Séries para todos os gostos
Como vejo muitas, mas muitas séries mesmo, e não tenho tempo nem espaço neste blog para comentar cada uma delas com o carinho e a atenção que elas merecem, reuni nesse post informal alguns pensamentos avulsos sobre o que tenho assistido. Vamos lá:
- No clima da estreia da última temporada, revi o lindo episódio Piloto de “Lost”, vencedor do Emmy de Melhor Direção para J.J. Abrams em 2005. Divertido, tenso e promissor, é um daqueles primeiros episódios que nos deixam desesperados pelo capítulo seguinte. Fora que é uma delícia reencontrar todo o elenco original e ver os personagens em seu estado primitivo, exatamente da mesma forma que os conhecemos, antes das transformações (algumas boas, outras nem tanto) a que seriam submetidos ao longo dos anos. Coisa fina!

- “Big Love”, série com padrão de qualidade HBO, está quase chegando à metade da quarta temporada (que será minuscula, apenas nove episódios, contra os dez da temporada anterior). Parece que serão as últimas aparições de Amanda Seyfried, a filha do primeiro casamento – ela está virando estrela e super acontecendo em sucessos do cinema como “Mamma Mia!” e “A Garota Infernal”. Adoro a série, muito mesmo. Acho impagável a interação entre sister-wives, nesse mundo tão diferente – e ainda assim tão próximo – em que a poligamia é uma prática constante. Só acho que não precisavam insistir tanto nas figuras dos vilões (antes era o Roman que servia como ameaça, e depois que mataram o personagem e perceberam que o filho Albie era incompetente demais para ser um oponente à altura, inventaram um novo endiabrado, o ex-marido da Nikki interpretado pelo Ray Fiske de “Damages”). Faço um elogio final para Chloe Sevigny, que fez por merecer o Globo de Ouro que levou.
- “House” está tendo uma temporada problemática, mas de vez em quando os roteiristas decidem provar que ainda conseguem ser geniais. Esses atestados de brilhantismo costumam vir em episódios que subvertem a fórmula fixa e dão mais atenção aos personagens do que aos mistérios médicos (cada vez mais cansados e sem inspiração). Note, no entanto, que nem todos os personagens – além, obviamente, do protagonista - tem cacife para despertar nosso interesse. Por sorte, a chefe Cuddy, que teve toda a ênfase no episódio exibido ontem nos Estados Unidos, é não menos que fascinante. Se fizessem um spin-off chamado “Cuddy” eu assistiria, e você? Só uma crítica: quando é que eles vão conseguir fazer uma reunião de negócios decente? Seja na mais reles novela da Globo, seja num seriado deste porte, é sempre a mesma coisa: um monte de figurante reunido numa mesa retangular e balançando a cabeça. Ai, vamos tentar abstrair…
- “Greek”, que eu já comentei por aqui, está prestes a se tornar minha nova série favorita. É impossível não se encantar, juro! Ainda que meio bobinha e previsível, é tão honesta e bem intencionada, e tem uns diálogos tão bem referenciados, que não dá pra resistir (já dizia o Rouge). Baixa, vai… Alguma vez te recomendei coisa ruim?

- Visto há alguns dias, o episódio final de “Dollhouse” (criada pelo “pai” de “Buffy” e “Angel”, Joss Whedon) pecou pelo excesso de clichês. Há de se desculpar, pois. Afinal, a baixa audiência e o cancelamento sumário impediram os roteiristas de concluírem a trama (que tinha casos avulsos, mas um plot contínuo ao fundo) com a riqueza que deveriam. Temos que relevar certas besteiras, como as conclusões apressadas, os diálogos didáticos para o público entender o que se passou nesses dez anos (o episódio foi ambientado no futuro), e os últimos minutos com triunfo e musiquinha! Seja como for, é o tipo de série destinada a se tornar um cult instantâneo, e será recebida no mesmo céu reservado aos programas que foram menos vistos do que mereciam ser.
