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A Verdade Nua e Crua

“A Verdade Nua e Crua” tem a badalação, a beleza e os astros que “Falando Grego” não tem, e ainda assim, a nova comédia romântica de Katherine Heigl consegue ser um pouquinho pior do que a de Nia Vardalos. A Izzie de “Grey’s Anatomy” está determinada a se tornar uma referência no gênero, mas como já devo ter comentado por aqui, ela está longe de ser uma Sandra Bullock, e fazer par romântico com o bonitón escocês Gerard Butler não ajudou em muita coisa.

Nessa história descaradamente misógina (originada, sabe-se lá como, por três roteiristas do sexo feminino), um guru (Butler) tenta convencer as mulheres, através de um programa na rede de TV local, de que os homens não prestam. De que para atrair a atenção do sexo oposto elas devem abandonar os ideais românticos, começar a malhar e a se produzir. Os atributos físicos, diz ele, são a única coisa que importa para os machos, e não aquela bobagem de beleza interior. A produtora de um telejornal caído (Heigl) fica chocada ao presenciar um desses discursos, e ainda mais escandalizada quando se vê forçada a trabalhar com esse machista escroto (os executivos do canal o consideram uma boa solução para a queda de audiência). É claro que eles vão se espezinhar, e é ainda mais óbvio que dessas provocações vai nascer um interesse mútuo e genuíno, que também pode ser chamado de amor. Mas o cara se recusa a admitir, pois tal sentimento vai contra todo o ceticismo que prega para o público; e a moça, uma controladora neurótica, vai desviar o tesão para seu vizinho, um médico boa pinta que o próprio guru lhe ajuda a conquistar, em troca de uma relação profissional mais cordial.

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Se você ficou com a impressão de que a trama não faz muito sentido, acertou. Tem uma porção de situações forçadas, difíceis engolir, mesmo se tomarmos tudo o que vemos na tela como parte de uma realidade distorcida e exagerada. A heroína é uma chata de galochas, e não dá para se simpatizar com um mocinho que é um estereótipo do pior tipo de homem que pode existir. Também é difícil acreditar em seu sucesso, já que desde muito antes da revolução sexual suas teorias seriam consideradas ofensivas e absurdas. Aqui, em vez de acabar apedrejado em praça pública, o personagem vai ganhando mais e mais notoriedade, a ponto de ser convidado a aparecer num famoso late show em rede nacional! E nunca esclarecem o motivo de seu ódio contra mulheres e relacionamentos, apesar de ficar claro que seu passado guarda uma experiência desagradável (mas escancaram isso numa cena cafoníssima, quando na entrevista em questão, o apresentador Craig Ferguson lhe faz uma pergunta a respeito e ele faz uma pausa e cara de triste, no estilo “quero ficar sozinho, por favor me deixe”). Ai.

Ou seja, com papeis tão fracos, Heigl e Butler surgem constrangidos. Bem fotografados, é claro, mas péssimos em cena (ela em particular nunca esteve pior, e olha que achei seu timing impecável no filme anterior, “Vestida Para Casar”). Também não ajuda que, da porção de coadjuvantes, a nenhum é dada a chance de marcar – uma irmã e um sobrinho de Butler nunca são desenvolvidos, e o casal de âncoras do telejornal que tem problemas sexuais rende péssimas piadas (Cheryl Hines e John Michael Higgins são bons comediantes e não deviam se submeter a isso). As tiradas cômicas de gosto duvidoso também se estendem aos protagonistas. Para vocês terem ideia, há uma insinuação vulgar de sexo oral num estádio de beisebol e um orgasmo involuntário no meio de um restaurante! Não que pudéssemos esperar muita coisa de um diretor medíocre como Robert Luketic (ele fez o divertido “Legalmente Loira” e um drama bacana que descobri em vídeo, “Quebrando a Banca”, mas já tinha cometido atrocidades como “Um Encontro com Seu Ídolo” e principalmente “A Sogra”). O grande problema dessa vez é que “A Verdade Nua e Crua” é apimentado demais para adolescentes e fútil demais para o público adulto. Só as fãs incondicionais das comédias românticas devem curtir sem ressalvas.

.:. A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth, 2009, dirigido por Robert Luketic). Cotação: D+

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Categorias:Cinema
  1. Caroline®
    22 setembro 2009 às 1:13 pm

    Ai, Louis! Pode esculhambar, mas sabe que eu gostei do filme? Eu achei que é um filme direcionado a certo público, não as mocinhas fãs de comédias românticas, mas as mulheres desiludidas que não entendem os homens. O personagem de Gerard é um alívio, já que representa uma resposta – cruel e feia, é verdade – à dúvida feminina e reafirma um dogma em que aprendemos a acreditar: os homens não prestam. Ao mesmo, tempo, e contraditoriamente, traz um fio de esperança: se aquele traste babaca porco chauvinista do Gerard pode amar a chata, neurótica e intragável Katherine, isso pode acontecer com qualquer uma! É uma ilusão maluca e sem nenhum sentido, é verdade, mas alimenta os pobres corações solitários das moças modernas… Posso lhe afirmar que a mulherada maciça que estava no cinema (fazia tempo que eu não via uma sessão tão cheia – até a frente estava toda ocupada!) se identificou com o filme….
    Resumindo, para captar a ideia do filme são necessários alguns pressupostos: ser mulher, adulta e desiludida no amor!

