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Quando Cinema e TV se juntam

Existe algum diretor de atores mais competente que Mike Nichols? Não na opinião deste blog. Vindo dos palcos, Nichols tem uma forma muito particular de trabalhar com o texto, extraindo N interpretações possíveis e exigindo dos atores um mergulho completo nos personagens. Não por acaso, estrelas de talento discutível como Cher (“Silkwood”), Melaine Griffith (“Uma Secretária de Futuro”) e Julia Roberts (“Closer”) entregaram as melhores atuações de suas carreiras sob o comando do diretor. O que esperar, então, do encontro de Mike Nichols com um elenco de capacidade já testada e aprovada? O fruto dessa reunião foi o superlativo “Angels in America”, talvez a melhor coisa feita para a TV em qualquer época, que revejo ocasionalmente em DVD.

angels

Enquanto apresentado na Broadway, “Angels in America” tinha sete horas de duração, desempenhadas em duas partes, com intervalo. Pouquíssimo disso foi cortado e o telefilme acabou com quase seis horas. A HBO optou por dividi-lo, passando uma parte em um dia e a outra no dia seguinte (o que explica porque muitos o classificam como minissérie). A adaptação é do próprio Tony Kushner que escreveu o texto original. Mas mesmo com esse nome consagrado, com a reputação impecável do elenco (Al Pacino, Meryl Streep, Emma Thompson, Mary-Louise Parker, Jeffrey Wright, Patrick Wilson, Justin Kirk, Ben Shenkman) e com as credenciais inatacáveis do diretor, “Angels in America” não foi um grande sucesso de audiência. O maior prestígio veio da crítica, e os elogios unânimes se converteram nos prêmios mais importantes no Globo de Ouro e no Emmy.

A verdade é que se trata de uma experiência. Não é filme para quem gostava da novela “Renascer”. É um drama forte e difícil sobre a América no final do milênio, quando a AIDS matava e nada se fazia para combatê-la. Funciona não como retrato da realidade, mas como uma espécie de fantasia de proporções apocalípticas (há referências sobre Deus ter abandonado o Céu). Lou (Shenkman) descobre que seu parceiro Walton (Kirk) contraiu a doença. Em crise, ele o abandona sem consideração. Walton é amparado por um amigo, o enfermeiro gay Belize (Wright, o único a vir da montagem teatral), ao mesmo tempo em que começa a ter visões com um anjo (Thompson). Entrementes, Joe Pitt, um advogado mórmon (Wilson, astro de musicais da Broadway), tem que lidar com a mulher perturbada (a excelente Mary-Louise) e com suas próprias crises de sexualidade. Ao descobrir-se gay e atraído por Lou, Joe deixa a esposa, para desespero da mãe religiosa (Meryl Streep, em um de seus melhores trabalhos). Há ainda o chefe de Joe, o implacável Roy Cohn (Pacino, interpretando o único personagem verídico), um homossexual reprimido que não se assume mesmo estando com AIDS à beira da morte.

Assim como acontece nos palcos, os atores se revezam em vários papéis. Nesse esquema, Emma Thompson não é só o anjo, mas também uma enfermeira e uma mendiga; Meryl, além da mãe conservadora, faz o espírito de uma comunista executada por Cohn e ainda um rabino; Jeffrey Wright é o enfermeiro e depois o agente de viagens com quem Mary-Louise tem alucinações; Justin Kirk é o homem no parque que transa com Lou. Todos perfeitamente convincentes e por vezes irreconhecíveis. Ou seja, uma sucessão de interpretações memoráveis que só foi possível graças à coragem da HBO, a única que embarcou na temática polêmica (antes disso cogitaram levar para os cinemas com direção de Robert Altman, mas a história é delicada e o grande público, melindroso).

Ainda bem que não deu certo. É inimaginável este filme (ou minissérie, como preferir) sem Mike Nichols e seus brilhantes atores. E acima de tudo, sem o primoroso trabalho de Tony Kushner, que certamente se tornaria um roteirista vencedor do Oscar caso tivesse escrito dessa forma para o cinema. Uma produção excepcional, para não perder!

