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Archive for janeiro \31\UTC 2010

Oscar: Previsão dos Indicados

31 janeiro 2010 9 comentários

Todos os versículos dessa temporada de premiações – em que se incluem os maiores e mais apreciados pelos astros, como o Globo de Ouro e o SAG, mas também os prêmios dos círculos de críticos, dos mais conceituados (Nova York e Los Angeles) aos pequenos -, serviram para abrir caminho para o maior de todos. Me refiro, é claro, ao Oscar, o Prêmio da Academia, que acontece este ano pela octagésima segunda vez! É besteira reforçar a importância do Oscar, as injustiças, as putarias de bastidores etc. Isso todos já estamos carecas de saber. O resultado desse prêmio, assim como de todos os outros, é discutível, atacável e sem significância – mas tentar prever quem vai ser indicado, ganhar ou perder, é um exercício fascinante, apesar da assumida futilidade. Como um predictor de nascença, não poderia deixar de compartilhar minha lista de apostas para o Oscar deste ano, englobando todas as categorias, com exceção dos curtas (onde não há mesmo base para prever). Os indicados serão revelados no dia 2 de Fevereiro, pelo Presidente da Academia, Tom Sherak, junto de Anne Hathaway. Eis meus palpites:

Melhor Filme
1. The Hurt Locker
2. Avatar
3. Up in the Air
4. Inglorious Basterds
5. Precious
6. An Education
7. District 9
8. Up
9. Invictus
10. Star Trek

Melhor Direção
1. Kathryn Bigelow, THE HURT LOCKER
2. James Cameron, AVATAR
3. Jason Reitman, UP IN THE AIR
4. Quentin Tarantino, INGLORIOUS BASTERDS
5. Lee Daniels, PRECIOUS

Melhor Ator
1. Jeff Bridges, CRAZY HEART
2. George Clooney, UP IN THE AIR
3. Colin Firth, A SINGLE MAN
4. Jeremy Renner, THE HURT LOCKER
5. Morgan Freeman, INVICTUS

Melhor Atriz
1. Meryl Streep, JULIE & JULIA
2. Carey Mulligan, AN EDUCATION
3. Sandra Bullock, THE BLIND SIDE
4. Gabourey Sidibe, PRECIOUS
5. Helen Mirren, THE LAST STATION 

Sandra Bullock deve receber sua primeira indicação

Melhor Ator Coadjuvante
1. Christoph Waltz, INGLORIOUS BASTERDS
2. Woody Harrelson, THE MESSENGER
3. Christopher Plummer, THE LAST STATION
4. Stanley Tucci, THE LOVELY BONES
5. Christian McKay, ME AND ORSON WELLES

Melhor Atriz Coadjuvante
1. Mo’Nique, PRECIOUS
2. Anna Kendrick, UP IN THE AIR
3. Vera Farmiga, UP IN THE AIR
4. Julianne Moore, A SINGLE MAN
5. Samantha Morton, THE MESSENGER

Melhor Roteiro Original
1. Inglorious Basterds
2. The Hurt Locker
3. A Serious Man
4. (500) Days of Summer
5. Up

Melhor Roteiro Adaptado
1. Up in the Air
2. An Education
3. Precious
4. Invictus
5. In the Loop

Melhor Montagem
1. The Hurt Locker
2. Avatar
3. Up in the Air
4. Inglorious Basterds
5. District 9

The Hurt Locker já está disponível em DVD no Brasil

Melhor Figurino
1. Bright Star
2. Inglorious Basterds
3. Sherlock Holmes
4. The Young Victoria
5. Nine

Melhor Direção de Arte
1. Sherlock Holmes
2. Inglorious Basterds
3. Harry Potter and the Half-Blood Prince
4. Avatar
5. The Imaginarium of Dr. Parnassus

Melhor Fotografia
1. Inglorious Basterds
2. The White Ribbon
3. The Hurt Locker
4. Avatar
5. Nine

Melhor Trilha Sonora
1. Up
2. Avatar
3. The Informant!
4. Sherlock Holmes
5. Coco Avant Chanel

Melhor Canção
1. The Weary Kind, CRAZY HEART
2. Almost There, THE PRINCESS AND THE FROG
3. Down in New Orleans, THE PRINCESS AND THE FROG
4. All Is Love, WHERE THE WILD THINGS ARE
5. I See You, AVATAR

