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Meda!

Bem antes de fazer fortuna com a franquia “Homem-Aranha”, Sam Raimi era um diretor de fitas de terror B, daqueles tão toscas e escrachadas que pareciam ter sido feitas no quintal da casa dele. Pois foi justamente dessa precariedade que ele extraiu o sumo de seus filmes mais cultuados, “The Evil Dead” e a continuação “Evil Dead II” (no Brasil se atrapalharam com a tradução dos títulos, que não evidencia a conexão entre os dois – de forma que o primeiro ficou sendo “A Morte do Demônio” e o segundo, “Uma Noite Alucinante”).

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Na primeira parte, de 1981, um grupo de amigos vai para uma cabana isolada na floresta, que alugaram para o final de semana. Mas tinha vivido ali um professor que pesquisava fenômenos sobrenaturais, e que ao fazer uma leitura do Livro dos Mortos acidentalmente despertara as almas do lugar. Conclusão: os espíritos malignos fizeram a festa. Por uma noite, os zumbis voltaram do Inferno para coletar novos aliados (as vítimas dos monstrengos se juntariam ao Exército do submundo para sempre). Em determinado momento, uma força chega a possuir uma árvore para atacar uma personagem, tentando estuprá-la com os galhos! E com a câmera em movimento, como se captasse parte da ação do ponto de vista dos mortos que espreitavam a casa, Raimi conseguiu o amadorismo pretendido e levou o público ao delírio. Só poderia ter abusado ainda mais do humor e fincado o pé no tom de sátira. E isso a segunda parte, de 87, fez com maestria: em “Uma Noite Alucinante”, o sobrevivente do capítulo anterior retorna à cabana por motivos nunca explicados (uma convenção ilógica e bem aproveitada dos filmes de terror). O ator Bruce Campbell assume toda a canastrice, veste a camisa do projeto e se submete à cenas extremamente ridículas (como aquela em que corta fora a própria mão, porque essa parte de seu corpo fora possuída e estava tentando atacá-lo!). Aparece também um casal de namorados cuja moça era filha do professor que iniciou toda a confusão, e outro casal de caipiras que lhes dão carona até o casebre. Todos alvos em potencial dos zumbis, neste que deve ser o melhor exemplar do gênero em todos os tempos: tem as referências no lugar certo, piadas rasgadamente engraçadas, maquiagem cuidadosamente descuidada e um final safado e engenhoso. Para se divertir até não querer mais!

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Eis que antes de embarcar no quarto volume de “Homem-Aranha”, Raimi tirou uma folga para rodar este “Arrasta-me Para o Inferno”, que seria uma forma de retomar suas origens no “terrir”, com roteiro que tinha escrito com o irmão Ivan em 93 e engavetado logo em seguida. Trata-se de outro plot simples e sem requintes, que do primeiro ao último frame tenta tirar sarro das bestialidades do gênero, ou mesmo daqueles que o levam a sério. Na trama, a heroína Alison Lohman quer chegar a subgerente do banco onde trabalha e, para impressionar o chefe, nega prolongar o impréstimo de uma velhinha cigana (a excelente Lorna River). Sentindo-se humilhada, a bruxa roga-lhe uma praga (logo depois de se atracar com a garota no estacionamento!) e deixa Lohman desesperada tentando se livrar do “encosto” – um espírito maléfico que a assombra e promete levá-la para o Inferno ao final do terceiro dia. Tudo é irreal, exagerado, estilizado, cheio de gags e de cenas no melhor estilo gore (não tanto com sangue, mas principalmente com escatologia – o que há de mais nojento no mundo parece estar à procura da boca da protagonista). Até a atuação da mocinha parece intencionalmente artificial, embora seja coisa que só se nota a olho treinado. Se fosse além na brincadeira, com opções ainda mais fortes e escabrosas, Sam faria deste “Arrasta-me Para o Inferno” um futuro cult, tão especial quanto “Uma Noite Alucinante”. Como se refreia um pouco (afinal esta é uma produção mais bem cuidada, com orçamento mais generoso e sem aquele irresistível caráter experimental), entrega apenas um ótimo filme. Dos melhores combos atuais de comédia e terror.

.:. A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981, dirigido por Sam Raimi). Cotação: C+

.:. Uma Noite Alucinante (Evil Dead II, 1987, dirigido por Sam Raimi). Cotação: A+

.:. Arrasta-me Para o Inferno (Drag Me To Hell, 2009, dirigido por Sam Raimi). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. markhewes
    13 setembro 2009 às 12:50 am

    Ah Uma Noite Alucinante é demais, preciso ver o novo dele.

  2. 13 setembro 2009 às 1:20 pm

    Adorei “Drag me to hell”, e a Alison Lohman entrou na minha lista das 5 melhores atuaçoes femininas do ano… detestei os 10 últimos segundos de filme, mas o resto eu amei… Fazia séculos que um filme não conseguia me fazer sentir medo de verdade… e isso que entrecortado por várias risadas…

  3. 13 setembro 2009 às 5:25 pm

    Sam raimi é simplesmente um dos meus diretores preferidos: O Dom da Premonição, Homem Aranha e agora Arraste- me para o Inferno. E também a na produção de O Grito, que quando assisti tinha 14 anos e pulei da cadeira do cinema!!!

  4. 13 setembro 2009 às 5:28 pm

    E Louis !
    Comentando no seu blog olhei para sua foto e descobri que te sigo no Twitter, que legal nem imaginava hehe
    O meu é http://twitter.com/ricardolost23

  5. 13 setembro 2009 às 6:09 pm

    Sam Raimi fez de bom mesmo foi só apenas Evil Dead 2 e Um Plano Simples … o resto … joga no lixo que ninguem faz falta … e toda vez que vejo o trailer de Drag Me To Hell … sinto vergonha …

    • 13 setembro 2009 às 6:14 pm

      Régis, achei Lohman um tanto artificial, mas como comentei no texto, até isso pareceu intencional. Como se Raimi tirasse sarro das mocinhas inexpressivas das fitas do gênero. E tb me assustei e ri muito, muito mesmo!

      Ricardo, não gosto tanto de O Dom da Premonição, mas adoro o primeiro Homem-Aranha. O Grito também é bacana e realmente assustador. E já estou te seguindo no Twitter! 🙂

      JP, bem lembrado, Plano Simples é ótimo! Mas não é bem assim, o Raimi também prestou pra outras coisas rsrsrs…

  6. 13 setembro 2009 às 10:35 pm

    Só assisti à “Arraste-me Para o Inferno”. Um filme nostálgico, divertido e meio assustador e que deve ter sido um bom descanso pro Raimi entre os filmes do “Homem-Aranha”. Beijo!

    • 14 setembro 2009 às 12:16 am

      Ka, tomara que ele não perca o pique e que conduza o próximo “Homem-Aranha” com o mesmo ímpeto! Beijo.

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