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É tudo verdade

Cinebiografias estão na moda, apesar da melhor e mais inovadora delas, “Amadeus”, ter ficado lá nos anos 80. O que se vê ultimamente são fitas cada vez mais banais e convencionais, que servem apenas como veículo para o show de seus protagonistas. Os atores, que de bobos não tem nada, estão cientes de que personagens reais podem lançá-los em posição privilegiada na disputa pelo Oscar (e de que a Academia está tão vendida a papeis biográficos que premiou nove deles nos últimos sete anos). Pouco importa que a maioria dessas personificações esteja envolta em sinais de vaidades ou histrionismo, como se os intérpretes saboreassem sua dedicação e competência: o público se rende mesmo assim. Eis alguns dos filmes do nicho que conferi recentemente.

BeforeNightFalls1

* Antes do Anoitecer (Before Night Falls, 2000, dirigido por Julian Schnabel): Antes de se consagrar com o belo “O Escafandro e a Borboleta”, o artista plástico Schnabel trouxe às telas a vida do escritor cubano Reynaldo Arenas, com Javier Bardem no papel principal. É um grande trabalho do ator espanhol, mas não dá para entender porque rodaram o filme em inglês e não na língua nativa do biografado. O roteiro é discutível e a narrativa é bastante truncada, episódica, sem fluência (não fica claro que acontecimento A levou a B que levou a C e assim por diante). Uma pena, porque bom material não faltava: Arenas, poeta e homossexual, lutou para combater o comunismo e a política de Fidel Castro, foi encarcerado e torturado na prisão, conseguiu exílio em Nova Iorque e lá veio a morrer precocemente, vítima da AIDS. Aos fãs de Johnny Depp, esta é a chance de vê-lo se alternando em dois papeis coadjuvantes, um deles o de um travesti. Cotação: C+

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* Chaplin (Idem, 1992, dirigido por Richard Attenborough): Muitos se lembram da biografia que o diretor de “Gandhi”, também conhecido como o velhinho de “Parque dos Dinossauros”, fez sobre Charlie Chaplin, provavelmente o artista mais performático que o Cinema já viu. Robert Downey Jr. o interpretou com tanto afinco que acabou descolando sua primeira indicação ao Oscar (depois disso se afundou nas drogas, foi preso em várias ocasiões e penou para recobrar o prestígio e chegar à boa fase em que está hoje). O mais curioso, contudo, é a presença no elenco da filha de Chaplin, Geraldine, no papel da mãe do cineasta (sua avó na vida real)! Vindo de uma infância dura na Inglaterra (foi criado em orfanatos, já que o pai abandonara a família e a mãe fora levada para um asilo em função de seus problemas mentais), Chaplin fez sucesso como comediante nos teatros dos Estados Unidos antes de ser levado para o Cinema (a indústria dava seus primeiros passos e o negócio era precário). O filme é recomendado aos que desejam saber um pouco mais sobre o ícone Charlie Chaplin – mas não gosto de algumas opções de Attenborough, que cria algumas cenas estilizadas, puxadas para o pastelão, como nas obras do personagem-título (tais alegorias funcionam melhor no palco). Cotação: C+

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* Fome (Hunger, 2008, dirigido por Steve McQueen): Vi no exterior esta produção irlandesa ainda inédita no Brasil. Seu tema é espinhoso: conta como o prisioneiro do IRA Bobby Sands (Michael Fassbender, que poderá ser visto no próximo filme do Tarantino) conduziu uma greve de fome reivindicando o Status de Categoria Especial (que o definiria como um preso político e o diferenciaria de um criminoso comum), e como se manteve firme aos seus ideais até a morte por inanição, 66 dias depois. O diretor, xará do finado astro de cinema, opta a princípio por uma narrativa quase poética (que por escapar dos moldes tradicionais evita julgamentos morais). Porém, como uma anedota, “Fome” se constrói em torno de seu desfecho – e este é infalível, arrebatador e nada sutil. A transformação física a que Fassbender se submete é espantosa. Ele emagrece e se debilita, mas se mantém tão expressivo, tão dentro de cada momento, que jamais deixa dúvidas sobre os méritos de sua performance: são todos dele, e não do regime. Aplaudo ainda o roteiro, que se refreia, não envereda para o cinema político e trata todos os personagens, dos prisioneiros a um carcereiro em particular, com dignidade (inclusive distribui o foco da ação para não situar nem mesmo Sands como um mártir). Cotação: A+

