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Do Começo ao Fim

Não tem nada que me ofenda mais do que filmes feitos para polemizar. E não porque sou sensível ou intolerante. Pelo contrário: sou uma das pessoas mais mente aberta que conheço. Também me julgo capaz de presenciar as maiores barbaridades sem esboçar reações escandalosas. Acontece que, na esmagadora maioria dos casos, os filmes que se fazem pela polêmica não são nada além disso. Uma polêmica rasa e superficial, traduzida em cenas feitas intencionalmente para incomodar, para provocar repulsa e asco. Em decorrência, o diretor pode ser taxado, sem dó, de aproveitador ou vigarista barato. Não é um artista que respeita a sua criação, porque simplesmente não tem nada a dizer. É o que penso, por exemplo, do asqueroso francês Gaspar Noe, que ganhou notoriedade pelo infame estupro em “Irreversível”. O auê causado pela cena em que Monica Belucci tem o ânus violentado chamou atenção para um filme pavoroso, mal feito e mal enquadrado – e nos leva até a pensar que pervertidos mundo afora possam ter tido desejos sexuais diante de tamanha violência.

O brasileiro Aluisio Abranches é um desses cineastas que se agarra no assunto com a maior probabilidade de chocar. Foi assim com seu primeiro filme, “Um Copo de Cólera”, conhecido não por ser uma adaptação de qualidade do romance de Raduan Nassar, e sim por ter trazido o casal Julia Lemmertz e Alexandre Borges em momentos de nudez despojada e de sexo quase explícito. Os dois copulavam em quase um terço da duração total do filme – e em seguida, partiam para uma discussão acalorada, cujas farpas eram trocadas por meio de um vocabulário prosaico. Essa linguagem amaneirada, cheia de firulas, pode funcionar enquanto literatura, mas é bizarra e irreal demais para dar certo no cinema, que é mais realista – até porque não é uma história de época, como a outra adaptação de um livro de Raduan (o infinitamente superior “LavourArcaica”, de Luiz Fernando Carvalho). Agora, com “Do Começo ao Fim”, Abranches erra ainda mais feio. E, surpresa, é outro projeto que só está se vendendo pela polêmica, no qual ninguém consegue dizer uma única fala sem soar artificial e canastra.

Dessa vez, o diretor mostra cenas nada moderadas de sexo gay entre os atores. Mas vai além: transforma os personagens em questão em irmãos! Incesto é um tema que embrulha o estômago de qualquer um – e talvez por isso, o Cinema costume ignorá-lo, salvo raras exceções. Acho válido, no entanto, a abordagem, porque essas coisas existem aos baldes, mesmo que não saibamos da extensão dos casos. É comum, por exemplo, que irmãos ou parentes do mesmo sexo descubram a sexualidade juntos, nem que seja em masturbações conjuntas ou carícias homoeróticas. Só que os rapazes de “Do Começo ao Fim” vão além. Filhos da mesma mãe (Julia Lemmertz), mas de pais diferentes (o mais velho é fruto do antigo casamento com um argentino, e o pai do caçula é Fábio Assunção), Antônio e Thomas são próximos e íntimos desde criancinhas (então interpretados por Lucas Cotrim e Gabriel Kaufman). Quinze anos após o primeiro ato, logo depois do falecimento da mãe (e já interpretados por João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso), ambos vão testar o limite dessa intimidade, numa relação possessiva e doentia.

Abranches tem as intenções certas. Ele evita tratar os personagens com desprezo, situando-os numa família muito liberal e tranquila. Dessa forma, a personagem de Lemmertz tem excelentes relações com o ex-marido, e todos conversam abertamente quando percebem, desde muito cedo, os indícios de que a relação dos meninos está ultrapassando os laços fraternais comuns. No segundo ato, quando os irmãos já estão adultos, o pai e padrasto (Assunção) tem ciência da natureza do relacionamento dos filhos, mas olha para o outro lado, como se não fosse grande coisa (uma política “don’t ask, don’t tell” – “não pergunte, não diga”). Não gosto de julgar nada nem ninguém, então vocês jamais me ouvirão dizer que o que Antônio e Thomas faziam era errado e pecaminoso (apesar de eu também acreditar que tudo tem limite). Quando você não acredita em nada, como eu, é fácil chegar à conclusão de que não existem regras neste mundo, exceto às que você cria e aceita para si mesmo. Desde que não faça mal a ninguém, viva a sua vida como quiser, e foda-se o resto.

