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Archive for novembro \30\UTC 2009

Só na ficção!

30 novembro 2009 15 comentários

Quais as bobagens, convenções e clichês da TV e do Cinema que mais te irritam? Juntei alguns dos que consegui lembrar:

- Em cenas dentro de um carro, o motorista nunca deixa o volante estático. Fica movimentando pra lá e pra cá, mesmo que esteja seguindo em linha reta.

- Na maior parte das vezes, o motorista nem olha para a estrada. Olha para o lado, para a pessoa com quem está conversando.

- É como se telefone não existisse. Quando algo precisa ser dito, fulano vai pessoalmente atrás de beltrano. Tipo a Bella correndo para a Itália atrás do Edward em “Lua Nova”.

- Quando alguém vai aplicar uma injeção, seja um médico ou um serial killer prestes a dopar sua vítima, sempre dá uns petelecos com o dedo na seringa.

- Dica infalível da ficção: quando você ficar preso em algum lugar, suba na mesa, levante as mãos para cima e escape pelo duto de ventilação.

- Se alguém – de preferência um casal – está pintando um cômodo ou preparando um bolo, pode ter certeza que a situação vai partir para uma guerra de tinta ou de comida. E não de um jeito cool como o Chaves assoprando farinha na cara da Chiquinha. De um jeito brega, com muitos risinhos e futilidades, encerrando com beijo na boca.

- As mulheres bem-sucedidas estão sempre falando ao celular enquanto saem das lojas, se atrapalhando para equilibrar as várias sacolas de sapato que acabaram de comprar.

- Nas séries e filmes de colégio, sempre tem os atletas valentões – que desfilam pela escola com o agasalho do time – e os nerds que são amedrontados por eles. Quando é um filme de menina, quem causa inferno são as cheerleaders, que não tiram o uniforme nem por decreto.

- Para transformar uma menina feia em gata, é só tirar os óculos, dar um trato na sobrancelha e alisar o cabelo. Funcionou em “Ela É Demais”, “O Diário de Princesa” e muitos outros.

- Quando os pais de alguém vão viajar, a notícia se espalhará pelo campus e um bando de marmanjos segurando um barril de chopp entrará gritando na casa alheia.

- Os chefes são as pessoas mais incompetentes da face da Terra. Sempre quem salva o dia são os subordinados, que dão um jeito de burlar as regras e fazer o que precisa ser feito (me diga, quantas vezes vimos isso acontecer na nova temporada de “Grey’s Anatomy”?).

- Quando alguém vai pro México, a fotografia se torna absurdamente solar e amarelada. E sempre vemos um mercado de rua numa estrada de terra, e galinhas transitando livremente entre as pessoas.

- O mocinho sempre suporta uma surra, mas quando chega a mocinha para cuidar dele e passar Merthiolate no machucado, solta um gemido. “Ai!”

- Frase-padrão: “Tenho duas notícias. Uma boa e uma ruim. Qual você quer ouvir primeiro?”

- Dinheiro nunca é problema. Dê uma olhada na galera de “Friends”: Monica é assistente de cozinha, Rachel é garçonete, Joey é um ator desempregado e Phoebe é massagista freelancer (Chandler e Ross tem bons empregos, ok). Mas todos eles vivem no Village, um dos bairros mais caros de Nova Iorque, bem de frente para o Central Park. Aham…

- Sempre tem uma garota bitch e riquinha, mas que no fundo é apenas carente da atenção dos pais.

- Nos momentos que servirem como uma boa catarse – em geral nas cenas de morte – vão botar no fundo a música “Hallelujah”.

- Quando há um pedido de casamento em público, todo mundo para pra presenciar e fica torcendo pra moça dizer sim. Alguns dizem ainda: “Beija logo, seu bobo!”

- Os tipos prontos mais explorados: solteirões incuráveis, divorciados amargurados, casais felizes apenas na aparência e mulheres latinas fogosas.

Colabore também com os exemplos que te vierem à cabeça!

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Do Começo ao Fim

29 novembro 2009 21 comentários

Não tem nada que me ofenda mais do que filmes feitos para polemizar. E não porque sou sensível ou intolerante. Pelo contrário: sou uma das pessoas mais mente aberta que conheço. Também me julgo capaz de presenciar as maiores barbaridades sem esboçar reações escandalosas. Acontece que, na esmagadora maioria dos casos, os filmes que se fazem pela polêmica não são nada além disso. Uma polêmica rasa e superficial, traduzida em cenas feitas intencionalmente para incomodar, para provocar repulsa e asco. Em decorrência, o diretor pode ser taxado, sem dó, de aproveitador ou vigarista barato. Não é um artista que respeita a sua criação, porque simplesmente não tem nada a dizer. É o que penso, por exemplo, do asqueroso francês Gaspar Noe, que ganhou notoriedade pelo infame estupro em “Irreversível”. O auê causado pela cena em que Monica Belucci tem o ânus violentado chamou atenção para um filme pavoroso, mal feito e mal enquadrado – e nos leva até a pensar que pervertidos mundo afora possam ter tido desejos sexuais diante de tamanha violência.

