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Archive for outubro \31\UTC 2009

Filmes da Mostra #16: Mother

31 outubro 2009 8 comentários

mother

O sul-coreano “Mother” tem sido um dos filmes mais bem falados dessa Mostra, e merece a badalação. É uma película densa e ocasionalmente arrebatadora, dirigida quase à perfeição por Joon-ho Bong (responsável ainda por um dos segmentos de “Tokyo!”, também em exibição no festival). Na trama, a mãe do título faz de tudo para tirar o filho da cadeia. O rapaz é acusado do assassinato de uma garota, mas é deficiente mental, e não pode se defender porque não se recorda do exato momento em que o crime foi cometido. A polícia, querendo mostrar serviço, o pega como bode expiatório, encerrando o caso com base numa evidência circunstancial. Cabe à mulher, então, sair em busca da verdade numa tentativa desesperada de fazer justiça. Essa investigação amadora vai testar todos os limites da personagem, que do primeiro ao último instante, reforça o amor genuíno e incondicional que uma mãe nutre pelo filho. Mas é realmente impressionante a resistência desse amor. Ele a faz enfrentar situações de extremo perigo, sobrevive à reviravoltas espantosas (muito bem elaboradas pelo roteiro) e leva a Mãe a uma acelerada desagregação moral. O resultado é uma narrativa intensa ou até mesmo lancinante, com todos os elementos no seu devido lugar (por exemplo, os personagens apresentados como meros figurantes, para depois serem resgatados com maior importância, e sempre de forma coerente). Preparem-se também para um leque de atuações irreparáveis, em especial a da matriarca. E a fotografia, fiquem avisados, é de cair o queixo, num padrão de beleza exclusivo do cinema oriental. Imperdível!

.:. Mother (Madeo, 2009, dirigido por Joon-ho Bong). Cotação: A+

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Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #15: Julie & Julia

31 outubro 2009 5 comentários

Antes de mais nada, preciso confessar que adoro filmes sobre gastronomia – sou enjoado pra comida, mas salivo ao ver os chefs elaborando receitas sofisticadas como verdadeiros artistas dando o retoque final em suas criações. Tinha tudo para me envolver, portanto, com “Julie & Julia”, uma comédia muito simpática apoiada justamente nesse tema apetitoso. Com o bônus de as personagens-título serem interpretadas por duas das melhores atrizes de suas gerações: a fofucha Amy Adams (de “Retratos de Família” e “Encantada”) e a legendária Meryl Streep. Elas contracenaram juntas muito recentemente em “Dúvida”, onde Meryl era uma madre-superiora impiedosa e Amy a noviça ingênua. Aqui elas nunca chegam a dividir a cena, visto que há duas narrativas paralelas e não muito bem conectadas. Mas esbanjam talento mesmo assim – e num tom mais leve, descontraído e desfrutável.

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Em 2002, Julie Powell (Amy), uma nova-iorquina com o sonho de ser escritora, resolve explorar suas habilidades na cozinha com o auxílio de um famoso livro de receitas escrito por Julia Child nos anos 50 (Streep, craque em mudar o sotaque e o timbre de voz). Através de um blog, Julie vai relatando os seus sucessos e desastres na cozinha, sempre visando completar as mais de 500 receitas propostas pelo livro no prazo de 1 ano. Os internautas ficam fascinados por essa proposta diferente, e o blog vira uma sensação. Entrementes, acompanhamos Julia formulando o livro que inspirou a garota e outras milhares de donas-de-casa (ela desenvolveu um interesse tardio pela culinária, e deu seus primeiros voos autorais na cozinha enquanto residia na França com o marido diplomata – depois da publicação das receitas, que aproximavam como nunca antes a gastronomia francesa do lar americano, viria a ter um programa de TV).

As duas tramas tem seus atrativos, apesar da contemporânea começar aos tropeços – como quando Julie se reúne com as amigas bem-sucedidas, cena que reúne os piores clichês das mulheres de negócio (todas atendendo um telefonema atrás do outro e fechando contratos milionários como se não fosse grande coisa). Tem também momentos supérfluos que pouco acrescentam, e que poderiam ser cortados para diminuir as quase duas horas de projeção (tempo demais para um filme do gênero). Jane Lynch, por exemplo, que é a sensacional chefe das cheerleaders em “Glee”, participa como uma irmã desengonçada de Julia, sem um único propósito ou relevância para o desenrolar da história. E como disse, nem sempre – aliás, quase nunca – a conexão entre a década de 50 e os presentes 2000 é feita com elegância (não espere a simetria vista em “As Horas”; os cortes entre uma ação e outra são abruptos e grotescos, sendo a única exceção a cena em que a montagem permite que Julie e Julia experimentem o mesmo prato ao mesmo tempo).

