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Vi Lua Nova

Dia desses, numa conversa com uma amiga, chegamos à conclusão de que a Bela, de “A Bela e a Fera”, é a melhor princesa da Disney. Enquanto suas colegas de profissão ficam inertes durante filmes inteiros, Bela não deita e dorme à espera de um Príncipe Encantado que a resgate. Feminista, ela recusa as investidas do machão Gaston, o cara mais gato da aldeia, simplesmente porque não quer ser definida pelos homens com quem sai. Corajosa, ela se oferece para ficar presa no castelo da Fera no lugar do pai. E genuinamente apaixonada, ela se envolve com a Fera sem um pingo de interesse (porque não sabia que ele era um lindo Príncipe enfeitiçado, e estaria disposta a dar para um monstro peludo). Isso, meus amigos, é uma mocinha de respeito!

Pode-se dizer que a xará da saga “Crepúsculo”, Bella Swan, não possui nenhuma dessas virtudes. Como já tínhamos descoberto no primeiro volume, ela é uma mosca morta, passiva e submissa, disposta a renunciar à sua família, à seus amigos, e à si mesma para seguir o namoradinho – o vampiro embonecado Edward – por toda eternidade. Quando a coisa aperta, é Edward – ou o nativo americano fortinho Jacob – que tem de vir ao auxílio. Não dá um peido por conta própria, essa Bella. Parafraseando Regina Duarte, “eu tenho medo”. Medo pelas milhões de garotas mundo afora, que devoram os livros da série e que acampam na porta do cinema para conferir esta nova adaptação. Garotas que se espelham na protagonista e que sonham em encontrar um dia o seu par ideal, para serem devotas a ele com a mesma intensidade. Que exemplo a autora Stephanie Meyer está dando a elas? “Ame o seu macho mais do que a você mesma”? E o amor próprio, aonde fica? Dignidade já! Talvez por isso o papel tenha caído como uma luva à insossa e “poser” Kristen Stewart.

No entanto, relevando a moral misógina, retrógrada e ofensiva, devo fazer coro ao restante da crítica. “Lua Nova” é sim um pouquinho melhor do que o antecessor. Mas só um pouquinho. Não que a nossa avaliação faça qualquer diferença – filmes como este são inatacáveis. Os fãs vão ver de qualquer jeito, independente do que as publicações tem a dizer, ou mesmo de quem está no comando (no primeiro foi Catherine Hardwicke, demitida por incompetência; agora é o mais seguro Chris Weitz, de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”). A quem desdenha do poder de fogo da franquia, basta dar uma olhada nos números de abertura. As sessões de “Lua Nova” à meia-noite quebraram os recordes estipulados por “O Cavaleiro das Trevas” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, a arrecadação no final de semana chegou na casa dos U$140 milhões só nos Estados Unidos, e o lançamento no Brasil foi o segundo maior da década (atrás apenas de “Homem Aranha 3”). Nada mal. Ainda mais considerando que o pioneiro “Crepúsculo”, que deu origem a toda essa febre, nada mais era que uma reles fitinha B, bancada pelo estúdio pobretão Summit (que graças à saga está subindo de nível, mais ou menos como a New Line depois de “O Senhor dos Anéis”).

