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O dia em que Heroes foi ao cinema

A ficção científica “Push” – que chega ao Brasil com o título “Heróis”, numa óbvia tentativa de mamar na popularidade do pavoroso seriado “Heroes” – é um troço inexplicável. Não é animal, vegetal ou mineral. É uma das coisas mais estranhas que você vai encontrar nos cinemas em 2009. Nem o diretor nem o elenco parecem ter um conceito claro daquilo que estão fazendo. Em geral, é tudo ruim de dar dó. Ao mesmo tempo, prende a atenção e tenta se esquivar de convenções do gênero, com a câmera em constante movimento, a fotografia deformada na pós-produção, o pouco uso de efeitos e as cenas gravadas em Hong Kong no meio da multidão, por vezes em estado de performance. Ou seja, opções nada comerciais que talvez tenham decretado seu fracasso comercial (o público-alvo, adolescentes masculinos, não embarcou na ideia).

push

A premissa é fraca mas bem articulada. O roteiro de David Bourla (re)inventa meia dúzia de poderes para seus personagens e cria termos específicos para designá-los. Assim, os “movers” são aqueles capazes de mover objetos com a mente (caso do protagonista Chris Evan, o Tocha-Humana de “Quarteto Fantástico”), os “watchers” podem ver o futuro (como a pré-adolescente Dakota Fanning), os “pushers” conseguem controlar pensamentos alheios (como Djmoun Houson e a brasileira Camilla Belle) e por aí vai (há ainda os “sniffs”, que caçam pessoas; os “shifters”, que mudam a aparência dos objetos; os “shadows”, que podem esconder a si e aos outros; os “stichers”, que tem o dom da cura; os “wipers”, que apagam memórias; e os “bleeders”, cujos gritos provocam a explosão das artérias – tudo explicado brevemente no prólogo). Para não fugir à regra, existe uma agência do governo para rastrear e controlar os seres dotados com essas habilidades; existem alguns “heróis” (afe) trabalhando para essa agência e outros agindo por conta própria, tentando sobreviver sem serem capturados e usados como cobaias.

O diretor escocês Paul McGuigan (do bom “Paixão à Flor da Pele”) se arrisca em algo diferente, mas os tropeços são muitos, demais até para enumerar. Podia ter evitado, por exemplo, a escalação de Dakota, que está tentando deixar para trás a aura infantil (aparece bêbada numa das cenas), mas está envelhecendo mal, torta, esquisita e não especialmente notável como atriz. É ela que ajuda o personagem do Chris Evans quando este está vivendo na surdina em Hong Kong, dormindo e se alimentando muito mal para escapar da agência – o pai fora morto pelo governo quando ele ainda era criança e a mãe de Dakota está indo pelo mesmo caminho. Daí em diante, há pouco para raciocinar ou assimilar. A trama é calamitosa (dá pra ver as reviravoltas chegando com dois dias de antecedência), mas bem intencionada (ao menos se esforçam para bolar essas reviravoltas); e “Push” (me recuso a chamar de “Heróis”) é ágil e mantém o interesse com tanto movimento – mas só de quem estiver disposto a aturar os diálogos horrendos e a história já vista incontáveis vezes antes, e que todo mundo sabe como termina.

.:. Heróis (Push, 2009, dirigido por Paul McGuigan). Cotação: D+

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Categorias:Cinema
  1. tattymends
    13 junho 2009 às 5:36 am

    Também achei muito Heroes quando vi o trailer. Acho que a criatividade cinematografica está ficando as margens de outras ideáis e acaba ficando algo meio que copiado. Esse filme parece ser muito forçado mesmo… A idéia da falta de singularidade e reflexos em outras atrações ficou também um pouco estampado no filme “O Curioso Caso de Benjamin Button”, tá que o roteirista é o mesmo, mas precisava ser tão, mas tão Forrest Gump?
    Mas o cinema ainda tem esperanças, ótimas, cinema brasileiro principalmente…

    • 13 junho 2009 às 5:43 am

      Tatty, concordo com você. Não faz muito tempo que li uma reportagem sobre a completa falta de ideias que está se apoderando do cinema (americano, principalmente). Só o que se vê hoje em dia são as mesmas fórmulas recicladas; 0,01% dos filmes realmente tem uma linguagem própria. Por isso já não espero mais que uma temática seja inedita, apenas que corresponda àquilo que se propõe – coisa que “Push” não consegue fazer de forma satisfatória.

      Adorei seu exemplo de Benjamin Button e sua colocação sobre o cinema brasileiro é muito pertinente!

      Obrigado pela visita e volte sempre.

  2. Alex Pizziolo
    13 junho 2009 às 12:30 pm

    Tô fora de filmes sobre heróis!
    Ou pelo menos tão genéricos como esse!

  3. 13 junho 2009 às 3:06 pm

    é bom, mas é ruim?
    hehehe. deve ser joia. vou esperar para conferir em DVD.
    abraço 🙂

    • 13 junho 2009 às 3:19 pm

      Alex, como eu tento ver todas as estreias nos cinemas brasileiros, acabei conferindo Heróis. É tosco e derivativo, mas cria um interesse inexplicável mesmo assim!

      Jeniss, é mais ou menos isso, companheiro! 🙂 Acho que você vai gostar…
      Abraço!

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