    • 22 setembro 2009 às 3:46 pm

      Caroline, entendo essa leitura, mas acho ela injusta tanto com as mulheres quanto com os homens. Se os rapazes não são irremediavelmente românticos (porque isso os tornariam basicamente um bando de vaginas ambulantes), pode acreditar que muitos respeitam as mulheres, e um filme que generaliza o contrário é um perigo se visto por mentes mais fracas. Especialmente porque os estereótipos são muito mal aproveitados. Não é preciso ler nas entrelinhas para sacar que tanto a personagem da Katherine quanto o do Gerard já sofreram desilusões amorosas, e que ambos se fecharam para o mundo à sua maneira – embora ela tenha conseguido preservar uma certa esperança, enquanto ele passou a desdenhar de tudo que diz respeito a um relacionamento íntimo. Mas ao final Butler não se redime. Continua com seus conceitos e preconceitos, e o fato de ter se apaixonado prova apenas que o brutamontes tem coração, e não que todas as suas teorias absurdas foram desacreditadas. Sem contar que as piadas são bem fraquinhas. O filme vai fazer sucesso de público, mas sua moral é questionável, discutível. Não o recomendaria a qualquer um.

  2. 22 setembro 2009 às 10:53 pm

    Ah, Louis, eu não achei que Heigl e Butler parecem constrangidos. Pelo contrário. Ela está excelente, como sempre, afinal este filão e este tipo de personagem é sua especialidade. E ele está ótimo como o cafajeste. Só achei uma coisa desse filme: ele é altamente previsível!!! Beijo!

    • 23 setembro 2009 às 7:55 am

      Ka, adorei a Katherine em Ligeiramente Grávidos e ainda mais em Vestida Para Casar, mas com piadas tão fracas, envolvendo insinuações de sexo e orgasmos, ela parece meio desconfortável. E os protagonistas são planos demais para que os dois atores demonstrem talento. Quanto a ser previsível, concordo, mas isso geralmente não me incomoda. É parte do charme das comédias românticas! Beijo!

  3. deise
    23 setembro 2009 às 10:22 pm

    Louis… assista o filme novamente quando estiver com um pouco mais de bom humor!
    A comédia é otima e para mim o casal se mostrou muito a vontade durante as cenas!
    Demonstra que ela é uma ótima atriz e pode se encaixar em qualquer personagem!

    O que não dá pra fazer é brigar com o namorado e ir assistir comédia romantica… dessa forma você não vai achar graça nenhuma, realmente!!!

    =p

    • 23 setembro 2009 às 10:52 pm

      Deise, te garanto que estava de muito bom humor quando vi o filme. E não fui só eu quem falou mal, a reação da plateia também foi bem fria, e consultando o IMDb você vai ver que a média está em torno de 6.5. Teve alguns risos ocasionais, é claro, mas poucos e espaçados. Se Katherine fosse tão boa atriz estaria tentando variar e se desafiar. Comédia romântica a gente já sabe que ela faz bem, e papeis como este já não lhe acrescentam nada (fama talvez, mas não estimulam talento). Em Vestida Para Casar a sua personagem também era esterotipada, mas o humor era leve e de bom gosto, de forma que seu desempenho é bem mais desfrutável. Aqui ela chega ao cúmulo de ter que simular um orgasmo! Fiquei sem graça por ela, assim como todos na cena pareciam estar! =p

  4. Lola
    23 setembro 2009 às 10:56 pm

    Adooooro Katherine Heigl. Não acho que ela esteja longe de se tornar uma Sandra Bullock. Pra falar a verdade, gosto mais dela que da Sandra em alguns momentos. Acho que as pessoas levam alguns filmes muito a sério. Este é um filme leve, somente pra fazer rir e depois ser esquecido no caminho de casa.

  5. Lola
    23 setembro 2009 às 10:59 pm

    Vc elogiou Sandra Bullock, mas desde qndo ela diversifica? A Sandra tem mais de 40 anos e só faz comédia romântica. Seria mto mais fácil pra ela se arriscar do que para Katherine, que ainda é uma iniciante.
    Vi o filme ontem e achei que a platéia adorou. As pessoas gargalhavam o tempo todo.

  6. Lola
    23 setembro 2009 às 11:02 pm

    PS: Não vi nada de tão terrível na cena do orgasmo. Acho que a maior parte das pessoas tbm não, já que até hj todo mundo lembra da Meg Ryan na na famosa cena de Harry e Sally.

    • 24 setembro 2009 às 9:50 am

      Lola, Sandra, como eu comentei no meu post sobre A Proposta, caiu numa armadilha: ela fez muita comédia romântica e seu público fiel se acostumou a vê-la nisso. Mas o que ela quer é se diversificar, tanto que entrou em alguns dramas (Crash), romances (A Casa do Lago) e ação (Velocidade Máxima). Ou seja, mesmo para ela, que já é uma estrela consolidada, está sendo difícil escapar do nicho que criou para si. Se Katherine se focar só nesses filminhos nunca vai ser uma grande atriz. Quanto à cena do orgasmo, é diferente da de Harry & Sally, porque aquele filme era mais bem escrito, e o que marcou não foi Meg Ryan simulando o gozo, mas o comentário de uma velhinha sentada na mesa ao lado (“I want what she is having!”). O roteiro de A Verdade Nua e Crua simplesmente não tem esse vigor.

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