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Archive for agosto \31\UTC 2009

Aldeotas

31 agosto 2009 3 comentários

Essa dica chega tarde aos leitores, e de qualquer forma seria restrita aos paulistanos: a peça “Aldeotas”, escrita e protagonizada por Gero Camilo, está saindo de cartaz após curta temporada no Tuca. Mas como vem sendo encenada, aqui e ali, desde 2003, não devem faltar oportunidades para ser vista futuramente. E vale a conferida. Pela primeira temporada a diretora Cristiane Paoli Quito ganhou o prêmio Shell, a honra máxima do teatro nacional, equivalente ao Tony nos Estados Unidos; o espetáculo foi ainda indicado como Melhor Iluminação, Melhor Ator e Melhor Autor, as duas últimas para Gero. Nada mais justo. Ainda mais considerando que esta é uma produção modesta, feita com poucos recursos, encenada numa arena simples (com uso completo do espaço cênico) e com muito texto nas costas de dois únicos atores (Gero tem vaga cativa e no papel do amigo os profissionais se alternam; Caco Ciocler fez por um tempo e na montagem recente entrou Marat Descartes).

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Trata-se de uma história divertida, sensível e palpável, que usa e abusa das simbologias à que o palco dá direito, mas que mantém também um pé sempre fincado no realismo. Na cidadezinha fictícia Coti das Fuças, dois amigos de infância vão se reencontrar e relembrar, em fragmentos, passagens da juventude. Gero interpreta Levi, o mais excêntrico, um aprendiz de poeta que sonha, logo no início da peça, que está sendo carregado para dentro de um formigueiro! (O clima de teatro experimental não permanece, e a trama engrena logo em seguida.) Levi tem cinco anos e brinca diariamente com o melhor amigo Elias (Marat, outro ator ótimo, vencedor do Shell em 2007 por “Primeiro Amor” – que, como diria Silvio Santos sobre o filme da Sessão das Dez, “não vi, mas ouvi dizer que é muito bom”). “Aldeotas” vai saltando no tempo, através de flashs da infância, do início da adolescência e da idade adulta. Aborda, no meio do caminho, a descoberta da sexualidade (Levi é afeminado e, para “endireitá-lo”, o pai – nunca visto, apenas mencionado – o leva para o bordel), os problemas familiares (o pai de Elias é alcoólatra e bate na mulher), os namorinhos juvenis (com a chegada das primas dos heróis), a manifestação de um talento (os dois levam jeito para as letras e imprimem, de forma primitiva, um jornal escolar) e as esperanças por uma vida melhor (deduzem que Coti das Fuças é pequena demais para suas ambições e planejam fugir para a metrópole depois da formatura).

Ou seja, é uma peça pra todo mundo rir e se emocionar nas mesmas proporções. E quem sabe até se identificar com os personagens, que carregam certa verdade e ganham o público sem esforço. Os atores são tão bons que até parecem estar improvisando onde na verdade respeitam o roteiro. Comecei a experiência relutante e em pouco tempo estava rendido aos dois (apesar de Marat não ter tantas chances e do melhor texto ter ficado com Gero). Aliás, que ator é este, hein? Ele entrou no meu ballot como um dos melhores coadjuvantes do Cinema em 2001, entre qualquer nacionalidade, pelo trabalho em “Bicho de Sete Cabeças”. Por sua fisionomia exótica não se encaixa em qualquer papel, mas por isso mesmo se volta para esses tipos mais humanos, em produções independentes, que lhe dão a chance de exercitar os músculos interpretativos e de evitar os personagens banais da TV. Se dá certo, como neste caso, ganha prestígio. Se não repercute, ao menos fica com as boas lembranças da experiência. E este cearense estranho, baixinho, “destamanico”, consegue ser, com folga, um dos melhores atores brasileiros em atividade.