Neste aqui o investimento foi evidentemente maior. Apesar da maquiagem continuar constrangedora, os efeitos estão mais caprichadinhos, a direção de arte é quase boa, e a trilha tem canções bacanas e composições originais de qualidade. E não dá pra dizer que eles não se esforçaram. Todo mundo ficou sabendo, por exemplo, dos problemas que tiveram para criar os lobos por computação – primeiro não estavam grandes ou assustadores demais, e mesmo depois de uma série de mudanças ainda ficaram artificiais no resultado final. Até aí tudo bem, que seja, foi o melhor que conseguiram fazer. Só não acredito que não tenha dado para melhorar o roteiro chinfrim e as atuações amadoras. Não que se pudesse esperar grandes coisas do texto, visto que já se baseia numa fonte muito fraca. Na verdade, parece que foi escrito da mesma forma que “Crepúsculo”, com alguém botando coraçõezinhos nos pingos dos I’s. Não imaginava, porém, que a roteirista Melissa Rosenberg fosse forçar tanto a barra para povoar os sonhos eróticos (“wet dreams”) das pré-adolescentes. Dessa forma, tudo é desculpa para que os dois heróis, Edward e Jacob (Robert Pattinson e Taylor Lautner), tirem a camisa. Aliás, deixe-me aproveitar para dizer que esse Pattinson é um frangote, magrelo e quase desnutrido. E para quem duvida que o moleque Taylor tenha tomado bola para ficar com o peitoral tão bem definido, é só prestar atenção nas piadas internas da equipe (logo numa das primeiras cenas, Bella comenta: “Que esteroides você andou tomando? Tem só 16 anos, isso não é normal!”).

Já que estamos falando das forçadas do roteiro, o que dizer do ridículo pretexto para que Bella e Edward terminem na Itália, enfrentando um clã antigo de vampiros? (Os motivos que levam a isso estão no trailer, de modo que, ao me aprofundar neste ponto, não estou quebrando nenhuma surpresa que já não tenha sido anulada pelo estúdio.) Edward julga que a amada está morta (porque ela, ahn, pulou de um penhasco, já que não se importava em arriscar a própria vida, desde que tivesse um vislumbre do seu charmoso vampiro no processo); liga na casa dela para garantir que está tudo certo e um mal entendido confirma suas suspeitas (um paralelo pobre com “Romeu e Julieta”, citado no comecinho do filme). Mas, gente, em que mundo nós vivemos? A Bella tem que correr pra Itália pra desfazer a confusão? Será que o telefone dela não tem bina? Era só ligar de volta, oras. Ou se a chamada não pudesse ser identificada, bastava a vampira que vê o futuro descobrir o número. Ela não é a sensitiva da trupe? Tá, eu sei, era pra ficar mais emocionante… Quanto ao show de horrores que testemunhamos na Itália, onde aparecem o – geralmente ótimo – Michael Sheen pagando o mico de sua carreira e uma Dakota Fanning torta e esquista, prefiro não comentar. O pessoal pode começar achar que estou com implicância gratuita!

O fato é que, apesar de banal e ordinário, “Lua Nova” se comunica bem com seu público-alvo. Uma audiência que está se lixando se a mensagem é discutível ou não, desde que a história deixe os ganchos certos. Em mim, as pontas soltas a serem resolvidas posteriormente não surtiram efeito. Nas piriguetes que estavam na mesma sessão que eu, que ovularam e aplaudiram nos segundos finais, sim. E ao que me consta, a reação tem sido a mesma nos cinemas de toda parte. Como lutar contra isso? Me diga?

.:. Lua Nova (The Twilight Saga: New Moon, 2009, dirigido por Chris Weitz). Cotação: C-

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Categorias:Cinema
  1. luan
    26 novembro 2009 às 12:17 am

    eu quando vi não sabia dizer o que tinha sido pior !!! a louca do meu lado dizendo que o filme mexia com o “eu” interior dela ou se tinha sido a pessima qualidade do filme!!! só eu reparei que a sonoplastia estava catastrófica e que a legenda em um momento não estava sincronizada !!! pra mim esse filme foi pura apelação sexual para que loucas “piriguetes total” como minha irmã ficassem sussurando o filme inteiro com o idiota bombado sem camisa!!! filme patético depois disso até 2012 pode ser considerado um bom filme!!!

  2. 26 novembro 2009 às 12:31 am

    Não me recordo aonde li, mais foi algo assim ‘Enquanto muitos livros passam alguma coisa importante, a saga de Meyer tenta falar que é sempre bom ter uma namorado’. Sem mais, peguei odio profundo!

