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Archive for julho \31\UTC 2009

Cine Mundi

Mais uma trinca de filmes conferidos e avaliados:

* Bem-Vindo (Welcome, 2009, dirigido por Philippe Lioret): O instrutor de natação de uma piscina pública de Paris se aproxima de um jovem imigrante iraquiano que deseja aprimorar suas habilidades para cruzar, a nado, o Canal da Mancha – tudo para se juntar à sua amada, que mora com a família em Londres. Essa história bonita e edificante é contada nesse filme francês – com título em inglês – do diretor de “Não Se Preocupe, Estou Bem”. “Bem-Vindo” se esquiva de uma pieguice que parece inevitável e, vez ou outra, chega perto do arrebatador. Só o que prejudica é o roteiro, que tira da cartola uma série de complicações apenas porque a trama está carente de conflitos. Ainda assim, fiquei com ótima impressão e recomendo com entusiasmo. Cotação: B+

* Horas de Verão (L’heure d’été, 2008, dirigido por Olivier Assayas): Não se deixe enganar pelo nome de Juliette Binoche à frente dos créditos – o papel dela em “Horas de Verão”, em cartaz em cinemas selecionados, é estritamente coadjuvante; Charles Berling, que interpreta o irmão mais velho, é o protagonista. No filme, a mãe idosa morre e deixa para os filhos uma casa de veraneio e um grande acervo de obras de arte (aparentemente ela era envolvida com um célebre pintor, de quem herdou quadros, rascunhos e mesmo a escrivaninha onde trabalhava – tudo isso material valioso para museus). Mas os personagens não tem substância e ao final sabemos muito pouco sobre eles, ou nada (dentre os irmãos, o mais velho quer manter as coisas da mãe, mas Juliette mora nos Estados Unidos e o caçula – Jérémie Renier – está de mudança para China, então votam por se livrar de tudo). O roteiro se limita a fazê-los colocar os objetos à venda, sem mais, com muita sobriedade e zero plasticidade. E o filme, decupado à moda antiga, ainda abusa dos deselegantes fades-to-black (ou seja, tela preta) quando precisa representar uma longa passagem de tempo. Resumindo: um drama familiar seco, opaco e sem raison d’etre. Cotação: C+

* O Grupo Baader Meinhof (Der Baader Meinhof Komplex, 2008, dirigido por Uli Edel): Não estou depreciando o longa alemão quando digo que era o mais fraco dentre os indicados (que eu vi) ao Oscar de Filme Estrangeiro deste ano. Afinal de contas, “A Partida”, “Valsa com Bashir” e principalmente “Entre os Muros da Escola” eram obras-primas com o’s e p’s maiúsculos. Em defesa deste exemplar está o bom elenco, a direção competente, e o enredo rico e interessante, baseado em fatos que ocorreram na Alemanha nas décadas de 60 e 70, e que pouca gente de fora do país deve conhecer. O filme narra a rotina de uma organização de esquerda que praticou assaltos, sequestros e atentados locais (os sobrenomes dos principais líderes, um homem e uma mulher, eram Baader e Meinhof). Estaria tudo maravilhoso se o roteiro – ah, o roteiro! – não tomasse tanto o partido do grupo e, involuntariamente, induzisse o público a torcer para que eles atinjam seus objetivos (e como isto inclui matar ou torturar civis inocentes, só posso realçar o quão absurda é essa postura). Ignora-se essa puta falha e, voilà, o filme passa por uma boa e oportuna aula de História. Cotação: A-

Vai ver/Já viu algum?

Categorias:Cinema

TV, para variar

Uma chuva inconveniente impediu a minha maratona ininterrupta de cinema nessa quarta-feira, e os filmes agendados terão que ser deixados para próxima. Mas não se desespere porque assunto é o que não falta pra gente comentar. Já que não tem filme, passemos para TV!

