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Chinga tu madre!

Assim como em 2004 o Brasil comemorou as indicações de “Cidade de Deus” ao Oscar um ano depois da Academia tê-lo oficialmente esnobado, em 2003 foram os mexicanos que viram uma injustiça ser reparada. “E Sua Mãe Também” não chegara aos finalistas da categoria de Melhor Filme Estrangeiro no ano anterior por motivos semelhantes aos que empataram o filme brasileiro. Em resumo, ter uma narrativa ousada, cenas de sexo nada moderadas e uma roupagem indissoluvelmente latina – combinação radical para o seleto grupo de votantes encarregado de avaliar, num prazo exíguo, os longas submetidos por cada país. Mas teve a sorte de ser descoberto por Dustin Hoffman, que o apadrinhou, mostrando a fita para os amigos em sessões particulares. Resultado: uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original para os irmãos Carlos e Alfonso Cuarón, este último diretor.

mamá

A boa reputação de “E Sua Mãe Também” foi conquistada logo em sua estreia no Festival de Veneza, de onde saiu com o prêmio de Roteiro e com outro conjunto para os protagonistas masculinos (Gael Garcia Bernal e Diego Luna, que vinham de telenovelas e que já eram amigos de longa data). A intimidade entre eles acabou sendo crucial para uma história apoiada nesse vínculo, que poderia ser taxada também de conto de viagem. Ou então como um desses filmes sobre ritos de passagem, só que com um elenco melhor e uma direção mais inspirada do que de costume. Ou seja, seu diferencial não está no que nos mostra, mas em como nos mostra. Beirando a pornochanchada, a trama se desenrola em torno de dois amigos alienados, rapazes de 17 anos que não se interessam por nada além das idas ao clube, dos cigarros de maconha e das masturbações diárias. Tenoch e Julio estão em plenas férias de verão e entediados com a falta de sexo depois que as namoradas partiram num tour pela Europa. Até que numa festa de casamento conhecem Luisa (Maribel Verdu), uma espanhola radicada no México, casada com um primo de Tenoch, mas insatisfeita com o marido e consigo mesma. É claro que os dois tarados não perdem a oportunidade de tentar transar com a moça – e para isso, usam como pretexto uma viagem a uma praia deserta que eles nem mesmo sabem se existe. E lá se vão os três.

Se de início parece que estamos diante de um filme recheado de clichês, ou de uma variação da série de dramas que tenta analisar, sem sucesso, o desapego do adolescente a qualquer coisa que não lhe diga respeito, ao tocar da banda percebemos que as intenções dos Cuarón são ainda mais nobres. Eles não pretendem escrever uma tese comportamental, e sempre se voltam para os personagens até terem destrinchado, por completo, os estereótipos que encontramos no começo. Sem um pingo de pudor e contando com bravas interpretações do seu elenco, “E Sua Mãe Também” se firma como um road movie intimista, instigante e bem realizado (não faltam os tradicionais planos-sequência que são tão característicos na obra do cineasta). Conta ainda com um adereço muito eficiente: um narrador onisciente que, em off, vai compartilhando com o espectador os pensamentos mais profundos daquele trio incomum – o que também dá à película um ar quase documental. Esta é a deixa para que o diretor retrate, com discrição, o México como ele é, exaltando a cultura, a política e até a miséria, através de fatos que correm tangencialmente à trama central e que em nada afetam os personagens, mas que ainda assim estão ali. Presentes. Vivos.

Seguindo as regras dos road movies, é fácil prever que, ao final da viagem, Julio, Tenoch e Luisa não serão mais os mesmos. Mas não espere por uma transformação milagrosa, decorrente de uma epifania cafona enquanto eles miram o horizonte e a trilha sonora sobe. Aqui, são os pequenos momentos – mesmo aqueles triviais que acabam se tornando uma bola de neve – que fazem a diferença (e ao confrontarem uns aos outros, acabam sendo forçados a encarar as partes mais obscuras de si mesmos, que ignoravam para ficar mais leves). E neste ponto, o filme não só corresponde ao que se propõe, mas também vai um degrau acima. Introspectivo, corajoso e vigoroso, “E Sua Mãe Também” é programa indispensável para quem é jovem e para quem já foi um dia.

.:. E Sua Mãe Também (Y tu mamá también, 2001, dirigido por Alfonso Cuarón). Cotação: A+

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Categorias:Cinema
  1. 13 agosto 2009 às 3:49 pm

    Acho Maribel Verdu sensacional nesse filme, que é, talvez, meu preferido do Cuarón.

  2. Weiner
    13 agosto 2009 às 5:27 pm

    É, sem dúvida, o trabalho mais marcante da curiosa carreira de Alfonso Cuarón. Poucas vezes um diretor soube captar a juventude de seu tempo com tamanha genialidade. Acho que só Peter Bogdanovich e Nicholas Ray fizeram isso de maneira parecida.
    Abraço!

    • 13 agosto 2009 às 5:51 pm

      Lucas, concordo. Foi por este filme que conheci Maribel Verdu, uma atriz interessantíssima com uma porção de trabalhos a se destacar (em O Labirinto do Fauno teria lhe dado uma indicação ao Oscar de coadjuvante)!

      Weiner, a sua comparação é muito coerente, especialmente com Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema é um dos filmes da minha vida). Gosto dessas histórias de amadurecimento porque me falam num nível pessoal – mas poucos tem o talento de fazer essa receita com novos ingredientes. Tiro o chapéu pro Cuarón por isso! Abraço.

  3. 13 agosto 2009 às 8:54 pm

    Meu desejo a ver este filme é imenso, mas ainda não tive a chance … uma vea que Cuaron é um dos diretores nas quais tenho mais prazer na direção!

    • 14 agosto 2009 às 12:37 am

      Cleber, atualmente Cuarón também é dos meus diretores favoritos. Tente dar uma olhada! 😉

  4. Luísa
    14 agosto 2009 às 3:27 am

    Vi na FOX há alguns anos. Gostei, mas não tanto quanto vc rsrs… O elenco é muito bom mesmo!

    • 14 agosto 2009 às 5:13 am

      Luísa, entre os que amam, os que não amam tanto e os que odeiam, acho que há um consenso de que o elenco está excelente!!!

  5. 14 agosto 2009 às 5:26 am

    Eu, como adorador do cinema de Cuarón, preciso logo ver este!

    • 14 agosto 2009 às 6:04 pm

      Wally, e precisa mesmo! Está empatado com Filhos da Esperança como o meu favorito do diretor – e isso é o maior elogio que eu posso fazer.

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