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O telefilme do ano

Prosseguindo com a maratona de telefilmes, conferi o recente “Grey Gardens”, exibido em abril deste ano na HBO e indicado a 17 prêmios Emmy (entre os quais o de Melhor Filme Feito Para TV e o de Melhor Atriz, onde as estrelas, Jessica Lange e Drew Barrymore, concorrem juntas). Esta é a dramatização da vida das excêntricas socialites Edith e ‘Edie’ Beales, mãe e filha que serviram de tema para um famoso documentário nos anos 70 – que também se chamava “Grey Gardens”! Este era o nome do lugar onde elas passaram a maior parte da vida: uma mansão isolada que, na época em que as duas se encontravam sem dinheiro (e corroídas por doses ainda mais letais de infelicidade), tornou-se perigosamente inabitável pela falta de cuidado e manutenção.

Grey-Gardens

Quando conhecemos aquelas mulheres, porém, elas ainda são parte da alta sociedade. Edith, a mãe, vinha de uma família tradicional, e era tia de Jacqueline Bouvier (futura Jacqueline Kennedy, e depois ainda Jacqueline Onassis). Tanto ela quanto a filha demonstravam certo desprezo às normas e etiquetas – Edith costumava dar festas homéricas quando o marido estava viajando, e seu envolvimento com o pianista que animava seus bailes não só se tornou público, como provocou o divórcio e o início de sua ruína. Nessa época, Edie ainda era jovem, atraente e espevitada, com ambições de se tornar cantora ou comediante (comparava-se a Judy Holliday) – mas um affair com um homem casado a desviou dos planos e fez com que tivesse que se mudar para junto da mãe. Logo depois viu agravar a doença que provocava a queda de todos os pelos do seu corpo (a montagem não é linear, de modo que nos primeiros minutos vemos cenas de Drew sem sobrancelhas, escondendo a careca com chapéus, lenços e turbantes).

Dirigido pelo estreante Michael Sucsy, e roteirizado pelo próprio em conjunto com Patricia Rozema, “Grey Gardens” ressuscita uma história interessante, absorvente e há muito esquecida (apesar de ter sido adaptada também para a Broadway em forma de musical). No entanto, começa aos tropeços, para só no segundo ato escapar da banalidade e ganhar a atenção do espectador. Não é ruim, que fique claro. Está um degrau acima da grande maioria dos filmes deste nicho (a produção é caprichada e o trabalho de maquiagem, que envelhece ou engorda as atrizes conforme o exigido, merece elogios). Só não corresponde ao padrão de qualidade HBO. Mas é coerente, tem cara de TV e escopo de telefilme, com soluções aceitáveis para esta mídia (em cinema pareceria mais fraco, especialmente pelo final sem maiores lances). Também convida o público a conferir o documentário honônimo (em certo momento Edith diz a um jornalista que se ele quiser saber mais detalhes, basta assistir ao filme que está tudo lá).

Vamos agora às interpretações, que são um capítulo a parte. Jeanne Tripplehorn, que – só agora percebo – é incrivelmente parecida com a Jackie O, concorre ao Emmy de Coadjuvante, mas tem uma única cena e não chega a marcar com sua imitação da personalidade (a indicação foi para compensar sua esnobada pela série “Big Love”, isso sim uma tremenda injustiça). O veterano Ken Howard, como o pai e ex-marido das protagonistas, também está indicado – outro exagero. Fica claro que o show é de Jessica Lange, iluminada num dos desempenhos mais gloriosos de sua carreira (certamente melhor do que os que lhe renderam o Oscar, em “Tootsie” e “Céu Azul”). Já Drew Barrymore não está excepcional como dizem, mas é carismática, dedicada, cheia de boas intenções e o contrapeso ideal para as sutilezas de Jessica. É essa dupla inspirada que torna “Grey Gardens” uma das fitas obrigatórias do ano – e por elas, mais do que por qualquer outra coisa, recomendo o programa com entusiasmo.

.:. Grey Gardens (Idem, 2009, dirigido por Michael Sucsy). Cotação: B+

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Categorias:Cinema, TV
  1. Kamila
    14 agosto 2009 às 12:47 am

    Fiquei muito triste comigo mesma porque perdi todas as exibições de “Grey Gardens” em Julho, na HBO, mas vou reparar meu erro no dia do Emmy, quando o programa será reprisado. Espero gostar da obra tanto quanto você! Beijo!

    • 14 agosto 2009 às 12:53 am

      Ka, na verdade gostei mais das atrizes do que da obra em si – então espero que você goste mais do filme do que eu! 🙂

      Beijo!

  2. Luísa
    14 agosto 2009 às 1:32 pm

    Assim como a Kamila, perdi o filme quando foi exibido na HBO do Brasil, e vejo assim que encontrar um bom link para download!

  3. .bia
    15 agosto 2009 às 12:41 am

    Fiquei curiosa pelo seu texto. Adoro a Drew Barrymore, acho ela super talentosa! *.*

    • 15 agosto 2009 às 2:04 am

      Luísa, também acabei recorrendo a download para assisti-lo!

      .bia, gosto da Drew Barrymore. Ela é uma boa atriz, nasceu no ramo (a família toda é do cinema), é esforçada. Teve um passado conturbado com as drogas, mas limpou a imagem e hoje atua também como produtora. E, dizem, é simpaticíssima com a imprensa e o público. Em Grey Gardens, tem uma ótima chance e não compromete! Tente conferir.

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