As músicas de A Princesa e o Sapo são do vencedor do Oscar Randy Newman

Melhor Mixagem de Som
1. Avatar
2. Star Trek
3. Transformers: The Revenge of the Fallen
4. District 9
5. The Hurt Locker

Melhor Edição de Som
1. Avatar
2. Up
3. Transformers: The Revenge of the Fallen
4. Star Trek
5. The Hurt Locker

Melhores Efeitos Visuais
1. Avatar
2. Star Trek
3. District 9

Melhor Maquiagem
1. District 9
2. Star Trek
3. Night at the Museum 2

Melhor Filme de Animação
1. Up
2. Coraline
3. Fantastic Mr. Fox
4. The Princess and the Frog
5. Ponyo

Excepcionalmente, a categoria Melhor Animação terá cinco indicados.

Melhor Filme Estrangeiro
1. Un Prophète (França)
2. The White Ribbon (Alemanha)
3. The Milk of Sorrow (Peru)
4. Winter in Wartime (Holanda)
5. El Secreto de Sus Ojos (Argentina)

Melhor Documentário
1. The Cove
2. Food, Inc.
3. The Beaches of Agnès
4. Every Little Step
5. Burma VJ

E os curiosos de plantão, não deixem de ver esses 101 fatos pouco conhecidos sobre o prêmio, que reuni num post longo, mas bonitinho, há alguns meses.

Categorias:Premiações

Os Coen de sempre

30 janeiro 2010 4 comentários

Em “Um Homem Sério”, os irmãos Coen se voltam para o tema mais frequente da carreira deles: a sátira ácida e cheia de cinismo à vida do americano comum. Somos apresentados, desta vez, ao cotidiano de uma família judia qualquer, que vive num daqueles subúrbios característicos dos Estados Unidos, em algum ponto dos anos 60. A ênfase da narrativa é no patriarca, interpretado com brilhantismo por Michael Stuhlbarg (indicado ao Tony por peças da Broadway) – um professor de matemática fracassado, que não tem voz ativa na sala de aula, e tampouco dentro de sua própria casa. O núcleo familiar é especialmente caótico: o irmão desempregado e maníaco-depressivo se apossou do sofá da sala, a filha mais velha quer fazer uma plástica no nariz para renegar sua ascendência judia, o filho caçula está estudando para o bar mitzvah e se revelando um pequeno trambiqueiro, e a esposa está de caso com um membro da congregação.

Ao contrário do que atestaram em “Fargo” e em “Onde os Fracos Não Tem Vez” (onde os personagens de Frances McDormand e Tommy Lee Jones, respectivamente, preservavam um senso de humanidade diante de situações potencialmente devastadoras), os Coen se focam, aqui, na metade vazia do copo. Fazem um retrato pessimista de um sujeito igual a muitos que conhecemos: um homem temente a Deus, um cidadão que respeita as leis, e alguém que, em sua ânsia de viver em paz e agradar a todo mundo, nunca se impõe. Ao redor dele, ninguém presta – todos tiram proveito de sua passividade e até o infantilizam (observem a forma condescendente com que o amante da esposa se aproxima para uma conversa). Para os Coen, é uma questão de tempo até que pessoas como esta – que passam a vida em estado catatônico – sejam corrompidas pelo meio hostil, ultrapassem seus limites e caiam, também, na corrupção.

É um ponto de vista válido e bem defendido. Quer concordemos ou não com a posição, ela é firmada pelo roteiro com inteligência, numa história bem contada e bem amarrada. O humor é refinado e sutil, ainda que não especificamente judeu; e o elenco é nada menos que excepcional, dos atores principais aos meros cameos. Mereceria, ainda, indicação ao Oscar em qualquer categoria técnica a que seja nomeável – os figurinos e a cenografia, particularmente, são extraordinários, super no clima do filme. Não é programa para sair rindo à toa, mas a quem estiver a fim de se divertir com classe e até pensar um pouquinho, está mais que recomendado.

.:. Um Homem Sério (A Serious Man, 2009, dirigido por Joel e Ethan Coen). Cotação: A-

Categorias:Cinema

Quem viu sabe.