- Sigo acompanhando o “American Idol”, apesar de ainda me incomodar com algumas apelações e de ainda não estar torcendo por ninguém em particular. Estou é curioso pra ver a Ellen DeGeneres como jurada – e é o que farei, agora que tenho o episódio de ontem quase em mãos! Viva.
Revisitando os filmes do Oscar
Vou te contar, às vezes essas nossas distribuidoras dão cada bola fora… Vejam vocês que “Guerra ao Terror”, que lidera as indicações ao Oscar junto de “Avatar”, tinha um perfil tão baixo na época do lançamento que nem se incomodaram em exibir as cópias nos cinemas. Mandaram direto para DVD. Agora, diante do sucesso nas premiações, estão fazendo o percurso inverso e levando para as telonas um filme que já pode ser alugado ou baixado em boa qualidade. Seja como for, taí uma oportunidade de conferir o elogiadíssimo longa de Kathryn Bigelow na sala escura, com som vindo de todos os lados e um baldão de pipoca no colo. Hei de aproveitar a chance para revê-lo em breve – quando o assisti, em algum ponto do ano passado, achei ótimo, mas aquém do que andavam pintando. Quem sabe eu não fique com impressão melhor depois de uma revisitada?

Uma nova chance para Guerra ao Terror
E por falar em revisitada, preciso retificar meu comentário sobre “Educação”. Da primeira vez que vi o filme de Lone Scherfig, na Mostra Internacional de São Paulo, achei excelente (apesar da tradução provisória do título ter sido o péssimo e desencorajador “Sedução”). Revendo agora, porém, achei apenas muito bom. Mas a performance da protagonista Carey Mulligan só cresceu em mim. Com enorme carisma e naturalidade, mas em pleno domínio da técnica, Mulligan concebe uma garota imatura e petulante, sem que a mesma soe chata e pretensiosa. Ela ganha a simpatia e a torcida do público com um tipo difícil de agradar, e cria uma Jenny matizada e memorável, que poderia ter se tornado um “samba de uma nota só” nas mãos de uma atriz menos competente. Fez por merecer sua indicação ao Oscar. E se houvesse justiça nesse mundo, ela seria a vencedora.
Ainda sobre “Educação”: o que eu mais gosto no roteiro de Nick Hornby, baseado nas memórias de uma senhora inglesa, é a absoluta normalidade do caso. Na trama, Jenny se vê dividida entre prosseguir com os estudos e seguir o homem que ama para um casamento de risco. Apesar de ambientado nos anos 60 – com ótima reconstituição de época, diga-se de passagem -, este conflito continua atual mesmo após a valorização da mulher na sociedade. Décadas atrás, as mulheres só tinham a opção de irem para a Escola Normal, para se tornarem professoras ou funcionárias do serviço público. Hoje, são maioria em praticamente todos os cursos das faculdades (salvo algumas exceções). Ainda sim, continuam sendo a primeira escolha da família para abandonarem os estudos superiores ou a carreira: quantas não param de trabalhar quando se tornam mães, para ficar em casa com os filhos em tempo integral? E quantas situações são opostas: quando é o homem quem abdica dos seus planos? Ou seja, o dilema de Jenny não é fácil. É sincero, verdadeiro, daqueles que obrigam a plateia a se colocar no lugar da personagem e a pesar suas atitudes. E só isso é motivo suficiente para o filme ficar conosco.