Ou seja, eu teria tudo para me envolver com “Do Começo ao Fim”. E não foi por falta de boa vontade que saí do cinema o considerando um lixo. Não pela temática, e não porque eu tenha achado as opções do diretor e roteirista gratuitas ou exclusivas para chocar (chocam, mas como eu disse, as intenções parecem corretas). Mas sim porque tudo é muito mal feito – mas muito mal feito mesmo! As juras de amor entre os dois ultrapassam a cafonice barata das declarações do casal bocó de “Lua Nova”, as cenas de devaneio são absolutamente ridículas (como quando Antônio imagina ele e Thomas dançando tango nus, sob a iluminação de um videoclipe barato) e a primeira transa consegue ser mais risível que aquela entre Camila Morgado e Caco Ciocler em “Olga” (os dois rapazes se despem em câmera lenta e se encaram, como se fossem posar para uma fotografia e não partir para a penetração anal). Aliás, essa câmera lenta é usada em tudo que é lugar, tão excessiva quanto a trilha sonora (que parece ter uma única faixa, de um pianinho repetitivo que fica demarcando a todo instante o ritmo das cenas). A montagem é um desastre, daquelas que abusa da tela preta para demarcar uma passagem significativa de tempo. Dá ainda para contar nos dedos de uma mão os filmes nacionais que tiveram diálogos convincentes, naturais e fluidos. Todos aqui são muito fracos e forçados, dos que você escuta e só consegue pensar: “Mas ninguém conversa desse jeito!”. Com tal material, os atores não tinham como fazer milagre, e surgem igualmente inexpressivos.

É mesmo uma pena. Escapar da armadilha do “choque gratuito” o filme conseguiu. Se fosse realizado por mãos mais talentosas, com um conhecimento mínimo das engrenagens de produção, poderia até ser muito bom. Como não foi, fica sendo um desperdício de tempo, e uma sucessão de momentos estranhos e constrangedores.

.:. Do Começo ao Fim (Nacional, 2009, dirigido por Aluisio Abranches). Cotação: E-

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Categorias:Cinema
  1. 29 novembro 2009 às 2:07 pm

    Taí um tipo de filme que não tenho curiosidade de assistir.

  2. Lucas Alves
    29 novembro 2009 às 5:25 pm

    Oi Louis!

    Aviso: e mais uma vez, meu comentário está IMENSO…GIGANTE…

    Bem, fiquei um tempinho sem poder conferir o blog, então, vou comentar alguns posts anteriores tb.

    Primeiro, sobre o post do seu top 10 de séries na década: parece q vc tem a mesma preocupação q eu em separar gosto pessoal de julgamento imparcial (nossa, escrevendo com essas palavras ficou até eloquente). Eu tenho muitas dificuldades de assistir séries – por causa de uma porrada de razões. Porém do pouco q vi, posso dizer q odeio Lost (a 9ª colocação do seu top). Eu admito q é uma excelente série… e reconheço a enorme qualidade das primeiras temporadas… Mas eu NUNCA consegui gostar. E por outro lado, eu AMO aquele lixo do Supernatural. Estranho né? Digo isso pq vc escreveu aí q Six Feet Under é a série da sua vida, e mesmo assim admite q não chega a ser a melhor da década. É… às vezes gosto pessoal e julgamento imparcial dão resultados diferentes…

    E aproveitando o gancho sobre Six Feet Under: na última vez q comentei aqui no seu blog, falei q só tinha visto a primeira temporada. Olha, eu fiquei apaixonado, impressionado e viciado. Aquela temporada foi genial. E tenho uma resistência pra ver as temporadas seguintes, pq todos dizem q o impacto da série cai.

    Enfim, não cheguei a ver todas as temporadas das séries q vc escalou no seu top. Aliás, algumas eu nem cheguei a ver uma temporada completa. Preciso conferir urgente… principalmente Damages. Agora eu queria saber o q vc acha de Weeds e True Blood. Eu assisti a primeira temporada de ambas. Gostei MUITO. Em breve, pretendo ver as demais temporadas dessas séries.

    Sobre os posts de filmes… Lendo o post sobre Código de Conduta, me veio a mente: “Seria o Foxx um canastrão q deu certo?”… Não sei. De qualquer forma, não me senti instigado a ver o filme. Ao contrário de o Fantástico Sr. Raposo – fiquei interessado em vê-lo. E acho uma pena q filmes mais antigos como Cinema Paradiso seja tão difíceis de se encontrar. Agora, eu NUNCA NUNCA NUNCA consegui assistir Crepúsculo até o final. NUNCA! Me irrita tanto q eu abandono o filme. Isso me causa uma total falta de vontade em assistir esse Lua Nova. E concluindo, eu acho muito complicado falar de um filme GLBT, porque tem todo um contexto social na jogada. Deu p/ entender o q eu escrevi?