29 janeiro 2010 7 comentários

Pois bem. O que dizer de “Caprica”, o aguardado spin-off da cultuada “Battlestar Galactica” (doravante chamada de “BSG”)? Vamos começar por uma introdução básica: “Caprica” servirá como um prólogo de “BSG”, cinquenta e oito anos antes do início dessa segunda. E a proposta é o suficiente para fazer qualquer fã da mitologia salivar. Será narrado, aqui, como os cylons foram criados, como esses robôs designados por cientistas ultrapassaram a inteligência de seus criadores, e como eles se rebelaram contra a raça humana a ponto de quase extinguí-la por hecatombe. Ou o que é mais importante para a série original: quem passou a mesclar DNA humano ao robótico, criando máquinas à imagem e semelhança do homem. Tudo ambientado no planeta Caprica, muitos anos após a devastação da Terra. Enfim, pura nerdice em forma de ficção científica, com margem a leituras políticas, religiosas e tantas mais.

Não sou a pessoa mais indicada para filosofar. No entanto, se é uma análise aprofundada que você procura, deve encontrar em outras partes da internet. Ou então se esse assunto não é de seu interesse, vá dar uma voltinha e retorne mais tarde. Aos que continuam comigo, vou falar com sinceridade: para mim foi genial. Genial. Antes de terminar o Piloto de uma hora e meia eu já estava de boca aberta. No final eu fiquei em silêncio, pensando no que tinha visto, me sentindo burro demais para absorver tudo aquilo. Primeiramente, posso garantir que você, que nunca viu um único episódio de “BSG”, vai conseguir entender e acompanhar quase tudo de “Caprica” (o ideal seria fazer uma maratona com as quatro temporadas da série original antes disso, mas sei que nem todo mundo goza de tanto tempo livre quanto eu, azar).

Mesmo sendo longo demais (o tempo de duração equivale a duas partes somadas), não fica com aquela aparência malfadada de episódio esticado. Parece mais um elegantíssimo telefilme (a vinheta da Universal no começo ajuda a manter a pompa), interessante do primeiro ao último segundo. Assim como em “BSG”, o uso dos efeitos especiais parece muito um nível acima dos seriados em geral. Oras, a sequência da explosão de um trem, logo nos primeiros minutos, chega a ter qualidade de cinema! E exatamente como acontecia em “BSG”, os trunfos do programa não se limitam à perfeição técnica. É, mais uma vez, uma história de personagens complexos e bem desenvolvidos, que vão conquistar mesmo o espectador mais relutante, sem saco e disposição para o gênero. Personagens estes que incluem um certo William Adama aos 11 anos de idade, que os fãs do original reconhecerão de imediato como o capitão da Galactica. E, meus amigos, a cena do pequeno William abraçando o pai ao som da trilha antiga é de fazer o olho aguar.

Afinal, ninguém ali tem ideia do que lhes irá acontecer, ou das proporções que aqueles experimentos irão tomar. O público, porém, está ciente do desastre eminente – o que, naturalmente, faz com que o clima se torne mais tenso, mesmo quando não tem que ser. Acho que não teve um único momento descontraído nos mais de noventa minutos de episódio – no meu caso, fiquei o tempo todo intrigado, com medo de perder alguma informação preciosa e depois boiar na trama. Nada ali é à toa ou desperdiçado: tudo tem uma razão de ser. Reconheço que nem tudo é inatacável – uma educadora de caráter dúbio interpretada pela Polly Walker, a saudosa Athia de “Roma”, parece ser o ponto baixo (numa das cenas, ela abraça uma aluna e faz muito aquela cara de “Ah, que bobinha, foi tão fácil te enganar!”). Mas são meros detalhes que a gente abstrai. Até porque chances não vão faltar para melhorar.

Das questões abordadas, a que me parece mais atual é a alusão à vida virtual (a filha adolescente do protagonista Eric Stoltz morre, mas continua viva através de uma cópia computadorizada). Parece distante do que experimentamos hoje em dia, mas será mesmo? O que mais se vê por aí são pessoas criando identidades inteiramente novas através do computador, e vivendo através delas – vide “Second Life” ou profiles falsos no Orkut, onde os criadores se comportam como determinados personagens, celebridades ou seus animais de estimação! O que “Caprica” indaga é: até onde seremos definidos por essas ilusões? Segundo a série – e segundo “BSG” – esses elementos estão intrinsecamente ligados ao final da Humanidade como a conhecemos. Pode ser dramático e fictício demais falar em termos apocalípticos. Mas que nos faz parar pra pensar, ah faz. O bastante para assistir a este show com atenção e respeito.

