Vi Lua Nova

26 Novembro 2009 Louis Vidovix 12 comentários

Dia desses, numa conversa com uma amiga, chegamos à conclusão de que a Bela, de “A Bela e a Fera”, é a melhor princesa da Disney. Enquanto suas colegas de profissão ficam inertes durante filmes inteiros, Bela não deita e dorme à espera de um Príncipe Encantado que a resgate. Feminista, ela recusa as investidas do machão Gaston, o cara mais gato da aldeia, simplesmente porque não quer ser definida pelos homens com quem sai. Corajosa, ela se oferece para ficar presa no castelo da Fera no lugar do pai. E genuinamente apaixonada, ela se envolve com a Fera sem um pingo de interesse (porque não sabia que ele era um lindo Príncipe enfeitiçado, e estaria disposta a dar para um monstro peludo). Isso, meus amigos, é uma mocinha de respeito!

Pode-se dizer que a xará da saga “Crepúsculo”, Bella Swan, não possui nenhuma dessas virtudes. Como já tínhamos descoberto no primeiro volume, ela é uma mosca morta, passiva e submissa, disposta a renunciar à sua família, à seus amigos, e à si mesma para seguir o namoradinho – o vampiro embonecado Edward – por toda eternidade. Quando a coisa aperta, é Edward – ou o nativo americano fortinho Jacob – que tem de vir ao auxílio. Não dá um peido por conta própria, essa Bella. Parafraseando Regina Duarte, “eu tenho medo”. Medo pelas milhões de garotas mundo afora, que devoram os livros da série e que acampam na porta do cinema para conferir esta nova adaptação. Garotas que se espelham na protagonista e que sonham em encontrar um dia o seu par ideal, para serem devotas a ele com a mesma intensidade. Que exemplo a autora Stephanie Meyer está dando a elas? “Ame o seu macho mais do que a você mesma”? E o amor próprio, aonde fica? Dignidade já! Talvez por isso o papel tenha caído como uma luva à insossa e “poser” Kristen Stewart.

No entanto, relevando a moral misógina, retrógrada e ofensiva, devo fazer coro ao restante da crítica. “Lua Nova” é sim um pouquinho melhor do que o antecessor. Mas só um pouquinho. Não que a nossa avaliação faça qualquer diferença – filmes como este são inatacáveis. Os fãs vão ver de qualquer jeito, independente do que as publicações tem a dizer, ou mesmo de quem está no comando (no primeiro foi Catherine Hardwicke, demitida por incompetência; agora é o mais seguro Chris Weitz, de “Um Grande Garoto” e “A Bússola de Ouro”). A quem desdenha do poder de fogo da franquia, basta dar uma olhada nos números de abertura. As sessões de “Lua Nova” à meia-noite quebraram os recordes estipulados por “O Cavaleiro das Trevas” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, a arrecadação no final de semana chegou na casa dos U$140 milhões só nos Estados Unidos, e o lançamento no Brasil foi o segundo maior da década (atrás apenas de “Homem Aranha 3″). Nada mal. Ainda mais considerando que o pioneiro “Crepúsculo”, que deu origem a toda essa febre, nada mais era que uma reles fitinha B, bancada pelo estúdio pobretão Summit (que graças à saga está subindo de nível, mais ou menos como a New Line depois de “O Senhor dos Anéis”).

Neste aqui o investimento foi evidentemente maior. Apesar da maquiagem continuar constrangedora, os efeitos estão mais caprichadinhos, a direção de arte é quase boa, e a trilha tem canções bacanas e composições originais de qualidade. E não dá pra dizer que eles não se esforçaram. Todo mundo ficou sabendo, por exemplo, dos problemas que tiveram para criar os lobos por computação – primeiro não estavam grandes ou assustadores demais, e mesmo depois de uma série de mudanças ainda ficaram artificiais no resultado final. Até aí tudo bem, que seja, foi o melhor que conseguiram fazer. Só não acredito que não tenha dado para melhorar o roteiro chinfrim e as atuações amadoras. Não que se pudesse esperar grandes coisas do texto, visto que já se baseia numa fonte muito fraca. Na verdade, parece que foi escrito da mesma forma que “Crepúsculo”, com alguém botando coraçõezinhos nos pingos dos I’s. Não imaginava, porém, que a roteirista Melissa Rosenberg fosse forçar tanto a barra para povoar os sonhos eróticos (“wet dreams”) das pré-adolescentes. Dessa forma, tudo é desculpa para que os dois heróis, Edward e Jacob (Robert Pattinson e Taylor Lautner), tirem a camisa. Aliás, deixe-me aproveitar para dizer que esse Pattinson é um frangote, magrelo e quase desnutrido. E para quem duvida que o moleque Taylor tenha tomado bola para ficar com o peitoral tão bem definido, é só prestar atenção nas piadas internas da equipe (logo numa das primeiras cenas, Bella comenta: “Que esteroides você andou tomando? Tem só 16 anos, isso não é normal!”).