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* Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008, dirigido por Gus Van Sant): Um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano, “Milk” rendeu as estatuetas de Melhor Ator para Sean Penn e a de Melhor Roteiro Original para Dustin Lance Black (que veio de uma comunidade mórmon e é um dos colaboradores da série “Big Love”). A vitória de Penn gerou discordâncias, já que Mickey Rourke vinha com o mesmo favoritismo por “O Lutador”. Ou seja, serviu para confirmar tanto o tesão da Academia por personagens verídicos quanto a imparcialidade dos votantes (Rourke tem um passado de arrepiar, cheirou pó pra dedéu e ganhou a antipatia dos membros da indústria que testemunharam seus dias de cão). Mas não dá para desmerecer Sean, que é um deus da atuação e que mergulha fundo na alma de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ocupar um cargo público nos Estados Unidos (foi eleito conselheiro de São Francisco, depois de muitas tentativas e reivindicações). Seria assassinado por um colega da câmara, um homofóbico que mataria também o prefeito da cidade. Da primeira vez que assisti não me impressionei com o resultado, apesar de ter achado o elenco espetacular e acima de qualquer suspeita (Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsch e Allison Pill são alguns dos notáveis coadjuvantes). A minha segunda impressão, porém, foi mais favorável. Gus Van Sant se sai melhor quando lida com histórias sinceras como esta do que quando inventa moda como o pavoroso “Elefante”. Cotação: A-

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* Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007, dirigido por Olivier Dahan): Marion Cotillard tem uma das melhores atuações da década como a legendária Edith Piaf, a cantora que descarregava no palco as suas doses colossais de sofrimento. O filme, porém, não está à altura do talento de sua protagonista. Perde pontos pela narrativa esquemática, complicada por uma montagem não-linear e prejudicada ainda pela omissão de fatos relevantes da vida da biografada (ou pela ênfase em outros pontos desnecessários). Não aborda, por exemplo, as manifestações de Piaf contra a Segunda Guerra, e joga para um flashback apressado no final a informação de que ela teve uma filha, que morreu ainda criança vítima da meningite (e com quem Edith era negligente). Por outro lado, a caprichada reconstrução de época e, principalmente, o excepcional trabalho de maquiagem que facilita a imersão de Marion na personalidade são dignos de elogio. Cotação: B-

E você? Quais foram os últimos casos reais que viu retratados no cinema?

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Categorias:Cinema
  1. 30 agosto 2009 às 6:59 pm

    Não vi Antes do Anoitecer e Fome. Gosto de Chaplin e Piaf, e ainda mais de Milk. Mas onde já se viu Sean Penn ganhar o Oscar acima do Mickey Rourke? Não concordo!

  2. Lucas
    30 agosto 2009 às 11:26 pm

    Desses aí só vi Piaf, que achei chato de td. só que a atriz arrasa!

    • 31 agosto 2009 às 12:06 am

      Jô, também gosto muito do trabalho do Mickey Rouke, mas coloco ele e Sean no mesmo nível de merecimento. Até porque Penn, além de captar todos os trejeitos do Milk, não ficou devendo dramaticamente!

      Lucas, Piaf não agrada a todos, mas acho que há um consenso em relação ao trabalho de Marion. Realmente excepcional, digno do Oscar que recebeu.

  3. 1 setembro 2009 às 7:09 am

    Gosto bastante de “Antes do Anoitecer” e “Piaf”, mas o melhor aí é “Milk”. Preciso ver “Chaplin”, que adquiri recentemente.

    • 1 setembro 2009 às 2:14 pm

      Wally, dentre os três Milk é mesmo o melhor – mas Fome é tão sensacional que até assusta! Foge por completo das convenções de uma cinebiografia e conta com honestidade uma história impressionante. E também tenho Chaplin em DVD, apesar de achar o filme irregular (mas muitos da minha coleção eu acho discutíveis, e alguns que ganhei ou comprei sem nunca ter visto eu simplesmente detesto!) 🙂

  4. Gustavo H.R.
    1 setembro 2009 às 2:52 pm

    Vi MILK, CHAPLIN e PIAF e, no mais, concordo com as opiniões aventadas para cada um!

    • 1 setembro 2009 às 4:15 pm

      Gustavo, que bom que concordamos! Recomendo então que descubra os outros, nem que seja pra conferir grandes atuações.

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