O brasileiro Aluisio Abranches é um desses cineastas que se agarra no assunto com a maior probabilidade de chocar. Foi assim com seu primeiro filme, “Um Copo de Cólera”, conhecido não por ser uma adaptação de qualidade do romance de Raduan Nassar, e sim por ter trazido o casal Julia Lemmertz e Alexandre Borges em momentos de nudez despojada e de sexo quase explícito. Os dois copulavam em quase um terço da duração total do filme – e em seguida, partiam para uma discussão acalorada, cujas farpas eram trocadas por meio de um vocabulário prosaico. Essa linguagem amaneirada, cheia de firulas, pode funcionar enquanto literatura, mas é bizarra e irreal demais para dar certo no cinema, que é mais realista – até porque não é uma história de época, como a outra adaptação de um livro de Raduan (o infinitamente superior “LavourArcaica”, de Luiz Fernando Carvalho). Agora, com “Do Começo ao Fim”, Abranches erra ainda mais feio. E, surpresa, é outro projeto que só está se vendendo pela polêmica, no qual ninguém consegue dizer uma única fala sem soar artificial e canastra.

Dessa vez, o diretor mostra cenas nada moderadas de sexo gay entre os atores. Mas vai além: transforma os personagens em questão em irmãos! Incesto é um tema que embrulha o estômago de qualquer um – e talvez por isso, o Cinema costume ignorá-lo, salvo raras exceções. Acho válido, no entanto, a abordagem, porque essas coisas existem aos baldes, mesmo que não saibamos da extensão dos casos. É comum, por exemplo, que irmãos ou parentes do mesmo sexo descubram a sexualidade juntos, nem que seja em masturbações conjuntas ou carícias homoeróticas. Só que os rapazes de “Do Começo ao Fim” vão além. Filhos da mesma mãe (Julia Lemmertz), mas de pais diferentes (o mais velho é fruto do antigo casamento com um argentino, e o pai do caçula é Fábio Assunção), Antônio e Thomas são próximos e íntimos desde criancinhas (então interpretados por Lucas Cotrim e Gabriel Kaufman). Quinze anos após o primeiro ato, logo depois do falecimento da mãe (e já interpretados por João Gabriel Vasconcelos e Rafael Cardoso), ambos vão testar o limite dessa intimidade, numa relação possessiva e doentia.

Abranches tem as intenções certas. Ele evita tratar os personagens com desprezo, situando-os numa família muito liberal e tranquila. Dessa forma, a personagem de Lemmertz tem excelentes relações com o ex-marido, e todos conversam abertamente quando percebem, desde muito cedo, os indícios de que a relação dos meninos está ultrapassando os laços fraternais comuns. No segundo ato, quando os irmãos já estão adultos, o pai e padrasto (Assunção) tem ciência da natureza do relacionamento dos filhos, mas olha para o outro lado, como se não fosse grande coisa (uma política “don’t ask, don’t tell” – “não pergunte, não diga”). Não gosto de julgar nada nem ninguém, então vocês jamais me ouvirão dizer que o que Antônio e Thomas faziam era errado e pecaminoso (apesar de eu também acreditar que tudo tem limite). Quando você não acredita em nada, como eu, é fácil chegar à conclusão de que não existem regras neste mundo, exceto às que você cria e aceita para si mesmo. Desde que não faça mal a ninguém, viva a sua vida como quiser, e foda-se o resto.

Ou seja, eu teria tudo para me envolver com “Do Começo ao Fim”. E não foi por falta de boa vontade que saí do cinema o considerando um lixo. Não pela temática, e não porque eu tenha achado as opções do diretor e roteirista gratuitas ou exclusivas para chocar (chocam, mas como eu disse, as intenções parecem corretas). Mas sim porque tudo é muito mal feito – mas muito mal feito mesmo! As juras de amor entre os dois ultrapassam a cafonice barata das declarações do casal bocó de “Lua Nova”, as cenas de devaneio são absolutamente ridículas (como quando Antônio imagina ele e Thomas dançando tango nus, sob a iluminação de um videoclipe barato) e a primeira transa consegue ser mais risível que aquela entre Camila Morgado e Caco Ciocler em “Olga” (os dois rapazes se despem em câmera lenta e se encaram, como se fossem posar para uma fotografia e não partir para a penetração anal). Aliás, essa câmera lenta é usada em tudo que é lugar, tão excessiva quanto a trilha sonora (que parece ter uma única faixa, de um pianinho repetitivo que fica demarcando a todo instante o ritmo das cenas). A montagem é um desastre, daquelas que abusa da tela preta para demarcar uma passagem significativa de tempo. Dá ainda para contar nos dedos de uma mão os filmes nacionais que tiveram diálogos convincentes, naturais e fluidos. Todos aqui são muito fracos e forçados, dos que você escuta e só consegue pensar: “Mas ninguém conversa desse jeito!”. Com tal material, os atores não tinham como fazer milagre, e surgem igualmente inexpressivos.

É mesmo uma pena. Escapar da armadilha do “choque gratuito” o filme conseguiu. Se fosse realizado por mãos mais talentosas, com um conhecimento mínimo das engrenagens de produção, poderia até ser muito bom. Como não foi, fica sendo um desperdício de tempo, e uma sucessão de momentos estranhos e constrangedores.

.:. Do Começo ao Fim (Nacional, 2009, dirigido por Aluisio Abranches). Cotação: E-

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Cinema Paradiso – nos Cinemas!