.:. Aldeotas. De: Cristiane Paoli Quito. Com: Gero Camilo e Marat Descartes. Teatro Tuca. Rua Monte Alegre, 1024. R$40,00. Cotação: B+

Categorias:Teatro

É tudo verdade

30 agosto 2009 7 comentários

Cinebiografias estão na moda, apesar da melhor e mais inovadora delas, “Amadeus”, ter ficado lá nos anos 80. O que se vê ultimamente são fitas cada vez mais banais e convencionais, que servem apenas como veículo para o show de seus protagonistas. Os atores, que de bobos não tem nada, estão cientes de que personagens reais podem lançá-los em posição privilegiada na disputa pelo Oscar (e de que a Academia está tão vendida a papeis biográficos que premiou nove deles nos últimos sete anos). Pouco importa que a maioria dessas personificações esteja envolta em sinais de vaidades ou histrionismo, como se os intérpretes saboreassem sua dedicação e competência: o público se rende mesmo assim. Eis alguns dos filmes do nicho que conferi recentemente.

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* Antes do Anoitecer (Before Night Falls, 2000, dirigido por Julian Schnabel): Antes de se consagrar com o belo “O Escafandro e a Borboleta”, o artista plástico Schnabel trouxe às telas a vida do escritor cubano Reynaldo Arenas, com Javier Bardem no papel principal. É um grande trabalho do ator espanhol, mas não dá para entender porque rodaram o filme em inglês e não na língua nativa do biografado. O roteiro é discutível e a narrativa é bastante truncada, episódica, sem fluência (não fica claro que acontecimento A levou a B que levou a C e assim por diante). Uma pena, porque bom material não faltava: Arenas, poeta e homossexual, lutou para combater o comunismo e a política de Fidel Castro, foi encarcerado e torturado na prisão, conseguiu exílio em Nova Iorque e lá veio a morrer precocemente, vítima da AIDS. Aos fãs de Johnny Depp, esta é a chance de vê-lo se alternando em dois papeis coadjuvantes, um deles o de um travesti. Cotação: C+

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* Chaplin (Idem, 1992, dirigido por Richard Attenborough): Muitos se lembram da biografia que o diretor de “Gandhi”, também conhecido como o velhinho de “Parque dos Dinossauros”, fez sobre Charlie Chaplin, provavelmente o artista mais performático que o Cinema já viu. Robert Downey Jr. o interpretou com tanto afinco que acabou descolando sua primeira indicação ao Oscar (depois disso se afundou nas drogas, foi preso em várias ocasiões e penou para recobrar o prestígio e chegar à boa fase em que está hoje). O mais curioso, contudo, é a presença no elenco da filha de Chaplin, Geraldine, no papel da mãe do cineasta (sua avó na vida real)! Vindo de uma infância dura na Inglaterra (foi criado em orfanatos, já que o pai abandonara a família e a mãe fora levada para um asilo em função de seus problemas mentais), Chaplin fez sucesso como comediante nos teatros dos Estados Unidos antes de ser levado para o Cinema (a indústria dava seus primeiros passos e o negócio era precário). O filme é recomendado aos que desejam saber um pouco mais sobre o ícone Charlie Chaplin – mas não gosto de algumas opções de Attenborough, que cria algumas cenas estilizadas, puxadas para o pastelão, como nas obras do personagem-título (tais alegorias funcionam melhor no palco). Cotação: C+

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* Fome (Hunger, 2008, dirigido por Steve McQueen): Vi no exterior esta produção irlandesa ainda inédita no Brasil. Seu tema é espinhoso: conta como o prisioneiro do IRA Bobby Sands (Michael Fassbender, que poderá ser visto no próximo filme do Tarantino) conduziu uma greve de fome reivindicando o Status de Categoria Especial (que o definiria como um preso político e o diferenciaria de um criminoso comum), e como se manteve firme aos seus ideais até a morte por inanição, 66 dias depois. O diretor, xará do finado astro de cinema, opta a princípio por uma narrativa quase poética (que por escapar dos moldes tradicionais evita julgamentos morais). Porém, como uma anedota, “Fome” se constrói em torno de seu desfecho – e este é infalível, arrebatador e nada sutil. A transformação física a que Fassbender se submete é espantosa. Ele emagrece e se debilita, mas se mantém tão expressivo, tão dentro de cada momento, que jamais deixa dúvidas sobre os méritos de sua performance: são todos dele, e não do regime. Aplaudo ainda o roteiro, que se refreia, não envereda para o cinema político e trata todos os personagens, dos prisioneiros a um carcereiro em particular, com dignidade (inclusive distribui o foco da ação para não situar nem mesmo Sands como um mártir). Cotação: A+