Carey Mulligan vive personagem atemporal
Uma observação sobre títulos alterados: outro que está de nome novo é “Um Sonho Possível”, como “The Blind Side” passará a ser chamado. A fita “inspirational”, pela qual Sandra Bullock – quem diria! – tem grandes chances de levar o Oscar, apela para uma tradução mais derivativa, mas a verdade é que o antigo “O Lado Cego” já estava incorreto. O mais adequado seria “O Ponto Cego”, a posição em que o jogador de futebol americano não consegue enxergar quem está vindo atacá-lo. É, sem dúvidas, uma história edificante, ainda que não dê para engolir a indicação na categoria máxima do Oscar, a de Melhor Filme (mesmo uma vaga para Sandra parece exagero; triste ver que concorrentes fortes como Abbie Cornish, de “Brilho de Uma Paixão”, morreram na praia). Entrementes, “Precious” ganhou o subtítulo “Uma História de Esperança”, e já está em cartaz em sistema de pré-estreias. Confirmo que as duas interpretações centrais, de Gabourey Sidibe e Mo’Nique, são impactantes e diferentes, mas o filme – como quem for ver perceberá – tem problemas.
Pois diga-me você: o que anda revendo de bom? E de ruim?
Novela no cinema
Desde a estreia com “Meu Pé Esquerdo”, o diretor irlandês Jim Sheridan vem mantendo uma carreira regular, com mais acertos do que erros. Seus filmes costumam ser sinceros, comoventes e edificantes, quer o tom seja leve (“Terra de Sonhos”) ou pesado (“Em Nome do Pai”). Agora, com “Entre Irmãos”, a refilmagem de um longa dinamarquês, Sheridan fica num meio termo: pretende contar uma história densa e complexa, mas anula parte da seriedade com um plot novelesco e irreal.

Na trama, o fuzileiro interpretado por Tobey Maguire é tido como morto no Iraque, vítima de um acidente de helicóptero muito mal explicado. No entanto, ele e um outro colega sobreviveram à queda e foram feitos reféns pelas tropas inimigas. Nos Estados Unidos, os parentes ficam de luto, mas não demora para a esposa (Natalie Portman) achar conforto nos braços do cunhado (Jake Gyllenhaal), um ex-marginal que começa a se recompor quando encontra a desamparada família do irmão para se responsabilizar. E antes que eles tenham a chance de concretizar essa aproximação (rola apenas um beijo cheio de culpa), o outro é resgatado, cheio de traumas não-resolvidos.
A primeira metade é especialmente ruim. Toda a situação dos soldados feitos prisioneiros, e dos palestinos que os ameaçam via intérprete, é fraca, forçada e mal escrita. Também acho difícil acreditar que uma morte seja confirmada pelo Exército sem bases sólidas; há uma formalidade absurda nesse processo, desde a notificação das famílias até o funeral militar que é preparado. É uma bobagem, coisa que se esperaria encontrar como tema de novela da Globo, onde os personagens passariam pelos mesmos conflitos, tomariam as mesmas decisões e sofreriam as mesmas transformações. Aliás, se não me engano tem um folhetim no ar com um tópico idêntico: um triângulo amoroso envolvendo irmãos. Só faltavam ser gêmeos para encafonar de vez!
Quando se volta para os danos psicológicos do protagonista, contudo, o roteiro instiga e interessa (os vinte minutos finais são especialmente tensos). Faço um elogio, ainda, às meninas Bailee Madison e Taylor Geare, que interpretam as filhas do casal principal. Suponho que Sheridan tenha mão santa para dirigir crianças: estas, assim como todo o elenco infantil de “Meu Pé Esquerdo” e “Terra de Sonhos”, são iluminadas! Há também uma canção original bacana, composta pelo U2 e indicada ao Globo de Ouro, tocando nos créditos finais. Em geral, dá para assistir numa boa – mas contrariando o desejo do filme de ser levado a sério.
.:. Entre Irmãos (Brothers, 2009, dirigido por Jim Sheridan). Cotação: C+
Spin-offs e Angel
Agora que me assumi como um fã convicto de “Buffy, A Caça Vampiros” – daqueles que consideram os episódios geniais, que os assistem por incontáveis vezes, que tem camisetas inspiradas no show, que tem um altar particular montado para o criador Joss Whedon em casa, e muitas nerdices a mais -, não tenho mais desculpas para não ficar em dia com o spin-off “Angel”. Sei que estou uma década atrasado para comentar sobre isso, que a série já foi exibida nas madrugadas da Globo e que foi cancelada anos atrás. Mas descobrir tardiamente só dá um charme extra à coisa: enquanto todo mundo já viu, eu ainda tenho episódios inéditos e fresquinhos, guardados só para mim. E é uma delícia, como profundo admirador de “Buffy”, desbravar um apêndice que complementa tão lindamente a série original (alguns episódios de “Angel” ecoam nos de “Buffy” e vice-versa, além dos crossovers ocasionais).