Categorias:TV

Mais macho que muito homem

28 janeiro 2010 6 comentários

O cinema já contou, por inúmeras vezes, histórias de mulheres desempenhando trabalhos dominantemente masculinos, e vice-versa. Em “Trucker”, onde a heroína interpretada por Michelle Monaghan ganha a vida como caminhoneira, essa trama é requentada mais uma vez. O bacana aqui é que a profissão incomum é vista apenas como um detalhe. Acompanhamos a protagonista na estrada com seu veículo, parando nos postos para abastecer, fazendo as entregas. Mas tudo é tratado com a maior normalidade, como se uma mulher caminhoneira não fizesse parte de uma minoria, ou tampouco sofresse preconceito pelo sexo. Acho que as coisas são mesmo evoluídas lá nos States…

O lado bom dessa abordagem é que a prioridade se torna o desenvolvimento da personagem. É uma armadilha da qual muitos filmes (mesmo alguns melhores que “Trucker”) não escapam – filmes sobre uma profissão pouco convencional, sobre uma determinada doença, sobre pessoas superdotadas, e daí em diante, correm sempre o risco de se limitarem a esse diferencial, como se ninguém se interessasse por conhecer o personagem se não fosse por aquela condição específica. Vejam “O Curioso Caso de Benjamin Button”, por exemplo: a fábula do homem que nasce velho e vai rejuvenescendo ao longo da vida carece de substância, justamente porque não nos dão a chance de conhecer Benjamin a fundo; acaba se firmando como a biografia de um sujeito medíocre, sem motivações, e sem nada de relevante além do ciclo vital invertido.

Já em “Trucker”, somos apresentados ao que a caminhoneira tem de melhor e de pior. Percebemos de cara que a vida daquela mulher não é bolinho. E que também não será fácil se simpatizar com a personagem, à medida em que as escolhas que fez na vida vão sendo reveladas. Ela é grossa com as pessoas ao seu redor, faz sexo casual com um vizinho casado (Nathan Fillion) sem qualquer peso na consciência, e reluta em ficar alguns dias com o filho pequeno (Jimmy Bennett), que deixou nas mãos do ex-marido há dez anos – mesmo quando este (Benjamin Bratt) está internado com câncer e incapacitado de cuidar do garoto. Essa frieza e indiferença, no entanto, serão desconstruídas ou ao menos justificadas pelo roteiro. Para a protagonista, a vida como mãe de família anulava a pessoa que ela sempre fora. Trancar-se em casa pageando um bebê era uma afronta à família que ela conhecia e amava: o caminhão e as estradas. E discordando ou não de suas opções, jamais nos sentimos tentados a julgar suas atitudes.

Os problemas dizem respeito ao abuso que o diretor James Mottern faz dos clichês do cinema independente. Aquelas convenções que já viraram banais de tão utilizadas dão as caras por aqui: a viola acústica, ora triste ora feliz, marcando o tom das cenas; as tomadas onde a protagonista, com expressão de sofredora, acende um cigarro quase que em câmera lenta; os diálogos trocados em meros sussurros para provocar efeito dramático, e tantos outros. Bobagens que predominam do início ao fim, e que podem chegar a irritar o espectador experiente. Também há um erro comum na construção do menino, o filho inconveniente: ele tem uma percepção avançada e respostas certeiras demais para alguém daquela idade. Não a ponto de cair na caricatura, mas o suficiente para se tornar uma daquelas crianças sabe-tudo dos filmes americanos, que tanto nos amedrontam. Recomendado a quem já está familiarizado com essas produções de pequeno porte.

.:. Trucker (Idem, 2008, dirigido por James Mottern). Cotação: B-

Categorias:Cinema

Damages: Your Secrets Are Safe

27 janeiro 2010 12 comentários

A pedidos, vou falar um pouquinho sobre o season premiere de “Damages”. Já elogiei muito a série neste blog. Dou, ano após ano, o título de melhor atriz dramática da TV para Glenn Close, não tenho mais por onde enaltecer o trabalho dos roteiristas, e coloco as duas primeiras temporadas entre as melhores de todos os tempos. Isso que dá: uma trama jurídica sem os clichês dos programas de tribunais, mais focada na complexidade dos personagens e num enredo contínuo do que em tipos unidimensionais e em casos avulsos esquecíveis. O mais bacana é a narrativa, toda fragmentada, com saltos no tempo pra lá e pra cá, e uma imensidão de reviravoltas escondidas nas dobras. Vistas em sequência, as temporadas podem ser encaradas como filmes de mais de dez horas, daqueles finos, mas tensos, do tipo “piscou-perdeu”.