São falhas perdoáveis, no entanto. Em geral é tudo muito charmoso, da trilha de Alexandre Desplat (que está compondo para tudo que é filme da temporada) aos temas abordados (os blogueiros da vida real – como eu – vão se deleitar com Julie descobrindo as maravilhas dessa mídia). A direção da veterana Nora Ephron compromete menos do que seu roteiro – reparem como ela retrata Julia perambulando pela cozinha, ou nos cortes propositais na cena em que Julie conversa com o marido sobre a opinião de Julia sobre seu experimento. Dizem ainda que Meryl Streep pode ganhar seu terceiro Oscar – já está na hora, né? – pelo trabalho. Está tão inspirada (e, se me permitem dizer, a concorrência está tão fraca) que não duvido nada. Estreia em circuito marcada para 27 de Novembro.

.:. Julie & Julia (Idem, 2009, dirigido por Nora Ephron). Cotação: B-

Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #14: O Dia da Transa

30 outubro 2009 11 comentários

O cinema atual está produzindo uma safra imensa de “bromances” – ou seja, histórias de amor entre dois homens que não são gays, mas que tem um vínculo tão forte entre si que até mesmo suas esposas tem ciúmes da relação. Diz se você não vê desses casos diariamente nos lares brasileiros: os homens passam no bar à tardezinha para encontrar os amigos, ou deixam a família nos finais de semana para assistir futebol com os marmanjos. Então: todos eles, apesar de não admitirem nem por decreto, se amam genuinamente. Um exemplo recente de “bromance” é “Eu Te Amo, Cara”, com Paul Rudd e Jason Segel, onde a necessidade dos amigos de ficar juntos era tão grande que o noivado do primeiro ficou ameaçado.

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Mas surgiu também, no circuito independente americano, “O Dia da Transa”, filme em que a relação entre os dois protagonistas vai além da amizade doentia. Eles tem tanta intimidade que cogitam fazer sexo na frente das câmeras, para inscrever o vídeo num festival de pornô amador! Só que para executar a brilhante ideia, originada à base de muita bebedeira e maconha, um deles vai ter que lidar com a mulher, que é cabeça fechada e não exatamente fã do amigo – por sua vez, um solteiro irresponsável que não tem onde cair morto.

Escrito e dirigido por Lynn Shelton, que recebeu uma menção no Spirit Award deste ano e que interpreta aqui a lésbica liberal, o filme foi ainda premiado em Sundance com uma distinção especial do Júri. Apesar das situações serem pra lá de forçadas, não dá para dizer que não tenha o coração no lugar. Shelton sabe alternar momentos realmente hilários com outros mais sérios e intimistas. Melhor ainda: ela não subestima nenhum de seus personagens, e talvez por isso as interpretações de Mark Duplass e Joshua Leonard, que assumem com candura os papeis principais, sejam tão gostosas de assistir. Filme bacana para os machões verem com seus “miguxos”.

