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De olho nos prêmios: Amor Sem Escalas

É seguro dizer que “Amor Sem Escalas” é o melhor filme da notável carreira que Jason Reitman está construindo para si. Filho de Ivan Reitman, diretor “Os Caça-Fantasmas”, Jason fez pequenas participações como ator nos filmes do pai antes de se aventurar atrás das câmeras. E deu muito certo. Seus trabalhos anteriores, “Obrigado Para Fumar” e “Juno”, foram sucesso de crítica e público. Não posso prever como “Amor Sem Escalas” refletirá entre as grandes multidões, mas os elogios dos especialistas ele já tem. As menções entre os prêmios americanos colocam Jason e o co-roteirista Sheldon Turner como os favoritos ao Oscar de Melhor Adaptação (a fonte de inspiração foi um romance de Walter Kirn). Dito isso, apesar das qualidades inegáveis – e do papel imprescindível que Reitman teve para realçá-las -, estamos diante de um filme imperfeito. Legal, dirigido com competência, e escrito com inteligência. Mas imperfeito.

Na trama, George Clooney interpreta um profissional contratado exclusivamente para demitir funcionários. Na lábia, ele amacia as pessoas que está despedindo, e contorna os casos em que a firma teme receber um processo pela demissão. A função exige que ele viaje para todo canto do país, e por ficar exatos 85% do ano fora de casa, é um solitário das alturas, sem esposa, sem filhos, sem amigos íntimos e com o mínimo de contato possível com as irmãs (a única família que lhe resta). Obviamente, o personagem passará por uma auto-avaliação ao longo da projeção. A história, muito bem narrada desde o primeiro instante, vai tropeçando e descambando para caminhos previsíveis, mas faz as opções corretas na hora de amarrar as pontas. Para balancear o ritmo, há duas outras personagens de destaque, ambas femininas: uma executiva que também vive viajando e que se envolve com o herói (a sempre bela Vera Farmiga), e uma recém-formada cheia de ideias na cabeça que vem para bater de frente com o protagonista (Anna Kendrick).

O trio de atores é muito eficiente, mas não especialmente excelente. Clooney se saiu melhor como o dublador da animação do Wes Anderson, “O Fantástico Sr. Raposo”. Aqui funciona pela economia de emoções, por fazer pouco – traduzindo uma expressão americana, não age, reage (doesn’t act, reacts). Não tem porque chegar ao Oscar de Ator com favoritismo, mas é o que está acontecendo (entretanto, ainda preciso ver seus principais concorrentes). Farmiga e Kendrick, que devem ser indicadas lado a lado como coadjuvantes, saem-se bastante bem, mas tampouco tem personagens para ganhar prêmio. As atuações deixam a impressão de serem melhores do que realmente são porque os diálogos são bolados com astúcia, e disparados pelos três na velocidade da luz. Faço a mesma pergunta que fazia diante dos episódios de “Gilmore Girls”: é mesmo bom ou é apenas rápido?

Inclusive, rápido não faz justiça a “Amor Sem Escalas”. O filme passa voando (sem trocadilhos infames) por uma parte boa das cenas, usando como muletas ora a narração de Clooney, ora as canções indies da trilha sonora (que aliás é bem agradável, gostosa de ouvir). Contudo, Reitman prova nessas panorâmicas que tem olho clínico para cinema, e preenche o filme com simetria. Note, por exemplo, o ritual do protagonista ao passar pelo portão de embarque (esvaziando a maleta, tirando o paletó e os sapatos etc), comparado com o desleixo e a inexperiência de Kendrick diante da mesma situação. Em frações de segundo, o diretor nos deixa a par da rotina do herói (que é visto fazendo atividades recorrentes em lugares diferentes, como nadar na piscina dos hoteis), e permanece atento a elementos visuais (tais como os letreiros que informam por quais cidades os personagens estão passando) e sonoros (a calmaria dentro do avião, acima das nuvens).