Dito isso tudo, preciso ser 100% imparcial e admitir que o primeiro episódio da season 3, exibido nessa Segunda pelo FX americano, foi bem morno para o que estamos acostumados. A trama da família corrupta e inescrupulosa (em que se incluem Campbell Scott como o filho e Lily Tomlin como a mãe) não parece assim tão promissora (e Martin Short talvez não tenha sido uma boa escolha para interpretar o advogado de defesa, já que ficou famoso como comediante, e sempre que olho para ele me vem à cabeça o “fado-padrinho” do filme “Um Passe de Mágica”). A montagem no comecinho, relembrando momentos memoráveis das temporadas anteriores, também ficou exagerada demais e estilosa de menos – até porque impede que mergulhemos na história e faz com que nos lembremos, através dos artifícios sensacionalistas, que estamos diante de um show de TV. E Glenn Close, tão querida e inatacável, passou da conta com suas expressões de “mestre dos magos” (sabe, aquela cara de “Você pensa que me engana, bobinho? Tô muito a frente de você!”). Patty Hewes é ídola, mas às vezes me enoja.

Mas como “Damages” nunca falha em instigar, não deu para ficar alheio aos cinquenta minutos de episódio. Apesar das irregularidades, deu para sentir que a temporada promete – e os flashs do futuro adiantam que virão por aí surpresas e mais surpresas, daquelas de deixar qualquer um passado em Cristo. Notem ainda que esses flashforwards estão cada vez mais frequentes. Só neste episódio vimos umas vinte vezes a vinheta anunciando “Seis meses depois” ou “Seis meses antes”. E nem há necessidade dos letreiros para que diferenciemos o presente do futuro (ou passado do presente): a fotografia fria e azulada dos meses posteriores já escancara a transição de tempo. Bobeou, produção. Também deslizaram com uns errinhos de continuidade, com o rosto de um ou de outro mudando abruptamente de posição durante as conversas. Nada imperdoável, todavia (ui). Em resumo, foi um season premiere decepcionante para o que a série costuma ser, mas um puta episódio perto de muita coisa por aí. Continuarei assistindo com afinco.

P.S.: A Ellen clareou o cabelo?

Categorias:TV

Simplesmente Complicado: o que mesmo?

26 janeiro 2010 6 comentários

A diretora e roteirista Nancy Meyers nunca conseguiu disfarçar a ânsia de se provar uma profunda conhecedora dos dilemas femininos. Seus filmes são praticamente de auto-ajuda, repletos de ensinamentos para mulheres de meia-idade, que levaram um pé na bunda dos maridos, e que tentam se reerguer antes de cair em clichês típicos de seu grupo, tais como cortar o cabelo estilo joãozinho, aprender a tricotar e comprar um gato. Creio, no entanto, que este público-alvo estaria melhor acompanhado por um bichano do que pelos filmes de Miss Meyers. O que falta à cineasta é um amigo verdadeiro, que chegue até ela, sente para uma conversa, e explique, com calma e paciência, que ela entende as mulheres – ou a própria arte de fazer Cinema – tanto quanto eu entendo da plantação de nabos do Afeganistão.

O problema é óbvio: Meyers se julga uma mulher independente, moderna e senhora de si, e tenta escrever personagens femininos com a mesma força. Vamos esquecer por um momento que essas criações são totalmente inverossímeis – em “Alguém Tem Que Ceder”, por exemplo, a protagonista interpretada por Diane Keaton era uma dramaturga de sucesso; em “O Amor Não Tira Férias”, Cameron Diaz tinha uma puta mansão em Hollywood, onde editava trailers para os grandes estúdios (!); e neste recente “Simplesmente Complicado”, Meryl Streep é a rainha dos confeitos, dona de uma padaria de grande porte. Acontece que nenhuma dessas mulheres aparece trabalhando em mais de uma cena. Parecem saídas da cabeça do Manoel Carlos: cagam dinheiro e tem reputação impecável nos ramos de atuação, mas jamais caem na labuta. Só faltou uma pedalada pelo Calçadão ou um vôlei matutino nas praias do Leblon para completar o ócio.