28 novembro 2009 9 comentários

“Cinema Paradiso” é, sem sombra de dúvidas, o filme mais bem amado pela nova geração de cinéfilos, e não só pelo motivo óbvio. Conta a história de Totó, um renomado cineasta que recebe, logo nos primeiros minutos, um telefonema da mãe, informando que Alfredo havia morrido. Num extenso flashback, vamos conhecer a fundo a relação especial que se desenvolveu entre os dois. Ainda garoto, Totó demonstrava uma paixão genuína pelo cinema, a ponto de sair escondido de casa e de gastar o dinheiro do leite com o ingresso (a família era muito humilde, sustentada pelas costuras da mãe e por uma bolsa governamental, providenciada em função do falecimento do patriarca na guerra). Alfredo era o projecionista da única sala de cinema da cidadezinha, o Paradiso do título, e estimulava com frequência o interesse do menino (chegando a lhe reembolsar o ingresso com o próprio dinheiro, para que a família de Totó tivesse o que comer). Fascinado pela magia da cabine de projeção, Totó aprende as manhas e começa a trabalhar no Paradiso – mas Alfredo, a figura paterna mais forte que ele jamais tivera, insiste que o futuro lhe reserva coisas muito maiores.

O alcance dessa premissa é imensurável. Os amantes do cinema vão obviamente se identificar, mas o apelo de “Cinema Paradiso” não se restringe a eles. O filme é tão humano que consegue se comunicar, de igual para igual, com qualquer pessoa que algum dia teve um sonho que parecia além de suas condições. Edificante sem ser piegas, e importante de uma forma que poucos filmes são, “Cinema Paradiso” é também incrivelmente simples e sem requintes. Por vezes, o roteiro – escrito pelo próprio diretor Giuseppe Tornatore – opta por um exagero que poderia empobrecer as cenas em que é empregado (como nas traquinagens de Totó e seus amigos, filmadas no estilo pastelão, ou na reação dos frequentadores do cinema, que riam, choravam e gritavam para a tela). Na verdade, o recurso torna tudo ainda mais rico e interessante, já que sugere que não estamos vendo as coisas como elas de fato aconteceram, e sim como Totó se lembra delas. Isso explica o tom pueril da primeira parte, e os excessos de romantismo na segunda (quando avançam alguns anos e Totó, já mocinho, se apaixona por uma garota da vila – nesse ponto deixa de ser interpretado pelo ótimo Salvatore Cascio para ganhar um rosto adolescente no viril Marco Leonardi, cópia melhorada de Josh Hartnett). E do começo ao fim está o excepcional Philippe Noiret como Alfredo. Premiado com o BAFTA e o European Film Award pelo trabalho, deveria também ter levado Cannes (o filme saiu do Festival com o Prêmio do Júri) e, no mínimo, ser indicado ao Oscar (a Academia também reconheceu “Cinema Paradiso”, dando à Itália outra estatueta de Filme Estrangeiro). Quem vê cinema com olho clínico deve admirar não só a perfeita reconstrução de época (o Paradiso parece uma réplica exata do que deveriam ser as salas do interior italiano), mas principalmente a trilha – linda, atemporal e característica – de Ennio Morricone, uma das minhas favoritas de todos os tempos e essencial para dar ao filme sua identidade.

Foi um imenso prazer poder rever este clássico instantâneo na telona, e ir – mais uma vez – do riso ao choro em questão de segundos (tudo bem que dessa vez o riso foi estimulado pela minha acompanhante, a formidável autora do “Bring Me the Disco King”, que chorava de soluçar do meu lado). Não que pudesse ser diferente: desafio qualquer marmanjo a segurar as lágrimas nos minutos finais! Em cartaz no HSBC Belas Artes, na 5ª Semana Pirelli de Cinema Italiano, dedicada exclusivamente a Tornatore.

.:. Cinema Paradiso (Nuovo cinema Paradiso, 1988, dirigido por Giuseppe Tornatore). Cotação: A+

CategoriasCinema

Susan Boyle – O Álbum

27 novembro 2009 5 comentários

Assim como o resto do mundo, fiquei com os olhos marejados com a apresentação da Susan Boyle no “Britain’s Got Talent”, em Abril deste ano. Susan, uma solteirona com cara de buldogue, entrou no palco para fazer um teste, sendo desacreditada de imediato pela plateia e pelos jurados (entre eles Simon Cowell, do “American Idol”). Tudo por conta de sua aparência – afinal de contas, vivemos numa sociedade cínica, que parece incapaz de acreditar que uma pessoa que não corresponda ao padrão de beleza estipulado possa nos brindar com qualquer tipo de talento. Pois Susan mostrou a eles (e a nós). Fez o queixo de todo mundo ir ao chão assim que começou a entoar sua própria versão de “I Dreamed A Dream”, a canção-clímax do musical “Le Miz”. Virou uma febre mundial instantânea, com o vídeo em questão batendo recordes de acesso no YouTube. Eventualmente, Susan passou para a próxima fase da competição, mas se tornou maior que ela – sua derrota nas finais para um grupo de dança pode ter sido um reflexo disso (quem votou sabia que a carreira dela já estava ganha, independente do resultado). Uma bobagem, se querem saber minha opinião. Qualquer grupinho com alguns meses de ensaio faz uma coreografia tão boa quanto (ou até melhor) a que foi apresentada no programa, enquanto para cantar com o preparo de Susan são necessários anos e anos de treino e esforço.