    E por fim: é raro ver um blog com posts sobre teatro. Acho bem legal quando vc o faz.

    É isso. Meu comentário já está quilométrico, então é melhor parar por aqui.
    Sou fã do Letters from Louis e gosto muito dos seus posts!

    Abraços!

  3. 29 novembro 2009 às 5:32 pm

    Louis, tem muita gente falando desse filme, desse tom polêmico dele, mas depois desse seu texto… Sei não! Fiquei meio assim com o longa. Beijo!

    • 30 novembro 2009 às 12:49 am

      Jecik, não é pra todo mundo mesmo!

      Lucas, vc tem que comentar com maior frequência, amigo! rsrs.. Vamos lá: eu tento ser o mais imparcial possível nos meus julgamentos, embora muitas vezes o fator sentimental fale mais alto. O “lixo” Supernatural que vc adora é uma das séries preferidas de uma amiga que tem super moral comigo. Estou achando que vou ver tudo agora nas férias, numa maratona. Que tal? E não desanime com SFU. As temporadas intermediárias tem seus problemas, mas a série ainda se mantém boa (e o quinto ano é simplesmente genial). Acho o Jamie Foxx um canastrão, sem dúvidas. Digo isso desde “Ray”, quando ele foi amplamente reconhecido por um papel que ficava devendo na intensidade dramática. Ele faz apenas uma mímica, imita os trejeitos do cara, como costumam fazer os humoristas. E Cinema Paradiso nem é assim tããão difícil de encontrar. Tem disponível em DVD no Brasil, numa ótima versão! Tento ir ao teatro com a maior frequência possível, e acho importante dar espaço no blog para todas as formas de arte (embora essas dicas fiquem restritas aos paulistanos, na maoria das vezes). Obrigado pelo elogio e volte sempre! Abraço.

      Ka, pudera, né? rsrsrs! Beijo.

  4. henriquezrx
    30 novembro 2009 às 2:07 am

    Não sou tão cabeça aberta a ponto de assistir um filme que contenha traços gays. Outro filme, que ouvi falar que iria dar bastante polêmica era o tal de Brüno, mas nem sei se deu ou não. Não assisti mesmo, rsrs…

  5. 30 novembro 2009 às 2:29 am

    LIXO BRASILEIRO. Ou seja, nenhuma surpresa!

    • 30 novembro 2009 às 7:51 am

      Henrique, não tenho esse preconceito, mas a proposta de Brüno é bem diferente. O filme não se leva a sério e tira sarro de tudo, às vezes apelando pra baixarias!

      Cleber, tb estou quase desistindo de ver filmes nacionais!!!

  6. 30 novembro 2009 às 1:07 pm

    gente, nunca ouvi falar desse filme. mas só de ler ‘Fábio Assunção’, tô eu correndo pra direção oposta. eu fico é chocada com esse cara ainda ter emprego, enfim…

    e eu vi (finalmente) o Greici final do ano lá. ah, achei do normal pra fofo, nem tão merda assim (tirando a parte do Hunt e Teddy. eu gostava tanto do Hunt, agora eu só quero que ele morra no Iraque. que.cara.uó). não acho que o episódio foi uma Mariah não, Louis. acho que ele tá ali, sendo uma Britney… uma coisinha meio bipolar, meio sem pé na cabeça, meio mais ou menos, mas que dá um ‘Toxic’ numas cenas, sabe… aloka.

    • 30 novembro 2009 às 1:27 pm

      Quéroul, acho que ele gravou esse filme pré-rehab! O que explica ao menos porque aparece com os olhos tão vermelhos numa das cenas! huahuahuahua…

      E continuo abominando o último episódio de Grey’s!! A filha do Sloan não me convence! Mas tive prazer em rever alguns anteriores da temporada, que fora essa falha, estava indo até que muito bem. 🙂

  7. 24 janeiro 2010 às 7:55 am

    SIMPLEMENTE LINDO…NOTA 10000000000000000000000000000000000000

  8. 24 janeiro 2010 às 7:56 am

    Quando vai chegar nas locadoras? aqui em NATAL ainda não chegou.

  9. 24 janeiro 2010 às 7:58 am

    SIMPLESMENTE MARAVILHOSO, CHOREI DE TANTA EMEÇÃO. MERECE TODOS OS PREMIOS , ATÉ O OSCAR É POUCO.

  10. 24 janeiro 2010 às 8:02 am

    Os brasileiros são hipocritas, criticam tudo e teem precontos com tudo , mas tá todo mundo dando e comendo sem sem saber quem. Beijar nas baladas mil bocas parece normal, mas um caso de amro gay e motivo pra mexericos. vão se f…..