Já que estamos falando das forçadas do roteiro, o que dizer do ridículo pretexto para que Bella e Edward terminem na Itália, enfrentando um clã antigo de vampiros? (Os motivos que levam a isso estão no trailer, de modo que, ao me aprofundar neste ponto, não estou quebrando nenhuma surpresa que já não tenha sido anulada pelo estúdio.) Edward julga que a amada está morta (porque ela, ahn, pulou de um penhasco, já que não se importava em arriscar a própria vida, desde que tivesse um vislumbre do seu charmoso vampiro no processo); liga na casa dela para garantir que está tudo certo e um mal entendido confirma suas suspeitas (um paralelo pobre com “Romeu e Julieta”, citado no comecinho do filme). Mas, gente, em que mundo nós vivemos? A Bella tem que correr pra Itália pra desfazer a confusão? Será que o telefone dela não tem bina? Era só ligar de volta, oras. Ou se a chamada não pudesse ser identificada, bastava a vampira que vê o futuro descobrir o número. Ela não é a sensitiva da trupe? Tá, eu sei, era pra ficar mais emocionante… Quanto ao show de horrores que testemunhamos na Itália, onde aparecem o – geralmente ótimo – Michael Sheen pagando o mico de sua carreira e uma Dakota Fanning torta e esquista, prefiro não comentar. O pessoal pode começar achar que estou com implicância gratuita!

O fato é que, apesar de banal e ordinário, “Lua Nova” se comunica bem com seu público-alvo. Uma audiência que está se lixando se a mensagem é discutível ou não, desde que a história deixe os ganchos certos. Em mim, as pontas soltas a serem resolvidas posteriormente não surtiram efeito. Nas piriguetes que estavam na mesma sessão que eu, que ovularam e aplaudiram nos segundos finais, sim. E ao que me consta, a reação tem sido a mesma nos cinemas de toda parte. Como lutar contra isso? Me diga?

.:. Lua Nova (The Twilight Saga: New Moon, 2009, dirigido por Chris Weitz). Cotação: C-

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Ensina-me a Viver, a peça

25 Novembro 2009 Louis Vidovix 6 comentários

Precisando de uma desculpa para conhecer o novíssimo Teatro Bradesco, do Shopping Bourbon, tido – com todos os méritos – como a sala de espetáculos mais bonita do Brasil, fui conferir o revival de “Ensina-me a Viver”, peça baseada no filme honônimo de 71. “Harold and Maude”, no original, narrava a excêntrica história de amor entre um rapaz de 20 anos com “alma de velho” e a senhora de 80 com “alma de jovem”. Harold, solitário e macabro, tinha o hobby de simular suicídios e vivia dando sustos na mãe (que depois de um certo tempo, se acostumou a essa mania e já nem reagia quando o encontrava aparentemente enforcado na sua sala de estar). Maude, biruta e espevitada, conhece Harold num velório (já que ambos costumavam frequentar os funerais de pessoas desconhecidas), aproxima-se dele e, aos poucos, o apresenta aos prazeres da vida.

Mas o filme não tinha nenhuma sabedoria de rodoviária ou chavões como os que costumamos encontrar nos livros do Paulo Coelho. O texto de Colin Higgins era irreverente, criativo e carinhoso com seus personagens – e isso, somado à direção super inspirada de Hal Ashby e às performances inesquecíveis de Ruth Gordon e Bud Cort transformaram “Ensina-me a Viver” num cult instantâneo. Foi mais do que oportuna, portanto, a sua transposição para os palcos, também conduzida por Higgins. Sucesso lá fora, a peça foi trazida para o Brasil em 2007, numa iniciativa do próprio Arlindo Lopes, que interpreta o nosso Harold. Glória Menezes, veterana que não compartilha da canastrice do marido Tarcísio, assumiu com toda dignidade o papel de Maude. Os dois entregam trabalhos bastante profissionais, sendo que só outros três atores tem destaque (Stella Maria Rodrigues como a mãe de Harold, Fernanda de Freitas como as pretendentes, e Antônio Fragoso em todos os demais papeis masculinos). Aliás, essa técnica de revezamento entre vários personagens é muito comum no teatro, que dá espaço para soluções alegóricas – mas o truque não é empregado aqui de forma muito funcional. Assim como no filme – que eu coloco com facilidade entre os meus favoritos de todos os tempos -, os melhores monólogos ficam com a velhinha, em especial quando ela dá para expor suas próprias teorias sobre o comportamento humano.