Apesar da superexposição da mídia, que encontrou em Miss Boyle a Cinderela da vida real, Susan se mantém pé no chão, humilde e alto astral em suas entrevistas. Uma pausa para dizer que essa “Cinderela” foi criada, em parte, pelos próprios produtores do “Britain’s Got Talent” – ela fora submetida a um teste antes de se apresentar aos jurados, de modo que eles já tinham consciência de seu potencial. Ou seja, manipularam a edição de forma tendenciosa, para que as pessoas acreditassem que mais uma pata desengonçada estava prestes a pisar no palco e a pagar mico. O que não tira, é claro, os méritos de Susan, tampouco anulam sua trajetória sofrida (cuidou da mãe doente por muito tempo e viu muitas portas serem batidas na sua cara). Também não parece estar experimentando apenas quinze minutos de fama. Claro, o furdúncio causado logo que foi revelada para o mundo se dissolveu, mas ela continua gerando interesse, e seu álbum de estreia – que leva o nome da canção que a lançou, “I Dreamed A Dream” – chegou cercado de expectativa. Não tem faixas inéditas, só regravações, de músicas reservadas a um público mais maduro e selecionado (os que tem condição financeira de comprar o CD, se é que ainda existe alguém no mundo com esse hábito). Mas que também deve se vender na internet, nos iTunes da vida. Não são canções que me apeteçam ou que me dêem vontade de ouvir sem parar, mas a voz etérea de Susan Boyle, e a extrema boa vontade e torcida que reservo à essa senhora, me fazem recomendar o álbum sem ressalvas. Vale conhecer!

CategoriasGente, Música

Vi Lua Nova

26 novembro 2009 21 comentários

Dia desses, numa conversa com uma amiga, chegamos à conclusão de que a Bela, de “A Bela e a Fera”, é a melhor princesa da Disney. Enquanto suas colegas de profissão ficam inertes durante filmes inteiros, Bela não deita e dorme à espera de um Príncipe Encantado que a resgate. Feminista, ela recusa as investidas do machão Gaston, o cara mais gato da aldeia, simplesmente porque não quer ser definida pelos homens com quem sai. Corajosa, ela se oferece para ficar presa no castelo da Fera no lugar do pai. E genuinamente apaixonada, ela se envolve com a Fera sem um pingo de interesse (porque não sabia que ele era um lindo Príncipe enfeitiçado, e estaria disposta a dar para um monstro peludo). Isso, meus amigos, é uma mocinha de respeito!

Pode-se dizer que a xará da saga “Crepúsculo”, Bella Swan, não possui nenhuma dessas virtudes. Como já tínhamos descoberto no primeiro volume, ela é uma mosca morta, passiva e submissa, disposta a renunciar à sua família, à seus amigos, e à si mesma para seguir o namoradinho – o vampiro embonecado Edward – por toda eternidade. Quando a coisa aperta, é Edward – ou o nativo americano fortinho Jacob – que tem de vir ao auxílio. Não dá um peido por conta própria, essa Bella. Parafraseando Regina Duarte, “eu tenho medo”. Medo pelas milhões de garotas mundo afora, que devoram os livros da série e que acampam na porta do cinema para conferir esta nova adaptação. Garotas que se espelham na protagonista e que sonham em encontrar um dia o seu par ideal, para serem devotas a ele com a mesma intensidade. Que exemplo a autora Stephanie Meyer está dando a elas? “Ame o seu macho mais do que a você mesma”? E o amor próprio, aonde fica? Dignidade já! Talvez por isso o papel tenha caído como uma luva à insossa e “poser” Kristen Stewart.

No entanto, relevando a moral misógina, retrógrada e ofensiva, devo fazer coro ao restante da crítica. “Lua Nova” é sim um pouquinho melhor do que o antecessor. Mas só um pouquinho. Não que a nossa avaliação faça qualquer diferença – filmes como este são inatacáveis. Os fãs vão ver de qualquer jeito, independente do que as publicações tem a dizer, ou mesmo de quem está no comando (no primeiro foi Catherine Hardwicke, demitida por incompetência; agora é o mais seguro Chris Weitz, de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”). A quem desdenha do poder de fogo da franquia, basta dar uma olhada nos números de abertura. As sessões de “Lua Nova” à meia-noite quebraram os recordes estipulados por “O Cavaleiro das Trevas” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, a arrecadação no final de semana chegou na casa dos U$140 milhões só nos Estados Unidos, e o lançamento no Brasil foi o segundo maior da década (atrás apenas de “Homem Aranha 3″). Nada mal. Ainda mais considerando que o pioneiro “Crepúsculo”, que deu origem a toda essa febre, nada mais era que uma reles fitinha B, bancada pelo estúdio pobretão Summit (que graças à saga está subindo de nível, mais ou menos como a New Line depois de “O Senhor dos Anéis”).