Prosseguindo… Todas essas “grandes” mulheres que Meyers idealiza são frustradas e mal amadas. Todas tentam superar uma separação dolorosa e vencer adversidades, mas nunca estão satisfeitas consigo mesmas. E no final, só encontram a real felicidade quando se acertam com um homem ao lado. Isso já é, por si só, uma traição aos ideais feministas, e um blefe tão grande quanto o final de “Sex and the City” (que só se redimiu no filme que sucedeu a série, quando a Samantha deixa o namorado porque “se ama mais do que ama a ele”). E não me venham com essa de que “o amor é mais importante que tudo”. Não é questão de se apaixonar ou de ter alguém ao lado – disso todo mundo precisa eventualmente. É questão de se deixar definir pela pessoa com quem sai. Um ingrediente certo para o fracasso (tanto que tenho certeza de que todos os relacionamentos selados por Meyers estarão ruídos assim que acabarem os créditos).

Na trama de “Simplesmente Complicado”, Streep afirma que uma mulher de 60 anos pode valer por duas de 30. É o que percebe o ex-marido (Alec Baldwin), que a trocou por outra mais nova, mas que volta a se interessar por ela dez anos após o divórcio. Na mesma época, um arquiteto bem intencionado (Steve Martin) também vai se aproximar da heroína, dando origem a um triângulo amoroso. O diferencial, aqui, é a idade avançada do trio – não há muitas comédias direcionadas a uma plateia mais madura, embora já tenha sido atestado, no início do texto, que a diretora visa as divorciadas recalcadas. Abaixo deles, o maior destaque vai para John Krasinski, de “The Office” (noivo de Emily Blunt, boa pinta, com potencial para virar astro) – mas o pobre tem um papel muito mal escrito, o do noivo da filha, que não lhe acrescenta em nada.

Não consigo explicar como Meyers é capaz de reunir elencos tão conceituados em suas empreitadas fuleiras. Em alguns casos (como Jack Nicholson e Diane Keaton em “Alguém Tem Que Ceder” e Meryl neste filme), pode até acontecer dos personagens ingratos serem enriquecidos pelo bom humor natural dos atores. Uma observação é que Meryl faz enormes restrições ao uso de sua imagem. Ela costuma fugir das cenas de nudez como o diabo da cruz, mesmo quando o momento exige. O jeito foi apelar para aquele recurso ridículo do pós-sexo: a mulher que fica segurando o lençol para não mostrar os peitos, assim que acaba de transar loucamente. Vergonha de quê, Meryl querida?

Os mais atentos vão notar uns erros grotescos na edição – pulos de eixo aqui e ali, como na cena em que Meryl e Alec se encontram no bar do hotel (num instante ela está levando a taça à boca, no seguinte a taça está repousada no balcão) ou naquela em que Meryl e Steve entram na doceteria no meio da madrugada (os braços ao redor do outro mudam abruptamente de posição). Não esperava que Nancy, com suas limitações, captasse a falha, mas era de se esperar mais do montador ou do fotógrafo! Realmente mal feito, sem inspiração e sem vida. Embora, é claro, o público que precisa se apegar às lições que o filme traz deva considerar um entretenimento de qualidade. E recomendar com afinco. Se este é o seu caso, não custa conferir. Nem que seja por Meryl: a coroa é fogo! Estreia brasileira prevista para o próximo mês.

.:. Simplesmente Complicado (It’s Complicated, 2009, dirigido por Nancy Meyers).

Cotação: C-

Categorias:Cinema

Recordando Spring Awakening

25 janeiro 2010 8 comentários

Não existe ambiente mais competitivo hoje em dia na indústria do entretenimento do que o da Broadway nova-iorquina. Por causa disso, as peças e musicais lançados por lá tem dado de dez nas produções de Cinema e TV. Mesmo quando tentam adaptar um projeto de sucesso para outra mídia – como fez Rob Marshall com o recente “Nine” e anterioramente com “Chicago” -, o resultado nunca é amplamente satisfatório, e perde feio numa comparação com a fonte de inspiração. A cada temporada, novos musicais surgem, trazendo uma trama original ou requentando sucessos antigos (os chamados revivals). E todos almejam o prêmio máximo do teatro, o Tony Award. Mais do que isso, porém, visam a bilheteria, que corresponde, em grande parte, aos turistas de passagem pela metrópole.