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* Milk – A Voz da Igualdade (Milk, 2008, dirigido por Gus Van Sant): Um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme este ano, “Milk” rendeu as estatuetas de Melhor Ator para Sean Penn e a de Melhor Roteiro Original para Dustin Lance Black (que veio de uma comunidade mórmon e é um dos colaboradores da série “Big Love”). A vitória de Penn gerou discordâncias, já que Mickey Rourke vinha com o mesmo favoritismo por “O Lutador”. Ou seja, serviu para confirmar tanto o tesão da Academia por personagens verídicos quanto a imparcialidade dos votantes (Rourke tem um passado de arrepiar, cheirou pó pra dedéu e ganhou a antipatia dos membros da indústria que testemunharam seus dias de cão). Mas não dá para desmerecer Sean, que é um deus da atuação e que mergulha fundo na alma de Harvey Milk, o primeiro gay assumido a ocupar um cargo público nos Estados Unidos (foi eleito conselheiro de São Francisco, depois de muitas tentativas e reivindicações). Seria assassinado por um colega da câmara, um homofóbico que mataria também o prefeito da cidade. Da primeira vez que assisti não me impressionei com o resultado, apesar de ter achado o elenco espetacular e acima de qualquer suspeita (Josh Brolin, James Franco, Emile Hirsch e Allison Pill são alguns dos notáveis coadjuvantes). A minha segunda impressão, porém, foi mais favorável. Gus Van Sant se sai melhor quando lida com histórias sinceras como esta do que quando inventa moda como o pavoroso “Elefante”. Cotação: A-

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* Piaf – Um Hino ao Amor (La Môme, 2007, dirigido por Olivier Dahan): Marion Cotillard tem uma das melhores atuações da década como a legendária Edith Piaf, a cantora que descarregava no palco as suas doses colossais de sofrimento. O filme, porém, não está à altura do talento de sua protagonista. Perde pontos pela narrativa esquemática, complicada por uma montagem não-linear e prejudicada ainda pela omissão de fatos relevantes da vida da biografada (ou pela ênfase em outros pontos desnecessários). Não aborda, por exemplo, as manifestações de Piaf contra a Segunda Guerra, e joga para um flashback apressado no final a informação de que ela teve uma filha, que morreu ainda criança vítima da meningite (e com quem Edith era negligente). Por outro lado, a caprichada reconstrução de época e, principalmente, o excepcional trabalho de maquiagem que facilita a imersão de Marion na personalidade são dignos de elogio. Cotação: B-

E você? Quais foram os últimos casos reais que viu retratados no cinema?

Categorias:Cinema

Separados no Nascimento

Me peguei revendo, na noite de Sexta, o vibrante, anárquico e sensacional “Hedwig and the Angry Inch” (o título em português é horrível: “Hedwig – Rock, Amor e Traição”). É um musical biruta e autoral que John Cameron Mitchell bolou para a off-Broadway e que depois adaptou para o Cinema, dando a si próprio o papel principal (que defende com energia telúrica). Ele interpreta um alemão que mudou de sexo para poder se casar com o amante e assim deixar a Alemanha Oriental. Mas a cirurgia foi mal feita e ficou sobrando uma “polegada raivosa” do pênis. Para completar o marido o abandona, e a queda do muro de Berlim logo em seguida torna desnecessário todo o esforço. Anos depois, nos Estados Unidos, Hedwig (o nome feminino que adotou) vai compartilhar suas angústias através das músicas, escritas por ele mesmo e apresentadas em shows mirabolantes (mas um moço boa pinta rouba algumas dessas canções e se torna famoso sem lhe dar os créditos). Tudo é contado em flashbacks, numa narrativa diferente, original, ousada. Deu no que deu: um dos melhores frutos do cinema independente americano nos últimos anos.