Neste aqui o investimento foi evidentemente maior. Apesar da maquiagem continuar constrangedora, os efeitos estão mais caprichadinhos, a direção de arte é quase boa, e a trilha tem canções bacanas e composições originais de qualidade. E não dá pra dizer que eles não se esforçaram. Todo mundo ficou sabendo, por exemplo, dos problemas que tiveram para criar os lobos por computação – primeiro não estavam grandes ou assustadores demais, e mesmo depois de uma série de mudanças ainda ficaram artificiais no resultado final. Até aí tudo bem, que seja, foi o melhor que conseguiram fazer. Só não acredito que não tenha dado para melhorar o roteiro chinfrim e as atuações amadoras. Não que se pudesse esperar grandes coisas do texto, visto que já se baseia numa fonte muito fraca. Na verdade, parece que foi escrito da mesma forma que “Crepúsculo”, com alguém botando coraçõezinhos nos pingos dos I’s. Não imaginava, porém, que a roteirista Melissa Rosenberg fosse forçar tanto a barra para povoar os sonhos eróticos (“wet dreams”) das pré-adolescentes. Dessa forma, tudo é desculpa para que os dois heróis, Edward e Jacob (Robert Pattinson e Taylor Lautner), tirem a camisa. Aliás, deixe-me aproveitar para dizer que esse Pattinson é um frangote, magrelo e quase desnutrido. E para quem duvida que o moleque Taylor tenha tomado bola para ficar com o peitoral tão bem definido, é só prestar atenção nas piadas internas da equipe (logo numa das primeiras cenas, Bella comenta: “Que esteroides você andou tomando? Tem só 16 anos, isso não é normal!”).

Já que estamos falando das forçadas do roteiro, o que dizer do ridículo pretexto para que Bella e Edward terminem na Itália, enfrentando um clã antigo de vampiros? (Os motivos que levam a isso estão no trailer, de modo que, ao me aprofundar neste ponto, não estou quebrando nenhuma surpresa que já não tenha sido anulada pelo estúdio.) Edward julga que a amada está morta (porque ela, ahn, pulou de um penhasco, já que não se importava em arriscar a própria vida, desde que tivesse um vislumbre do seu charmoso vampiro no processo); liga na casa dela para garantir que está tudo certo e um mal entendido confirma suas suspeitas (um paralelo pobre com “Romeu e Julieta”, citado no comecinho do filme). Mas, gente, em que mundo nós vivemos? A Bella tem que correr pra Itália pra desfazer a confusão? Será que o telefone dela não tem bina? Era só ligar de volta, oras. Ou se a chamada não pudesse ser identificada, bastava a vampira que vê o futuro descobrir o número. Ela não é a sensitiva da trupe? Tá, eu sei, era pra ficar mais emocionante… Quanto ao show de horrores que testemunhamos na Itália, onde aparecem o – geralmente ótimo – Michael Sheen pagando o mico de sua carreira e uma Dakota Fanning torta e esquista, prefiro não comentar. O pessoal pode começar achar que estou com implicância gratuita!

O fato é que, apesar de banal e ordinário, “Lua Nova” se comunica bem com seu público-alvo. Uma audiência que está se lixando se a mensagem é discutível ou não, desde que a história deixe os ganchos certos. Em mim, as pontas soltas a serem resolvidas posteriormente não surtiram efeito. Nas piriguetes que estavam na mesma sessão que eu, que ovularam e aplaudiram nos segundos finais, sim. E ao que me consta, a reação tem sido a mesma nos cinemas de toda parte. Como lutar contra isso? Me diga?

.:. Lua Nova (The Twilight Saga: New Moon, 2009, dirigido por Chris Weitz). Cotação: C-

CategoriasCinema

Ensina-me a Viver, a peça

25 novembro 2009 6 comentários

Precisando de uma desculpa para conhecer o novíssimo Teatro Bradesco, do Shopping Bourbon, tido – com todos os méritos – como a sala de espetáculos mais bonita do Brasil, fui conferir o revival de “Ensina-me a Viver”, peça baseada no filme honônimo de 71. “Harold and Maude”, no original, narrava a excêntrica história de amor entre um rapaz de 20 anos com “alma de velho” e a senhora de 80 com “alma de jovem”. Harold, solitário e macabro, tinha o hobby de simular suicídios e vivia dando sustos na mãe (que depois de um certo tempo, se acostumou a essa mania e já nem reagia quando o encontrava aparentemente enforcado na sua sala de estar). Maude, biruta e espevitada, conhece Harold num velório (já que ambos costumavam frequentar os funerais de pessoas desconhecidas), aproxima-se dele e, aos poucos, o apresenta aos prazeres da vida.

Mas o filme não tinha nenhuma sabedoria de rodoviária ou chavões como os que costumamos encontrar nos livros do Paulo Coelho. O texto de Colin Higgins era irreverente, criativo e carinhoso com seus personagens – e isso, somado à direção super inspirada de Hal Ashby e às performances inesquecíveis de Ruth Gordon e Bud Cort transformaram “Ensina-me a Viver” num cult instantâneo. Foi mais do que oportuna, portanto, a sua transposição para os palcos, também conduzida por Higgins. Sucesso lá fora, a peça foi trazida para o Brasil em 2007, numa iniciativa do próprio Arlindo Lopes, que interpreta o nosso Harold. Glória Menezes, veterana que não compartilha da canastrice do marido Tarcísio, assumiu com toda dignidade o papel de Maude. Os dois entregam trabalhos bastante profissionais, sendo que só outros três atores tem destaque (Stella Maria Rodrigues como a mãe de Harold, Fernanda de Freitas como as pretendentes, e Antônio Fragoso em todos os demais papeis masculinos). Aliás, essa técnica de revezamento entre vários personagens é muito comum no teatro, que dá espaço para soluções alegóricas – mas o truque não é empregado aqui de forma muito funcional. Assim como no filme – que eu coloco com facilidade entre os meus favoritos de todos os tempos -, os melhores monólogos ficam com a velhinha, em especial quando ela dá para expor suas próprias teorias sobre o comportamento humano.

