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O canto do cisne de Joaquin Phoenix?

Foi para divulgar “Amantes” que Joaquin Phoenix compareceu ao talk show do David Letterman e deu aquela entrevista bizarra e monossilábica, vista por todo mundo no YouTube e parodiada à exaustão, inclusive na festa do Oscar. Barbudo e de óculos escuros, Joaquin foi curto e grosso: abandonaria a atuação depois deste filme para se dedicar apenas à carreira de cantor de hip hop! Ao menos é o que ele quer que as pessoas pensem. Tem quem jure de pés juntos que isso não passa de uma pegadinha, uma armação para um documentário que o amigo e cunhado Casey Affleck está dirigindo (e que seria uma farsa à la “Borat”, com Phoenix interpretando uma versão fictícia dele mesmo). Mas lelé da cuca o Joaquin ficou não foi de agora. Ele testemunhou, ainda muito novo, a morte por overdose do irmão mais velho, o então astro River Phoenix, o que é o bastante para deixar qualquer um desregulado. Também é alcoólatra, tem seus próprios problemas com as drogas e algumas limitações físicas (ele nega ter o lábio leporino, apesar de ser evidente). De qualquer forma é um bom ator, que sempre conseguiu se manter sóbrio nos sets, em período de gravação, recebendo até elogios dos companheiros pelo profissionalismo.

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Toda essa introdução foi para afirmar que sim, Joaquin está excelente em “Amantes”, e será uma perda considerável para a arte de atuar caso realmente jogue para o alto o nome que construiu para si. O sofrimento convém a qualquer intérprete, e sua bagagem emocional certamente foi utilizada na composição deste papel difícil e matizado: um sujeito bipolar que trabalha na lavanderia do pai e que tem o hobby de fotografar. Fora largado pela noiva porque descobriram que eram incompatíveis geneticamente, e que seus filhos nasceriam com sequelas e teriam morte precoce. Tentou então o suicídio em mais de uma ocasião – o que explica porque mora no Brooklyn, no apartamento dos pais (Moni Moshonov e Isabella Rossellini), judeus ortodoxos que tem também o intuito de vigiá-lo. Em meio a essa crise existencial ele vai conhecer, quase que simultaneamente, duas mulheres: uma judia filha de amigos da família (Vinessa Shaw) e uma vizinha loira e eloquente (a melhor-que-nunca Gwyneth Paltrow, digna de indicação ao Oscar). A primeira é delicada e dócil, que logo se atrai por ele mas que é tratada com indiferença. A segunda é tempestuosa, viciada e “mistress” de um homem casado – e é por ela que ele se fascina para, por sua vez, não ser correspondido.

Note que não é uma trama inédita, e sim universal, já explorada antes pelo Cinema numa porção de variantes. Era de se esperar, portanto, que “Amantes” fosse só mais um no meio da multidão. Mas não dá para não se envolver com personagens tão reais, ou interpretações palpáveis a ponto de transcenderem os limites da ficção. O filme é próximo de nós e os tipos são facilmente identificáveis em alguém que conhecemos ou em nós mesmos (quem nunca amou alguém e não foi amado em troca ou vice-versa?). Como é fantástico o diretor e roteirista James Gray! (Informação etílica: Ric Menello co-escreveu o roteiro.) Ele tem o bom senso de desconstruir certos estereótipos e de tornar coerentes e compreensíveis até mesmo as atitudes mais surpreendentes daquelas pessoas. E o mais importante: sabe narrar uma história com particularidades e sentido visual. Preste atenção especial na fotografia, que usa e abusa das cenas escuras, com muita sombra, mas sem pesar a mão como num filme do Clint Eastwood (e perceba aí a importância e a preocupação com a estética). Por sua distribuição dá para adivinhar que “Amantes” não fará boa bilheteria no Brasil, mas quem quiser uma dica de filme bonito, elegante e verossímil, fica aconselhado a experimentar este aqui.

.:. Amantes (Two Lovers, 2008, dirigido por James Gray). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. 7 setembro 2009 às 6:04 pm

    Eu achei “Two lovers” beem inferior a “We onw the night”, mas não deixa de ser um bom filme… e como foi bom rever a Paltrow autando de verdade, e não só fazendo cara de “qual-é-mesmo-minha-fala” como nos últimos filmes dela…

  2. 7 setembro 2009 às 6:47 pm

    Ficou a dica, e me deixou curiosa.
    beijos!

    • 7 setembro 2009 às 7:14 pm

      Régis, este está facilmente entre os meus 5 favoritos do ano até agora! E sempre achei Gwyneth uma boa atriz (não está o desastre que pregam em Shakespeare Apaixonado, apesar de não ter merecido o Oscar, e está bastante digna em A Prova), mas andava meio preguiçosa e há tempos não me empolgava como fez aqui.

      Anna, fico feliz que consegui esse efeito! Beijos.

  3. 7 setembro 2009 às 11:35 pm

    Eu gosto muito do James Gray e da parceria que ele estabeleceu com o Joaquin Phoenix. Tenho curiosidade de ver esse filme até porque é a “última” atuação do Phoenix! Beijos!

    • 8 setembro 2009 às 10:41 am

      Ka, gostei das aspas no “última”! 🙂 Também acho essa história muito esquisita e não vou me surpreender nadinha se Joaquin anunciar um novo filme depois do lançamento do tal documentário! E pode ver o filme tranquila que este é um bom fruto da parceria Phoenix-Gray. Beijo!

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