A raison d’être deste post, contudo, é deixar registrado meu espanto ao constatar que, travestido e coberto de purpurina, John Cameron Mitchell é a cara da Rachel Griffiths, a nossa querida Sarah de “Brothers & Sisters” (também Brenda na finada “A Sete Palmos”). Igual, irmão gêmeo.

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E sim, “Hedwig” merece ser visto. Ainda mais por quem desdenha do cinema recente e da saturação de filmes convencionais, quadrados e apáticos.

.:. Hegwig – Rock Amor e Traição (Hegwig and the Angry Inch, 2000, dirigido por John Cameron Mitchell). Cotação: A+

Categorias:Cinema, Gente

Da Broadway para a Brigadeiro: A Bela e a Fera

28 agosto 2009 8 comentários

“A Bela e a Fera” dispensa introduções. É muito antiga esta fábula francesa sobre a mocinha sonhadora que é aprisionada num castelo guardado por um monstro (na verdade um príncipe enfeitiçado), e que acaba se apaixonando por ele à medida em que desperta sua humanidade. Mas foi em 1991, com o filme da Disney, que a história se popularizou e ganhou sua versão definitiva. Em parte porque inventaram coadjuvantes memoráveis (os serviçais da Fera também acabaram sendo vítimas do feitiço, transformados em bules, relógios, candelabros etc.), em parte porque contavam com canções extraordinárias de Alan Menken e Howard Ashman (seria o último trabalho de Ashman; muito debilitado pela AIDS, ele começou a escrever as músicas de “Aladdin” e faleceu antes de completá-las, sendo substituído por Tim Rice). “A Bela e a Fera” também é a única animação a concorrer na categoria mais nobre do Oscar, a de Melhor Filme.

Nos parques da Disney está sempre em cartaz uma peça de teatro inspirada no longa, mas nada supera a versão que estreou na Broadway em 94. Mais caprichado, elegante e grandioso, o musical foi encenado em Nova Iorque por treze anos e, nesse meio tempo, levado na íntegra para cerca de vinte países, interpretado por artistas locais. É uma produção cara, custosa, mas tão famosa e bem-amada que já arrecadou um bilhão e meio de dólares mundo afora (o preço do ingresso no Brasil é salgado, o que torna a peça restrita para a classe média alta – eu mesmo só fui ver em dia promocional). A primeira versão nacional chegou a São Paulo em 2001, para deixar o Teatro Abril um ano e meio depois. Foi vista por meio milhão de brasileiros e tão elogiada que se fez necessário esse revival em 2009. Tudo nos moldes da Broadway: os 32 cenários, as centenas de figurinos e perucas, os efeitos de cena, a orquestra ao vivo. As letras foram adaptadas por Cláudio Botelho, que estranhamente modifica algumas linhas da tradução eternizada no filme (o tema principal foi quase todo adulterado). Miguel Briamonte, de outras importações de alto nível como “Chicago”, “O Fantasma da Ópera” e “Miss Saigon”, é o diretor musical.

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Deixo claro que “A Bela e a Fera” não é bom como “O Fantasma da Ópera” – é muito melhor. O musical de Andrew Lloyd Webber é mais conhecido, mas nada mais é do que uma sucessão de operetas, ou no máximo um espetáculo de grand guignol. Também está degraus acima do kitsch e cafona “A Pequena Sereia”, outra adaptação de Disney/Menken para a Broadway que pode aportar em terras tupiniquins em breve. O elenco brasileiro está no mesmo nível de excelência do americano, todos os integrantes muito bem escolhidos. Talvez porque resistiram ao impulso de escalar atores globais. Devem ter percebido que, numa peça também apropriada para crianças, é bobagem correr atrás de grandes nomes (ou alguém aqui acha que Danielle Winits e Edson Celulari conseguiriam papeis de destaque em “Chicago” e “Hairspray” se fossem fulanos de tal?). A mais famosa aqui você nem vai conhecer se eu não explicar quem é: Lissah Martins, a Bela, era uma das componentes do grupo “Rouge”, onde se apresentava com o nome artístico Patrícia. Ela não tem a mesma desenvoltura de Kiara Sasso, a nossa Bela original, mas é meiga e bem mais bonita – pré-requisito básico para dar vida à essa heroína em particular. Ricardo Vieira é a Fera, tão bem quanto Saulo Vasconcelos, e Murilo Trajano é o vilão Gaston (Daniel Boaventura foi este último na montagem de 2001, antes de se bandear para a Globo, com resultado ainda melhor).