Há mais de dois anos em cartaz, “Ensina-me a Viver” fica dessa vez em São Paulo por curtíssima temporada – de Terça à Domingo desta semana. A quem tiver condições de ir, recomendo! E que saiam em seguida à procura do longa, caso estejam entre a minoria da população que ainda não viu.

.:. Ensina-me a Viver (Dirigido por João Falcão. Teatro Bradesco. Shopping Bourbon, Piso Perdizes. Rua Turiassu, 2100, Pompeia. São Paulo – SP. De 24/11 a 29/11). Cotação: B+

CategoriasTeatro

Breve: O Fantástico Sr. Raposo

24 novembro 2009 9 comentários

Enquanto as piriguetes se empoleiravam nas sessões de “Lua Nova” por este Brasil afora, eu comparecia, com toda classe e conforto, à exclusiva exibição do finíssimo “O Fantástico Sr. Raposo”, a primeira incursão de Wes Anderson no ramo da animação. Tinha perdido o filme durante a Mostra por uma simples questão de horário, e estava doido para conferi-lo, por motivos óbvios (ou seja, por Anderson ser, sob todo e qualquer aspecto, um gênio absoluto – “Os Excêntricos Tenenbaums”, um dos filmes da minha vida, comprova a teoria). Fui gentilmente convidado para a sessão de imprensa, e testemunhei, por fim, outro projeto cheio de idiossincrasias e maluquices, que só poderia ter sido concebido por uma mente inquieta e (por que não?) superior à minha.

Dessa vez, Anderson resolveu adaptar um livro infantil, escrito por um certo Roald Dahl (ainda não li, mas cópias foram distribuídas a todos os presentes). Não pense, no entanto, que o filme é para crianças, por mais que a premissa possa sugerir este apelo. A trama se volta para um raposo pai de família, que passa a furtar, na malandragem, as criações de três fazendeiros. O problema é que os homens se unem contra a praga, e iniciam uma caçada que coloca em risco a vida de todos os animais do local. Em cima disso, Wes cria um roteiro magistral, ao lado do protegido de longa data Noah Baumbach (que fez por conta própria o ótimo “A Lula e a Baleia” e o insuportável “Margot e o Casamento”). Evitam, por exemplo, que o conto se torne apenas o relato de uma perseguição banal. Incrementam-no com piadas ácidas, leituras metafóricas e contornos sociológicos (nada demasiado pretensioso ou exagerado). Só lá pelo ato final, quando não há mais nada a ser dito e acrescentado, a caçada se torna puramente plana e bobinha, mas a gente perdoa.

Até porque embarcamos na proposta sem dificuldades. Logo já estamos achando o máximo ver uma família de raposos seguindo tanto os costumes de sua espécie (como escamotear galinheiros ou cavar buracos) quanto hábitos trivialmente humanos (como se formar em Direito ou passar o aspirador de pó no tapete da sala). Foi super acertada ainda a escolha dos dubladores – só gente de alto nível, como Meryl Streep, Bill Murray, Michael Gambon, Willem Dafoe e o “geek” do momento Jason Schwartzman. Mas quem dá show mesmo é George Clooney, que empresta ao protagonista não só a voz, mas também sua indelével safadeza.

Alguns podem reclamar da qualidade da animação – é computadorizada, mas os movimentos dos personagens não são fluídos, e sim truncados (mais ou menos como acontece nos filmes de stop-motion, ou “massinha”, tais como “A Fuga das Galinhas” e “Wallace & Gromitt – A Maldição dos Vegetais”). O fato é que até isso parece intencional. Encare como um dos frutos da esquisitice de Wes Anderson. Algo que, assim como seu diretor, vai provar seu charme àqueles que lhe derem uma chance. Estreia prevista para 04 de Dezembro.

.:. O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, 2009, dirigido por Wes Anderson). Cotação: B+

CategoriasCinema

A nova fase do Teatro Musical brasileiro

23 novembro 2009 5 comentários

O teatro musical custou a pegar no Brasil, mas de uns anos pra cá tem se tornado uma verdadeira febre (vide as importações constantes de sucessos da Broadway, com elenco e produção nacional, sempre êxito de público e garantia de qualidade). Em São Paulo, já tivemos por duas vezes “A Bela e a Fera”, seguido por “Chicago”, “O Fantasma da Ópera”, “My Fair Lady” e “Miss Saigon”; estamos agora com “Avenida Q” no Procópio Ferreira (corra para ver porque a temporada está chegando ao fim), e tínhamos também “A Noviça Rebelde”. No Rio, a mesma dupla responsável pelas adaptações paulistanas, Charles Moeller e Cláudio Botelho, está com “O Despertar da Primavera”, que dizem ser ainda melhor que o original “Spring Awakening” (enquanto, por contrato, algumas peças tem de ser trazidas sem alterações, esta possibilitou mudanças, maiores liberdades e ousadias, o que a crítica garante que surtiu efeito positivo).

