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Piada de Português

Estou pasmo até agora com “Aquele Querido Mês de Agosto”. O longa português foi eleito o melhor filme da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado, recebeu elogios unânimes em toda parte e foi até escolhido oficialmente como o representante lusitano no Oscar. Minha surpresa, porém, não se deve ao assombro por sua qualidade, e sim pela falta dela. Muito me espanta que esse engodo não tenha sido pichado em praça pública. Na sessão onde eu estava, na Reserva Cultural, seleta ao público de arte (mais acostumado com projetos desse tipo), pelo menos três pessoas abandonaram antes do final. Eu mesmo só não saí porque considero ponto de honra terminar o que comecei. Imagino a reação do espectador despreparado!

agosto

Cá estou, diante do meu laptop, sem saber o que escrever. Estava até considerando rever antes de dar meu parecer – porque vai que tem alguma coisa genial ali e eu não saquei? Mas e a coragem para enfrentar outras duas horas e vinte minutos de tortura? Cadê? O filme é totalmente auto-referenciado, indulgente, metalinguístico, chato e anti-comercial. Todos os membros da equipe – diretor, roteirista, contra-regra, figurinista, maquiador, estagiário etc. – aparecem interpretando variações de si mesmos, usando os nomes reais e debatendo sobre o que vão filmar. E passam a colher depoimentos dos ‘purtugueses’ comuns, em forma de falso documentário. Dali a pouco se aprofundam nas histórias dos entrevistados, encenadas pelos próprios numa narrativa apoiada em canções! Note que não é um musical convencional, e sim um anti-musical por abordagem (ou seja, as pessoas não desatam a cantar suas falas – cantam em apresentações, como em “Once”). E como cantam! Tem pelo menos uma dezena de músicas, todas bregas e intermináveis. E um dos atores, gordinho de meia-idade, parece o Raul Gil cantando. Eu falei isso para a amiga que tinha me acompanhado (e que depois me xingou horrores pela furada em que nos meti) e desatamos a rir – porque é verdade.

Se eu fosse crítico de jornal teria que me ater a certas regras, enrolar por mais algumas linhas e meter o pau de forma contida e polida. Como eu tenho toda a liberdade do mundo neste blog e nenhuma pressão de editor, vou ser curto e grosso: “Aquele Querido Mês de Agosto” é um desastre. Uma decepção mesmo para quem assisti-lo sem ter em mente o prestígio mundial. Uma bosta mesmo para quem se atrai por coisa ruim. A trama não tem um pingo de nexo, o elenco é fraco, o final é o cúmulo da pretensão. Sabe quando as luzes do cinema se acendem e você fica até constrangido de olhar para a pessoa do seu lado, como se tivessem sido violentados juntos por um par de horas? Então. Lá na Sala 3 da Reserva, só deu sorrisos amarelos, incredulidade e uma senhora comentando, em alto e bom som: “Dormi mais do que fiquei acordada”.

.:. Aquele Querido Mês de Agosto (Idem, 2008, dirigido por Miguel Gomes). Cotação: E+

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Categorias:Cinema
  1. 20 agosto 2009 às 2:29 pm

    Já era de se esperar, a Mostra de Cinema de São Paulo, raramente faz escolhas certas. Ano retrasado eles escolheram bem o filme de Sean Penn como o melhor do ano, mais foram poucas as outras escolhas boas.

    • 20 agosto 2009 às 3:12 pm

      Cleber, mesmo assim. Eles premiaram Na Natureza Selvagem, e também O Banheiro do Papa, que não é nada especial mas é bem feitinho, bem intencionado. Este português é um desastre completo e ainda estou chocado com qualquer menção que possa ter recebido. Inexplicável!!!

  2. 20 agosto 2009 às 11:48 pm

    Bom saber, Louis. Quase fui ver o filme no final de semana com uma amiga, só não fui por falta de tempo mesmo!

    • 21 agosto 2009 às 12:15 am

      Jô, pois agarre a graça! Veja como um sinal do destino e faça-se o favor de perder este filme horroroso!

  3. 22 agosto 2009 às 6:41 pm

    Leia bem este conselho de português:
    Pense MUITO BEM antes de ir ver filme português.

    ;D Ainda não vi o filme em questão nem espero ver, não vejo filmes portugueses, geralmente.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

    Não me surpreende, a sua opinião.

  4. lelacastello
    11 setembro 2009 às 3:59 am

    “Sabe quando as luzes do cinema se acendem e você fica até constrangido de olhar para a pessoa do seu lado, como se tivessem sido violentados juntos por um par de horas?”
    AHAHAHAHA não tenho nem o que falar, esse comentário dispensa… comentários.

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