São dois atos, com intervalo de vinte minutos entre eles, e duração aproximada de 2h40. As graças ficam por conta dos coadjuvantes (Marcos Tumura e Jonathas Joba, o Lumiére e o Relógio, são uns dos únicos a reprisar o papel; o bule Sra. Potts é Paula Capovilla), e as gracinhas são todas do menininho que faz a xícara Chip – fofo até onde dá e mais um pouco. Há dois clímaxes indeléveis: o primeiro é na taverna onde Gaston e seus comparsas fazem uma dança muitíssimo bem coreografada com os copos (quem ensaiou foi Floriano Nogueira, respeitando escrupulosamente as coreografias da Broadway) e o segundo é quando o staff da mansão convida Bela para um banquete. “Be Our Guest”, ou “Pra Você”, que no filme parecia um show dos anos 30, resulta de muito bom gosto, sem pender para a cafonice (e a participação de tudo que é objeto, entre talheres, saleiros e pratos, fazem aumentar nossa admiração pelas fantasias). Não é preciso dizer que a transformação de Fera em Príncipe ao final é impressionante e irretocável.

Você notou que citei uma grande quantidade de nomes no texto acima. É para realçar, um a um, os artistas talentosos e competentes que temos aqui. Para aplaudi-los de pé. E para recomendar aos paulistanos que ainda não assistiram (ou mesmo àqueles que só estejam de passagem por São Paulo) que não percam a chance de testemunhar essa maravilhosa empreitada antes que saia de cartaz.

.:. A Bela e a Fera. 160 min. Livre. Teatro Abril (1.533 lug.). Av. Brig. Luís Antônio, 411. Tel. (011 6846-6060). 4.ª 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 17 h e 21 h; dom., 16 h e 20 h. R$ 70/ R$ 240. Cotação: A+

Categorias:Teatro

Buffy Decide Morrer

27 agosto 2009 8 comentários

“Veronika Decide Morrer” é um dos únicos livros do Paulo Coelho com que eu tive contato (cheguei ao meu limite na minha última tentativa, “O Alquimista”). Ele pode vender que nem água e ser respeitado internacionalmente (e até dentro do país, depois que venceu os velhinhos da Academia Brasileira de Letras por exaustão), mas continuo abominando o mago-wannabe. Nunguento a autoajuda, as sabedorias de rodoviária, os parágrafos lotados de chavões e as ofensas à gramática. Tem quem se satisfaça, mas definitivamente não estou entre eles. Favor não insistir.

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Enfim: essa produção americana “Veronika Decide Morrer” é a primeira adaptação cinematográfica de um livro do autor brasileiro. A personagem-título foi transformada de eslovena em nova-iorquina, e é interpretada pela Sarah Michelle Gellar, a eterna Buffy, a Caça-Vampiros. Conta a história de uma moça bonita, com bom emprego e boa saúde, que um dia resolve se matar. Simples e direta, toma uma overdose de medicamentos logo no início do filme, mas é resgatada e levada para uma clínica psiquiátrica. Lá descobre que o incidente lhe causou danos irreversíveis no coração, e que vai morrer de qualquer jeito em questão de semanas. Enquanto espera o fim de sua vida, vai convivendo com os outros pacientes do lugar – a colega de quarto é Erika Christensen; uma advogada deprimida é Melissa Leo – e tendo sessões com o terapeuta responsável (David Thewlis). Desperta também o interesse de um garoto problemático (Jonathan Tucker), internado desde que surtou com a morte da namorada (porque escolheram um rapaz tão feio e tão sem química com a protagonista é um mistério não solucionado). O desfecho você pode adivinhar sem esforço.