  11. 24 janeiro 2010 às 1:03 pm

    Nosso amigo Cunha se perdeu loucamente no comentário, hein? Então tudo vale se é amor, mesmo que seja o romance mais ridículo e mal escrito dos últtimos anos?

  12. Arthur W.
    20 março 2010 às 12:54 pm

    O filme é ótimo, muito bom, dois irmãos q se apixonam desde a infância, pra mim a pessoa tem que ser feliz não importa como e nem com quem. O escritor esta de parabéns!!!

  13. Bruno
    25 março 2010 às 3:11 pm

    Eu fico realmente impressionado como algumas pessoas têm coragem de demonstrar publicamente quão IGNORANTES conseguem ser… PELO AMOR DE DEUS, o autor do blog faz crítica ao filme como um todo!! Parem de ficar postando aqui comentários do tipo “Os brasileiros são hipocritas, criticam tudo e teem precontos com tudo” ou “pra mim a pessoa tem que ser feliz não importa como e nem com quem”. O filme é mal construído, mal executado e mal interpretado também. Que cara de choro é essa do Francisco o tempo todo no filme?? Muito fácil também matar a personagem da mãe logo no começo (??) da vida sexual dos irmãos… Recurso medíocre para não precisar do contraponto materno à relação dos dois. Enfim, saí do cinema com a impressão de ter perdido meu tempo e dinheiro… A propaganda do filme sugere que este seria um filme sério, abordando um tema polêmico, etc, etc… O que se vê no cinema? Uma sucessão de cenas de dois rapazes sarados, nus quase o tempo todo, sem conteúdo ou verossimilhaça (defensores, tentem imaginar esta situação acontecendo em suas famílias… seria assim??). Pra mim nada mais é que um filma para agradar a um público gay acerebrado que gosta de ir ao cinema ver filmes com homens se agarrando e mostrando o corpo. Ah, e antes que me chamem de homofóbico, sou gay.

    • Sergio
      14 janeiro 2011 às 11:03 pm

      Bruno, vc nao conseguiu convencer com esse seu jeitinho de gay homofobico. O filme é bom, e nao é direcionado somente a gays. Quanta bobagem se escreve, afinal o autor do blog conseguiu arrancar nosso tempo postanto muitas criticas sem sentido, ou sem fundamento.

  14. 12 julho 2010 às 10:42 pm

    Bom, não sei se é bom ou ruim, infezlimente perdi a estréia em BH por achar que só ia passar em SP e RJ.

    Mas Bruno, discordo com você que querer ver homens se agarrando é pra gays acéfalos (acerebrado eu acho feio demais, desculpa não usar o seu termo). Querer ver homens se agarrando é pra gays. Ponto final. E acho que muita gente ficou meio revoltada e chateada pelo fato de não terem sido advertidos antes de ver o filme que era só isso que ele teria pra oferecer, mesmo.

    O filme, pelo que eu vi do CamRip na internet e de alguns trailers, é realmente mal construído e atuado, mas não são esses os motivos que me atraem a querer assistir. A história continua sendo boa e o incesto entre gays é uma área cinza quando o assunto entra em cena. Afinal, todo o preconceito que temos quanto a tal prática se deve à probabilidade de os filhos de um casal nascerem com problemas – mentais ou físicos. Mas e quando são dois caras, o preconceito ainda vale?

    Pessoalmente, e sei que vão discordar, acredito que não. Não há pessoa mais certa para se envolver do que alguém com quem você conviveu toda a sua vida, alguém que provavelmente te conhece melhor do que qualquer outra pessoa. Eu não engajaria em um relacionamento assim, primeiro porque sou gay com uma irmã e segundo porque eu me atraio pelo diferente mais do que pelo similar.

    De qualquer maneira, foi um filme onde os dois irmãos eram bem diferentes, os atores não eram tão bons – e infelizmente a maioria deles não são, em nosso país, pelo menos não por enquanto – e provavelmente a filmagem e execução não foram muito felizes, a julgar pelas críticas.

    Mesmo com todas essas negativas, o filme continua sendo um passo dado em direção à compreensão das relações e à aceitação homossexuais. Só por isso vale a pena que todo mundo assista. Afinal, até hoje a Globo não nos deu um beijo gay, e eu tenho até vergonha de falar isso pros amigos de fora, que já cansaram de ver isso acontecer em TV aberta.

    Abraços!

  15. Gay
    27 novembro 2010 às 5:21 pm

    Eu Queria Ser O Da Manxa No Braço ! Pra Eu Poder Foder O De Cabelo Cacheado ! Aí Que Dlícia !

  1. 7 dezembro 2009 às 3:53 am

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