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Os Filmes da Década

Outro top 10 de final de década, feito com muito esmero. Fiquem dessa vez com os filmes mais marcantes dos anos 2000 na opinião do “Letters from Louis”. Não foi fácil reduzir as opções a dez finalistas – por mais que bombas catastróficas invadam nossos cinemas semana após semana, o saldo final da década foi positivo com muita folga. As pessoas tendem a desdenhar do cinema atual e a louvar o cinema de cinquenta anos atrás, mas o fato é que mesmo durante a Era de Ouro de Hollywood, muita bosta colossal era produzida. Acontece que essas bobagens acabam passando e sendo esquecidas, enquanto os grandes ficam conosco. E eis os dez que, de acordo com o blogueiro que vos fala, influenciarão novos cineastas, estimularão os cinéfilos das futuras gerações e serão tomados como referência dessa época.

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10. O Homem Urso (Grizzly Man, 2005, dirigido por Werner Herzog)

Na falta de espaço para o inesquecível “Na Natureza Selvagem”, que Sean Penn dirigiu em 2007, encaixei o ainda mais significativo documentário “O Homem Urso”, que narra um caso parecido – o de um homem problemático que se isola da civilização nas florestas do Alasca. O naturalista em questão era fascinado pelos ursos grizzly; de forma quase doentia, ele observava as feras selvagens de perto, aproximando-se sem a cautela necessária. E acabou sendo devorado numa de suas expedições, levando a namorada que o acompanhava ao mesmo fim trágico. O alemão Herzog se utiliza de imagens captadas pelo seu próprio objeto de estudo, tal como entrevistas com aqueles que o conheciam. Resulta no mais tocante, triste e apaixonado documentário dos últimos anos, sem as manipulações e sensacionalismos de outros que receberam maior destaque.

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9. Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009, dirigido por Quentin Tarantino)

O pedante, mas genial Quentin Tarantino agraciou a década com os dois volumes de “Kill Bill” e a poluiu um pouco com suas parcerias com Robert Rodriguez e Eli Roth (apesar de “Sin City” ser muito bom, obrigado). Sua obra-prima, no entanto, é “Bastardos Inglórios”, lançado este ano – não só o seu melhor nos últimos dez anos, mas o maior de toda a sua carreira, que esperamos ver reconhecido em breve no próximo Oscar. Pode não fazer o estilo da Academia, mas é realmente admirável, deliciosamente anárquico e ponderado por diálogos desde já antológicos.

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8. Hedwig – Rock, Amor e Traição (Hedwig and the Angry Inch, 2001, dirigido por John Cameron Mitchell)

“Moulin Rouge”? “Chicago”? “Dançando no Escuro”? Nenhum dos anteriores. O grande musical da década é “Hedwig and the Angry Inch”, uma adaptação anticonvencional que o estreante John Cameron Mitchell fez de uma peça que criou para a Off-Broadway. Apesar de não ter engrenado nos palcos, funciona que é uma beleza como cinema, seja pelas canções belíssimas, seja pela inserção de animações pitorescas. O grande trunfo, no entanto, é a interpretação do próprio Mitchell, que assume bravamente o papel da protagonista Hedwig, uma transsexual alemã que roda a América fazendo shows fracassados com sua banda.

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7. Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, 2000, dirigido por Darren Aronofsky)

No comecinho da década, Darren Aronofsky, um cineasta que reafirmaria ao longo dos anos sua imensa inquietude e inventividade, fez este filme forte, chocante e perturbador, sem que nenhuma das opções para atingir esse resultado parecesse gratuita ou aproveitadora. Contando com um elenco formidável – no qual se inclui Ellen Burstyn, numa das maiores atuações femininas recentes -, Aronofsky define como ninguém o fundo do poço reservado aos dependentes químicos (mesmo àqueles que, como a personagem de Burstyn, viciam na droga involuntariamente). Impossível ficar alheio! A trilha também é uma das melhores que você vai ouvir.

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6. Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001, dirigido por Wes Anderson)

Os minutos iniciais de “Excêntricos Tenenbaums” devem formar o melhor prólogo já visto num filme. A narração quase impassível de Alec Baldwin nos apresenta ao clã de judeus mais esquisitos de que se tem notícia – filhos criados para serem gênios e estimulados a não se contentarem com a normalidade. Deu muito certo. O resultado é legal, original e diferente, ainda que para um público mais selecionado. Nascido para ser cult.

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5. Quase Famosos (Almost Famous, 2000, dirigido por Cameron Crowe)

Este deve ser um dos filmes que eu mais assisti na vida, junto de “Titanic” e “As Patricinhas de Beverly Hills”. Também é, por acaso, o meu favorito. E ainda acontece de ser extremamente bem realizado, o que o credencia a estar nessa lista (já que tento separar preferências das análises mais críticas, embora em casos especiais ambas coincidam). Esta é uma história adorável que combina atuações de alto nível, uma trilha irresistível e muita nostalgia, para recriar as lembranças do próprio diretor – que assim como o protagonista, saiu em turnê com uma banda de rock quando ainda era adolescente, cobrindo cada show para a revista Rolling Stones! Cool? Imagina!

