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O Clube do Filme

Qualquer cinéfilo que se preze vai se empolgar diante da sinopse de “O Clube do Filme”, o bestseller do momento escrito por um certo David Gilmour (não confundir com o vocalista e guitarrista do Pink Floyd). A premissa do livro é bacana e diferente: Gilmour, um jornalista freelancer (ou seja, com muitos bicos mas nenhum trabalho fixo), tem que lidar com os problemas financeiros e com o filho de quinze anos, um maconheiro prestes a reprovar em todas as matérias no colégio. O pai acaba fazendo, então, um acordo com o garoto: dará permissão para que ele largue a escola, desde que vejam – juntos – três filmes por semana. Surge a partir daí o Clube do título.

David com o filho Jesse: blefes

David com o filho Jesse: blefes

Se você ficou com a impressão, com base na descrição acima, que o livro irá mostrar como o Cinema ajudou a amadurecer e a moldar o caráter de uma pessoa, enganou-se tanto quanto eu. Na verdade o autor até tenta retratar as vicissitudes da vida de um rapaz problemático. Só que deixa a tarefa por inacabada – três anos se passam na narrativa e o moleque não muda em coisa alguma. Não se torna um adulto responsável; se começa a história como um malinha, termina como um malão. E o livro foge do vínculo pai-e-filho como o diabo da cruz. Em vez disso, se direciona sempre para os filmes que eles irão assistir, os quais Gilmour ora resenha com entusiasmo, ora apenas menciona de passagem (e mesmo suas observações mais abrangentes se apegam sempre a uma ou outra cena isolada, deixando a desejar num plano geral). Assisti à grande maioria dos filmes citados e não concordo com a avaliação do autor a boa parte deles. Acredita que ele teve a pachorra de chamar o inatacável Gene Kelly de canastrão? Faça-me o favor.

Conclusão: o que poderia ser uma leitura rica e prazerosa torna-se um exercício corriqueiro, descartável e banal. Eu li tudo em pouco mais de uma hora, num tempo livre que tive na Fnac. (Aliás, desde que a minha avó me ensinou a fazer leitura dinâmica não leio de outra forma. Sempre corro os olhos pelas páginas do livro, me inteiro da trama, de sua proposta e aonde quer chegar. E se me instigar leio por uma segunda vez, com mais atenção e carinho.) Não é o caso deste aqui: por sua falta de desvelo, David Gilmour não entrará para a minha lista de releituras. Vou lembrar dele como um escritor medíocre e oportunista, que teve uma boa ideia mas não a capacidade de executá-la como deveria. Repare ainda que ele pega emprestado a fórmula de “Marley & Eu”, usando seu nome e o do filho numa semi-biografia, também com ares de autoajuda. Parece que deu certo. “O Clube do Filme” vem vendendo bem. Embora, como me informou a moça da Fnac, muita gente chegue lá crente de que está comprando uma obra do cara do Pink Floyd!

.:. O Clube do Filme. De: David Gilmour. Cotação: D+


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Categorias:Cinema, Literatura
  1. 24 agosto 2009 às 2:08 am

    Louis, pelo jeito o cara quis levar vantagem até sabendo do homônimo famoso. Havia lido alguma coisa sobre este livro e também acreditava que seria muito interessante, mas pelo que você escreveu o livro não passa de um caça-níquel.

    Abraço

    • 24 agosto 2009 às 10:16 am

      Hugo, é mais ou menos isso. Um caça-níquel muito mal escrito e falho em suas intenções. Minha maior decepção literária no ano! Abraço.

  2. raa
    24 agosto 2009 às 12:35 pm

    OMFG Louis eu comprei esse livro sábado!=/
    Vai ficar na estante por um tempinho então!
    Vou passar alguns livro na frente…

    PS: como é isso de ensinar leitura dinamica?Quero ler/ver tudo , mas nunca sobra tempo! Ajuda aê!hauahauhaua

    • 24 agosto 2009 às 1:14 pm

      Rafa, pois foi uma graça divina quando a Andreia atrasou pro nosso compromisso huahuahua… Tive umas horas vagas na Fnac e li o livro lá mesmo – também estava disposto a comprá-lo. Não está perdendo muita coisa, se deixar pra depois, ou mesmo se passar adiante.