O fato é que tenho um pé atrás com spin-offs. Não vi “Frasier”, o filhote de “Cheers”, que dizem ser o mais bem-sucedido de todos, mas achava “Joey”, a cria de “Friends”, totalmente sem inspiração e uma afronta ao personagem que tínhamos aprendido a amar. Sei que “Boston Legal”, spin-off de “The Practice”, era bem bom, mas não vi mais do que alguns pares de episódios. E nem falo mais nada de “Private Practice”, a série própria da Addison de “Grey’s Anatomy” – é simplesmente uma bobagem, que só poderia ter saído da mente de Maconda Rhimes. O fato é que tenho adorado “Angel”. A-do-ra-do. Nem todo coadjuvante carismático tem condições de se sustentar como protagonista, como bem vimos acima. Acontece que, em “Buffy”, todos eram tão complexos e matizados que poderiam dar uma série individual para cada um, e ainda assim não conseguiríamos conhecer, por completo, o íntimo daqueles personagens.
O vampiro Angel sempre foi um capítulo à parte: interpretado pelo bonitón David Boreanaz, Angelus fora um dos vampiros mais cruéis e impiedosos do século XVIII; amaldiçoado por um grupo de ciganos, depois de perpetrar um ataque cruel a um membro da aldeia, foi-lhe concedida uma alma, que o faria se sentir responsável pelos crimes que cometera. Tomado pela culpa e desesperado para expiar os pecados, Angel (como passou a ser chamado) jurou fazer o bem e defender o mundo dos demônios que, ao contrário dele, não tinham controle. Nesse spin-off ambientado em Los Angeles, ele funda uma agência de investigações especializada nesses casos sobrenaturais, e é auxiliado na tarefa por dois outros frutos de “Buffy”: a patricinha Cordelia Chase (a ótima Charisma Carpenter, que roubava a cena no original) e o Sentinela Wesley (Alexis Denisof). Se”Buffy” era repleta de elementos juvenis, “Angel” opta por um caminho mais sério, sombrio, adulto. Não é, ao contrário da fonte de inspiração, uma série sobre amadurecimento: é uma série sobre pessoas já maduras, em busca de reparação, perdão e paz espiritual. E muito feliz, também, na mistura dos gêneros, que vão do drama à comédia, do suspense às artes marciais. Imperdível, enfim!
O irresistível Mary and Max

Fiquei emocionado. “Mary and Max”, animação australiana que está super acontecendo nos festivais mundo afora, é uma graça. Ainda que o diretor, roteirista e designer Adam Elliot já tenha um Oscar no currículo (de Melhor Curta Animado, por “Harvie Krumpet”, que dizem ser muito similar a este aqui), nada me preparava para o alcance do enredo e as particularidades de sua realização. Certamente diferente, curioso, talentoso e memorável, o filme é daqueles que encanta, que fica conosco, que dá vontade de recomendar para todo mundo e de rever mesmo após tendo acabado de assistí-lo.