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4. A Fita Branca (Das weisse Band, 2009, dirigido por Michael Haneke)

Costumo contabilizar os filmes por sua data de estreia no Brasil, mas ia ficar distante e esquisito demais encaixar essa produção alemã na lista da próxima década. Visto na Mostra, é o mais refinado trabalho do cineasta Michael Haneke, que levou com méritos a Palma de Ouro (dava até pra pensar em conchavo, já que a presidente do Júri era Isabelle Huppert, atriz da então obra-prima do diretor, “A Professora de Piano” – mas não temos como discordar de qualquer prêmio que vier para uma fita tão séria, densa e lancinante). Fotografia primorosa, elenco afiado e roteiro que enfia corajosamente o dedo em feridas não-cicatrizadas.

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3. Cidade de Deus (Nacional, 2002, dirigido por Fernando Meirelles)

Que alegria poder colocar um filme brasileiro na lista, e em posição tão privilegiada! E não é apenas a minha escolha. Listas de final de década mundo afora tem se lembrado desta produção que certamente é a melhor do cinema nacional em todos os tempos. Não só um triunfo técnico, que coloca nossos profissionais entre os mais competentes do mundo (tendo sido indicado aos Oscars de Fotografia, Edição, Roteiro e Direção, um feito inédito), mas também impactante em sua denúncia e criativo em sua estrutura narrativa. O estilo frenético de Meirelles – que captou tudo em locações reais, nas favelas cariocas, através de ângulos inéditos – seria amplamente imitado. Não à toa, Danny Boyle, diretor do grande vencedor do último Oscar, “Quem Quer Ser Um Milionário?”, sugou muitas influências daqui. No IMDb, “Cidade de Deus” é ainda o terceiro filme mais bem cotado da década, atrás apenas de “O Cavaleiro das Trevas” e “O Retorno do Rei”.

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2. Avatar (Idem, 2009, dirigido por James Cameron)

Ainda precisa esfriar na nossa cabeça, mas olhando agora ou daqui algumas décadas, a importância do longa de James Cameron permanecerá imutável. Revolucionário no uso dos efeitos especiais, deve ter para essa geração o peso que “Star Wars” teve 30 anos atrás, como os críticos não cansam de apontar (e como eu reafirmei na minha resenha, escrita há poucos dias, que pode ser lida clicando aqui). De cair o queixo.

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1. Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007, dirigido por Paul Thomas Anderson)

Saí do cinema atordoado, e nas duas ocasiões em que revi o filme fiquei igualmente acachapado. Paul Thomas Anderson não tinha chegado ao ápice com “Boogie Nights”, tampouco com “Magnólia”, dois dos melhores filmes dos anos 90. Ele ainda guardava uma carta na manga, e conseguiu ir um degrau acima de tudo o que tinha feito com esse drama de época intenso, bruto e contundente. Daniel Day-Lewis, em atuação histórica, interpreta um mineiro bronco que faz fortuna quando encontra petróleo em terras aparentemente inóspitas – e que mesmo magnata, não se desvencilia da ignorância e da violência que o definem. Um primor, e não para menos, o filme mais superlativo dos anos 2000.

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Faço menções honrosas ao inspirador “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, um filme criativo e irredutivelmente francês; à trilogia “O Senhor dos Anéis”, que mesmo com suas falhas engloba alguns dos melhores épicos da História; à “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, que tem os minutos finais mais espetaculares dos últimos anos. Esqueci mais alguma coisa?

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Categorias:Cinema, Top 10
  1. 28 dezembro 2009 às 2:21 am

    ai, que lista belíssima. olha, O Homem Urso é uma das coisas mais lindas que eu vi! Cidade de Deus é meu filme de coração; cada vez que eu assisto, eu choro mais. e hoje, FINALMENTE MILAGRE, assisti Besouro (lá no CineSesc 4 real, chuvarão em SP) e ele entrou no meu panteão de filme lindo e chorável, ali, do lado de Cidade de Deus no quesito ‘nacionais que eu amo para todo o sempre’. Amélie é outro que eu só vi duas vezes, a primeira aaaanos depois do lançamento. é um filme que eu não posso ver porque eu já começo a chorar no menu… difícil. sim, sou uma mulherzinha chorona.
    Sangue Negro e Assassinato de Jesse James são daqueles filmes de 3 horas que se tivessem 18h e legendas em esquimó, eu continuaria assistindo, porque são incríveis. lindo um deles ser seu número um e o outro ser a honra, muito lindo!
    não assisti a todos da sua lista (o 8, o 4 e o 2), mas em boa parte dos citados eu MORRI de chorar, e isso é o que define coisa linda pra mim: eu choro de boniteza, e esses tem disso e mais um pouco.
    linda lista. linda! obrigada! 🙂