Há mais de dois anos em cartaz, “Ensina-me a Viver” fica dessa vez em São Paulo por curtíssima temporada – de Terça à Domingo desta semana. A quem tiver condições de ir, recomendo! E que saiam em seguida à procura do longa, caso estejam entre a minoria da população que ainda não viu.

.:. Ensina-me a Viver (Dirigido por João Falcão. Teatro Bradesco. Shopping Bourbon, Piso Perdizes. Rua Turiassu, 2100, Pompeia. São Paulo – SP. De 24/11 a 29/11). Cotação: B+

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Breve: O Fantástico Sr. Raposo

24 Novembro 2009 Louis Vidovix 8 comentários

Enquanto as piriguetes se empoleiravam nas sessões de “Lua Nova” por este Brasil afora, eu comparecia, com toda classe e conforto, à exclusiva exibição do finíssimo “O Fantástico Sr. Raposo”, a primeira incursão de Wes Anderson no ramo da animação. Tinha perdido o filme durante a Mostra por uma simples questão de horário, e estava doido para conferi-lo, por motivos óbvios (ou seja, por Anderson ser, sob todo e qualquer aspecto, um gênio absoluto – “Os Excêntricos Tenenbaums”, um dos filmes da minha vida, comprova a teoria). Fui gentilmente convidado para a sessão de imprensa, e testemunhei, por fim, outro projeto cheio de idiossincrasias e maluquices, que só poderia ter sido concebido por uma mente inquieta e (por que não?) superior à minha.

Dessa vez, Anderson resolveu adaptar um livro infantil, escrito por um certo Roald Dahl (ainda não li, mas cópias foram distribuídas a todos os presentes). Não pense, no entanto, que o filme é para crianças, por mais que a premissa possa sugerir este apelo. A trama se volta para um raposo pai de família, que passa a furtar, na malandragem, as criações de três fazendeiros. O problema é que os homens se unem contra a praga, e iniciam uma caçada que coloca em risco a vida de todos os animais do local. Em cima disso, Wes cria um roteiro magistral, ao lado do protegido de longa data Noah Baumbach (que fez por conta própria o ótimo “A Lula e a Baleia” e o insuportável “Margot e o Casamento”). Evitam, por exemplo, que o conto se torne apenas o relato de uma perseguição banal. Incrementam-no com piadas ácidas, leituras metafóricas e contornos sociológicos (nada demasiado pretensioso ou exagerado). Só lá pelo ato final, quando não há mais nada a ser dito e acrescentado, a caçada se torna puramente plana e bobinha, mas a gente perdoa.

Até porque embarcamos na proposta sem dificuldades. Logo já estamos achando o máximo ver uma família de raposos seguindo tanto os costumes de sua espécie (como escamotear galinheiros ou cavar buracos) quanto hábitos trivialmente humanos (como se formar em Direito ou passar o aspirador de pó no tapete da sala). Foi super acertada ainda a escolha dos dubladores – só gente de alto nível, como Meryl Streep, Bill Murray, Michael Gambon, Willem Dafoe e o “geek” do momento Jason Schwartzman. Mas quem dá show mesmo é George Clooney, que empresta ao protagonista não só a voz, mas também sua indelével safadeza.

Alguns podem reclamar da qualidade da animação – é computadorizada, mas os movimentos dos personagens não são fluídos, e sim truncados (mais ou menos como acontece nos filmes de stop-motion, ou “massinha”, tais como “A Fuga das Galinhas” e “Wallace & Gromitt – A Maldição dos Vegetais”). O fato é que até isso parece intencional. Encare como um dos frutos da esquisitice de Wes Anderson. Algo que, assim como seu diretor, vai provar seu charme àqueles que lhe derem uma chance. Estreia prevista para 04 de Dezembro.

