Início > Cinema > Diários de Sofia Coppola

Diários de Sofia Coppola

A filha de Francis Ford Coppola, Sofia, comeu o pão que o diabo amassou antes de se firmar como diretora e roteirista cult. Ela foi massacrada por sua estreia no cinema – como atriz, num filme do pai, “O Poderoso Chefão III” – e ficou ao léo, sem saber o que fazer da vida, experimentando a fotografia e diferentes formas de arte. É evidente, portanto, que a personagem de Scarlett Johansson em “Encontros e Desencontros”, longa que rendeu à Sofia o Oscar de Melhor Roteiro Original, é altamente autoral: uma moça perdida, solitária e incompreendida. Para não deixar dúvidas sobre o caráter autobiográfico, Sofia inventa para a personagem um marido frio e indiferente, uma alfinetada óbvia ao seu ex Spike Jonze (levando mais à fundo a analogia, a atriz que eles encontram no hotel – interpretada pela sempre interessante Anna Farris – seria Cameron Diaz, que Sofia conheceu no set de “Quero Ser John Malkovich”, dirigido por Spike).

lostintranslation

Mas este alter-ego da diretora é só um lado da moeda de “Encontros e Desencontros”. A outra face do filme é o ator em crise de meia-idade Bob Harris (Bill Murray no melhor momento de sua carreira), que vai à Tóquio gravar um comercial de uísque pela bagatela de dois milhões de dólares (“ao invés de fazer uma peça”, como ele mesmo diz). No hotel conhece a americana Charlotte (Scarlett). Ambos percebem de imediato que tem muito em comum e vão se conhecendo melhor – rola um clima, mas sempre muito platônico -, ao mesmo tempo em que se entendem com a cultura oriental.

Para quem já visitou o Japão, como é o meu caso, “Encontros e Desencontros” é ainda mais curioso, pois retrata com enorme precisão o país aos olhos de um turista de primeira viagem. Tudo o que os personagens passam – visitas à templos, karaokês, fliperamas, ou mesmo à piscina e sauna do hotel – são experiências reais, exatamente como é mostrado. O bacana aqui é como a Sofia-diretora capta esses momentos (liga a câmera no meio da multidão e deixa os atores à vontade para improvisar, registrando tudo em estado de performance), e como a Sofia-roteirista volta essa estranheza cultural para os problemas mais íntimos de Bob e Charlotte. O resultado é uma obra muito pessoal e particular que confirma o poder de fogo do cinema independente americano.

.:. Encontros e Desencontros (Lost In Translation, 2003, dirigido por Sofia Coppola). Cotação: A+

Anúncios
Categorias:Cinema
  1. 28 junho 2009 às 2:57 pm

    Demorei um bom tempo até descobrir “Lost in translation’, mas depois que vi, foi paixão simples e pura… amo este filme… é um dos melhores que vi na vida… até perdi as contas, mas acho que já revi ele umas 6 ou 7 vezes…

    • 28 junho 2009 às 3:56 pm

      Régis, também já revi uma porção de vezes! E tive a sorte de descobrir logo, assim que o filme começou a ser premiado pela crítica americana e pouco antes do Oscar!

  2. 28 junho 2009 às 6:40 pm

    Este é um dos melhores filmes desta década. Bastante sublime e doce. O melhor de Sofia Coppola, sem dúvida. Não canso de ver.

    Abraços!

  3. 28 junho 2009 às 8:03 pm

    Respeito os fãs do filme, mas, para mim, “Encontros e Desencontros” é um dos filmes mais superestimados da década.

    Beijo!

  4. 28 junho 2009 às 8:09 pm

    Tem disso Kamila… acredito que todo cinéfilo tem esse “problema” de não gostr de alguns filmes que parecem ser unanimidade pros outros… eu por exemplo, nunca gostei muito de “Antes do amanhacer”, ou “Trainspotting”, outro que parece que 11 entre 10 cinéfilos adoram… eu achei muito fraco….

    • 29 junho 2009 às 5:02 am

      Ciro, também considero um dos melhores da década. “Sublime” é a palavra certa: engraçado sem ser escrachado e dramático sem ser um porre! Abraço!

      Ka, você já tinha comentado que não gosta muito de Encontros e Desencontros! 😦 Mas pode ficar tranquila porque conheço outros cinéfilos que estão no mesmo barco que você! Beijão!

      Régis, gosto muito desses que você citou – Trainspotting e Antes do Amanhecer -, mas tb tem alguns filmes muito conceituados que não me apetecem de jeito nenhum!! Cabaret é um exemplo! 😉

  5. Alex Pizziolo
    29 junho 2009 às 5:52 pm

    Odeio esse filme, rs.
    A única coisa que gosto no filme é a Scarlett (ao contrário de praticamente todo mundo). Bill Murray não faz nada de demais e graças a DEUS ele não ganhou aquele Oscar!
    Acho as indicações ao Oscar totalmente desncessárias, enfim não gosto mesmo. E claro que respeito quem gosta, etc e tal.

    • 29 junho 2009 às 10:29 pm

      Bill Murray está simplesmente HILÁRIO, Alex!!! 🙂 Já a Scarlett acho apenas boa – e olha que considero este um de seus melhores trabalhos!

  6. 30 junho 2009 às 12:52 am

    LOST IN TRANSLATION é certamente mais substancioso, mas MARIA ANTONIETA flui melhor.

  7. 30 junho 2009 às 7:08 pm

    Um filme lindíssimo, um dos meus preferidos memso… Mas além de ser péssima como atriz, na minha opinião fez um péssimo trabalho em Maria Antonieta… É, ela ainda não se consolidou na minha cabeça, rs…

  8. 2 julho 2009 às 5:20 am

    Adoro este filme. Magnífico em nuances, diálogos e sentimento.

    A+!

    • 7 julho 2009 às 8:17 pm

      Gustavo, gosto imensamente dos dois (e ainda do debut de Sofia em longas, As Virgens Suicidas)!

      Cara da Locadora, concordo com o péssima atriz, mas admiro muito Maria Antonieta e a direção da Sofia para o filme. Resumindo, a tenho em alta estima! 🙂

      Wally, assino embaixo! A+ com louvor!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: