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Filmes do Dia

Ameaça de chuva o dia inteiro, hoje. Mas só quando pus os pés no meu apartamento a tempestade desabou. Tive tempo de ver – enxuto e sem imprevistos – dois filmes no cinema. De volta da romaria, emendei mais um em casa. E tirei dois minutos para ver aquele muito esperado trailer, que você pode imaginar qual é. Impressões:

bruno

* Brüno (Idem, 2009, dirigido por Larry Charles): É fato consumado que o humor feito pelo Sacha Baron Cohen é de muito mau gosto – mas ele tem o talento de converter essas piadas de baixo calão em algo inteligente, como provou com “Borat”, onde suas peripécias nada ilustres serviam como reflexões válidas sobre a ignorância e os preconceitos da sociedade americana. Já em “Brüno”, seu novo projeto, Sacha não é sempre feliz em suas investidas. Encarnando o repórter gay e escandaloso que interpretara antes na TV, ele se mete em situações impronunciáveis – só que pesa tanto a mão que a reação das pessoas ao seu redor (que não estão cientes de que estão diante de um ator em atividade) passa a ser até compreensível. O mais liberal dos seres humanos ficaria chocado ou no mínimo espantado caso se deparasse, por exemplo, com um casal “enroscado” (homo ou hétero) entrando num ônibus. Ou diante de um bebê adotado que parece estar sendo mal tratado. Ou então frente ao Piloto do programa de televisão onde Brüno faz uma dança com o pênis! Outras de suas desventuras não tem a mínima relevância ou sentido (vide a sua participação na série “Medium”, como figurante, onde empata a equipe e no final não atesta coisa alguma). São nos momentos mais contidos do comediante – quando Sacha se retrai e deixa os outros se embaraçarem por conta própria – que se encontram os pontos positivos do filme. Repare, por exemplo, nos pais negligentes que topariam submeter os filhos a tudo – de regimes a cirurgias plásticas – em troca de uma vaga para os pequenos numa sessão de fotos. O saldo final é mediano, e de certo decepcionante. Cotação: C-

bobby

* Orações Para Bobby (Prayers for Bobby, 2009, dirigido por Russel Mulcahy): É irônico que eu tenha visto “Orações Para Bobby” no mesmo dia em que conferi “Brüno”. Onde o humorista britânico tira sarro, este telefilme do Lifetime, exibido no começo do ano nos Estados Unidos, volta-se com seriedade e atenção. Fala sobre as Igrejas que se dizem capazes de curar o homossexualismo com sessões de oração e terapia convencional – o que é revoltante. Nessa história real, Sigourney Weaver interpreta uma mãe religiosa que insiste que o filho adolescente faça parte desse grupo de cura. Sem conseguir reprimir seus impulsos naturais, o menino, Bobby, acaba se jogando de uma ponte e se matando. Só depois dessa tragédia a mãe vai conhecer a fundo outros homossexuais, se livrar de seus preconceitos e reavaliar a fé cega que a fazia interpretar a Bíblia de forma literal. Hoje ela é uma das maiores ativistas americanas pelos direitos dos gays. É uma bela interpretação de Sigourney, sua melhor em uma década, desde “O Mapa do Mundo” (“Avatar” chega no final do ano para, quem sabe, roubar o posto). Não estranhe algumas opções do filme – são todas coerentes para uma produção feita para a TV, mesmo aquelas que parecem exageradas e caricatas. Mais relevante, importante e emocionante que “Grey Gardens”, da HBO, “Orações Para Bobby” vai tocar aqueles que tem um membro gay na família (como é o meu caso) e aqueles que não tem. Cotação: A+

paz

* Tempos de Paz (2009, dirigido por Daniel Filho): Taí! O nacional “Tempos de Paz” não é nem de longe o desastre que eu previa (o trailer não lhe faz justiça, a começar por não mencionar que é baseado numa peça de Bosco Brasil, adaptada pelo próprio dramaturgo). Também trouxeram a dupla dos palcos, Tony Ramos e Dan Stulbach. Daniel Filho assume a direção e um papel de certo destaque, optando por manter o escopo teatral – e teatrinho filmado em comparação com quase tudo que ele já fez é, sim, grande coisa. Tem algumas forçadas que no palco, mais aberto a alegorias e simbologias, ficariam mais coerentes, mas que não chegam a comprometer o resultado final. Muito falado, mas nunca tedioso, é centrado numa discussão entre um fiscal da Receita e um imigrante polonês (que chega ao país em 1945, depois de a Europa ter sido toda devastada pela Segunda Guerra). Tem dramalhão? Tem. Mas tem também um humor inesperado, oportuno e bem-vindo (o cinema explodiu em risadas em várias ocasiões). Só confesso que esperava mais dos protagonistas. Tony faz tudo no mesmo tom, sem nuances, e Stulbach sorri demais – demais mesmo! Chora e está sorrindo, grita e está sorrindo, é algemado e está sorrindo. Outra exigência que eles poderiam ter feito seria uma fotografia mais generosa: Tony é filmado constantemente de perfil, deixando evidente o nariz adunco; Dan quando muito iluminado realça os contornos de psicopata em seu rosto. De qualquer forma, o filme termina com força e impacto e presta uma homenagem justa aos que se refugiaram no Brasil durante a Guerra. Cotação: B+

* Trailer de “Avatar”: Mixuruca de tudo. Ai, James Cameron.

