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Da Broadway para a Brigadeiro: A Bela e a Fera

“A Bela e a Fera” dispensa introduções. É muito antiga esta fábula francesa sobre a mocinha sonhadora que é aprisionada num castelo guardado por um monstro (na verdade um príncipe enfeitiçado), e que acaba se apaixonando por ele à medida em que desperta sua humanidade. Mas foi em 1991, com o filme da Disney, que a história se popularizou e ganhou sua versão definitiva. Em parte porque inventaram coadjuvantes memoráveis (os serviçais da Fera também acabaram sendo vítimas do feitiço, transformados em bules, relógios, candelabros etc.), em parte porque contavam com canções extraordinárias de Alan Menken e Howard Ashman (seria o último trabalho de Ashman; muito debilitado pela AIDS, ele começou a escrever as músicas de “Aladdin” e faleceu antes de completá-las, sendo substituído por Tim Rice). “A Bela e a Fera” também é a única animação a concorrer na categoria mais nobre do Oscar, a de Melhor Filme.

Nos parques da Disney está sempre em cartaz uma peça de teatro inspirada no longa, mas nada supera a versão que estreou na Broadway em 94. Mais caprichado, elegante e grandioso, o musical foi encenado em Nova Iorque por treze anos e, nesse meio tempo, levado na íntegra para cerca de vinte países, interpretado por artistas locais. É uma produção cara, custosa, mas tão famosa e bem-amada que já arrecadou um bilhão e meio de dólares mundo afora (o preço do ingresso no Brasil é salgado, o que torna a peça restrita para a classe média alta – eu mesmo só fui ver em dia promocional). A primeira versão nacional chegou a São Paulo em 2001, para deixar o Teatro Abril um ano e meio depois. Foi vista por meio milhão de brasileiros e tão elogiada que se fez necessário esse revival em 2009. Tudo nos moldes da Broadway: os 32 cenários, as centenas de figurinos e perucas, os efeitos de cena, a orquestra ao vivo. As letras foram adaptadas por Cláudio Botelho, que estranhamente modifica algumas linhas da tradução eternizada no filme (o tema principal foi quase todo adulterado). Miguel Briamonte, de outras importações de alto nível como “Chicago”, “O Fantasma da Ópera” e “Miss Saigon”, é o diretor musical.

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Deixo claro que “A Bela e a Fera” não é bom como “O Fantasma da Ópera” – é muito melhor. O musical de Andrew Lloyd Webber é mais conhecido, mas nada mais é do que uma sucessão de operetas, ou no máximo um espetáculo de grand guignol. Também está degraus acima do kitsch e cafona “A Pequena Sereia”, outra adaptação de Disney/Menken para a Broadway que pode aportar em terras tupiniquins em breve. O elenco brasileiro está no mesmo nível de excelência do americano, todos os integrantes muito bem escolhidos. Talvez porque resistiram ao impulso de escalar atores globais. Devem ter percebido que, numa peça também apropriada para crianças, é bobagem correr atrás de grandes nomes (ou alguém aqui acha que Danielle Winits e Edson Celulari conseguiriam papeis de destaque em “Chicago” e “Hairspray” se fossem fulanos de tal?). A mais famosa aqui você nem vai conhecer se eu não explicar quem é: Lissah Martins, a Bela, era uma das componentes do grupo “Rouge”, onde se apresentava com o nome artístico Patrícia. Ela não tem a mesma desenvoltura de Kiara Sasso, a nossa Bela original, mas é meiga e bem mais bonita – pré-requisito básico para dar vida à essa heroína em particular. Ricardo Vieira é a Fera, tão bem quanto Saulo Vasconcelos, e Murilo Trajano é o vilão Gaston (Daniel Boaventura foi este último na montagem de 2001, antes de se bandear para a Globo, com resultado ainda melhor).

São dois atos, com intervalo de vinte minutos entre eles, e duração aproximada de 2h40. As graças ficam por conta dos coadjuvantes (Marcos Tumura e Jonathas Joba, o Lumiére e o Relógio, são uns dos únicos a reprisar o papel; o bule Sra. Potts é Paula Capovilla), e as gracinhas são todas do menininho que faz a xícara Chip – fofo até onde dá e mais um pouco. Há dois clímaxes indeléveis: o primeiro é na taverna onde Gaston e seus comparsas fazem uma dança muitíssimo bem coreografada com os copos (quem ensaiou foi Floriano Nogueira, respeitando escrupulosamente as coreografias da Broadway) e o segundo é quando o staff da mansão convida Bela para um banquete. “Be Our Guest”, ou “Pra Você”, que no filme parecia um show dos anos 30, resulta de muito bom gosto, sem pender para a cafonice (e a participação de tudo que é objeto, entre talheres, saleiros e pratos, fazem aumentar nossa admiração pelas fantasias). Não é preciso dizer que a transformação de Fera em Príncipe ao final é impressionante e irretocável.