  2. 28 dezembro 2009 às 2:31 am

    ah, e eu fui lá recuperar onde que eu tinha te perguntado se vc viu Besouro (no post dos piores filmes), e até então, vc não tinha visto. olha, se conseguir, veja.
    tem lá seus probleminhas (que eu não decidi se de edição/continuidade/roteiro… parece furo, parece estranho, mas não compromete), mas é uma coisa bem vonita, viu.
    e fiquei feliz pq finalmente vi um filme que eu queria muito, ainda nesse ano, e no cinema! hahaha, a pobre…
    =**

  3. Pam
    28 dezembro 2009 às 2:37 am

    É, vc deve ter sofrido para conseguir apertar tantos filmes ricos desta década em um TOP 10! 😀 Ok, meu review: primeiro, There Will Be Blood com certeza merece estar nesta lista, masssss eu não o colocaria em 1st. 🙂 No mais, Grizzly Man é formidável e Réquiem Para um Sonho é um dos melhores filmes de TODOS OS TEMPOS! Ah, sem contar que fiquei com água na boca por Das Weisse Band desde seu review quando assistiu na Mostra. Também preciso ver Avatar, mas, claro, só se for em 3D, ehehehe. 🙂
    Que posso dizer? Como sempre, excelente trabalho. E ainda antes que eu pudesse lamentar a ausência de Amélie Poulain, vejo o parágrafo com a menção honrosa. Sinto-me bem melhor. 🙂
    Parabéns! ^^

    • 28 dezembro 2009 às 6:25 am

      Quéroul, fico feliz em saber que a minha lista te agradou tanto, porque fui um parto reduzir a apenas 10 opções rsrs… Não hesitei em colocar Avatar, por exemplo, apesar dos descrentes insistirem que o filme será “um momento só”. Duvido: o coloco aqui com a mesma convicção que coloco “Star Wars” e “Os Caçadores da Arca Perdida” na lista dos anos 70 e 80! Recomendo que corra atrás dos itens que te faltaram ver (Hedwig é difícil de encontrar, talvez por download consiga). E depois da sua opinião, é certo que verei “Besouro”! Ouvi alguns comentários desencorajadores, mas considero o que tens a dizer! 🙂

      Pamela, foi dificílimo chegar aos 10, amiga! Alternei Sangue Negro entre as três primeiras colocações, mas vi que teria de ser mesmo o número 1! E imaginei que gostasse de Amélie – o filme é a sua cara! 😉 Agora é correr pra ver Avatar o quanto antes, menina. E valeu pelos parabéns! o/

  4. 28 dezembro 2009 às 11:43 am

    Interessante a lista, Louis!

    Gosto bastante de todos os filmes escolhidos, mas não sei se vejo alguns dos citados como tudo isso. Sangue Negro, por exemplo, é um excelente filme, com grandes atuações, mas que alguns problemas não me deixam vê-lo como clássico.

    Avatar é uma inovação, uma revolução em tudo que conhecemos como cinema e talvez por isso mereça ser sempre citado em listas assim, mas como filme mesmo (se fosse um 2D comum) não seria nada tanto assim.

    Nos outros dois mais recentes, Bastardos e Fita Branca, consigo enxergar mais eternidade. O filme do Haneke é inegávelmente um dos filmes que mais me marcou (tanto que já vi três vezes em festivais) e que tem tanta coisa a ser dita. Já do filme de Tarantino (de quem sou muito fã) quero, mas não sei se posso falar a mesma coisa, acho que o tempo precisa passar um pouco mais.

    No mais, acho que os outros escolhidos são perfeitos. Sò senti falta de outros títulos. Mas aí seria um top 50 ou 100, né?

    Beijocas

  5. 28 dezembro 2009 às 1:54 pm

    Faz tempo que não apareço por aqui, mas que bom que vi a tempo de comentar sua lista de melhores da década. Já disse milhares de vezes que não sou muito antenado em filmes, mas gosto muito quando vejo. Da sua lista, adoro todos, pena que não vi “Hedwig”. Se eu fizesse uma lista, acho que entrariam Moulin Rouge, As Horas e Ratatouille, mas não sei quais destes eu tiraria…

    • 28 dezembro 2009 às 9:00 pm

      Cecilia, ainda não fui ver Avatar em 2D, mas imagino que os efeitos ainda surtam impacto. Acho uma aventura de primeira, e o mais memorável filme-pipoca da década! Feliz em saber que já viu A Fita Branca. Só vi uma vez, na Mostra, e pretendo revê-lo. Espetacular e atemporal. De fato, precisaria de um top 50, no mínimo, para fazer justiça aos anos 2000.

      L. Vinícius, considerei esses três que você citou, mas de fato faltava espaço e posições! 😉

  6. 2 janeiro 2010 às 4:14 pm

    Tirou quase todos os filmes da minha boca.
    Mas o lógico é que cada um vá pra sua lista. Tô feliz pelos que você levou em consideração.

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