Também está por lá “Hairspray”, trazido pelo Miguel Falabella, que ruma em breve para o Teatro Bradesco em São Paulo (aquele do Shopping Bourbon, considerado o mais bonito do país) – o problema é que este sim tem sido vilipendiado, da mesma forma que um dos musicais anteriores do Falabella, “Os Produtores”. Talvez porque a escalação do elenco foi tendenciosa – em “Hairspray”, por exemplo, colocaram globais como Edson Celulari no papel da mãe (que no filme foi John Travolta), Danielle Winnits como a perua loira e Arlette Salles como a senhora puritana e preconceituosa. Não que eles não sejam dignos, mas será que não tinha ninguém mais bem preparado? Afinal, mesmo que não tenhamos essa tradição de teatro musical, é de cair o queixo o tanto de gente capacitada, talentosa e versátil que existe por aí – um pessoal que canta, dança e representa, que se preparou certamente visando fazer carreira lá fora (uma vez que aqui o mercado era inexistente), e que agora tem tido chances de brilhar na própria terra. (Mas os que saíram também deram muito certo – o brasileiro-polonês Paulo Szot, vencedor do Tony de Melhor Ator num Musical em 2008, que o diga). É importante reforçar que tudo nessas versões tupiniquins é feito seguindo escrupulosamente os moldes da Broadway – sempre com orquestra e canto ao vivo, sem playback.

Entre as próximas importações devem estar “Hair” e “Gipsy” (ambos de Moeller-Botelho, que já estão fazendo testes de elenco), e possivelmente “Mamma Mia!” e “O Rei Leão”. Torço ainda para que tragam “Wicked”, um dos meus musicais favoritos, embora não haja planos. Já a nova sensação no exterior, o genial “Billy Elliot – The Musical!”, despertou o interesse de Charles Moeller. O problema é que é dificílimo de ser adaptado, e a escalação dos atores, quase impossível (não só tem que encontrar três garotos de talento amadurecido para se revezar no papel principal, mas os coadjuvantes também tem que convencer como mineiros pobres e rústicos). De qualquer forma, devo assistir na Broadway na minha passagem por Nova Iorque no ano que vem. Até lá, vou ouvindo a trilha original, composta pelo Elton John (a canção “Electricity”, através da qual Billy expressa seus sentimentos em relação à dança, já nasceu um clássico).

O melhor álbum da década

A quem possa interessar, meus álbuns preferidos são os de “Avenue Q” – cujas letras encontram um denominador comum da espécie humana, e tiram sarro com extrema inteligência dos problemas corriqueiros que nos aflingem -, “Wicked” – composta pelo parceiro habitual do Alan Menken, Stephen Schwartz, com preciosidades tais como “Defying Gravity” e “For Good” – e “Spring Awakening” – mesmo ambientado no final do século XIX, a trilha é basicamente o mais puro e autêntico rock (e a gravação com o elenco original traz várias faixas com Lea Michele, a Rachel de “Glee”, protagonista da primeira montagem; aliás, seu par romântico na peça, Jonathan Groff, irá participar como convidado de “Glee”, no papel do vocalista do coral rival). Mas musical bom não é mais exclusividade dos nova-iorquinos ou turistas. Os blockbusters estão inundando nossos teatros e, até onde eu testemunhei, tem chegado no mais alto nível de capricho! Quem nunca viu nenhum, pode reservar a primeira passagem aérea para o Rio e/ou São Paulo. Não há de se arrepender.

CategoriasMúsica, Teatro

Eu leio os Diários da Princesa!

22 novembro 2009 13 comentários

Sempre que eu comento com alguém que abandonei a leitura de “Crepúsculo” nas primeiras páginas, ouço comentários do tipo: “Mas é claro, esse livro é de menina!”. Tentam justificar a falta de talento da escritora Stephanie Meyer pelo fato da sua série de sucesso ser narrada por uma garota adolescente – ou seja, a escrita amadora estaria dentro do limite intelectual da protagonista da história. A essa desculpa, retruco: “O Diário da Princesa é livro de menina, a autora Meg Cabot escreve se passando por uma adolescente, e ainda assim eu adoro.” Conclusão: um livro pode se propor a contar a mais singela das histórias, e se voltar para um público tido como fútil ou, no mínimo, pouco exigente. Desde que seja bem feitinho, escrito com desvelo e carinho, nada impedirá o envolvimento de leitores de fora do seu nicho.

É essa sensação muito especial que eu tenho sempre que pego para ler um dos diários da Princesa Mia. Ainda que não vá revolucionar a literatura ou ganhar algum prêmio escandinavo de prestígio, a série “O Diário da Princesa” é uma delícia de ler (“guilty pleasure”, como chamam os americanos). O primeiro volume virou um best-seller por conta própria, mas só fui descobri-lo depois que deu origem ao filme da Disney, com Anne Hathaway e Julie Andrews (a continuação cinematográfica caminhou com as próprias pernas, avançando no tempo e se afastando dos caminhos propostos por Cabot). As dez partes da série literária, escritas na forma de um diário autêntico (como fez Helen Fielding com Bridget Jones), começam e terminam com a heroína ainda no colegial, vivendo em Nova Iorque no loft da mãe.

Mia Thermopolis é uma garota qualquer – tímida, introspectiva e ocasionalmente desastrada, com preocupações triviais que incluem a falta de seios, as provas de Álgebra e a paixonite pelo irmão da melhor amiga. Ao descobrir que seu pai é nobre e que ela é, por direito, a herdeira do trono de um pequeno (e fictício) país europeu, essas inseguranças não desaparecem. Pelo contrário: adicionam-se à sua rotina aulas de etiqueta com a avó – uma Rainha imponente e antipática -, e viagens ocasionais ao palácio da família. (Nota: o pai de Mia, que no filme foi dado como falecido, está presente nos livros.) Todas essas desventuras são anotadas pela garota no diário que ganhou da mãe – e com um senso de humor surpreendentemente impecável. Cabot, muito provavelmente resgatando os seus próprios anseios juvenis, conhece a fundo a sua protagonista, e não comete o erro de torná-la irritante (mesmo quando Mia age com imaturidade, a compreendemos e torcemos por ela).