.:. O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, 2009, dirigido por Wes Anderson). Cotação: B+

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A nova fase do Teatro Musical brasileiro

23 Novembro 2009 Louis Vidovix 5 comentários

O teatro musical custou a pegar no Brasil, mas de uns anos pra cá tem se tornado uma verdadeira febre (vide as importações constantes de sucessos da Broadway, com elenco e produção nacional, sempre êxito de público e garantia de qualidade). Em São Paulo, já tivemos por duas vezes “A Bela e a Fera”, seguido por “Chicago”, “O Fantasma da Ópera”, “My Fair Lady” e “Miss Saigon”; estamos agora com “Avenida Q” no Procópio Ferreira (corra para ver porque a temporada está chegando ao fim), e tínhamos também “A Noviça Rebelde”. No Rio, a mesma dupla responsável pelas adaptações paulistanas, Charles Moeller e Cláudio Botelho, está com “O Despertar da Primavera”, que dizem ser ainda melhor que o original “Spring Awakening” (enquanto, por contrato, algumas peças tem de ser trazidas sem alterações, esta possibilitou mudanças, maiores liberdades e ousadias, o que a crítica garante que surtiu efeito positivo).

Também está por lá “Hairspray”, trazido pelo Miguel Falabella, que ruma em breve para o Teatro Bradesco em São Paulo (aquele do Shopping Bourbon, considerado o mais bonito do país) – o problema é que este sim tem sido vilipendiado, da mesma forma que um dos musicais anteriores do Falabella, “Os Produtores”. Talvez porque a escalação do elenco foi tendenciosa – em “Hairspray”, por exemplo, colocaram globais como Edson Celulari no papel da mãe (que no filme foi John Travolta), Danielle Winnits como a perua loira e Arlette Salles como a senhora puritana e preconceituosa. Não que eles não sejam dignos, mas será que não tinha ninguém mais bem preparado? Afinal, mesmo que não tenhamos essa tradição de teatro musical, é de cair o queixo o tanto de gente capacitada, talentosa e versátil que existe por aí – um pessoal que canta, dança e representa, que se preparou certamente visando fazer carreira lá fora (uma vez que aqui o mercado era inexistente), e que agora tem tido chances de brilhar na própria terra. (Mas os que saíram também deram muito certo – o brasileiro-polonês Paulo Szot, vencedor do Tony de Melhor Ator num Musical em 2008, que o diga). É importante reforçar que tudo nessas versões tupiniquins é feito seguindo escrupulosamente os moldes da Broadway – sempre com orquestra e canto ao vivo, sem playback.

Entre as próximas importações devem estar “Hair” e “Gipsy” (ambos de Moeller-Botelho, que já estão fazendo testes de elenco), e possivelmente “Mamma Mia!” e “O Rei Leão”. Torço ainda para que tragam “Wicked”, um dos meus musicais favoritos, embora não haja planos. Já a nova sensação no exterior, o genial “Billy Elliot – The Musical!”, despertou o interesse de Charles Moeller. O problema é que é dificílimo de ser adaptado, e a escalação dos atores, quase impossível (não só tem que encontrar três garotos de talento amadurecido para se revezar no papel principal, mas os coadjuvantes também tem que convencer como mineiros pobres e rústicos). De qualquer forma, devo assistir na Broadway na minha passagem por Nova Iorque no ano que vem. Até lá, vou ouvindo a trilha original, composta pelo Elton John (a canção “Electricity”, através da qual Billy expressa seus sentimentos em relação à dança, já nasceu um clássico).

O melhor álbum da década

A quem possa interessar, meus álbuns preferidos são os de “Avenue Q” – cujas letras encontram um denominador comum da espécie humana, e tiram sarro com extrema inteligência dos problemas corriqueiros que nos aflingem -, “Wicked” – composta pelo parceiro habitual do Alan Menken, Stephen Schwartz, com preciosidades tais como “Defying Gravity” e “For Good” – e “Spring Awakening” – mesmo ambientado no final do século XIX, a trilha é basicamente o mais puro e autêntico rock (e a gravação com o elenco original traz várias faixas com Lea Michele, a Rachel de “Glee”, protagonista da primeira montagem; aliás, seu par romântico na peça, Jonathan Groff, irá participar como convidado de “Glee”, no papel do vocalista do coral rival). Mas musical bom não é mais exclusividade dos nova-iorquinos ou turistas. Os blockbusters estão inundando nossos teatros e, até onde eu testemunhei, tem chegado no mais alto nível de capricho! Quem nunca viu nenhum, pode reservar a primeira passagem aérea para o Rio e/ou São Paulo. Não há de se arrepender.

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Eu leio os Diários da Princesa!