Porque é muita informação para ser digerida em pouco tempo (tem menos de uma hora e meia de duração). Porque o roteiro, apesar de usar como muleta três narrações paralelas (a de um narrador oficial, que tem um quê de Amélie Poulain, e as da Mary e do Max do título), amarra direitinho os excessos. Porque, com discrição, delicadeza e senso de humor, tocam em temas sérios e complicados (problemas mentais, obesidade mórbida, alcoolismo, bullying etc.), que correm tangenciais ou não à trama. Porque o visual é de uma criatividade ímpar, seja pela caracterização dos personagens (estilizados e cheios de adornos), seja pela melancolia expressa pela fotografia. Porque a dublagem original está espetacular (mal se nota Philip Seymour Hoffman dando vida ao senhor, e a menininha que dubla a Mary criança é irresistível). Porque a trilha é super doce. E, finalmente, porque a técnica do stop-motion vem comprovar que “animação” não é um gênero isolado – é apenas uma maneira de se contar uma história, seja ela cômica, dramática, fantasiosa ou tudo isso combinado.

O mais interessante é que parece que foi baseado em fatos – há uma menção quanto a isso no início, mas nenhum complemento nos créditos. O que testemunhamos, porém, é no mínimo surreal: Mary, uma garotinha australiana cheia de caraminholas na cabeça, escolhe à esmo o nome de alguém na lista telefônica, para quem envia uma carta compartilhando todas as suas dúvidas. A correspondência chega até Max, um judeu nova-iorquino sistemático, depois diagnosticado com Síndrome de Asperger – mas mesmo convivendo com suas neuroses, o homem responde para a menina; passa a se importar com ela e vê, nessa relação excêntrica e incomum, um vestígio de amizade (coisa que até então desconhece). Pronto. Daí em diante é facílimo se envolver, se comover, rir das piadas (todas ótimas e bem inseridas), das teorias ingênuas da Mary ou das esquisitices do Max. Ainda que mais apropriado aos adultos, que sacarão todas as referências, o filme tem um público abrangente, sendo acessível a crianças de 12 anos para cima. Fica recomendado a todos, do neto ao avô. E fica registrada minha admiração por Adam Elliot – a quem, a partir de agora, passarei a acompanhar com atenção. Me rendi à sua leveza ao tratar de questões profundas e, principalmente, à leveza ao tratar de questões leves.
.:. Mary and Max (Idem, 2009, dirigido por Adam Elliot). Cotação: A+
Breve nos Cinemas: A Estrada
“A Estrada” é baseado num best-seller de Cormac McCarthy, também autor do livro que originou “Onde os Fracos Não Tem Vez” – e ainda que o diretor deste aqui, John Hillcoat, não tenha a desenvoltura dos irmãos Coen, a adaptação parece bastante digna e bem aparada.

Na trama, o planeta foi devastado por um evento cataclísmico, que levou a raça humana à beira da extinção. Os poucos sobreviventes tentam resistir ao frio (não há eletricidade e quase nenhum abrigo intacto para proteção) e à fome (vagam em busca dos alimentos em compota remanescentes). Muitos se rendem ao desespero e cometem suicídio, ou simplesmente enlouquecem, como acontece com a esposa do protagonista, interpretada por Charlize Theron. Depois que ela surta e se manda, resta ao herói (Viggo Mortensen) tomar conta do filho pequeno (Kodi Smit-McPhee), enquanto perambulam inutilmente por uma América destruída, na esperança de encontrar salvação.
Ainda que o desastre em si não fique bem explicado, o desenvolvimento do personagem principal é formidável. “A Estrada” tem a alma que falta à esmagadora maioria dos filmes apocalípticos, justamente por realçar a dramaticidade e o sofrimento que tal acontecimento implicaria. Não se volta para sequências de destruição escandalosas, mesmo onde caberia um incêndio aqui e uma inundação ali. Aliás, não notei o uso de CGI em nenhum momento, embora a parte técnica seja apurada, dos figurinos sujos e sem vida à espetacular fotografia lavada de cores. A montagem talvez pudesse ter sido melhor trabalhada: pula constantemente para flashbacks com a figura de Charlize, que não são bem intercalados com o presente e chegam a nos afastar do centro da narrativa.