    • 26 novembro 2009 às 3:45 am

      Luan, na sala onde eu vi não tive problemas com o som ou com a sincronia das legendas, mas as mulheres realmente foram ao delírio. Gritavam, aplaudiam, e certamente saíram achando o melhor filme de todos os tempos! huahuahua

      Cleber, melhor seria dizer que a saga de Meyer “fala que é sempre bom ser submissa ao namorado”! Ai ai…

  3. 26 novembro 2009 às 3:55 am

    “Não dá um peido por conta própria, essa Bella.”

    RINDO LITROS …

    Na moral … só vou ao cinema se cada mina que entrar (gata de preferencia) pagasse un BQT e sem fazer cara de nojo por que nem de graça ou sequestrado vejo essa merda …

  4. 26 novembro 2009 às 4:00 am

    Não esperava nada além do que você disse.

    • 26 novembro 2009 às 5:25 am

      HUAHUAHUAHUAHUAHUA JP!!! Essa foi boa!! 🙂

      Luis, nem eu. Aliás, esperava um freak show ainda maior!

  5. 26 novembro 2009 às 12:25 pm

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk’ Eu li os livros. >.< E concordo com o que você disse. A Bella é insuportavel! OmG! Como se pode criar uma personagem tão insuportável assim? Eu continuei lendo pq adoro vampiros, de qualquer forma, e a Meyer, apesar de tudo, escreve bonitinho. rsrs
    Mas os filmes conseguem ser pior que tudo no mundo. O primeiro foi uma negação que me fizeram assistir duas vezes e passar vergonha com tanta coisa amadora junto. (não sei quem é pior a Kristen sem sal ou o Robert feio e péssimo) Nesse segundo (q considero o pior livro) não tinha como ser muito melhor. Tudo bem que investiram mais, mas mesmo assim…
    Eu sei que vou acabar pagando a lingua e vendo essa porcaria. Mas pelo menos vou esperar pra qnd tiver saindo de cartaz, pra conseguir ouvir o filme (malditas adoradoras de crepusculo gritando durante o filme todo).
    =*

  6. Caroline®
    26 novembro 2009 às 12:52 pm

    É o tipo de filme que eu não vejo meeeeesmo. Primeiro, porque todo filme muito badalado me irrita, de tanto o povo falar eu encho o saco (foi assim com o Senhor dos Aneis, Harry Potter, Titanic e até Tropa de Elite); segundo, porque não gosto de filme de vampiro; e terceiro, porque Robert Pattinson e Kristen Stewart são o casal mais songa-monga, sem graça, blasé e broxante da década. Dá sono só de olhar! E dizem que ele é porcão, eca!

  7. Régis
    26 novembro 2009 às 2:49 pm

    Não vi, e não tenho a mínima vontade de assistir “Lua nova”… mas só fiquei de cara por vc falar mal da Stewart. Tbém achei que nesse papel ela tá a coisa mais insipida da face da Terra. Mas tirando essa merda dessa saga, ela vinha fazendo uma carreira bem bonitinha e inteligente (O quarto do pânico, Speak, The cake eaters, Na natureza selvagem).

    Mas gente, sério, depois da critica e dos comentários, fiquei louco de vontade de ir no cinema, não pra ver o filme, mas pra me deliciar com a reação das adolescentes piriguetes descerebradas.

    • 27 novembro 2009 às 3:58 pm

      Jecik, é sempre bom ter a opinião de uma leitora que tem consciência de que os livros são bem ruinzinhos!!! rsrsrs…

      Caroline, entendo o que vc quer dizer. Quando vira “modinha” é fácil pegar antipatia por qq coisa (apesar de eu adorar Harry Potter e O Senhor dos Aneis – Tropa eu nunca achei grande coisa). E sem brincadeira, dá meio nojo ver Kristen e Robert juntos. Eles parecem tão desleixados!! Que horror.