22 Novembro 2009 Louis Vidovix 9 comentários

Sempre que eu comento com alguém que abandonei a leitura de “Crepúsculo” nas primeiras páginas, ouço comentários do tipo: “Mas é claro, esse livro é de menina!”. Tentam justificar a falta de talento da escritora Stephanie Meyer pelo fato da sua série de sucesso ser narrada por uma garota adolescente – ou seja, a escrita amadora estaria dentro do limite intelectual da protagonista da história. A essa desculpa, retruco: “O Diário da Princesa é livro de menina, a autora Meg Cabot escreve se passando por uma adolescente, e ainda assim eu adoro.” Conclusão: um livro pode se propor a contar a mais singela das histórias, e se voltar para um público tido como fútil ou, no mínimo, pouco exigente. Desde que seja bem feitinho, escrito com desvelo e carinho, nada impedirá o envolvimento de leitores de fora do seu nicho.

É essa sensação muito especial que eu tenho sempre que pego para ler um dos diários da Princesa Mia. Ainda que não vá revolucionar a literatura ou ganhar algum prêmio escandinavo de prestígio, a série “O Diário da Princesa” é uma delícia de ler (“guilty pleasure”, como chamam os americanos). O primeiro volume virou um best-seller por conta própria, mas só fui descobri-lo depois que deu origem ao filme da Disney, com Anne Hathaway e Julie Andrews (a continuação cinematográfica caminhou com as próprias pernas, avançando no tempo e se afastando dos caminhos propostos por Cabot). As dez partes da série literária, escritas na forma de um diário autêntico (como fez Helen Fielding com Bridget Jones), começam e terminam com a heroína ainda no colegial, vivendo em Nova Iorque no loft da mãe.

Mia Thermopolis é uma garota qualquer – tímida, introspectiva e ocasionalmente desastrada, com preocupações triviais que incluem a falta de seios, as provas de Álgebra e a paixonite pelo irmão da melhor amiga. Ao descobrir que seu pai é nobre e que ela é, por direito, a herdeira do trono de um pequeno (e fictício) país europeu, essas inseguranças não desaparecem. Pelo contrário: adicionam-se à sua rotina aulas de etiqueta com a avó – uma Rainha imponente e antipática -, e viagens ocasionais ao palácio da família. (Nota: o pai de Mia, que no filme foi dado como falecido, está presente nos livros.) Todas essas desventuras são anotadas pela garota no diário que ganhou da mãe – e com um senso de humor surpreendentemente impecável. Cabot, muito provavelmente resgatando os seus próprios anseios juvenis, conhece a fundo a sua protagonista, e não comete o erro de torná-la irritante (mesmo quando Mia age com imaturidade, a compreendemos e torcemos por ela).

Apesar de resultarem numa história bastante americana – já que os jovens tem hábitos distantes dos nossos, como a planilha de aulas, o sistema de admissão nas faculdades e os passeios no Central Park -, os livros tem um apelo universal, e as citações do atemporal “A Princesinha”, de Frances Hodgson Burnett, no início de cada volume reforçam este valor. O mais bacana é que o clássico de Burnett afirma que todas as garotas são princesas, inclusive as que vivem nas mais paupérrimas condições. Tudo o que precisam fazer é se sentir como tal. Meg Cabot não nega essa lição – só acrescenta que ser princesa de verdade dá um trabalhão, e que as legítimas realezas experimentam dos mesmos conflitos que nós, pobres súditos. Uma graça!

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Private Practice, o horror

21 Novembro 2009 Louis Vidovix 9 comentários

Como avacalhação pouca é bobagem, continuo a minha perseguição aos programas da Shonda Rhimes, que me magoou seriamente depois do péssimo final de ano que reservou a “Grey’s Anatomy”. Vou falar dessa vez de “Private Practice”, o spin-off da Dra. Addison, que eu decidi não acompanhar a partir do momento em que assisti ao Piloto (episódio duplo encaixado de qualquer jeito na terceira temporada de “Grey’s”).

No episódio em questão, o núcleo de Seattle perdia o foco para um pessoal chatíssimo lá de Los Angeles – uns antigos conhecidos da Addison que administravam uma clínica caseira beira-mar (o que uma cirurgiã de renome mundial como a Addison foi fazer num lugar paupérrimo como este é um mistério não solucionado). O elenco era bem ruinzinho, a começar pela protagonista Kate Walsh, uma atriz característica que eu custo a acreditar que tenha arrumado um trabalho na vida. Ela se camuflava muito bem entre a galera de “Grey’s”, mas não dá conta de sustentar uma série por si só – até porque isso pede por um desenvolvimento maior da personagem, e ela simplesmente não tem alcance dramático ou cômico (o “ponto alto” do Piloto foi Addison conversando com o elevador, fazendo caras, bocas e micagens!). E os médicos que ela encontrava lá eram muito bocós, todos tipos prontos que a Shonda – ou como eu costumo chamar, Maconda – parece ter tirado da prateleira sem sequer abanar o pó de cima. Me lembro ainda que o caso do dia era uma mulher grávida, com vários pais possíveis para o bebê (a solução foi mega cafona: no final todos decidiram criar a criança juntos). Fala sério, isso não existe e jamais daria certo!

