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Filmes da Mostra #7: A Fita Branca

Prepare-se: “A Fita Branca”, filme que rendeu ao alemão Michael Haneke a Palma de Ouro no Festival de Cannes, é um arraso. Nem “Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson, que me mandou para casa embasbacado com sua força e contundência, surtiu efeito parecido em mim – o que me faz considerar este aqui o melhor filme da década! É a obra-prima de Haneke, como andam dizendo. Terrivelmente perturbador, como tudo o que ele já fez (de “A Professora de Piano” à “Cache”, do “Violência Gratuita” original à sua refilmagem americana). Mas elegante como nunca o tínhamos visto. Desafio alguém a me citar um filme recente – um único que seja – que tenha a mesma intensidade, complexidade e escopo.

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Somos apresentados a um leque de habitantes de uma miserável vilã alemã, pouco antes da Primeira Guerra eclodir no país. São cidadãos comuns, de bem, mas que vivenciam coisas escabrosas entre quatro paredes (que nós, espectadores, somos forçados a testemunhar com impassividade, contorcidos e incomodados). É um ambiente de brutalidade, violência, severidade e, num certo núcleo familiar, de incesto. É um mundo onde as crianças sofrem castigos físicos pesados (a fita branca do título é amarrada nos pulsos de dois irmãos que desobedecem; ela representaria a inocência e a resistência ao pecado), e onde crimes leves ou graves acontecem sem a impunidade dos culpados. Mas ninguém escapa da condenação do diretor: todos – do mais humilde dos camponeses ao Barão, do médico do vilarejo ao pastor – são destrinchados sem dó nem piedade. O mais impressionante é que essa crueza e repugnância são perfeitamente coerentes para a realidade da época – o que me faz agradecer, intimamente, por ter nascido em outros tempos. Aliás, creio que as pessoas começaram a se conscientizar do peso de certas atitudes com base no legado deixado pela geração retratada neste filme: os jovens daquele período seriam responsáveis pela Segunda Guerra e pela disseminação do nazismo. Sendo o homem um produto do meio em que vive, não me espanta que tanto ódio e intolerância tenham chegado ao ápice num lugar onde as crianças os testemunhavam em doses diárias.

E como é bem realizado, meus amigos! Não acho exagero colocar a belíssima fotografia em preto-e-branco entre as mais superlativas dos últimos anos. O elenco consegue um feito ainda mais raro: é assombroso a ponto de todos os seus componentes, sem exceção, deixarem de existir para se tornar os personagens. Reforço que poucas vezes vi crianças tão bem no cinema (que eu me recorde, só no japonês “Ninguém Pode Saber” vi garotos atuando neste nível de competência). O roteiro do próprio diretor tem tantas leituras cabíveis que eu poderia me estender aqui por umas boas páginas (e pretendo retomar a análise quando a correria da Mostra tiver passado, ou então quando o filme estiver para ser lançado em circuito comercial – infelizmente, a data de estreia no Brasil não foi marcada). E a direção de Haneke, responsável por levar cada um desses quesitos a um estágio que beira a perfeição, é de uma garra e acerto inigualáveis. Se ainda não ficou claro, o resultado é brilhante. Um filmaço impecável, extremamente significativo em todas as suas inflexões, dissonâncias e silêncios.

.:. A Fita Branca (Das weisse Band, 2009, dirigido por Michael Haneke). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. Alex Pizziolo
    26 outubro 2009 às 2:02 pm

    Você acredita que nunca vi nenhum filme do Haneke?
    Mas esse filme é um dos que mais espero, quero muito vê-lo!
    E com essa review minhas espectativas aumentaram…

  2. 26 outubro 2009 às 2:41 pm

    Genten, já to com o filme no pc faz dias… só na espera da legenda… é tudo isso mesmo Louis? O melhor do Haneke?

    • 26 outubro 2009 às 4:00 pm

      Alex, nem Caché fosse viu?? Haneke é um puta cineasta, ainda que muito particular! Esse filme é não só o melhor dele, mas o melhor da década!

      Régis, aconselho que espere. Não tem nada como a experiência de ver um clássico instantâneo como este na tela no cinema. Daqui há várias décadas vamos poder dizer que vimos esse filmaço surgir! É, em todos os quesitos, o melhor do diretor, e como disse para o Alex, o filme mais impressionante da década!

  3. 26 outubro 2009 às 4:18 pm

    Louis só não vi MEROTERAPIA … e nem O SOLISTA, porque estava vendo Aconteceu em Woodstock!

  4. 27 outubro 2009 às 1:39 am

    Adoro filems desse tipo. Espero que apareça em breve no cinema. ^^
    =*

    • 27 outubro 2009 às 1:49 am

      Não sei quanto ao “breve”, mas é sim um filmaço, Jecik! Recomendo sem ressalvas!

  5. 30 outubro 2009 às 3:22 am

    O trailer já me impressionou!

    • 31 outubro 2009 às 2:38 am

      E com certeza o filme vai corresponder à essa impressão! o/

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