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Pixar ataca novamente

Confesso que chorei um pouquinho com “Up! – Altas Aventuras”. Tem pelo menos três momentos na nova animação da Pixar (parênteses: nova para os brasileiros; os americanos já estão prestes a vê-la em DVD e Blu-Ray) que vão deixar os mais durões na queda com os olhos marejados. As crianças, então, devem chorar desbragadamente. E não poderia ser diferente diante de uma história tão bonita, tão sensível, tão humana e tão bem contada. Como você deve saber, esta é a epopeia de um velhinho que amarra balões de gás hélio em sua casa e vai flutuando nela até a América do Sul, em busca de aventuras há muito tempo sonhadas, mas sempre adiadas (ele e a esposa se conheceram ainda crianças, quando ambos compartilhavam o desejo de viajar pelo mundo; mas suspenderam os planos por falta de dinheiro e a eventual morte da mulher deu ao bom senhor um propósito para partir nessa jornada: homenageá-la e honrar sua memória). Mas acaba se escondendo no casebre e partindo junto com ele um garotinho escoteiro, hiperativo e intrometido. O velho se impacienta, mas aceita a ajuda e a companhia quando chegam ao destino (umas legendárias cachoeiras) e descobrem uma série de porvires e perigos à sua espera. Envolvendo inclusive uma ave em extinção e um cachorro com um dom incomum, que se tornam seus escudeiros.

pixar_up

Os filmes anteriores da Pixar chegaram ao Brasil quase simultaneamente ao lançamento nos Estados Unidos. Desta vez, contudo, a Disney resolveu adiar a estreia por mais de três meses para não bater de frente com “A Era do Gelo 3”, da Fox, muito popular por aqui, a ponto de ter ultrapassado “Titanic” e se tornado a maior bilheteria de todos os tempos no país (em renda bruta). Os mais ansiosos reclamaram, bateram o pé, ou recorreram ao download caseiro (como é contra meus princípios baixar filmes com data de estreia marcada, por mais longínqua que seja, esperei para vivenciar a experiência na sala de espetáculo). E valeu a espera, apesar de não ser necessário o 3D para desfrutar o longa – este recurso é empregado com sutileza, apenas para conferir profundidade e textura às cenas. São poucos os truques que as crianças tanto adoram, com os objetos que “voam” em direção a elas (se bem que outras animações da temporada como “Monstros vs. Alienígenas” e o próprio “A Era do Gelo” abusavam desse gimmick a ponto de torná-lo um fetiche, um mero adereço estético que em nada contribuía para a narrativa). Mas faltam gracinhas, piadas, uso descontrolado do humor. Opta pela seriedade, pela sobriedade e pela emoção – o que me faz prever que os adultos vão curtir ainda mais do que os filhos, apesar dos apelos inegavelmente infantis.

O diretor e roteirista é Pete Docter, um dos principais nomes da Pixar, este ateliê da animação computadorizada que é indiscutivelmente o melhor do mundo. Ele tinha feito antes disso “Monstros S.A.”, que talvez fosse a minha animação favorita do estúdio (“Up” está reivindicando o posto, mesmo que através de um empate técnico). Docter colaborou também com quase todas as grandes produções da casa: ajudou a elaborar os roteiros dos dois “Toy Story” e de “Wall.E”, foi da equipe da direção de arte de “Vida de Inseto”, e até dublador em “Os Incríveis”. Ou seja, é um cara inatacável, multifuncional, que conhece o ramo e está acima de qualquer crítica. O que ele faz dessa vez, assessorado por outro craque, Bob Peterson (dos times de “Procurando Nemo” e “Ratatouille”), é criar uma aventura leve e despretensiosa, mas tão preocupada com seus personagens que arrebata pelo carinho e dignidade (velhas tessituras dramatúrgicas, como o menino ter o pai ausente, são bem aproveitadas e convergidas em boas soluções). O resultado é um entretenimento rico, no mesmo padrão de qualidade dos antecessores. E talvez ainda mais tocante, graças às doses ilimitadas de desvelo. Obviamente não é pra perder!

.:. Up – Altas Aventuras (Up, 2009, dirigido por Pete Docter). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. Caroline®
    5 setembro 2009 às 2:08 pm

    Nossa, Louis! Que avaliação! Pra um filme de animação, parece que é excelente. Será que a Academia vai pensar igual?????? For the record, mais um pra minha lista…

    • 5 setembro 2009 às 4:46 pm

      Caroline, é sim, pra lá de excelente. Não tenho dúvidas de que Up será o vencedor do próximo Oscar de Melhor Animação, e muito provavelmente também vai entrar na categoria máxima, a de Melhor Filme (agora com as dez vagas deve ter mais chances; e se juntar à A Bela e a Fera como as únicas animações a conseguir o feito). É bonito, edificante, maravilhoso. Um dos que eu recomendo com gusto! 😀

  2. 5 setembro 2009 às 5:17 pm

    se é o mesmo que fez o melhor da Pixar, até então (Monster, Inc.), então deve ser excelente. vou ver em 3D aqui na cidade.
    abraço, Louis 🙂

    • 5 setembro 2009 às 10:04 pm

      Jeniss, fico feliz em saber que tb considera Monstros S.A. o melhor da Pixar. Sempre foi meu favorito do estúdio! Este aqui é, de fato, excelente, mas se precisar esperar para ver em 3D, veja na exibição convencional que não tem muita diferença. Abraço!