Dito isso, poucos novos musicais deixam a sensação de serem realmente novos, e não pastiches de grand guignol. Mesmo os mais consagrados, como “O Fantasma da Ópera”, de Andrew Lloyd Webber, são discutíveis, atacáveis, pendentes ao enfado. Neste ponto, “Spring Awakening” – trazido para o Brasil, com modificações, pela dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho, sob o nome “O Despertar da Primavera” – é um dos maiores triunfos do palco contemporâneo. Em cartaz de 2006 a 2009, o musical ressuscita uma controversa peça alemã de 1891, onde um grupo de meninos e meninas lida com a descoberta da sexualidade num ambiente opressor. Por abordar violência doméstica, masturbação, homossexualidade, suicídio e outros tabus em suas dezenas de subtramas, o conteúdo original, escrito por Frank Wedekind, pode ser considerado pesado até nos dias atuais – que dirá na época em que foi lançado! (Os interessados em se contextualizar no período devem ver o brilhante “A Fita Branca”, de Michael Haneke.)

O grande diferencial da versão musical – e a excentricidade que maleou os críticos especializados mais intransigentes – foi uma trilha sonora cuja base é o mais puro rock. Não é novidade colocar os personagens cantando baladas em ritmos que só seriam inventados várias décadas após aquela em que a história se passa (foi o que Baz Luhrmann fez no vigoroso “Moulin Rouge!”, por exemplo). Mas é uma técnica infalível para garantir frescor. De fato, logo num dos primeiros números, quando um grupo de estudantes solta o gogó sobre suas frustrações na aula de latim (tirando microfones do paletó e sendo acompanhados, com baixo e violoncelo, por uma banda sempre visível), não tem quem não se envolva, quem não entre no clima, e quem não pense, com um sorriso no rosto, que nunca viu algo assim antes. E note que, dos musicais originais da Broadway, quase nenhum é bem-sucedido em lançar um álbum de pop e rock da melhor qualidade, que se enquadre ao contexto da peça e que ao mesmo tempo escape dos floreios ultrapassados e das operetas tradicionais.

A montagem original teve a felicidade de contar com jovens atores muito bem escolhidos (na trupe, havia apenas dois adultos, um homem e uma mulher, que se revezavam entre os papeis de autoridade como pais, professores e membros do clero). O trio principal incluía John Gallagher Jr., no papel de Morritz, um rapaz desajustado e incompreendido; Jonathan Groff, como Melchior, o mocinho de boa índole que se desvirtua; e Lea Michele (hoje conhecida como a competitiva Rachel em “Glee”), interpretando Wendla, uma garota curiosa, com inúmeras perguntas de natureza sexual não-respondidas. Todos se entregando corajosamente, com direito a algumas ousadias (Lea e Jonathan protagonizavam cenas de nudez e simulação de sexo). O show tinha ainda uma notável produção, onde se via que o dinheiro foi bem empregado: cenário espetacular – com direito a elevador e a um mezanino ao fundo onde a banda se assentava -, uso eficiente de luz, e palco amplo e reformado (já que todos os atores ficavam em cena o tempo todo, mesmo que sentados na lateral quando os personagens não tinham utilidade).

Ganhou, em 2007, oito dos principais Tony Awards, entre os quais Melhor Musical, Direção (Michael Mayer), Trilha Original (Duncan Sheik e Steven Sater), Libreto (Sater outra vez), Coreografia (Bill T. Jones) e Ator Coadjuvante (Gallagher Jr.). Fala-se muito numa adaptação cinematográfica, mas creio que ainda não haja nada concreto. E mesmo que aconteça, duvido que atinja a mesma voltagem: o que “Spring Awakening” conquistou nos palcos (e que continua conquistando com suas versões estrangeiras, entre as quais a brasileira, que confiro em breve), foi único, incomum e irreproduzível. Foi o resultado de uma combinação de acertos, de problemas e conflitos atemporais sendo resgatados de um material antigo, e de passagens engraçadas e tristes transpostas com uma delicadeza difícil de encontrar por aí. Um espetáculo feito com respeito e ímpeto por pessoas que não subestimam os apreciadores de sua criação.

Deixo abaixo uma apresentação do elenco no “The View”, com uma das minhas canções favoritas do musical. Façam o possível para ignorar a jeca Rosie O’Donnell:

Categorias:Teatro