.:. Angels in America (Idem, 2003, dirigido por Mike Nichols). Cotação: A+

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Categorias:Cinema, TV
  1. Kau Oliveira
    7 agosto 2009 às 3:06 pm

    Eu discordo ede uma citação sua: pra mim, o que Julia Roberts faz em Uma Linda Mulher e em Uma Mulher de Talento é melhor que seu papel em Perto Demais.

    Angels in America… vc sabe dos meus problemas com ele né?! Preciso tirar um dia pra assistir de volta e tentar apontar o que me incomoda. Definitivamente uma coisa é certa: o elenco é algo descomunal.

    FLWs

    • 7 agosto 2009 às 3:47 pm

      Kau, ela é mais conhecida por estes que você citou, mas creio que o único trabalho onde ela explorou todas as nuances possíveis da personem foi em Closer, dirigida pelo Nichols.

      De início eu tinha alguns problemas com a primeira parte, mas já revi pelo menos cinco vezes e me assombrei cada vez mais com a qualidade. Hoje acho irreparável.

      Flws! 😉

  2. Régis
    7 agosto 2009 às 9:26 pm

    Louis, agora é oficial, você é o homem da minha vida. Man, ontem mesmo, depois de ler teu texto de “Weeds” eu pensei, pô, esse cara tem várias opiniões parecidas com as minhas, e pensei: Será que ele já viu “Angels in America?”. Juro, até pensei em te perguntar quando lembrasse.
    Brincadeiras a parte, eu considero “Angels” o filme da minha vida. Sérião, se existe algum filme que eu posso afirmar sem medo, quando me perguntam, “qual teu filme favorito”, é este. Eu achei desde sempre, que de fato, não existem diretor de atores melhor que o Nichols, te juro. Sempre achei o Nichols o melhor diretor de elenco que eu já vi. “Closer”, “Working girl”, “Charlie Wilson’s war”, “Postcards from the edge” e mais uma porrada tão ai pra mostrar isso.
    O elenco, eu não me atrevo a comentar. É a coisa mais sublime que se tem notícia. O Jeffrey Wright como Belize, e pra mim a atuação masculina da década, ou das últimas décadas. Sem contar que foi o filme que me fez conhecer e me apaixonar pela Mary Louise Parker e pelo Patrick Wilson.
    Ah, e sobra a Roberts. Que falem o que quiserem, eu AMO essa mulher, mesmo fazendo o papel mais canastrão que seja. E tbém fico com ela em Erin Brokovich, mas acho ela em “Closer” um colosso também.
    Já vi “Angels” 6 ou 7 vezes (não tenho certeza), e assim como tu, sempre acho mais e mais nuances que não tinha percebido nas vezes anteriores. Digo e repito, é meu filme favorito, e um dos melhores finais de que se tem noticia. O Justin Kirk olhando pra camera e dizendo “more life” me arrepia.

    PS: Ah, a Ethel Rosenberg tbém é um personagem real, assim como o Roy Cohn.

  3. Régis
    7 agosto 2009 às 9:27 pm

    Alias, depois de ler teu texto sobre “Breaking bad” e não “Weeds”.

  4. Alex Pizziolo
    7 agosto 2009 às 9:49 pm

    Adoro o Mike Nichols, vi poucos filmes dele. Ele é um ótimo diretor de atores mesmo. E morro de vontade de ver Angels In America, já cheguei a pegar o DVD na mão pra comprar, mas voltei atrás na hora…

    • 7 agosto 2009 às 10:07 pm

      Régis, mais uma vez concordamos em tudo, tudo mesmo! Inclusive sobre Wright, que se não tem a performance da década, tem ao menos a melhor interpretação do elenco (chega a ser ousadia escolher entre eles e difícil de provar, mas por motivos talvez pessoais confirmo que a atuação dele foi a que me pareceu mais inspirada, mais fora de série). Não por acaso, ele ganhou o Tony e o Emmy pelo mesmo papel! Já o vi pessoalmente num festival de cinema uma vez e ele não tem nada do Belize; é muito sério e reservado, mas gente finíssima. E “Angels…” é uma das cinco melhores coisas que já vi na vida, em qualquer tela. Quanto a Ethel, ela de fato existiu, mas como vem atrelada à trama do Roy, acho que dá pra sacar! 😉

      Alex, como assim voltou atrás??? Procure com urgência!! É obrigatório.

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