É com grande pesar que informo que encerrei “Joan of Arcadia”, só para constatar o que eu temia: que o cancelamento pegou todo mundo de surpresa e que não tiveram a chance de fechar as pontas e entregar conclusões mastigadinhas. Mais ou menos como aconteceu com “Veronica Mars”. Ou “Pushing Daisies”. Uma pena? Nem tanto, porque série com final de novela geralmente me irrita (alguém se lembra do pavoroso finale de “Will & Grace”?); até gosto de finais abertos, que dão a entender que a vida do personagem vai continuar mesmo depois de você desligar a TV. Só não pode deixar evidente o quanto de histórias a série ainda tem a contar, porque isso simplesmente deprime o espectador fiel – e foi o que aconteceu aqui. A introdução do Wentworth Miller, o carequinha de “Prison Break”, como um rapaz misterioso que também se comunica com Deus, teria sido um ótimo gancho para uma terceira temporada que nunca veio e nunca virá. Restam apenas as boas lembranças de Joan, do Chief Girardi, da Helen, do Luke e do Kevin (que era meio sacal, é verdade, mas ainda estou emotivo com o final da série). E de toda a galerinha da escola também. Fica ainda a certeza de que Amber Tamblyn entregou uma das grandes performances da televisão americana nos últimos anos – reparem bem naquele episódio da morte da Judith; não é qualquer atriz de 20 anos que faz aquilo.

Joan of Arcadia se despede do blog!

Joan of Arcadia se despede do blog!

Mudando de pato pra ganso, só hoje tive chance de checar a lista dos episódios submetidos ao Emmy. Como acompanho religiosamente a maioria das séries indicadas, já vi quase tudo – vou baixar os que faltam e tentar rever os já assistidos para tirar a prova dos nove. Mas já compartilho com vocês algumas impressões que ficaram: “30 Rock” e “Mad Men” são os vencedores inevitáveis como Melhor Comédia e Melhor Drama, respectivamente. O melhor conjunto de episódios, contudo, é o de “Family Guy” – que por ser animação consegue ir a fundo num humor que em séries de live action soaria artificial – entre as comédias e “Damages” entre os dramas (confesso que, nesse caso, por questão de preferência mesmo, já que a qualidade de “Mad Men” é equivalente). Entre os atores, Alec Baldwin tem tudo pra ganhar pela segunda vez por “30 Rock” (ele submeteu “Generalissimo”, onde dá um show fazendo paródia das telenovelas latinas) e Hugh Laurie, o House, que ainda não tem Emmy na sua coleção de prêmios, mandou seu melhor momento na temporada, “Under My Skin” (e se isso não bastar para premiá-lo, ao menos o torna o mais merecedor da categoria). Atriz nem tem dúvida: que votem em Glenn Close (“Trust Me”) e Toni Collette (“Pilot”) de olhos fechados. Entre os coadjuvantes, me falta ver a fita de três dos indicados como ator em drama (favorito atual: William Hurt), mas reafirmo minha preferência por Neil Patrick Harris em comédia. Jane Krakowski tem tudo para vencer por “30 Rock” (mandou “The Ones”, onde tem muito destaque) e Rose Byrne, que submeteu o mesmo episódio da Glenn, é de longe a mais assombrosa entre as atrizes dramáticas.

Vou conferir os episódios que me faltam e sugiro que você, predictor, faça o mesmo!

Categorias:TV

A comédia romântica da temporada

Antes de mais nada, uma confirmação: “Harry Potter” no IMAX, com os primeiros minutos em 3D, estrapola os limites do espetacular. Mas antes que você fique deprimido por perder essa experiência, vamos falar sobre um filme acessível a todo mundo… E exclusivo em 2D!

As pessoas avisaram, as pessoas estavam certas: “A Proposta” é a melhor comédia romântica da temporada e o melhor filme recente de Sandra Bullock. Ela sempre foi uma boa atriz, mas teve o azar de fidelizar uma grande base de fãs. Acabou ficando presa a um nicho muito pequeno e sempre que se arriscou em alguma coisa diferente quebrou a cara (assim como Jim Carrey e Adam Sandler, que provaram competência no drama, mas que sabem que prestígio não enche a barriga de ninguém e, portanto, voltaram para os mesmos truques).

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Nessa nova empreitada, Sandra divide a cena com outro ator ótimo, o também experiente em comédia Ryan Reynolds. Ela interpreta uma editora literária de coração gelado e Reynolds, seu empregado esforçado e dedicado. O problema é que ela é canadense e ocupada demais para regularizar sua situação nos Estados Unidos. Quando se vê prestes a ser deportada, surge com o plano de se casar com o assistente para manter o emprego conceituado e a vida que construiu para si. Ele a abomina, mas concorda em troca de uma promoção e da publicação de um romance que escreveu. A fim de se conhecerem melhor para a entrevista com o fiscal do governo, os dois voam até o Alasca para o final de semana – a família do rapaz mora lá e a avó (Betty White, de “As Supergatas”) está fazendo aniversário.

