. 19 janeiro 2010 às 1:59 am

    que triste isso. é a segunda resenha que fala que Spike Jonze meio que atrapalhou o filme… eu tava tão interessada, começo a ter preguiça.
    do seu P.S. eu TENHO que dizer: meu coração borbulha ao ler Herzog, mas rola em seguida a paradinha cardíaca ao ler ‘Nicolas Cage’. não sei o que esse moço me fez, mas eu não agOento ele. e, ó, eu sou podre, porque eu AMO Con Air.

  3. 19 janeiro 2010 às 2:35 am

    Sen to Chihiro no kamikakushi!

  4. 19 janeiro 2010 às 2:36 am

    (Que não é infantil nem na porra, sorry. uhauhauha)

    • 19 janeiro 2010 às 2:40 am

      Robson, eu tinha expectativas moderadas, e fazia questão de ver nos cinemas. Afinal, vejo coisas muito piores de gente muito menos credenciada todos os anos!😉

      Quéroul, entendo TOTALMENTE suas ressalvas a Nicolas Cage. Ele fez por merecer nosso pé atrás, com escolhas equivocadas, atuações medíocres e uma vida pública atribulada. Mas sabe arrasar quando deixa de preguiça! Indico muito mais Vício Frenético que esse dos Monstros.

      Pedro, Chihiro tem esse mesmo problema de público – é complexo demais pras crianças, e muitos adultos podem não se arriscar a ver. Mas me lembro de ter sido vendido, aqui e no Japão (onde é a maior bilheteria de todos os tempos), como infantil. E tem elementos suficientes para interessar a todos, dos que fazem uma leitura mais aprofundada aos que não fazem.

  5. Alex Pizziolo
    19 janeiro 2010 às 4:38 pm

    Não tinha espectativas nenhuma em relação ao filme e acabei baixando. Gostei bastante, mas entendo esse problema de público. E como não li o livro não posso falar sobre os problemas de adaptação, então toda essa coisa da raiva feita pelo Jonze acho muito legal. O filme é, pra mim, é um dos melhores de 2009.

    • 19 janeiro 2010 às 5:08 pm

      O que você não entendeu sobre o problema de público, Alex? O livro é para criancinhas bem pequenas, mas essa mesma faixa etária não vai curtir o filme (que inclusive tem censura 10 anos no Brasil); e muito adulto pode deixar de ir por causa dos elementos infantis. Não é birra com Spike. Todo mundo acerta e todo mundo erra – ele, dessa vez, errou na abordagem. Simples.

  6. marcelo
    19 janeiro 2010 às 5:49 pm

    Louis, entre no site: http://www.minhaserie.com.br
    tem noticias fresquinhas sobre GLEE

  7. 19 janeiro 2010 às 10:57 pm

    Após muita ansciedade, verei este amanha!

  8. 19 janeiro 2010 às 11:39 pm

    Segunda crítica mais ou menos que leio sobre essa obra… E isso me preocupa, porque já vi gente dizendo que achou esse filme LINDO! Beijo!

    • 20 janeiro 2010 às 4:32 am

      Marcelo, fiquei super empolgado com as novidades sobre Glee, que vi assim que o Ausiello soltou no Twitter!😉

      Cleber, maneira na ansiedade que talvez o resultado lhe pareça melhor!

      Ka, pois é. Estou com a minoria, pelo visto! Beijão!

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