Apesar de resultarem numa história bastante americana – já que os jovens tem hábitos distantes dos nossos, como a planilha de aulas, o sistema de admissão nas faculdades e os passeios no Central Park -, os livros tem um apelo universal, e as citações do atemporal “A Princesinha”, de Frances Hodgson Burnett, no início de cada volume reforçam este valor. O mais bacana é que o clássico de Burnett afirma que todas as garotas são princesas, inclusive as que vivem nas mais paupérrimas condições. Tudo o que precisam fazer é se sentir como tal. Meg Cabot não nega essa lição – só acrescenta que ser princesa de verdade dá um trabalhão, e que as legítimas realezas experimentam dos mesmos conflitos que nós, pobres súditos. Uma graça!

CategoriasLiteratura

Private Practice, o horror

21 novembro 2009 10 comentários

Como avacalhação pouca é bobagem, continuo a minha perseguição aos programas da Shonda Rhimes, que me magoou seriamente depois do péssimo final de ano que reservou a “Grey’s Anatomy”. Vou falar dessa vez de “Private Practice”, o spin-off da Dra. Addison, que eu decidi não acompanhar a partir do momento em que assisti ao Piloto (episódio duplo encaixado de qualquer jeito na terceira temporada de “Grey’s”).

No episódio em questão, o núcleo de Seattle perdia o foco para um pessoal chatíssimo lá de Los Angeles – uns antigos conhecidos da Addison que administravam uma clínica caseira beira-mar (o que uma cirurgiã de renome mundial como a Addison foi fazer num lugar paupérrimo como este é um mistério não solucionado). O elenco era bem ruinzinho, a começar pela protagonista Kate Walsh, uma atriz característica que eu custo a acreditar que tenha arrumado um trabalho na vida. Ela se camuflava muito bem entre a galera de “Grey’s”, mas não dá conta de sustentar uma série por si só – até porque isso pede por um desenvolvimento maior da personagem, e ela simplesmente não tem alcance dramático ou cômico (o “ponto alto” do Piloto foi Addison conversando com o elevador, fazendo caras, bocas e micagens!). E os médicos que ela encontrava lá eram muito bocós, todos tipos prontos que a Shonda – ou como eu costumo chamar, Maconda – parece ter tirado da prateleira sem sequer abanar o pó de cima. Me lembro ainda que o caso do dia era uma mulher grávida, com vários pais possíveis para o bebê (a solução foi mega cafona: no final todos decidiram criar a criança juntos). Fala sério, isso não existe e jamais daria certo!

Ô série ruim!

Mas era possível que o Piloto fosse um lapso momentâneo, e que a qualidade crescesse depois disso (“Dollhouse”, por exemplo, começa um saco e engata lá pela metade da temporada). Só faltava boa vontade da minha parte para dar outra chance a “Private Practice” – e os recorrentes crossovers entre a série e “Grey’s” estavam tornando difícil ignorá-la. Sem paciência para as primeiras temporadas, baixei os episódios iniciais da terceira para alcançar aquele em que a Miranda vai para L.A. E lá fui eu, de coração aberto, testemunhar esse show… de horrores. Não é, como muitos leitores do blog me disseram, tão ruim quanto o Piloto (mas também acho que era impossível piorar). Porém não deixa de ser grotesca. Kate Walsh é uma desgraça, e os atores que lhe fazem companhia tem zero empatia (com exceção de um ou outro que eu não guardei o nome).

No season premiere, a vida de uma das médicas estava pendente (repetindo o truque que usou em “Grey’s” – que falta de criatividade, Maconda!); começa com um funeral pra deixar o espectador imaginando se foi mesmo a fulana que morreu, volta para contar em flashbacks o que se sucedeu desde que um personagem X a encontrou sangrando o útero pra fora do corpo, e mostra que, claro, ela sobreviveu. De fato, aparece sã e salva do lado do personagem X no enterro que poderia ser o dela (reviravolta mal feita e mal escrita que até eu, que não tinha familiaridade nenhuma com a série, consegui adivinhar). E o que aconteceu com a Addison, gente? Cadê a mulher poderosa, confiante e bitch que eu conheci no comecinho da segunda temporada de “Grey’s”? A cena dela falando que é uma excelente cirurgiã para a amiga negra foi de doer. O Framboesa de Ouro tem que criar uma categoria “Pior Performance num Seriado” e dar a estatueta pra Kate Walsh, sem pensar duas vezes. Nem Hilary Duffy em “Gossip Girl” conseguiu ser tão ruim.

Resumo da ópera: “Private Practice” é um pastiche dos dramas médicos mais preguiçosos (ou então das sitcoms ambientadas nas high school, porque o pessoal consegue ser mais imaturo do que eu jamais considerei a turma de Seattle). Não consegui continuar pela terceira temporada, e rezo para que um executivo da TV americana chegue para puxar a orelha da Maconda (ou no mínimo pra dizer “Vamos caprichar, mulher! Isso aqui não é uma peça de colégio!”). Em pensar que erros imperdoáveis no plot de “Grey’s Anatomy” – como George e Izzie, um casal – foram causados por pura distração da emaconhada, que focava suas atenções neste cocô! Ai ai…

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