Daí em diante o filme assume ares de sitcom, com uma sucessão de episódios isolados, alguns bons e outros nem tanto (é dispensável, por exemplo, a sequência da velhinha fazendo um ritual místico na floresta). Obviamente é tudo muito previsível e só pelo trailer se adivinha o desfecho. Mas as soluções convencionais não incomodam diante da afiada dupla de protagonistas, dos coadjuvantes de luxo (tem também Craig T. Nelson e Maureen Steenburgen como os pais), das belíssimas locações e até da boa escolha de canções. A diretora Anne Fletcher começou como coreógrafa, mas não hesita atrás das câmeras (seu primeiro filme foi, de acordo com suas habilidades, “Ela Dança, Eu Danço”, e o anterior, “Vestida Para Casar”, com Katherine Heigl, já era bacana). Logo de cara ela demonstra que tem olho clínico pra cinema (na cena em questão, a câmera passeia pela floresta, que acaba se revelando uma gravação exibida na TV diante da qual Bullock pedala uma bicicleta estática – uma sacada bem executada, enfim); e não deixa mais a peteca cair. Ryan e Sandra, muito fotogênicos, ainda se arriscam em cenas de nudez parcial (mas não se anime porque só dá pra ver o bumbum). Aliás, para quem já está com quarenta e cinco anos, Sandrinha (não o site) está com tudo em cima!

.:. A Proposta (The Proposal, 2009, dirigido por Anne Fletcher). Cotação: B+

Categorias:Cinema

Overdose de cinema

Não falei que ia correr atrás do prejuízo assim que voltasse pra São Paulo? Pois bem. Aí estão os três últimos conferidos.

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* A Era do Gelo 3 (Ice Age – Dawn of the Dinosaurs, 2009, dirigido por Carlos Saldanha): Deixei para ver em 3D a mais nova animação da franquia da FOX “A Era do Gelo”. Novamente dirigido pelo brasileiro Saldanha (que foi co-diretor do primeiro e já assumiu sozinho o segundo), o filme é outra mistura equilibrada de comédia e aventura com os personagens originais (um casal de mamutes, um tigre, uma preguiça e um esquilo) e a adição de novos integrantes à trupe, como uma doninha biruta com panca de pirata e uma namoradinha para Scrat. Terceiro capítulo é sempre uma dificuldade porque a esse ponto tudo já foi contado e é complicado extrair uma trama interessante. Mas Saldanha não perde o fio condutor e entrega outra fantasia divertida (e bota fantasia nisso: só um filme de animação para colocar dinossauros em plena era do gelo!). O 3D é bem dosado, sem forçar a barra para distrair a criançada com truques. Cotação: B-

La Fille de Monaco

* A Garota de Monaco (La Fille de Monaco, 2008, dirigido por Anne Fontaine): O cinema francês está invadindo São Paulo depois do Panorama que aconteceu na Reserva Cultural (nos próximos dias devo ver pelo menos mais três importações do país). O engraçado é que, assim como no Brasil, na França fazem sucesso filmes que o resto do mundo considera ruim e vice-versa. Este aqui é um desses casos. “A Garota de Mônaco” é uma comédia chatinha e sem atrativos, que chegou a concorrer ao Cesar (o Oscar francês) de Ator Coadjuvante (Roschdy Zem, que faz o segurança) e Atriz Revelação (Louise Bourgoin, a garota do título). Fala sobre um advogado sessentão que assume um caso muito divulgado pela mídia, o de uma mulher rica que assassinou o marido. Mas ele acaba conhecendo essa moça atraente e atirada (Bourgoin) que tira toda a sua concentração. Não deixe de perder. Cotação: D-

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* Paris (Idem, 2008, dirigido por Cédric Klapish): O diretor de “Albergue Espanhol” e “Bonecas Russas”, duas das comédias de costume mais conhecidas da década, volta com outro filme de múltiplas histórias, mas mais puxado para o drama e com uma conexão muito mais tangencial entre elas. Do elenco, Juliette Binoche é a única conhecida dos brasileiros, e não por acaso tem o melhor enredo – ela faz com o carisma habitual a irmã de um rapaz com problemas no coração (Romain Duris, que também esteve em “Albergue…” e “Bonecas…”). Das demais tramas, algumas agradam, outras deixam o filme inflado e cansativo – tem personagens que nem se guarda o rosto e que quando aparecem você fica se perguntando quem são. É claro que as locações em Paris deixam tudo mais charmoso e elegante. Cotação: B-

E ainda hoje… “Harry Potter” no IMAX!