E você, o que viu?

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Categorias:Cinema, TV
  1. 21 agosto 2009 às 3:49 am

    Não vi nenhum dos três ainda, mas me interesso por todos. Eu não dava nada por “Tempos de Paz” (Daniel Filho, hello?), mas só leio elogios. Já Brüno não está tendo a mesma sorte… mas ainda quero assistir. E o filme de Weaver parece ser ótimo!

    • 21 agosto 2009 às 8:35 am

      Wally, realmente, aquele de quem eu esperava mais (Brüno) foi o que menos me impressionou, e aquele que eu vi com um pé atrás (Tempos de Paz) foi uma grata surpresa! E Prayers for Bobby é mesmo muito bom. Não deixe de ver!

  2. 21 agosto 2009 às 8:35 pm

    Desses aí queria ver Brüno. Esse Orações para Bobby eu não conhecia, mas parece ser interessante. Já Tempos de Paz não me cativou ainda.

  3. 22 agosto 2009 às 12:24 am

    Assisti Orações Para Bobby há umas semanas. É mesmo ótimo e a Sigourneay arrasa! Quanto aos outros, espero pra ver em DVD ou na NET.

    • 22 agosto 2009 às 1:12 am

      Ibertson, também não estava cativado por Tempos de Paz, conferi mesmo porque o cinema que o estava exibindo é muito barato de Quinta-feira. E foi uma grata surpresa. Assim como Orações Para Bobby. Brüno, justo aquele que eu mais aguardava, foi o mais irregular dos três.

      Jô, também me surpreendi com o telefilme, e apesar da concorrência forte, Sigourney é minha segunda favorita ao Emmy, depois de Jessica Lange (Grey Gardens)!

  4. Lucas
    22 agosto 2009 às 5:48 am

    mew, achei bruno mt engraçado!!! ri mt com o ‘programa’ dele HUASHUAHSUHAUSHUAHSHUA

    • 22 agosto 2009 às 6:12 am

      Lucas, essas cenas são mesmo engraçadas – mas um humor de mau gosto e gratuito, sem aquele ar sociológico de Borat! 😉

  5. Régis
    22 agosto 2009 às 3:45 pm

    Nossa Louis, mais uma coisa pra gente discordar de maneira gritante… achei “Prayers for Bobby” incrivelmente fraco. E não sei não, quando vc diz que se tratando de um telefilme os defeitos possam ser abrandados. O filme é muito fraco no desenvolver dos personagens, aquele discurso sou-gay-mas-nem-por-isso-sou-menos-que-ninguém foi colocado da forma mais complacente impossível, como se o discurso já não fosse absurdo o suficiente (pois parte do pressuposto que ser gay é algo fora do normal), sentimentalóide e piegas sem nem tentar esconder… pra um filme que (pretende) se propoe a fazer um discurso anti-preconceito, achei que o filme falha de maneira incrível, pois além de fazer um filme covarde, caricato, e com um discurso mais tênue impossível, ainda faz aquela coisa cor de rosa ao extremo, no sentido de retratar o homossexual. A única coisa emocionante foram as cenas finais, em grande parte pelo talento dessa atriz soberba que é a Sigourney. De resto só achei um filme que repete o mesmo discurso de sempre, só que dessa vez com muito menos coragem e inteligência que os outros.
    “Brüno” não vi mas to loco pra ver, é nem é por causa de “Borat”, que acho um filme beeeeem abaixo dos elogios que recebe.
    E “Tempos de paz” vou esperar passar na Globo, pois gastar dinheiro com filme de Tony Ramos é algo que jurei a mim mesmo nunca fazer.

    • 22 agosto 2009 às 4:28 pm

      Régis, mas não considero como defeitos. As produções do gênero costumam ter linguagem televisiva, melodramas em excesso, serem puxadas para o sentimentalismo. É assim que são e pronto, e os Angels in America da vida são exceções. É uma identidade diferente de cinema, enfim. Os personagens agem dessa forma porque é assim que acontece na vida real – ser gay não é anormal, mas é assim que grande parte das pessoas tomam a situação. Todo o roteiro age em função da personagem da Sigourney, e a transformação que ela passa é bem conduzida, coerente e nada gratuita. E mesmo os coadjuvantes são pessoas que trazem certa verdade. Quanto a Brüno e Tempo de Paz, nenhum é imperdível, mas o brasileiro é o melhor entre os dois (e Tony Ramos, apesar de não ter muitas chances boas no cinema, é ótimo ator).

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