.:. O Dia da Transa (Humpday, 2009, dirigido por Lynn Shelton). Cotação: B-

Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #13: Atalhos Para Hollywood

29 outubro 2009 5 comentários

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A comédia alemã “Atalhos Para Hollywood” foi descrita pelo Guia da Folha como uma derivação de “Borat”, já que também utiliza o formato de falso documentário para mostrar um grupo de amigos perambulando pelos Estados Unidos – e esculhambando, no meio do caminho, elementos indissolúveis da cultura americana. O enfoque aqui é na obsessão pelas celebridades, na busca pela fama, nas baixarias que as pessoas cometem para se aparecer e ainda no público que se rende a qualquer blefe. Uma premissa válida e interessante, enfim. O problema é que tudo é muito, mas muito mal executado. As piadas são de péssimo gosto, as situações que eles criam são vergonhosas, e o saldo final está mais para “Brüno” do que para “Borat” – ou seja, puro escracho e zero conteúdo. E ao contrário do que faz o Sacha Baron Cohen, quase tudo o que se vê aqui foi encenado ou combinado. A crítica ao endeusamento dos famosos ainda funciona, mas sem os autênticos americanos se embaraçando por conta própria. Nas duas únicas cenas rodadas em estado de performance, sem que ninguém pareça ter consciência de que estavam diante de atores disfarçados, a equipe extrapola os limites do aceitável (as sacadas envolvem um braço amputado e uma falsa ameaça de bomba num restaurante)! Escrito, dirigido e protagonizado por amigos na vida real, mas sem um pingo de afinidade entre eles ou com o público. Fujam para as montanhas mas não vejam este filme!

.:. Atalhos Para Hollywood (Short Cut to Hollywood, 2009, dirigido por Marcus Mittermeier e Jan Henrick Stahlberg). Cotação: D-

Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #12: Brilho de Uma Paixão

29 outubro 2009 6 comentários

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Tinha grandes expectativas para “Brilho de Uma Paixão” – primeiro porque Jane Campion é uma boa diretora, segundo porque a protagonista Abbie Cornish tem colhido elogios que devem credenciá-la para uma indicação ao Oscar, e terceiro porque a trama tem enorme potencial cinematográfico. Conta a história do amor não-consumado entre o poeta John Keats (o galã Ben Whishaw) e uma moça de família, a prendada Fanny Brawne (Abbie). Eles eram perdidamente apaixonados, mas as convenções do século XIX impediam que fizessem algo além de trocar beijos – carícias mais íntimas que esta, nem pensar! Nunca chegaram a se casar porque Keats adoeceu e faleceu precocemente (como o caso é verídico, não estou entregando nenhum detalhe comprometedor). Mas certamente se amaram para sempre (Fanny nunca seguiu em frente). Há ainda outro personagem relevante, um amigo de Keats que é contra o relacionamento (Paul Schneider).

O resultado até soa real, mas não particularmente envolvente. É uma produção super caprichada, que deve chegar com facilidade aos Oscars técnicos, em especial Figurino e Direção de Arte. Apostam também numa vaga em Melhor Filme, agora que serão dez os indicados na categoria. Não é para tanto. Campion consegue evitar o dramalhão, mas pesa a mão no romance, que não é bem a minha praia. Imagino que o grande trunfo da fita seja mesmo a presença de Cornish, uma moça gordinha, esforçada, talentosa e competente (ainda que a falta de arroubos dramáticos possa prejudicá-la: os Academistas são mais influenciados por lágrimas visíveis). Na retaguarda, Whishaw está ótimo (é azarão, mas também devia ser reconhecido por alguma premiação) e o americano Schneider incorpora o sotaque galês que é uma beleza (mas o personagem não tem peso para ganhar prêmio algum). Tem quem se comova com o plot ou com a estrutura grandiosa, mas talvez o filme pudesse ter mais força, dizer mais coisas ou ir mais longe. No todo, é bem chatinho. A estreia no Brasil está prevista para Fevereiro de 2010.

.:. Brilho de Uma Paixão (Bright Star, 2009, dirigido por Jane Campion). Cotação: C+

Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #11: O Menino Errado

28 outubro 2009 5 comentários

Por uma questão de horário acabei assistindo ao documentário israelense “O Menino Errado”, que assim como “O Pequeno Buda”, do Bertolucci, é focado na possível reencarnação de um mestre tibetano. Não sou uma pessoa religiosa – minha família é Católica, mas faz tempo que não entro numa Igreja (a não ser em batizados e casamentos, ou como turista), e tampouco acredito em Deus. Mas sempre me simpatizei com o budismo, talvez porque qualquer coisa que eu tenha ouvido do Dalai Lama me tocou mais fundo do que tudo que eu já ouvi de um padre. Só que mesmo essa religião, como todas as outras, tem muitos pilares que não me fazem sentido: eles não só acreditam em reencarnação, mas também que certos indivíduos que atingem um estágio transcendental nessa vida – os chamados “budas” – podem escolher as condições em que retornarão na próxima vida.

