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Quando Cinema é coisa séria

Afirmo com convicção: o alemão “A Onda” é um dos filmes mais perturbadores dos últimos tempos. Cheguei ao ponto de querer sair do cinema, e não porque estava de saco cheio ou desligado da história, e sim por estar tão envolvido, tão incomodado e tão dentro da proposta que temia pelos personagens e pelo desfecho inevitável (o final se assume como radical, convence e confirma o impacto). Trata-se de um estudo sobre o comportamento humano conduzido por um professor de colegial. A pesquisa informa que foi baseado em fatos ocorridos na Califórnia nos anos 60, e a transposição para a Alemanha atual é muito oportuna por um motivo óbvio: foi ali que nasceu o nazismo.

szenenbild_die_welle

Em Berlim, numa aula de Autocracia, os alunos reclamam quando se deparam, mais uma vez, com o nazismo em pauta (a nova geração de alemães, mesmo isenta de responsabilidades, carrega involuntariamente a culpa e a vergonha por essa mancha na História do país). Segundo eles, algo assim nunca se repetiria nos dias de hoje. O professor resolve, então, partir para a prática, sem esclarecer a princípio suas intenções. Propõe um exercício, denomina-se o líder da sala e impõe uma série de regulamentos (só poderiam tratá-lo pelo sobrenome, só poderiam tomar a palavra caso ficassem em pé, só poderiam assistir a aula se uniformizados com camisa branca e jeans etc.). Dentro de uma semana, um tempo recorde, os garotos vão estar completamente transformados. Ludibriados pelo poder da unidade, se autodenominam A Onda, inventam uma saudação própria, picham símbolos do grupo pela cidade, impedem a entrada na escola daqueles que não se afiliarem a eles, e perseguem os que se opuserem (uma menina percebe desde o início as proporções catastróficas que aquilo está tomando e é marginalizada). E é claro que quando o professor decide dar um basta no projeto as coisas já saíram do controle (uma reclamação é que o ritmo de algumas cenas ficou muito marcado, beirando o suspense convencional). Resumo da ópera: uma reprise do nazismo é tão facilmente possível que dá até medo.

É uma tijolada na testa com a mesma força de outro longa alemão disponível em DVD no Brasil, “A Experiência”, de 2001 (neste recriava-se aquele famoso experimento em que cidadãos comuns foram colocados num presídio, uns na posição de guardas e outros na condição de prisioneiros – culminando inclusive em assassinato). Mas não pense que o Cinema do país está querendo se justificar ou criar desculpas para os atos de barbárie cometidos algumas décadas atrás. Está apenas apresentando teses sobre o descontrole, sobre a propensão do ser humano a partir para a frieza e a crueldade quando lhe convém – uma conclusão dura, amarga e verdadeira. O roteiro de relojoaria de “A Onda”, escrito pelo próprio diretor, convida – ou melhor, obriga – o espectador a se colocar na pele dos personagens. Quando constatei que provavelmente agiria da mesma forma que a esmagadoria maioria dos alunos naquela situação, fiquei espantado e enojado comigo mesmo. E o que mais podemos esperar de um filme, além de que ele nos pegue pelo estômago?

.:. A Onda (Die Welle, 2008, dirigido por Dennis Gansel). Cotação: A-

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Categorias:Cinema
  1. Régis
    26 agosto 2009 às 2:34 am

    Já achei release e estou baixando… acho mega válido.

    • 26 agosto 2009 às 2:46 am

      Boa, Régis. Merece ser visto, mesmo que por meios alternativos (ainda estou pensando sobre ele até agora, e o assisti há dois dias!); passe depois para deixar uma opinião!

  2. 26 agosto 2009 às 3:10 am

    Eu vi um filme mais antigo que é sempre comparado com A Onda. Morro de vontade de ver…
    E lendo agora, a vontade ficou ainda maior.

    Beijocas

    • 26 agosto 2009 às 12:32 pm

      Cecilia, que bom que estimulei a sua vontade de conferir o filme! Prepare-se!!!

      Beijão!

  3. Kau Oliveira
    26 agosto 2009 às 7:10 pm

    Eu sou meio relapso às vezes. Deixei de ver A Onda pra ver o filme do Soderbergh… Mentira! Deixei de ver pq quem estava comigo não quis assistir =(

    Mas se ainda estiver em cartaz no Arteplex, vo correndo pra lá!

    See ya!

  4. 26 agosto 2009 às 10:47 pm

    Mais um excelente texto que leio sobre esse filme. Espero poder conferí-lo! Beijos!

  5. 26 agosto 2009 às 11:15 pm

    Louis, quando comecei a ler sua crítica lembrei do ótimo “A Experiência”, que você acabou citando depois.

    Gostei muito da sua dica, deve ser uma muito interessante.

    Abraço

    • 27 agosto 2009 às 4:20 am

      Kau, que troca infame hein??? rsrs… Veja o mais breve possível! See ya.

      Ka, é um dos programas obrigatórios do ano e, talvez, o que me deixou mais intrigado (ainda está ecoando na minha cabeça). Corra atrás!!! Beijo!

      Hugo, pois é! Tenho A Experiência em DVD e me lembrei dele enquanto assistia ao filme. São parecidos em sua proposta e efeito. Ou seja, pra lá de interessante! 😉
      Abraço.

  6. 15 dezembro 2009 às 3:25 pm

    Adorei A Onda e A Experiencia. São ótimos filmes. ^^
    =*

    • 15 dezembro 2009 às 4:10 pm

      Jecik, A Onda ainda está entre os meus favoritos do ano!

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