Categorias:Cinema

Inimigos Públicos

A história de John Dillinger, o assaltante de bancos declarado o inímigo público número 1 dos Estados Unidos na década de 30, já foi contada antes pelo cinema e pela TV (em telefilmes e seriados). Só que nunca antes fora narrada por Michael Mann, um cara que todo mundo respeita por filmes como “O Informante”, “Colateral” e em certos círculos, “Miami Vice”. Ele é aquele cineasta que você fica esperando que um dia arrebate de vez e acabe levando o Oscar – e teve sua chance com essa fita de gângster “Inimigos Públicos”, a cinebiografia definitiva de Dillinger com Johnny Depp no papel principal. Infelizmente para Mann, não é dessa vez que a Academia irá reconhecê-lo. O trabalho dele aqui é irregular, com erros e acertos para balancear – e se adianto que o saldo final é positivo, também afirmo que os méritos não são exclusivos do diretor.

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Mais uma vez, Mann opta por rodar tudo em alta definição, o que ornou com seus filmes anteriores mas que não combina com um filme de época. A câmera de mão é excessiva, inadequada, um capricho estético que nada faz pela narrativa. Outra desvantagem é que o HD não precisa de tanta luz quanto uma película, o que provoca cenas escuras que impedem os interessados de prestar atenção nos detalhes, nos prédios antigos e por vezes nos próprios atores (alguns membros do elenco só são reconhecíveis nos créditos finais). O que é uma pena, já que tudo foi rodado em locações autênticas, nada em estúdio – inclusive o cinema onde Dillinger assistiu a um filme de Clark Gable antes de ser assassinado é o mesmo aonde tudo aconteceu. (E antes de você me xingar por ter contado o final do filme, saiba que isso não é spoiler, e sim um fato amplamente divulgado e conhecido por qualquer fulano que não viva dentro de uma bolha. Aliás, essa cena no cinema tem outro propósito ainda: durante a projeção, Dillinger parece fascinado pela atriz Myrna Loy – com quem a doce Marion Cotillard, escalada como par romântico, é muito parecida.) Para encerrar a difamação, a fotografia poderia ter sido mais generosa com Johnny Depp, que aparece mais envelhecido que nunca e atuando no piloto automático.

Em defesa, há um par de sequências de tiroteio muito bem coreografadas e um lindíssimo assassinato que confirmam a qualidade de “Inimigos Públicos” enquanto thriller – sim, pois seu escopo dramático é sabotado pelo roteiro, escrito a seis mãos por Ann Biderman, Ronan Bennet e o próprio Mann. Ele nunca responde a perguntas básicas e essenciais, como de onde veio John Dillinger e o que motiva seus atos criminosos (brevemente o “personagem” menciona que a mãe morreu quando era criança e que o pai o espancava, mas não passa disso). O interessante é que não deixam passar em branco o fato de que, na cultura americana, o homicídio e a celebridade sempre andaram juntos – Dillinger se torna famoso a ponto do cidadão comum vê-lo mais como um herói e menos como uma ameaça (e a cena em que sua foto é divulgada num cinema onde ele se encontra resulta numa tentativa eficiente de humor). A trilha sonora também é especialmente charmosa, recheada de clássicos do período, em que se destaca o tema de Marion “Bye Bye Blackbird”. Falando na diaba, é com alegria que informo que do alardeado trio de protagonistas (Depp, Cotillard e Christian Bale), a francesa é, de longe, a mais notável – mas em papéis coadjuvantes também estão nomes e rostos conhecidos como Giovanni Ribisi, Billy Crudup, Channing Tatum e Carey Mulligan.

Resumo da ópera: “Inimigos Públicos” é um filme bastante bom. Mas apenas isso. Bastante; sem nada a mais. Não entrará para o hall sagrado dos filmes do gênero, mas tem qualidade o suficiente para ser uma das melhores estreias recentes. Então vá lá: veja.

.:. Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009, dirigido por Michael Mann). Cotação: B+

Categorias:Cinema

17 Outra Vez… Outra vez?

O pré-requisito básico para dois ou mais atores dividirem um personagem no mesmo filme não é a semelhança física (que é essencial, mas não unicamente importante). Mais relevante ainda é a sintonia entre esses intérpretes, e a capacidade de trabalharem em conjunto numa só composição. Postura, trejeitos, articulação, tudo tem que estar no devido lugar para que o público não consiga discernir um do outro. Pois bem: é preciso dizer que Zac Efron e Matthew Perry, os protagonistas da comédia “17 Outra Vez”, falharam amargamente na tarefa.

O jovem Chandler?

O jovem Chandler?

No filme, os dois vivem Mike O’Donnel, aos 17 e aos 37 anos. Outrora astro de basquete do colégio, Mike abandonou um jogo crucial para o seu futuro quando a namorada lhe informou que estava grávida, e passou os vinte anos seguintes imaginando como sua vida teria sido se tivesse completado a partida e ganhado uma bolsa de estudos. Agora ele está enfurnado num emprego ingrato onde não é reconhecido, e a namorada que se tornou esposa está prestes a se tornar ex (Leslie Mann, a mulher de Judd Apatow, assume o papel); para completar, os filhos (Michelle Trachtenberg e Sterling Knight) mal falam com ele e o melhor amigo que lhe acolheu (Thomas Lennon) é um nerd milionário com uma casa lotada de bugigangas. É aí que entra um velho recurso do cinema e, abracadabra, Mike volta a ter 17 anos – mas o tempo não retrocede. Ele continua vivendo no presente e vê essa milagrosa transformação como uma chance de ajeitar a sua vida e a vida de sua família. Volta para escola para descobrir que a filha está namorando um jock estúpido e que o filho é atormentado (“bullied”). E como um colega dos garotos, se aproxima da ex-mulher. Daqui pra frente você já consegue adivinhar como tudo vai terminar.

É inútil dizer que Zac, transformado em astro pela trilogia da Disney “High School Musical”, não convence como jogador de basquete. Ele é baixinho e não teria chances nem mesmo no Brasil, que dirá naquela terra de gente muito alta. Também é grotesco o quanto ele está musculoso, e como isso parece ainda mais chocante quando comparado à sua baixa estatura (obviamente ele tomou bola, assim como o menino-lobo de “Crepúsculo”/”Lua Nova”, que tem 16 anos e uma barriga de tanquinho assombrosa, onde se poderia esfregar uma calça jeans). Talvez para deixar Zac e suas fãs mais à vontade, o roteiro o incluiu em duas sequências de dança, ambas gratuitas e mal-feitinhas. Também pode-se dizer que o roteirista, um detestável Jason Filardi, não contribui em nada para a causa dos párias e excluídos dos colégios americanos – já que a solução de Mike para o filho deixar de se sentir um fracassado é treiná-lo para que seja um dos atletas e, por tabela, popular (porque o garoto iria querer fazer parte da turma que judia dele não é explicado). Por fim, as incoerências com as passagens de tempo não são aceitáveis nem para uma fantasia onde o protagonista regride duas décadas; por exemplo, Mike-adolescente se apresenta para a família como o filho bastardo do amigo nerd, mas este mesmo amigo aparece no comecinho e não é mais do que uma criança, ou seja, jamais poderia ter um filho dessa idade. Por esse mesmo critério, a filha mais velha deveria ter lá seus dezenove anos, e já ter se formado no colégio há pelo menos um ano.

O único brilho de “17 Outra Vez” advém de Lennon (sem relação com o Beatle), um ótimo comediante que também roubou a cena em “Eu Te Amo, Cara” e “Uma Noite no Museu 2”. O nerd que ele interpreta não só é o personagem mais risível do filme, mas também o único com diálogos inspirados e imprevisíveis. Agora imagine como o mundo seria um lugar melhor se fosse dado a ele o papel principal e se toda aquela baboseira adjacente fosse limada na sala de edição!

.:. 17 Outra Vez (17 Again, 2009, dirigido por Burr Steers). Cotação: D+


Categorias:Cinema

Oh! E agora quem poderá me defender?

No clima da Comic-Con (todo ano eu morro de inveja do pessoal que comparece e juro pra mim mesmo que vou economizar para ir à edição seguinte – plano que, nem preciso dizer, nunca foi adiante), resolvi avaliar os últimos filmes de super-herói que assisti. Um dos nichos mais queridos dos fãs de ficção científica (que correspondem a 80% do público da Comic-Con – o restante é de jornalistas e de garotas histéricas que só estão interessadas nas prévias de “Lua Nova”, a continuação do pavoroso “Crepúsculo”), os filmes de herói costumam ser baseados em quadrinhos que já tinham uma grande legião de seguidores. São desenvolvidos sob a pressão dos fãs e lançados como garantia de sucesso (em raros casos isso não se confirma).

