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Buffy Decide Morrer

“Veronika Decide Morrer” é um dos únicos livros do Paulo Coelho com que eu tive contato (cheguei ao meu limite na minha última tentativa, “O Alquimista”). Ele pode vender que nem água e ser respeitado internacionalmente (e até dentro do país, depois que venceu os velhinhos da Academia Brasileira de Letras por exaustão), mas continuo abominando o mago-wannabe. Nunguento a autoajuda, as sabedorias de rodoviária, os parágrafos lotados de chavões e as ofensas à gramática. Tem quem se satisfaça, mas definitivamente não estou entre eles. Favor não insistir.

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Enfim: essa produção americana “Veronika Decide Morrer” é a primeira adaptação cinematográfica de um livro do autor brasileiro. A personagem-título foi transformada de eslovena em nova-iorquina, e é interpretada pela Sarah Michelle Gellar, a eterna Buffy, a Caça-Vampiros. Conta a história de uma moça bonita, com bom emprego e boa saúde, que um dia resolve se matar. Simples e direta, toma uma overdose de medicamentos logo no início do filme, mas é resgatada e levada para uma clínica psiquiátrica. Lá descobre que o incidente lhe causou danos irreversíveis no coração, e que vai morrer de qualquer jeito em questão de semanas. Enquanto espera o fim de sua vida, vai convivendo com os outros pacientes do lugar – a colega de quarto é Erika Christensen; uma advogada deprimida é Melissa Leo – e tendo sessões com o terapeuta responsável (David Thewlis). Desperta também o interesse de um garoto problemático (Jonathan Tucker), internado desde que surtou com a morte da namorada (porque escolheram um rapaz tão feio e tão sem química com a protagonista é um mistério não solucionado). O desfecho você pode adivinhar sem esforço.

Assim como o texto em que se baseia, o filme surge abarrotado de lições de vida e mensagens positivas de esperança. Mas não é “pra cima”, e sim excessivamente melancólico, lento, sem ritmo ou rima. A moral, é claro, prega que a felicidade está presente nas pequenas coisas. Difícil é acreditar que Veronika só tenha se dado conta disso dentro de um manicômio – não seria mais fácil assistir a “Amélie Poulain” e chegar à mesma conclusão? A diretora Emily Young não tem um currículo extenso, mas merece certa condescendência por insistir bravamente num ramo dominado por homens (é preciso ser um pouco macho para ocupar o cargo, com tantos subordinados para comandar e tantos egos inflamados para refrear). Ela demonstra talento e olho clínico para cinema (note como intercala as respostas de Veronika às perguntas triviais dos médicos com cortes rápidos – onde visualizamos a infância, o apartamento e o local de trabalho da personagem), mas não pode fazer milagres com um roteiro falho, dramaticamente fraco e sem impacto, que sequer aborda o medo da morte (como a personagem está ansiosa para morrer de uma vez, não se discute sobre o pós-vida, tampouco se aprofunda nos motivos que a levaram a tentar o suicídio pra começo de conversa – tudo fora explicado na introdução, de forma não muito convincente). Ah, e todos os coadjuvantes são mal aproveitados.

É até uma alegria constatar que o elenco se defende bem desses porvires. Os papeis deixam a desejar, mas os atores são expressivos, competentes e mantém o foco. Thewlis e Leo dispensam qualquer comentário – são veteranos confiáveis, ainda que subestimados (Melissa teve um reconhecimento justo, porém tardio, no início do ano: uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Rio Congelado”). E o rosto do filme, Sarah Michelle, não dá motivos para reclamações. Ela foi atriz infantil, é mirrada, tem o nariz arrebitado e fotografa mal, mas tem potencial. Só carece de melhores chances para explorá-lo. Infelizmente para Sarah, não foi com este filme que conseguiu.

.:. Veronika Decide Morrer (Veronika Decides to Die, 2009, dirigido por Emily Young). Cotação: D+

Categorias:Cinema
  1. markhewes
    27 agosto 2009 às 3:28 pm

    Ah não me diga que deu um “D+”, estava tão empolgado para assistir e como confio nas suas notas me desanimei.

  2. Régis
    27 agosto 2009 às 3:29 pm

    Genten, eu detesto Paulo Coelho, quero deixar isso bem claro. “Nas marges do rio Piedra, e blá, blá, blá…” foi um dos livros mais chatos que li na vida. Mas tem 2 livros dele que eu adoro, e toda vez que leio me divirto horrores, que são Veronika e 11 minutos… tenho a curiosidade natural pelo filme, mas não que eu esteja aguardando ansiosamente por ele… quando der, eu vejo.

    • 27 agosto 2009 às 3:42 pm

      Mark, eu tb foi ver o filme de coração aberto, porque pelo trailer parecia no mínimo honesto. Quebrei a cara legal!

      Régis, até hoje não encontrei um livro do Paulo Coelho que me agrade. 11 Minutos é o meu preferido, e ainda assim o considero irregular. Não tinha gostado de Veronika, o livro, mas tanto como adaptação quanto como uma história avulsa o filme não me apetece. Não tenha pressa em conferí-lo.

  3. 27 agosto 2009 às 9:00 pm

    Não gosto de Paulo Coelho e tenho ZERO curiosidade para conferir este filme. Beijo!

  4. 27 agosto 2009 às 11:49 pm

    Também não me interessou! Xô Paulo Coelho!

    • 28 agosto 2009 às 12:13 am

      Ka, não gosto do Paulo Coelho mas fiquei um pouquinho curioso com o filme pelos previews. E não valeu de nada a boa vontade! O filme é bem derivativo, esquecível e previsível. Não perde nada! Beijo.

      Jô, faço coro a você!🙂

  5. lelacastello
    11 setembro 2009 às 3:26 am

    Desculpe, não li a resenha inteira, não precso, não gosto do Paulo Coelho, não vou ver o filme, nem Buffy salva. E digo que não gosto de Paulo Coelho sem hipocrisia, pos tb li um de seus livros, segurando sempre o revertério na garganta, ele escreve MUITO mal.

    • 11 setembro 2009 às 4:22 am

      Rafaella, eu morro de vergonha quando vejo fotos do Paulo Coelho ao lado dos membros mais letrados da Academia Brasileira de Letras. Meu Deus, a humanidade…!

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