Assim como o texto em que se baseia, o filme surge abarrotado de lições de vida e mensagens positivas de esperança. Mas não é “pra cima”, e sim excessivamente melancólico, lento, sem ritmo ou rima. A moral, é claro, prega que a felicidade está presente nas pequenas coisas. Difícil é acreditar que Veronika só tenha se dado conta disso dentro de um manicômio – não seria mais fácil assistir a “Amélie Poulain” e chegar à mesma conclusão? A diretora Emily Young não tem um currículo extenso, mas merece certa condescendência por insistir bravamente num ramo dominado por homens (é preciso ser um pouco macho para ocupar o cargo, com tantos subordinados para comandar e tantos egos inflamados para refrear). Ela demonstra talento e olho clínico para cinema (note como intercala as respostas de Veronika às perguntas triviais dos médicos com cortes rápidos – onde visualizamos a infância, o apartamento e o local de trabalho da personagem), mas não pode fazer milagres com um roteiro falho, dramaticamente fraco e sem impacto, que sequer aborda o medo da morte (como a personagem está ansiosa para morrer de uma vez, não se discute sobre o pós-vida, tampouco se aprofunda nos motivos que a levaram a tentar o suicídio pra começo de conversa – tudo fora explicado na introdução, de forma não muito convincente). Ah, e todos os coadjuvantes são mal aproveitados.

É até uma alegria constatar que o elenco se defende bem desses porvires. Os papeis deixam a desejar, mas os atores são expressivos, competentes e mantém o foco. Thewlis e Leo dispensam qualquer comentário – são veteranos confiáveis, ainda que subestimados (Melissa teve um reconhecimento justo, porém tardio, no início do ano: uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por “Rio Congelado”). E o rosto do filme, Sarah Michelle, não dá motivos para reclamações. Ela foi atriz infantil, é mirrada, tem o nariz arrebitado e fotografa mal, mas tem potencial. Só carece de melhores chances para explorá-lo. Infelizmente para Sarah, não foi com este filme que conseguiu.

.:. Veronika Decide Morrer (Veronika Decides to Die, 2009, dirigido por Emily Young). Cotação: D+

Categorias:Cinema

Quando Cinema é coisa séria

Afirmo com convicção: o alemão “A Onda” é um dos filmes mais perturbadores dos últimos tempos. Cheguei ao ponto de querer sair do cinema, e não porque estava de saco cheio ou desligado da história, e sim por estar tão envolvido, tão incomodado e tão dentro da proposta que temia pelos personagens e pelo desfecho inevitável (o final se assume como radical, convence e confirma o impacto). Trata-se de um estudo sobre o comportamento humano conduzido por um professor de colegial. A pesquisa informa que foi baseado em fatos ocorridos na Califórnia nos anos 60, e a transposição para a Alemanha atual é muito oportuna por um motivo óbvio: foi ali que nasceu o nazismo.

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Em Berlim, numa aula de Autocracia, os alunos reclamam quando se deparam, mais uma vez, com o nazismo em pauta (a nova geração de alemães, mesmo isenta de responsabilidades, carrega involuntariamente a culpa e a vergonha por essa mancha na História do país). Segundo eles, algo assim nunca se repetiria nos dias de hoje. O professor resolve, então, partir para a prática, sem esclarecer a princípio suas intenções. Propõe um exercício, denomina-se o líder da sala e impõe uma série de regulamentos (só poderiam tratá-lo pelo sobrenome, só poderiam tomar a palavra caso ficassem em pé, só poderiam assistir a aula se uniformizados com camisa branca e jeans etc.). Dentro de uma semana, um tempo recorde, os garotos vão estar completamente transformados. Ludibriados pelo poder da unidade, se autodenominam A Onda, inventam uma saudação própria, picham símbolos do grupo pela cidade, impedem a entrada na escola daqueles que não se afiliarem a eles, e perseguem os que se opuserem (uma menina percebe desde o início as proporções catastróficas que aquilo está tomando e é marginalizada). E é claro que quando o professor decide dar um basta no projeto as coisas já saíram do controle (uma reclamação é que o ritmo de algumas cenas ficou muito marcado, beirando o suspense convencional). Resumo da ópera: uma reprise do nazismo é tão facilmente possível que dá até medo.

