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À Deriva

No cinema brasileiro, sobram filmes sobre uma pobreza crua, extrema e radical e faltam filmes sobre a classe média alta – justamente aquela que ainda tem condições e interesse de conferir produções nacionais. “À Deriva”, novo longa de Heitor Dhalia (dos ótimos “Nina” e “O Cheiro do Ralo”), entra em cartaz com esse diferencial. É uma boa pedida para quem não aguenta mais ver gente feia e miserável nos cinemas (já temos demais disso na vida real, não é mesmo?). Ou para quem precisa se convencer de que o Brasil é mais do que desgraça. Não que a vida destes personagens seja bolinho. Eles também passam aperto, sofrem e se machucam – como acontece comigo e certamente com você. Mas sofrem numa confortável casa de praia e não no meio da favela ou enfurnados no sertão nordestino, como é de costume.

deriva

Tudo começa com uma família qualquer de férias no litoral. O patriarca é um escritor francês radicado no Brasil (interpretado por Vincent Cassel, se virando bem no português) e a esposa é Deborah Bloch (o engraçado é que ela é carioca, mas as crianças falam com sotaque paulistano). A protagonista da história, no entanto, é a filha mais velha (a amadora Laura Neiva, bonita, expressiva e bem intencionada, ainda que pouco parecida com o casal); ela tem 14 anos, está naquela fase “menina-moça”, e de repente se vê envolvida nos problemas conjugais dos adultos quando encontra, na gaveta da escrivaninha do pai, fotos dele com outra mulher (Camilla Belle, importada das produções hollywoodianas). Só uma pausa para dizer que isso não existe; nenhum homem que pula a cerca deixa evidências tão claras e à mostra – mulheres, fiquem de olho! Enfim, a garota não sabe o que fazer diante da descoberta. Ora fica de cara amarrada, ora volta a ser simpática. E assim permanece até o final, quando as merdas são jogadas no ventilador e quando novas verdades vem à tona (mas são coisas que o espectador experiente vai captar logo na metade do filme, quando forem insinuadas).

Ou seja, faltou um pouco de discrição, tato e cuidado na elaboração do roteiro. Mas não tenho coragem de reclamar em frente a um elenco tão bom, tão interessante (além dos já citados, tem ainda pontas de Cauã Reymond, que está em tudo que é filme ultimamente, e de Gregório Duvivier, aquele rapaz bárbaro de “Apenas o Fim”). Dhalia não precisa mais provar talento pra ninguém; ele sabe contar uma história com classe, elegância. E com as locações e os atores muito bem fotografados, só precisava ligar a câmera que não teria como dar errado. Ressalto ainda o quanto as cenas de sexo são comportadas (desconfio que haja uma cláusula no contrato de Camilla que a impeça de se expor demais; já Cassel, despudorado por natureza, faz nudez parcial). Pra vocês verem como “À Deriva” foge por completo das convenções dos filmes nacionais!

.:. À Deriva (Nacional, 2009, dirigido por Heitor Dhalia). Cotação: B+

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Categorias:Cinema
  1. Kau Oliveira
    1 agosto 2009 às 6:46 pm

    Pois é. Espero este filme desde sempre…. Mas estou proibido de sair de casa por ordem médica =/ Peguei uma gripe chata que aparentemente não é a “A” e preciso me recuperar muito bem.

    Mas lógico que assim que der, verei.

    Flws!

  2. 1 agosto 2009 às 7:56 pm

    Não sei, não, hein cara? Quando você diz que a classe média é “justamente aquela que ainda tem condições e interesse de conferir produções nacionais”… Interesse, será? Acho que ela só tem “condições”, e financeiras – porque muitas vezes falta a condição intelectual. Tanto é que os multiplex estão tomados por produções estadunidenses milionárias, de conteúdo completamente pasteurizado. Interesse, as classes menos sortudas (no Brasil é questão de sorte) têm. Só não tem condição financeira de pagar o ingresso. O cinema lota quando é cobrado preço popular. Até os teatros lotam! Brasileiro tem é preguiça de olhar para si mesmo, em uma espécie de resignação voluntária.

    Quanto ao filme, eu achei o roteiro perfeito. Preciso. É um filme tecnicamente simples, mas esteticamente impecável. E isso, na minha opinião, é o que credita Dalhia como um grande diretor. Acho que o bacana é a força da história. Cutuca a ferida lá no fundo…

    Abs!

    • 1 agosto 2009 às 9:13 pm

      Kau, judiação! rsrs… Saí novamente de São Paulo ontem, agora que as aulas foram adiadas por causa dessa maldita gripe. Sorte que a sua é trivial. Veja o filme quando estiver mais disposto! Flws! 😉

      Dudu, obviamente eu generalizei. Não só a classe média alta se interessa por filmes brasileiros (e por filmes brasileiros tb estou generalizando, já que a Globo está se especializando em fazer “novelas para cinema” – filmes com os atores da casa de nível pra lá de discutível, que qualquer classe social se empolga para conferir e que geralmente estouram em bilheteria). A classe média alta é quem tem condições financeiras de frequentar cinemas com regularidade; são um público mais selecionado, mais aberto a opções que as demais descartariam, mesmo se pudessem bancar o ingresso. Quanto ao filme, creio que teria atingido uma voltagem muito maior se os segredos guardados para o final não tivessem sido insinuados tão abertamente no decorrer da trama. Abraço!

  3. 1 agosto 2009 às 10:01 pm

    Estou com MUITA vontade de conferir “À Deriva”. Apesar das suas ressalvas, dá para ver que o filme é diferenciado!

    Beijos!

  4. Caio
    1 agosto 2009 às 10:29 pm

    Também estou com muita vontade de assistir “À deriva”.
    Adoro os trabalhos de Dhalia.

    “[…]tem ainda pontas de Cauã Reymond, que está em tudo que é filme ultimamente[…]”
    O q uma novela das 8 não faz!
    Eu acho Cauã Reymond e Reinaldo Gianecchini medíocres como atores.

    • 2 agosto 2009 às 7:59 am

      Ka, tb estava muito ansioso por conferí-lo. E mesmo com as minhas ressalvas, gostei bastante. Tanto que a nota foi altinha… Beijo!

      Caio, Reymond não é um grande ator mas o acho melhor que o Gianechini, que é um canastrão assumido. Nos filmes que eu vi com o Cauã, ele esteve bem, melhor do que na TV. Talvez porque os papeis no cinema sejam muito melhores, e todo ator depende de um bom personagem.

  5. Caroline®
    3 agosto 2009 às 11:58 pm

    Quero ver! Aliás, tenho seguido suas indicações, Louis. Recentemente, vi “O menino do pijama listrado” – bárbaro, dá um nó na garganta difícil de passar – e A Proposta – diversão honesta, tinha esquecido como a Sandra é engraçada, e Ryan não é tão canastrão quanto pensei. Vou continuar de olho nas suas sugestões!

    • 4 agosto 2009 às 12:13 am

      Caroline, fico muito feliz em saber que as dicas no blog tem sido úteis a você!!! 🙂 E que dessas duas recomendações, tenha ficado com boa impressão de ambas. Corra atrás de À Deriva que tb creio que irá gostar.

      Beijos!

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