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Filmes da Mostra #11: O Menino Errado

Por uma questão de horário acabei assistindo ao documentário israelense “O Menino Errado”, que assim como “O Pequeno Buda”, do Bertolucci, é focado na possível reencarnação de um mestre tibetano. Não sou uma pessoa religiosa – minha família é Católica, mas faz tempo que não entro numa Igreja (a não ser em batizados e casamentos, ou como turista), e tampouco acredito em Deus. Mas sempre me simpatizei com o budismo, talvez porque qualquer coisa que eu tenha ouvido do Dalai Lama me tocou mais fundo do que tudo que eu já ouvi de um padre. Só que mesmo essa religião, como todas as outras, tem muitos pilares que não me fazem sentido: eles não só acreditam em reencarnação, mas também que certos indivíduos que atingem um estágio transcendental nessa vida – os chamados “budas” – podem escolher as condições em que retornarão na próxima vida.

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O documentário vai acompanhar a busca de um dos discípulos de Lama Konchog (um buda que morreu em 2001) pela alma reencarnada do mestre. Ele acaba encontrando um garotinho de pouco mais de um ano numa aldeia de lavradores – e os indícios apontam que este seja o Lama reencarnado. Até aí tudo bem: não estava me convencendo de nada desde o princípio. O que me atraiu no filme foi que, apesar de intrinsecamente ligado a religião, não se percebe a má intenção de “converter” a plateia. E quem respeita o meu ateísmo – ou seja, quem não tenta forçar sua religião goela abaixo -, tem também todo o meu respeito e aprovação para acreditar no que quer que seja. A verdade é que o filme me provocou uma sensação de inquietude, porque somos confrontados com uma sucessão de dilemas insolúveis. O garotinho que é tido como a reencarnação do Lama, por exemplo, jamais terá o direito de escolher o que fará da vida: traçaram seu destino por ele. E os pais, como reagir diante de uma notícia dessas? Deveriam confiá-lo ao mosteiro, ou criar o filho como uma criança normal? Mas ainda, como ponderam em certo momento, que vida aquele menino teria se fosse criado como outro qualquer? Estaria fadado a ser mais um lavrador miserável na aldeia, sendo que a outra opção lhe garantiria estudo e boa vida.

O diretor Nati Baratz dá tempo para o espectador entender a situação e as armadilhas que cercam aquelas pessoas. Os mais de cinco anos de filmagem resultaram em 102 minutos de projeção, enxutos e diretos. É interessante também a forma com que o discípulo trata o garoto – ele acredita piamente que o pequeno é a materialização do homem que lhe introduziu ao budismo, e preza os seus deveres com a religião mais do que a própria vida. O resultado é particular, informativo e profundo. Muito provavelmente jamais chegará ao Brasil fora de festivais – e a quem se interessa, tem minha benção para baixar e conferir.

.:. O Menino Errado (Unmistaken Child, 2008, dirigido por Nati Baratz). Cotação: A-

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Categorias:Cinema
  1. 29 outubro 2009 às 12:46 am

    Morri com o “tem minha benção para baixar e conferir”.

  2. 29 outubro 2009 às 10:23 pm

    Não sei se esse irá entrar pra lista. Não sou muito fã do genero.
    =*

    • 29 outubro 2009 às 10:25 pm

      Fazer o que, Alex?? O filme é bom demais!!! 🙂

      Jecik, esse não é exatamente um documentário de Michael Moore, cheio de tiradas cômicas e manipulação descarada. Mas é sim bastante útil para quem gosta de conhecer culturas diferentes!

  3. 31 outubro 2009 às 6:27 pm

    Talvez eu dê uma chance. rsrs

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