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Cinema para quem tem estômago

“Anticristo” é altamente desaconselhável para quem sofre do coração. É tudo aquilo que disseram: pesado, difícil, denso, de arrepiar os cabelos de muita gente dita moderna e liberal. Dá para entender porque causou tanto alvoroço no Festival de Cannes, onde as vaias são tradicionalmente reservadas para essas empreitadas mais ousadas (o que não impediu que a estrela do longa Charlotte Gainsbourg fosse eleita a Melhor Atriz). Em algumas ocasiões o repúdio neste evento é justificado, como quando as salas que exibiam “Irreversível” em 2002 se esvaziaram no meio da sessão. Naquele caso, o filme do doentio Gaspar Noé se apoiava numa revoltante cena de estupro, que gerou tanta curiosidade a ponto de me fazer deduzir que algumas pessoas tão doentes quanto o diretor poderiam se excitar diante de tamanha violência. Já Lars Von Trier é um sujeito inteligente, com boas ideias e seu jeito particular de executá-las. Por mais cabuloso que seja este seu novo projeto, ele não torna nenhuma de suas opções gratuita ou apelativa. Os momentos mais grotescos são intrínsecos ao roteiro do próprio Lars – ainda que nem sempre fiquem claras as finalidades deste (há inclusive toques animalescos, com a aparição de uma gazela, um corvo e uma raposa. Não me pergunte o porquê desse zoológico).

antichrist

Com dois únicos atores, Charlotte e Willem Dafoe (ambos excelentes), no que poderia ser também uma peça de teatro, esta é a história de um casal que perde o filho pequeno. No sublime prólogo em preto e branco, marido e mulher estão transando tão absortos que não notam que o rebento saiu do berço. O menino sobe na janela para melhor ver a neve e despenca de lá de cima. Consumida pela culpa, Ela recorre aos antidepressivos – mas Ele acredita que pode ajudá-la a superar o luto de outra maneira, confrontando as emoções através de um programa de passos que desenvolve. Juntos se isolam na floresta, numa cabana onde a mãe costumava levar o garotinho, para dar início ao tratamento. E lá vão testemunhar acontecimentos escabrosos e impronunciáveis. A desagregação moral à que chegam aqueles personagens é indescritível, e a intensificação daquele horror psicológico vai fazer o mais durão dos bofes ranger os dentes. Para tal, “Anticristo” passa toda a sua primeira metade criando clima. Exige paciência de espectadores que podem não estar dispostos a fazer esse sacrifício (na sala onde vi o filme pelo menos três pessoas saíram antes do final). Fiquei tentado a fazer o mesmo, relutante, sem saber aonde a história iria chegar ou o que teria a me dizer. Felizmente resisti, para testemunhar as cenas mais fortes do ano (certamente as menos ilustres que vejo em muito tempo), e para concluir que a morte de um filho só é pior do que acontece depois disso. Toda a dor, o sofrimento e o escárnio se externalizam de forma que só alguém que vivenciou tais sentimentos poderia entender – e não foi à toa que Von Trier escreveu o roteiro durante uma crise de depressão. Dessa vez, o movimento que ajudou a fundar, Dogma 95 – que apostava na câmera de mão e no baixo orçamento para realçar a brutalidade da narrativa -, não poderia ter sido mais funcional ou conveniente.

.:. Anticristo (Antichrist, 2009, dirigido por Lars Von Trier). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. Régis
    4 setembro 2009 às 2:49 am

    To com ele aqui no pc, só no aguardo da legenda. Lars von Trier é o cara.

    • 4 setembro 2009 às 4:39 am

      Régis, o filme teve uma estreia tão limitada nos cinemas brasileiros que download parece ser mesmo a solução para os que tem urgência em vê-lo.

  2. Caroline®
    4 setembro 2009 às 4:06 pm

    Esse eu passo. Tô correndo léguas de filmes pesados e deprimentes….

    • 4 setembro 2009 às 8:38 pm

      Caroline, conheço pessoas que se recusam a assistir filmes do tipo! De fato é bem agonizante. Acho que só sendo meio masoquista para admirar o trabalho do Lars! huahuahua.

  3. 4 setembro 2009 às 10:11 pm

    Eu tenho uma relação meio ame ou odeie com o cinema do Lars Von Trier. Às vezes, acho que ele quer nos chocar deliberadamente, mesmo assim, devo conferir “Anticristo”. Beijo!

    • 4 setembro 2009 às 11:12 pm

      Ka, certas opções do Lars em alguns dos seus filmes o fazem parecer um aproveitador. Mas gostando ou odiando o resultado, sempre fico hipnotizado! A ponto inclusive de não saber exatamente o que achei do longa. Beijo!

  4. markhewes
    5 setembro 2009 às 4:23 pm

    Eu quero ver. Talvez veja essa semana. 🙂

  5. markhewes
    5 setembro 2009 às 9:12 pm

    Estou com medo.

    • 5 setembro 2009 às 10:01 pm

      Eu também estava, porque tinha lido comentários assustadores a respeito do filme. E ainda assim consegui me espantar!

  6. 6 setembro 2009 às 6:41 am

    Outro que quero ver… mas nem chegou por aqui.

    • 6 setembro 2009 às 3:36 pm

      Wally, por enquanto o filme só está no eixo Rio-São Paulo, mas se essa é sua praia, não perca quando aportar aí!

  7. markhewes
    11 setembro 2009 às 2:07 am

    Louis, eu vi, eu vi e dou a mesma nota que você deu, merece um B+. Na verdade achei mais pesado o tom do filme que as próprias cenas. É muito bem dirigido, mantém um clima interessante do inicio ao fim.

    • 12 setembro 2009 às 5:05 pm

      Mark, confesso que a princípio a minha atenção oscilou (porque com exceção do maravilhoso prólogo, o ritmo é difícil de acompanhar), mas quando tudo culminou naquele ato final anárquico recobrei o interesse!

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