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Aldeotas

Essa dica chega tarde aos leitores, e de qualquer forma seria restrita aos paulistanos: a peça “Aldeotas”, escrita e protagonizada por Gero Camilo, está saindo de cartaz após curta temporada no Tuca. Mas como vem sendo encenada, aqui e ali, desde 2003, não devem faltar oportunidades para ser vista futuramente. E vale a conferida. Pela primeira temporada a diretora Cristiane Paoli Quito ganhou o prêmio Shell, a honra máxima do teatro nacional, equivalente ao Tony nos Estados Unidos; o espetáculo foi ainda indicado como Melhor Iluminação, Melhor Ator e Melhor Autor, as duas últimas para Gero. Nada mais justo. Ainda mais considerando que esta é uma produção modesta, feita com poucos recursos, encenada numa arena simples (com uso completo do espaço cênico) e com muito texto nas costas de dois únicos atores (Gero tem vaga cativa e no papel do amigo os profissionais se alternam; Caco Ciocler fez por um tempo e na montagem recente entrou Marat Descartes).

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Trata-se de uma história divertida, sensível e palpável, que usa e abusa das simbologias à que o palco dá direito, mas que mantém também um pé sempre fincado no realismo. Na cidadezinha fictícia Coti das Fuças, dois amigos de infância vão se reencontrar e relembrar, em fragmentos, passagens da juventude. Gero interpreta Levi, o mais excêntrico, um aprendiz de poeta que sonha, logo no início da peça, que está sendo carregado para dentro de um formigueiro! (O clima de teatro experimental não permanece, e a trama engrena logo em seguida.) Levi tem cinco anos e brinca diariamente com o melhor amigo Elias (Marat, outro ator ótimo, vencedor do Shell em 2007 por “Primeiro Amor” – que, como diria Silvio Santos sobre o filme da Sessão das Dez, “não vi, mas ouvi dizer que é muito bom”). “Aldeotas” vai saltando no tempo, através de flashs da infância, do início da adolescência e da idade adulta. Aborda, no meio do caminho, a descoberta da sexualidade (Levi é afeminado e, para “endireitá-lo”, o pai – nunca visto, apenas mencionado – o leva para o bordel), os problemas familiares (o pai de Elias é alcoólatra e bate na mulher), os namorinhos juvenis (com a chegada das primas dos heróis), a manifestação de um talento (os dois levam jeito para as letras e imprimem, de forma primitiva, um jornal escolar) e as esperanças por uma vida melhor (deduzem que Coti das Fuças é pequena demais para suas ambições e planejam fugir para a metrópole depois da formatura).

Ou seja, é uma peça pra todo mundo rir e se emocionar nas mesmas proporções. E quem sabe até se identificar com os personagens, que carregam certa verdade e ganham o público sem esforço. Os atores são tão bons que até parecem estar improvisando onde na verdade respeitam o roteiro. Comecei a experiência relutante e em pouco tempo estava rendido aos dois (apesar de Marat não ter tantas chances e do melhor texto ter ficado com Gero). Aliás, que ator é este, hein? Ele entrou no meu ballot como um dos melhores coadjuvantes do Cinema em 2001, entre qualquer nacionalidade, pelo trabalho em “Bicho de Sete Cabeças”. Por sua fisionomia exótica não se encaixa em qualquer papel, mas por isso mesmo se volta para esses tipos mais humanos, em produções independentes, que lhe dão a chance de exercitar os músculos interpretativos e de evitar os personagens banais da TV. Se dá certo, como neste caso, ganha prestígio. Se não repercute, ao menos fica com as boas lembranças da experiência. E este cearense estranho, baixinho, “destamanico”, consegue ser, com folga, um dos melhores atores brasileiros em atividade.

.:. Aldeotas. De: Cristiane Paoli Quito. Com: Gero Camilo e Marat Descartes. Teatro Tuca. Rua Monte Alegre, 1024. R$40,00. Cotação: B+

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Categorias:Teatro
  1. 31 agosto 2009 às 10:40 pm

    Que coincidência Louis! Vi essa peça em Curitiba, acho que em 2004. Concordo com você, é ótima. Gero Camilo é um ator brilhante!

  2. 1 setembro 2009 às 12:00 am

    Faz TANTO tempo que não vejo uma peça de teatro!!! Beijo!!

    • 1 setembro 2009 às 12:09 am

      Jô, que bacana! Nem sabia que tinha ido praí! É mesmo um programa ótimo e a dupla de atores arrasa!

      Ka, eu também fiquei um tempão afastado do teatro, mas ultimamente ando vendo bastante coisa. Esse aqui é muito legal e, se for praí, não deixe de ver! Beijo!!

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