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A Teta Assustada

“A Teta Assustada”, longa peruano ganhador do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, é outra estreia restrita às salas de São Paulo. Vou reprimir o garoto de oito anos que vive em mim (que está doido para fazer uma porção de piadinhas infames com o título excêntrico) e recomendar o filme aos paulistanos. Em especial, àqueles que estejam acostumados com fitas de arte. Se este é o seu baile, vá lá!

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Basta dizer que é uma das coisas mais diferentes e originais que aparece nos cinemas em tempos recentes. A trama é muito esquisita, mas vou tentar explicá-la em linhas gerais: uma moça indígena, amedrontada pelas lembranças da mãe (que fora violentada por guerrilheiros em sua juventude), insere uma batata na vagina para se prevenir de estupros! Mas a batata vai crescendo dentro dela, o que lhe provoca todo tipo de sangramento. Como moram numa aldeia supersticiosa, dizem que os males da mãe lhe foram transmitidos na amamentação – por isso o apelido Teta Assustada (o filme ainda vai mostrar outra porção de crendices, sempre com uma sobriedade quase documental). Ela e a mãe também costumavam cantar uma para a outra melodias inventadas pelas próprias. Só que a mãe morre logo nos primeiros minutos. Sem dinheiro para um funeral decente, enrolam o corpo dela em lençóis e a deixam num quarto trancado enquanto decidem o que fazer (o tio da protagonista chega a cavar uma sepultura no quintal, mas ela acaba se tornando uma piscina improvisada, como aquelas que se vê nas Pérolas do Orkut). E a Teta Assustada vai trabalhar como doméstica para uma concertista, que começa a adaptar para o piano as canções que ela cantarola – em troca a Teta vai ganhando as pérolas de um colar, que planeja vender para dar à mãe um enterro apropriado.

Não disse que era esquisito? Pois saiba que, além de canhestro, incômodo e excessivamente latino, o filme ainda surpreende com sua doçura, sensibilidade e capacidade de emocionar. A diretora é uma tal Claudia Llosa, que só tinha um filme no currículo, “Madeinusa” (não o vi, mas a ficha informa que é com a mesma atriz deste aqui, Magaly Solier – ótima, aliás). Leva jeito a mulher. Fez um filme sobre o sentimento de perda e conseguiu não deixá-lo enfadonho e contemplativo. Pelo contrário: é interessante, bem acabado, com ritmo bem balanceado. E muito realista. Conheço o Peru e convivi, ainda que de passagem, com essa cultura retratada. O que para nós é programa de turista, para Llosa é uma vivência. São histórias para serem contadas com carinho e respeito, mesmo que através de um plot tão anti-convencional. Acertou em cheio!

.:. A Teta Assustada (La Teta Asustada, 2009, dirigido por Claudia Llosa). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. 1 setembro 2009 às 9:53 pm

    Acho o título deste filme um barato! rsrsrsrs E já li textos suficientes para me deixarem com bastante vontade de conferir a obra. Beijo!

    • 1 setembro 2009 às 11:01 pm

      Ka, eu me lembro da nossa zoação na comunidade quando o filme ganhou o prêmio máximo em Berlim!! hahaha. Mas sabe que é bem interessante né? Veja se chegar aí! Beijo!

  2. 2 setembro 2009 às 1:44 am

    Estou super curiosa pra ver, mas nem sinal por aqui! =/

    • 2 setembro 2009 às 2:16 am

      Jô, é mesmo uma pena que um filmão desse tenha sido tão mal distribuído! 😦

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