Ô série ruim!

Mas era possível que o Piloto fosse um lapso momentâneo, e que a qualidade crescesse depois disso (“Dollhouse”, por exemplo, começa um saco e engata lá pela metade da temporada). Só faltava boa vontade da minha parte para dar outra chance a “Private Practice” – e os recorrentes crossovers entre a série e “Grey’s” estavam tornando difícil ignorá-la. Sem paciência para as primeiras temporadas, baixei os episódios iniciais da terceira para alcançar aquele em que a Miranda vai para L.A. E lá fui eu, de coração aberto, testemunhar esse show… de horrores. Não é, como muitos leitores do blog me disseram, tão ruim quanto o Piloto (mas também acho que era impossível piorar). Porém não deixa de ser grotesca. Kate Walsh é uma desgraça, e os atores que lhe fazem companhia tem zero empatia (com exceção de um ou outro que eu não guardei o nome).

No season premiere, a vida de uma das médicas estava pendente (repetindo o truque que usou em “Grey’s” – que falta de criatividade, Maconda!); começa com um funeral pra deixar o espectador imaginando se foi mesmo a fulana que morreu, volta para contar em flashbacks o que se sucedeu desde que um personagem X a encontrou sangrando o útero pra fora do corpo, e mostra que, claro, ela sobreviveu. De fato, aparece sã e salva do lado do personagem X no enterro que poderia ser o dela (reviravolta mal feita e mal escrita que até eu, que não tinha familiaridade nenhuma com a série, consegui adivinhar). E o que aconteceu com a Addison, gente? Cadê a mulher poderosa, confiante e bitch que eu conheci no comecinho da segunda temporada de “Grey’s”? A cena dela falando que é uma excelente cirurgiã para a amiga negra foi de doer. O Framboesa de Ouro tem que criar uma categoria “Pior Performance num Seriado” e dar a estatueta pra Kate Walsh, sem pensar duas vezes. Nem Hilary Duffy em “Gossip Girl” conseguiu ser tão ruim.

Resumo da ópera: “Private Practice” é um pastiche dos dramas médicos mais preguiçosos (ou então das sitcoms ambientadas nas high school, porque o pessoal consegue ser mais imaturo do que eu jamais considerei a turma de Seattle). Não consegui continuar pela terceira temporada, e rezo para que um executivo da TV americana chegue para puxar a orelha da Maconda (ou no mínimo pra dizer “Vamos caprichar, mulher! Isso aqui não é uma peça de colégio!”). Em pensar que erros imperdoáveis no plot de “Grey’s Anatomy” – como George e Izzie, um casal – foram causados por pura distração da emaconhada, que focava suas atenções neste cocô! Ai ai…

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A última e pior Anatomia do ano

20 Novembro 2009 Louis Vidovix 22 comentários

Merda, horror, Mariah Carey. Esses são os adjetivos que eu usaria para descrever o último episódio de “Grey’s Anatomy” em 2009 (o próximo vem só em Janeiro, aparentemente num novo crossover com “Private Practice”). Utilizando a mesma narrativa apressada do season premiere, “Holidaze” avançou por todas as festividades de final de ano – da Ação de Graças ao Natal, do Natal ao Ano Novo. Esbanjou, no meio do caminho, das cafonérrimas canções natalinas, e se focou em três tramas majoritárias – Sloan descobrindo que tem uma filha já crescida, Miranda enfrentando o pai a respeito de seu divórcio, e Meredith encobrindo a bebedeira do Chief, que a tomou como protegida. Entrementes, dois pacientes ocuparam os médicos durante meses: uma mulher literalmente sem coração, mantida viva através de aparelhos, e um garotinho que precisava ser operado com uma tecnologia inexistente.