      Régis, com exceção de “O Quarto do Pânico”, não vi nenhuma interpretação notável da Kristen. Ela tem uma aparência comum e um talento ainda não amadurecido, e está longe de ser essa “promessa” que alguns pintam! E sim, as fãs ensandecidas são o maior incentivo para ver “Lua Nova” nos cinemas! huahuahua

  8. Tiago
    26 novembro 2009 às 4:08 pm

    Eu estava na maior duvida, ou eu xingava o filme ou xingava a cada menina que gritava no meio da sessão.

  9. deiachan
    26 novembro 2009 às 6:16 pm

    porque ela, ahn, se jogou de um penhasco

    HUAUHAUHAUHAUHAUHAHUAUHAHAUUHAUHAinfinitos xDDDDDDDDDDDd

  10. Kamila
    26 novembro 2009 às 10:46 pm

    Gostei MUITO de sua análise, Louis. Mas, muito mesmo! Especialmente da primeira parte, em que você fala sobre a Bella! E você está certo: o filme entrega aquilo que o seu público-alvo quer. E isso será suficiente, sempre. Não sei, entretanto, se isso é bom ou ruim! Beijo!

    • 27 novembro 2009 às 3:49 am

      Tiago, eu ria involuntariamente das duas coisas! 😉

      Deia, gostou? huahuahuahua! Recomenda pros outros!

      Ka, obrigado! Estava ansioso pelo seu comentário, já que vc gosta da saga! Confesso que tenho antipatia por “Crepúsculo”, mas tentei ser o mais imparcial possível e reconhecer o que merece ser reconhecido. Só que a “moral” da história me incomoda seriamente! Beijo.

  11. 27 novembro 2009 às 10:41 pm

    ^^
    Pois é. Mas ultimamente (quase) qualquer coisa serve pra me distrair.

    =*

    • 28 novembro 2009 às 8:46 am

      Ontem dei uma folheada no último livro da série. Que coisa ruim!!

  12. luan
    28 novembro 2009 às 11:26 am

    meu eu só fico com dó de uma pessoa nesse filme da Dakota !!! que desperdício de talento dela!!! ela é tão boa e ficou parecendo um palmito estático no filme!!! tadinha!!! pensar que tem mais 2 filmes com a tadinha!!! ela deve estar super mal quando viu o resultado do filme!!!

    • 28 novembro 2009 às 11:54 am

      Luan, a Dakota está tendo muitos problemas em si firmar como atriz adolescente! Apesar de ter demonstrado o talento habitual em A Vida Secreta das Abelhas, errou feio tb nessa temporada com Push/Heróis.

  13. luan
    28 novembro 2009 às 5:42 pm

    eu nao vi ela nessa produção que vc me disse!!! mas em vida secreta das abelhas ela deu um show!!!! até o carinha lá o robert nao é ruim!!! mas é mal aproveitado como naquele excesso de porpurina nele !!! credo demais

  14. Roseli Zanella
    2 dezembro 2009 às 12:08 am

    Bom a Bella da disney é a minha princesa favorita sempre foi, da minha filha tbém que alias até usou esse tema em sua festa de 15 anos, mas diferentemente da minha filha (que leu todos os livros dos vampirinhos e gosta mais do livro do que dos filmes) não troco a Bella da disney por nenhuma outra, não vi crepusculo e não quero ver e olha que não foi por falta de insistência, agora com Lua Nova ouço todo dia que ‘tenho’ que assistir mas desde que vi através do seu blog a histeria daquelas meninas com o trailer peguei nojo, quem sabe um dia qdo não tiver nada pra fazer, assim como hj que to dodoi na cama, mas nem assim tenho vontade de ver…

    • 2 dezembro 2009 às 11:34 am

      Luan, eu acho o Pattinson bem ruim sim! rsrs… Mas quem viu o filme em que ele faz o Salvador Dalí diz que há alguns vestígios de talento.

      Roseli, melhoras pra você!!! 😦 Mas Lua Nova ou Crepúsculo não são uma boa companhia, mesmo pra quem tá de cama! huahuahua

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