  3. 6 setembro 2009 às 6:40 am

    Ai… quero ver. Mas to sem $$.

    • 6 setembro 2009 às 2:55 pm

      Não faz mal esperar mais um pouquinho, Wally! Já esperamos tanto…

  4. raa
    6 setembro 2009 às 9:00 pm

    Oi Louis!Tava sumido (apenas nos comments,pq visito aqui tds os dias…=) ), mas estou de volta!
    Fui ver UP ( em 3D – acho um espetaculo a parte,então quem puder ver desta forma recomendo , pois o filme fica belissimo!) ontem e amei muito!
    Achei quase perfeito!
    Digo ” quase ” pq na minha humilde opinião considero o plot mais fraco de tds os filmes da pixar (tirando carros , q é bem mais ou menos…).
    Achei a parte do vilão/cachorros meio fraca…Principalmente a “motivação” e o plano do vilão…

    Mas a execucão deste plot faz o filme levar a segunda parte do elogio:perfeita!
    Engraçado ,personagens otimas e encantadoras, divertido, ágil,bonito e é de longe o filme mais emocionante da Pixar!
    Me segurei pra não soluçar!
    Mas diferente de vc , achei q é mais emocionante p/ os adultos…
    Os pequenos meio q boiam nas mensagens do filme…
    Ainda + na hora de entender o q a velhice e maturidade acarretam…

    No quesito tecnico , nem precisa comentar nada!Soberbo!

    Acho q o filme é lock tanto na indicaçao,qnt na vitoria do oscar de melhor animaçao,mas tenho minhas duvidas qnt a categoria de melhor filme…
    Apesar de achar q desde Ratatouille e ainda mais c/ wall-e a Pixar caminha pra isso,fico c/ minhas duvidas por causa do conservadorismo da academia (se ben q nestes ultimos anos ate ta diminuindo)…
    O q pesa contra o filme e os anteriores é justamente a criaçao da categoria de melhor animaçao, q pra mim funciona como um ridiculo sistema de reparaçao c/ filmes q muitas vezes são tão bons ou melhores q os indicados na categoria principal…Por isso vai me surpreender se for indicado…
    Mas fico na torcida!
    E outra queria ver se seria indicado , msm c/ apenas 5 indicados…
    Vou ficar na duvida ! =/

    Tarefa árdua de escolher o melhor da Pixar,já q são tds perfeitos e bastante equiparados (vida de inseto e carros são os unicos q nao colocaria neste estagio de perfeição…) mas fico (assumo q muito por nostagia,já q fez parte da minha infância) c/ Toy story 1 …

  5. raa
    6 setembro 2009 às 9:01 pm

    PS:emoção em ver o trailer de Toy Story 3!Sim,aqui em Salvador tds os trailers exibidos foram de filmes 3D e por aí?

    • 6 setembro 2009 às 9:17 pm

      Rafa, senti falta dos seus comentários! Vamos lá: acho que Up está em condições de ser indicado ao Oscar na categoria máxima porque agora as vagas serão 10 (e os anteriores, Ratatouille e Wall.E certamente teriam chegado lá se não fossem apenas cinco – inclusive tem quem diga que a não-indicação de Wall.E e O Cavaleiro das Trevas foi o que fez a Academia mudar as regras). Este aqui foi igualmente um sucesso de público e crítica (no IMDb, é o mais bem cotado dentre todas as fitas do estúdio).

      O plot é realmente muito simples, mas acho que é justamente dessa simplicidade que Up extrai seu sumo. Na verdade todos os filmes da Pixar seguem certas convenções, a ponto do espectador experiente já poder adivinhar desde os primeiros minutos que o vilão será personagem X. Mas isso não anula o prazer da experiência, e sim aumenta a admiração, por um enredo tão bem delineado, narrado com fluidez e extrema competência técnica.

      O 3D imagino que eles tenham colocado pra seguir a tendência, porque não há muito uso do recurso. Na sessão onde eu estava passou o trailer de Avatar, e não de Toy Story. E estranhamente não passou o curta da Pixar – conversando com alguns amigos, vi que o curta passou em algumas sessões e foi limado de outras. Não entendi o motivo disso…

      Mas não devo demorar a rever e, quem sabe, ver o curta!

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