O bolo de fim de ano de Grey's Anatomy

Para não dizer que nada ali prestou, houve uma cena poderosa da Bailey com o pai na mesa de jantar (que ainda assim poderia ter mais impacto, se toda a staff do hospital não estivesse sentada ao lado testemunhando a discussão – ou seja, ficou todo mundo constrangido e, por tabela, a gente também). De resto, foi uma vergonha só. Para começar, os casos médicos tiveram zero emoção. Estava na cara que todo mundo ficaria bem, afinal qualquer desgraça vai contra o espírito das festas. Houve, no entanto, um zezinho que faleceu para doar o órgão à moça-sem-coração, algo que rendeu a Teddy e a Cristina um dos momentos mais piegas – e preguiçosos em termos de roteiro – já feitos por “Grey’s Anatomy”. Por falar nas duas, a Teddy continua piscando vocês-sabem-o-quê para cima do Hunt, a ponto dele chegar a confrontá-la (Kevin McKidd estava péssimo e exagerado na cena); e o mulato de olhos claros (ainda não guardei o nome dele) também anda se insinuando discretamente para a Cris. Que falta de vontade para esse quadrilátero!

E a Meredith? Ficou de escanteio por tanto tempo e quando volta ao centro da ação, a colocam como babá do Chief? Justo o bundão com quem ninguém mais tem paciência? Nem falo nada… Assim como prefiro passar em branco pelo fato do Sloan ter uma filha de 18 anos, ou da menina ter caído de para-quedas na vida dele e da Lexie (e de todos terem aceitado a intromissão numa boa, sem nem sentar pra conversar direito). Para completar, a Sloan Filha está grávida. Afemaria, quem quer saber disso? Fora que a moça tem um sotaque esdruxulo e realmente irritante. Repararam ainda que o Alex mal apareceu, que nem se mencionou a ausência da Izzie, e que parece esquecida a dívida de mais de 200 mil ao hospital pelas cirurgias que a Izzie enfrentou?

O pior de tudo é que pelo menos uma dessas tramas medonhas – a da Sloan Filha e o Sloan netinho na barriga dela – será certamente retomada no próximo ano. “Grey’s” já vai começar a década com o pé esquerdo, e eu vou tirar esses dois meses de folga para pensar, com calma e seriedade, se continuarei acompanhando apesar dessas diretrizes que a série insiste em tomar.

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Quando os hermanos nos superam

19 Novembro 2009 Louis Vidovix 6 comentários

É difícil para os brasileiros reconhecerem a qualidade do cinema argentino, até porque são poucos os que parecem levar nosso próprio cinema a sério (aqui, bobagens como “Se Eu Fosse Você 2″ e “Os Normais 2″ fazem sucesso, e preciosidades modestas como “Apenas o Fim” ou mesmo produções do quilate de “À Deriva” passam quase em branco). Talvez os argentinos tenham mais bom gosto, porque a comédia “Um Namorado Para Minha Esposa”, em cartaz desde Sexta-feira nas principais capitais brasileiras, foi muito bem de público por lá e está longe de ser um desastre. Não é um grande filme, tem irregularidades evidentes e um humor nem sempre bem dosado – mas tem personagens convincentes e um indelével senso de humanidade, que culmina num final potente e cheio de verdade.

Narra a história de um casal que não se entende, em parte porque a esposa (a excelente Valeria Bertuccelli) é cricri, tem um gênio explosivo, fala pelos cotovelos e não faz nada da vida além de reclamar dos vizinhos. O marido (Adrián Suar), querendo o divórcio, mas sem coragem de enfrentar a fera, contrata um expert em sedução (Gabriel Goity) para se aproximar dela e fazê-la tomar a iniciativa da separação. As soluções são até previsíveis, mas o roteiro de Pablo Solarz reserva à mulher diálogos irresistíveis e realmente hilários (como aquele em que ela demonstra sua falta de paciência com as pessoas que acreditam em signos e ascendentes). Proporciona, ainda, dois lindíssimos monólogos finais para os protagonistas, onde ambos escancaram tudo o que sentem um pelo outro no consultório de uma terapeuta (facilmente, uma das cenas mais bonitas e edificantes do ano). No final, chega-se à conclusão de que os dois lados de uma relação podem estar igualmente certos ou errados – e que nada disso importa, desde que consigam se entender e superar juntos as adversidades.

.:. Um Namorado Para Minha Esposa (Un Novio Para Mi Mujer, 2008, dirigido por Juan Taratuto). Cotação: B-

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Thriller (e) bunda

18 Novembro 2009 Louis Vidovix 6 comentários

São poucos os trailers que me atraem, e o de “Código de Conduta” foi um deles. Apesar de entregar muito do plot, anunciava um thriller aparentemente honesto do diretor de  “Uma Saída de Mestre”, onde Gerard Butler interpretaria um sujeito genial que, desequilibrado pelo assassinato da filha e da esposa, iniciaria uma sucessão de homicídos para se vingar dos assassinos e do sistema judicial que os deixou sair impunes. Jamie Foxx faz o promotor que negocia com um dos criminosos e que se torna o principal peão desse jogo que Butler inicia.