Sem pretensão, o roteiro explica as próprias simbologias. Quando a irmã de Clooney é apresentada, por exemplo, a narração nos informa que ela é a responsável por manter a família unida – e na cena em questão, aparece fazendo um trabalho de colagem. Num seminário motivacional que Clooney realiza, o discurso usa uma mochila como metáfora para a bagagem que todos nós carregamos. Por isso é tão decepcionante quando as coisas partem para o previsível, como mencionei antes. Há uma cena especialmente ruim e mequetrefe, em que o protagonista é forçado a escancarar, para o cunhado, as vantagens de uma vida a dois. Entregam mastigado para o público uma transformação interna que qualquer um já teria sacado por conta própria, e subestimam o espectador que até então estava surpreendendo. E o desemprego, tido como o grande pano de fundo, também não é explorado como deveria.

No Brasil deve ser ainda mais difícil se identificar com a história. Primeiro porque a profissão – um “exterminador de empregos”, por assim dizer – é irreal para nós. Essa impessoalidade é muito “coisa de americano” para ter algo a nos dizer. Da mesma forma, não cruzamos o país de cima pra baixo de avião, ao menos não com a mesma facilidade deles, que tem mais renda e planos de voo em conta. Porém, a moral desse conto contemporâneo é universal. Ainda que batida e piegas. O diferencial de “Amor Sem Escalas” não está no que nos mostra, mas em como nos mostra. E isso, hoje em dia, já está de bom tamanho. Nos cinemas brasileiros a partir de 22 de Janeiro.

.:. Amor Sem Escalas (Up in the Air, 2009, dirigido por Jason Reitman). Cotação: B+

Categorias:Cinema
  1. 15 janeiro 2010 às 6:26 am

    olá!

    quero muito ver esse filme. esse lance de transformação de personagem é difícil de ser algo honesto e natural, pelo jeito aqui aconteceu como na maioria dos filmes.

    mas me animei quando vc falou que é uma história bem contada.

    abraço

  2. bruno silva
    15 janeiro 2010 às 10:01 am

    pode acreditar q mta gente aqui viaja mto de aviao, principalmente a trabalho. E esse filme eh uma metafora sobre os dias de hoje, nao exatamente um filme sobre viagens aereas. Onde vc viu?

    • 15 janeiro 2010 às 9:04 pm

      Bruno Knott, esse é um dos méritos incontestáveis do filme: a narrativa é ótima, muito bem estruturada! Abraço.

      Bruno Silva, sei disso, embora não corresponda a realidade da esmagadora maioria (e mesmo os executivos brasileiros costumam se locomover mais pelo eixo Rio-SP, e tem uma residência fixa, criam raízes, ao contrário do protagonista deste aqui). O filme é atual e oportuno pela questão da crise econômica e do desemprego. De resto, os personagens enfrentam dramas atemporais (daí a universalidade da história). O filme já foi exibido em cabines de imprensa, mas eu assisti por uma cópia FYC.

  3. 15 janeiro 2010 às 10:04 pm

    Verei amanhã!

  4. Caroline®
    15 janeiro 2010 às 11:47 pm

    Off-topic: Já viu o retorno de Grey’s? Juro que eu não entendi esse episódio, nem consigo dizer se gostei! Parecia que eu estava vendo outra série, os rostos e os nomes eram os mesmos, mas eram outras pessoas ali! A única coisa que eu sei é que Sandra Oh é F-O-D-A!

    • 16 janeiro 2010 às 12:35 am

      Cleber, depois volte pra dizer o que achou!

      Caroline, vi sim, acabei de publicar a review. Achei UM HORROR. Estou abandonando a série até segunda ordem. É muita palhaçada para aguentar. A recompensa foi alguns segundos com Sandra Oh arrasando no final. Amo a Sandra, mas é pouco! =/

  5. 5 fevereiro 2010 às 5:54 pm

    Louis, eu vi ontem e amei o filme.

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