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O documentário vai acompanhar a busca de um dos discípulos de Lama Konchog (um buda que morreu em 2001) pela alma reencarnada do mestre. Ele acaba encontrando um garotinho de pouco mais de um ano numa aldeia de lavradores – e os indícios apontam que este seja o Lama reencarnado. Até aí tudo bem: não estava me convencendo de nada desde o princípio. O que me atraiu no filme foi que, apesar de intrinsecamente ligado a religião, não se percebe a má intenção de “converter” a plateia. E quem respeita o meu ateísmo – ou seja, quem não tenta forçar sua religião goela abaixo -, tem também todo o meu respeito e aprovação para acreditar no que quer que seja. A verdade é que o filme me provocou uma sensação de inquietude, porque somos confrontados com uma sucessão de dilemas insolúveis. O garotinho que é tido como a reencarnação do Lama, por exemplo, jamais terá o direito de escolher o que fará da vida: traçaram seu destino por ele. E os pais, como reagir diante de uma notícia dessas? Deveriam confiá-lo ao mosteiro, ou criar o filho como uma criança normal? Mas ainda, como ponderam em certo momento, que vida aquele menino teria se fosse criado como outro qualquer? Estaria fadado a ser mais um lavrador miserável na aldeia, sendo que a outra opção lhe garantiria estudo e boa vida.

O diretor Nati Baratz dá tempo para o espectador entender a situação e as armadilhas que cercam aquelas pessoas. Os mais de cinco anos de filmagem resultaram em 102 minutos de projeção, enxutos e diretos. É interessante também a forma com que o discípulo trata o garoto – ele acredita piamente que o pequeno é a materialização do homem que lhe introduziu ao budismo, e preza os seus deveres com a religião mais do que a própria vida. O resultado é particular, informativo e profundo. Muito provavelmente jamais chegará ao Brasil fora de festivais – e a quem se interessa, tem minha benção para baixar e conferir.

.:. O Menino Errado (Unmistaken Child, 2008, dirigido por Nati Baratz). Cotação: A-

Categorias:Cinema

Filmes da Mostra #10: Vício Frenético

28 outubro 2009 8 comentários

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“Vício Frenético” mostra o cotidiano de um tenente em uma delegacia de Nova Orleans (Nicolas Cage, que está na merda na vida real, embora continue acertando ocasionalmente). Mas tem muito pouco dos filmes sobre o tema, ou nada. O foco é totalmente no protagonista, um sujeito ambíguo, cínico e corrupto, que despreza os colegas de trabalho (entre eles Val Kilmer) e toda e qualquer lei que o cerca. É viciado em analgésicos devido à uma insuportável dor nas costas, que contraiu ao salvar um latino do afogamento – e quando as receitas médicas não surtem efeito, mergulha na cocaína com a prostituta que visita regularmente (Eva Mendes, uma grata surpresa). Envolve-se ainda de um jeito nada ético com os casos que é incumbido de solucionar, abusando do poder para conseguir favores sexuais das mulheres nos estacionamentos das boates, ou coagindo e ameaçando quem for preciso de acordo com seus interesses. Tudo isso sem qualquer punição.

A grande sacada do filme, no entanto, é a abordagem cômica de muitas dessas situações escabrosas. Não é inédito explorar um personagem desonesto através do humor – foi o que Steven Soderbergh fez recentemente em “O Desinformante”, por exemplo. Raras são as ocasiões em que isso funciona com perfeição. E onde Soderbergh falhou, o cineasta alemão Werner Herzog acertou em cheio. Ele tem uma carreira muito singular – e nenhuma palavra define “Vício Frenético” melhor do que esta. Instigante, intenso, safado e hilário nas devidas proporções, o filme é uma das minhas melhores descobertas na Mostra até então (perde apenas para “A Fita Branca”, que está um nível acima de qualquer outra coisa). Mas imagino que não tenha data de estreia definida para o Brasil (a legenda era daquelas eletrônicas, projetada numa tela à parte, e não embutida na cópia). Uma pena. E nada de download! É daqueles especiais o bastante para ver na telona!

Informação etílica: existe um filme honônimo de 92 com Harvey Keitel no papel principal (que não assisti), mas me garantiram que, apesar do plot similar, este aqui não é uma refilmagem, justamente pela ênfase diferenciada do diretor.

.:. Vício Frenético (Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, 2009, dirigido por Werner Herzog). Cotação: A+

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