      E acredita que a minha avó fez um curso de leitura dinâmica? rsrs… Eu, assombrado pela rapidez com que ela lia o jornal, perguntei como ela fazia e ela me ensinou. Você corre os olhos pelas páginas, perde os menores detalhes mas saca o assunto. Porque geralmente ler muito rápido impede a concentração, não deixa a gente assimilar. Mas é meio que um truque, conseguir se focar e não perder o ritmo. Tem que ter jogo de cintura, tipo pra ver filme legendado, ler e acompanhar a cena ao mesmo tempo. No começo é difícil, mas depois se torna trivial! 🙂

  3. Régis
    24 agosto 2009 às 3:50 pm

    Eu li sobre esse livro na Veja! (a parte cultural é a única que me interessa na revista) umas semanas atrás, e me interessei muito em ler, mais pelos comentários sobre os filmes mesmo, do que pela história em si… mas vc já derrubou minha principal expectativa, que era exatamente ver o carater o guri mudando conforme o cinema adentrasse na vida dele…

  4. 24 agosto 2009 às 5:39 pm

    Opa. Passando pra dizer que tem um selo lá no Portal Cine, te esperando!

    🙂

    • 24 agosto 2009 às 7:42 pm

      Régis, acho que todo mundo fica com essa impressão ao ler o plot mas saiba que o livro é fraco nos dois sentidos: nos comentários sobre filmes relevantes (ou em alguns casos, irrelevantes) e na forma com que o Cinema ajuda a amadurecer (a menos que o ponto de vista do autor seja ainda mais absurdo: que o Cinema não ajuda em nada!)

      Robson, obrigado!!! 🙂 Agradeço de coração. Já vou lá.

  5. Kau Oliveira
    24 agosto 2009 às 7:49 pm

    Parece um tantão clichê, né? Não gostei muito da premissa da obra…

    Tem selo pra vc no Bit!!

    Abs!

    • 24 agosto 2009 às 8:32 pm

      Kau, a premissa interessa (nunca ouvi falar de nenhum pai que tenha feito um acordo semelhante com o filho, você já?), mas a execução fica aquém do que poderia ter sido. Queria gostar do livro, estava receptivo, com boa vontade… Mas não consigo recomendá-lo nem aos cinéfilos. E valeu pelo selo!! 😉 Abraço.

  6. 24 agosto 2009 às 10:53 pm

    Eu tinha lido sobre esse livro na revista VEJA. Tinha achado a premissa até interessante, mas, depois desse seu texto, estou repensando a minha decisão de, um dia, ler a obra. Beijo!

  7. 27 agosto 2009 às 7:36 pm

    Estou lendo o livro, mas por enquanto n está muito bom. O mais interessante é o foco no cinema.

    • 27 agosto 2009 às 8:36 pm

      Daniel, de fato. E mesmo nesse ponto ainda fica devendo um pouco, com algumas declarações bem condenáveis.

  8. 28 agosto 2009 às 4:07 am

    Vou precisar discordar demais de você aqui, Louis. Acho que sua leitura dinâmica o inibiu de sentir os prazeres desta leitura deliciosa. Não só pelas referências cinematográficas, o livro de Gilmour é um ode à força e a beleza do cinema. Mas, mais importante, à vida. Seus paralelos entre filmes e momentos de sua vida são marcantes, recheados de passagens magníficas. Enquanto isso, o relacionamento com seu filho é pontuado pela crueza e pela beleza.

    O melhor livro que li neste ano.

    • 28 agosto 2009 às 10:27 am

      Wally, da opinião do cara sobre os filmes não consigo reclamar muito. É gosto, vai da opinião de cada um, apesar de eu achar um absurdo que ele tenha falado mal do Gene Kelly. O que anulou a experiência positiva do livro para mim foi o final. Conheço pessoas que se modificaram através do cinema, para melhor ou para pior. Que ficaram mais cultas ou mesmo mais doidas. E o menino fica inerte! Um dos meus menos preferidos do ano, ainda mais pesando a expectativa.

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