Os que vi (ou revi) em 2009 foram:

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* Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008, dirigido por Christopher Nolan): Revisto no começo do ano em Imax, “O Cavaleiro das Trevas” dispensa comentários. Não é a Guerra Mundial do século 21 como pregam seus defensores ardorosos, mas é denso, perturbador, bem realizado e dominado pela presença de Heath Ledger como o eloquente Curinga. Os problemas estão no personagem de Aaron Eckhart, que sofre uma brusca mudança de caráter sem com que o roteiro desenvolva cenas que a justifique. Mas não deixa de ser um dos exemplares mais notáveis do ano passado. Cotação: A-

* Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007, dirigido por Sam Raimi): Quando vi o terceiro “Homem-Aranha” no cinema, na época de seu lançamento, só tive olhos para o Peter Parker emo, para Tobey Maguire pagando mico (a dancinha que ele é obrigado a fazer é vergonhosa) e para Kirsten Dunst posando de cantora da Broadway quando na verdade é fraca e sem brilho. Dois anos depois, porém, revi o filme já preparado para o que me esperava e curti muito mais. Dá para se divertir com as canastrices e se o excesso de vilões acaba sendo um problema, o clímax final não desaponta. Cotação: B+

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* Homem de Ferro (Iron Man, 2008, dirigido por Jon Favreau): Falaram desse “Homem de Ferro” como se fosse grande coisa, mas é só outra adaptação comum, com os pés no chão e ciente de suas ambições. Enquanto “Batman” e “Homem Aranha” apostam num clima cada vez mais sério e sombrio, este aqui quer ser diversão sem compromisso e nada mais. O diretor Favreau também é ator (foi o namorado da Monica na terceira temporada de “Friends”) e é competente como realizador – mas os maiores méritos são de Robert Downey Jr., que esbanja carisma no papel principal. E vamos combinar que para dar a volta por cima depois de tudo o que esse cara passou é preciso ser verdadeiramente heróico. Cotação: B-

* O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008, dirigido por Louis Leterrier): Menos complexo do que a versão de Ang Lee e comandado por um francês de pouca experiência, este novo “Hulk” não atingiria a mesma voltagem sem a dedicação de Edward Norton. Como já comentei por aqui, Norton se envolve de corpo e alma, tem liberdades para alterar o roteiro e sempre acaba enriquecendo os filmes com seus palpites. Optando pela simplicidade, “O Incrível Hulk” é o entretenimento leve que o público procura. Para ver, se divertir e esquecer. Cotação: B-

* Os Incríveis (The Incredibles, 2004, dirigido por Brad Bird): Primeira animação da Pixar protagonizada por humanos, “Os Incríveis” (que seriam melhor traduzidos como “Os Inacreditáveis”) são uma família de heróis forçados a viver, por decisão do governo, como cidadãos comuns. Os poderes (invisibilidade, elasticidade, força, velocidade etc.) são emprestados de outras histórias (possui enorme semelhança com os gibis de “Quarteto Fantástico”, que depois originariam um filme bem inferior a este aqui), mas utilizados com eficiência. Um dos melhores daquele ano. Cotação: A+

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* Watchmen – O Filme (Watchmen, 2009, dirigido por Zack Snyder): Espetacular foi a minha primeira impressão. Meses se foram desde o lançamento nos cinemas e “Watchmen” se mantém entre os meus favoritos de 2009. Snyder, o diretor de “300”, garantiu que não faria mais um filme-pipoca, e não estava de brincadeira. Ele surpreendeu com decisões pouco comerciais (as cenas fortes de violência e a constante nudez frontal do personagem de Billy Crudup resultaram em censura máxima) e ao não fazer concessões para agradar a platéia (o espectador médio pode se irritar, por exemplo, com a excessiva câmera lenta). Conseguiu fazer um filme bonito, pesado mas elegante (a sequência de créditos é das mais belas que eu já vi e a trilha sonora enriquece as cenas que acompanha), que funciona como adaptação e também se sustenta sozinho. Cotação: A-

E você? Quais filmes de herói tem visto ultimamente?

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