É uma tijolada na testa com a mesma força de outro longa alemão disponível em DVD no Brasil, “A Experiência”, de 2001 (neste recriava-se aquele famoso experimento em que cidadãos comuns foram colocados num presídio, uns na posição de guardas e outros na condição de prisioneiros – culminando inclusive em assassinato). Mas não pense que o Cinema do país está querendo se justificar ou criar desculpas para os atos de barbárie cometidos algumas décadas atrás. Está apenas apresentando teses sobre o descontrole, sobre a propensão do ser humano a partir para a frieza e a crueldade quando lhe convém – uma conclusão dura, amarga e verdadeira. O roteiro de relojoaria de “A Onda”, escrito pelo próprio diretor, convida – ou melhor, obriga – o espectador a se colocar na pele dos personagens. Quando constatei que provavelmente agiria da mesma forma que a esmagadoria maioria dos alunos naquela situação, fiquei espantado e enojado comigo mesmo. E o que mais podemos esperar de um filme, além de que ele nos pegue pelo estômago?

.:. A Onda (Die Welle, 2008, dirigido por Dennis Gansel). Cotação: A-

Categorias:Cinema

Festival da Boa Vizinhança

Caro leitor,

Venho por meio desta agradecer aos blogs amigos que me presentearam com dois selos muito simpáticos. O Kauê, do Bit of Everything e também colega de longa data no Orkut, me agraciou com o “Vale A Pena Ficar de Olho Neste Blog”. E o Robson, do Portal Cine, com o selo “Master Blog”. Obrigado aos dois pela menção! Você, que está aí de bobeira, fica aconselhado a prestigiar os blogs finíssimos dos caras.

 

Direto do Bit of Everything

Direto do Bit of Everything

Um mimo do Portal Cine

Um mimo do Portal Cine

 

Também me incumbiram da tarefa de listar 5 características minhas. Para aqueles que desejam saber um pouco mais sobre o autor do digníssimo Letters from Louis, essa é a hora. Aí vou eu:

– Cinéfilo incorrigível. Assisto a uma média de dois filmes por dia, e em 2005 atingi a imbatível marca de 830 filmes em um ano (fora as reprises).

– Escritor de gaveta (e perfeccionista). Mantenho diários desde que tinha treze anos, escrevi uma porção de contos e já comecei uma infinidade de projetos de livro (que nunca terminei por não estar satisfeito com o resultado). Também tenho dois roteiros prontos e outro em andamento.

– Egoísta, ciumento e possessivo. Mas nego todos esses defeitos – ou melhor, tento vê-los como detalhes imutáveis, para ficar mais leve. Como diz aquela música de Rent: “Take me for what I am or leave me”.

– Solitário por opção. Tenho amigos em pequeno número, mas bem escolhidos. E preciso ficar algumas horas do dia sozinho para manter um equilíbrio mental (por isso não abro mão de viver só).

– Andarilho inquieto. Nada me anima mais do que uma boa viagem. E as melhores até hoje acabaram sendo aquelas que fiz com pouco dinheiro.

Mas não se assuste. Apesar de tudo isso eu tenho bom coração. E é com amor e carinho que passo os selos para outros blogs queridos. Para os veteranos Vinícius (Blog do Vinícius), Kamila (Cinéfila Por Natureza), Wally (Cine Vita), Hugo (Cinema – Filmes e Seriados) e Cléber (Club Cinéfilo), mando o “Master Blog”. Para os notáveis Pedro e Rômulo (Luz, Câmera e Tesão), Alex (Cinema, TV e Blábláblá), Doc (Movie from Boxes), o ausente JP (Cine JP) e Rafaella (Bring Me the Disco King), deixo o “Vale a Pena Ficar de Olho Neste Blog”. E vale mesmo, viu?

Vai lá!

Categorias:Diversos