Você notou que citei uma grande quantidade de nomes no texto acima. É para realçar, um a um, os artistas talentosos e competentes que temos aqui. Para aplaudi-los de pé. E para recomendar aos paulistanos que ainda não assistiram (ou mesmo àqueles que só estejam de passagem por São Paulo) que não percam a chance de testemunhar essa maravilhosa empreitada antes que saia de cartaz.

.:. A Bela e a Fera. 160 min. Livre. Teatro Abril (1.533 lug.). Av. Brig. Luís Antônio, 411. Tel. (011 6846-6060). 4.ª 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 17 h e 21 h; dom., 16 h e 20 h. R$ 70/ R$ 240. Cotação: A+

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Categorias:Teatro
  1. 28 agosto 2009 às 12:10 am

    Você viu A Bela e a Fera, Louis???? Morro de vontade, mas não tem chances de chegar aqui em Minas, nem de eu ir para São Paulo para ver! 😦

    • 28 agosto 2009 às 12:15 am

      Vi sim, Jô. Pela terceira vez, mas primeira nessa temporada. Mas é mesmo uma pena que o espetáculo não viaje para outros pontos do país!

  2. Caroline®
    29 agosto 2009 às 2:02 am

    Caro Louis, estou cinéfila! Ontem fui ver Se Beber, Não Case. Acho que superestimei, e não achei megaengraçado como imaginava. As piadas são bem masculinas, né. Mas o filme é muito bom (o cunhado gordinho semiautista é a cereja do bolo). Também achei que o nome original cairia melhor. Que mania de traduzirem toscamente os nomes dos filmes! Por isso que o Spielberg exige tradução literal, e não deixa que estraguem sua ideia. E hoje fui arriscar “Os Normais 2”. Não sei se valeu o ingresso, não (ainda bem que fui num cinema mais modesto…) Minha cotação seria B-.

    • 29 agosto 2009 às 2:22 am

      Caroline, algo que eu esqueci de cobrir na minha resenha: Se Beber Não Case é mais para o público masculino. As mulheres também podem aproveitar, mas os rapazes vão se identificar mais com as situações (não é programa, por exemplo, para namorados). Eu ri do começo ao fim, apesar de achar algumas peripécias forçadas (mas como é comédia a gente é mais tolerante com isso). De qualquer forma, o cunhado sem noção é o coadjuvante mais risível do ano! 🙂 E o título nacional é, de fato, infeliz.

      Eu adorava Os Normais, a série, mas não gostei muito do primeiro filme. O trailer do segundo foi calamitoso (e geralmente colocam as melhores piadas no trailer, então imagino o resultado geral). Devo ver no meio da semana, impulsionado pela dupla (principalmente Fernanda Torres, que é sensacional e faz comédia como ninguém). A sua avaliação é bem positiva para o que eu espero do filme, e espero conseguir dar uma cotação nesse nível.

      Beijo.

  3. Caroline®
    29 agosto 2009 às 2:38 am

    Na verdade, minha cotação é com boa vontade, Louis. Fiquei muuuito tentada a dar um C+, ou mesmo um C-….

    • 29 agosto 2009 às 3:08 am

      Ih… Vou esperando uma catástrofe para, quem sabe, me surpreender positivamente.

  4. lelacastello
    11 setembro 2009 às 3:18 am

    Toda menina (pelo menos toda que eu conheço) tem algum desenho/princesa/principe da Disney que mais marcou sua infância, e para mim todos saíram da Bela e a Fera. Fui ver o espetáculo e concordo com tudo que você disse (claro, sempre) mas achei que os coadjuvantes se saem até ligeiramente mlhor do que os atores principais. O ator que fez o Gaston roubou o show para mim, mas eu culpo minha mãe, que foi ver a peça alguns dias antes e ficou todos os dias reclamando que a Fera era pequena e nada assustadora/atraente. Mãe sabe pegar no subconsciente, não é mesmo ? Mas amei a peça e gostaria muito de ver de novo, assim que juntar algum dinheiro.

    • 11 setembro 2009 às 4:18 am

      Rafaella, os coadjuvantes são mesmo os melhores do show! Vi a primeira montagem e os protagonistas eram mais fortes – a moça do Rouge é meiga demais e a Bela pediria por mais força e menos fragilidade. Prefiro o primeiro Gaston, Daniel Boaventura (quem viu com o Nando Prado no papel também elogiou), mas acho que esse rapaz de agora se saiu super bem para um novato e desconhecido. E o ator que faz a Fera é mesmo muito baixinho haha… Mas tem ótima voz!!!

      O filme, que inclusive revi na semana passada, é o meu preferido da Disney. Lindo, lindo e lindo. Lembro de cor todas as canções da minha infância! 😉

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