Realmente daria para curtir sem culpa, se não fosse pelo roteiro, que se sabota com os diálogos didáticos e artificiais (como os policiais que conversam com riqueza de detalhes sobre assuntos que dominam, apenas para inteirar o espectador despreparado) e com a realidade excessivamente cinematográfica (só dentro dessa linguagem seria admissível que um mero advogado como Foxx se envolvesse intrinsecamente na investigação). Já F. Gary Gray, que assumiu a direção depois que Frank Darabont passou o posto adiante, não chega a comprometer – ele tem momentos pouco inspirados (como uma cena cafonérrima que está no trailer em que Butler é envolto por chamas), mas outros de grande acerto (é especialmente notável a intercalação da execução de um prisioneiro com o recital de uma garotinha). Há ainda uma breve aparição da sempre competente Viola Davis como a prefeita da cidade, e uma cena de nudez gratuita para que os curiosos possam apreciar o bumbum de Gerard. No final das contas é só outro thriller banal, fraquinho e inofensivo, que poderia – ou deveria – ter ido direto para home video.

.:. Código de Conduta (Law Abiding Citzen, 2009, dirigido por F. Gary Gray). Cotação: D+

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Outro conto de Natal

17 Novembro 2009 Louis Vidovix 7 comentários

São muitas as versões cinematográficas do conto de Charles Dickens “A Christmas Carol”. Na história, Scrooge, um magnata mal-humorado e mão de vaca, recebe a visita de três fantasmas na noite de Natal, enquanto está isolado das festividades no seu casarão. Os espíritos do Passado, Presente e Futuro vão levá-lo a uma viagem pelos Natais que se foram, que estão acontecendo e que estão para acontecer – e obviamente, o personagem vai aprender uma dura e importante lição no processo. O que o transforma numa pessoa melhor.

Meu primeiro contato com a história foi por meio de um desenho da Disney, “O Conto de Natal do Mickey”, onde o Tio Patinhas desempenhava o papel de Scrooge (aliás, foi inspirado nele). Mas vi outras variações, sendo a mais recente a comédia em que Matthew McConaughey é assombrado por ex-namoradas. Quem faz sua versão dessa vez, numa adaptação bastante fiel do original, é Robert Zemeckis, de “De Volta Para o Futuro” e “Forrest Gump”. Ele deu para experimentar a técnica de captura de movimentos, tendo concebido “O Expresso Polar” (primeiro longa rodado inteiramente nessa tecnologia) e “A Lenda de Beowulf”, com resultados discutíveis. Mas está progredindo, pelo menos na qualidade da animação (os bonecos de “O Expresso Polar” tinham olhos vagos e inexpressivos, andar desengonçado e movimentos pouco fluídos, o que quase não se nota aqui). A técnica possibilita ainda que os mesmos atores se alternem entre vários papeis – aqui é Jim Carrey que faz quase tudo, dos protagonistas aos três fantasmas. E muito bem, obrigado.

Os maiores problemas continuam residindo no roteiro. Se a trama é inatacável por seu valor e atemporalidade, o mesmo não pode ser dito da execução. É tudo muito sério, sombrio e marcial, o que torna canhestras as inserções de humor ou aventura (tem piadas de gosto amargo, como aquela em que o maxilar de um espectro em decomposição se distende, e movimentos de câmera acelerados que provocam no espectador a sensação de estar numa montanha-russa). As crianças devem curtir em partes – vão adorar esses momentos de “parque de diversão” e se impacientar com os mais parados (que são, afinal de contas, os propulsores do conto). Também podem se amedrontar com as cenas mais lúgubres, que remetem a pesadelos. Ou seja, mesmo que o filme fale diretamente a todas as idades, pode ser difícil definir seu público-alvo – o que não corresponde ao perfil da Disney, que bancou a produção. Achei particularmente irritantes os dois primeiros fantasmas, do Passado (que fala sussurrando) e do Presente (que não para de gargalhar). O último é apenas uma sombra (e bem aproveitado). Na era do 3D e do IMAX, no entanto, os truques visuais serem explorados – e são – é o que mais parece importar.

.:. Os Fantasmas de Scrooge (A Christmas Carol, 2009, dirigido por Robert Zemeckis). Cotação: B-

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