O roteiro de Joe Penhall, como todo texto adaptado, tem opções a fazer – algumas felizes, outras nem tanto. Não li o livro e não sei se possui a mesma força nesse aspecto, mas na realidade fílmica, o vínculo paternal é desenvolvido com louvor. O protagonista, favorecido pela ótima atuação de Mortensen, passa a importar para o espectador, à medida em que o amor incondicional que nutre pelo filho vai sobrevivendo à provações impronunciáveis. Da mesma forma, somos arrastados para aquele universo caótico e forçados a nos questionar sobre como agiríamos naquela situação. Confrontados com tanta miséria, quem não se sentiria tentado a desistir de tudo? O resultado é marcante, triste e relevante. Apenas confirmo que seria engrandecido por uma estrutura mais ajeitada. Esperava-se algumas indicações ao Oscar (de Maquiagem a, quem sabe, Ator), que não se concretizaram.
.:. A Estrada (The Road, 2009, dirigido por John Hillcoat). Cotação: B+
Lost: O Começo do Fim
Dentre os meus planos não-realizados para essas férias estava pegar os DVDs de “Lost” e rever tudo de uma vez, numa maratona particular, antes do início dessa sexta e última temporada. Assim poderia recapitular as passagens mais importantes, relembrar os mistérios que ficaram sem solução quando outros novos surgiram no lugar, fazer análises críticas com precisão, ter um embasamento para comparar os episódios atuais com os anteriores no âmbito do afastamento gradual de J.J. Abrams, observar a curva de evolução dos personagens etc. (Na verdade queria rever porque adoro a série, comecei a gostar quando a primeira temporada já tinha sido toda exibida, e agora deu vontade de assistir bonitinho, mas não conta pra ninguém, pois este blog precisa manter a seriedade).

Eis que a sexta temporada teve início e, mesmo com o meu descaso, achei um arraso. Certamente a melhor season premiere da série, depois do sensacional Piloto (as temporadas tendem a começar devagar, mas essa aqui, já com pique de último ano, não deu moleza). Não me comprometo a comentar semanalmente cada um dos episódios – que, sabiamente, estreiam na TV paga brasileira com um atraso mínimo em relação aos Estados Unidos -, mas podem esperar encontrar “Lost” por aqui mais vezes. Afinal, o desfecho definitivo já é um dos eventos mais esperados do ano, e a maior badalação do mundo contemporâneo dos seriados. E em pensar que quando teve início, nos remotos 2004, a série passava apenas por uma aventura divertida sobre vítimas de um desastre de avião isolados numa ilha deserta! A fórmula fixa – o foco em um personagem por vez, com flashs do passado que explicavam como ele chegou ali ou se tornou a pessoa que é – funcionava, e quase todo mundo transbordava carisma e ganhava nossa torcida (embora fique muito claro no decorrer que quase ninguém ali presta).
Desse ponto em diante, a série foi ganhando ares de mitologia, coletando fãs fervorosos, e criando um suspense consistente. Um punhado de espectadores se cansou de esperar por respostas (como se a série fosse apenas isso, um acúmulo de perguntas!) e abandonou. E os que persistiram continuam intrigados até hoje. Sejamos justos: teve um par de tropeços, irregularidades e enrolações, enquanto os roteiristas consideravam as diretrizes que poderiam seguir (um episódio da terceira temporada, centrado na tatuagem do Jack, é especialmente calamitoso e eleito pelos próprios cultuadores como o pior da série). Mas eles – o pessoal responsável, substanciado em Damon Lindelof e Carlton Cuse – merecem elogios pelas ousadias, por terem modificado a estrutura, por terem adicionado avanços no tempo no lugar dos retrospectos, e por terem saído, enfim, de sua margem de segurança. Foi arriscado, erraram em alguns detalhes no meio do caminho, mas no resumo da ópera, o trabalho continua sendo admirável. Não à toa, “Lost” está destinado a ser muito imitado, e até então não surgiu um substituto à altura. Um aplauso pessoal: gosto da eficácia com que se alternam entre esses flashbacks e flashforwards, passendo pelo tempo com elegância e sem subestimar o espectador (esse tem sido um dos artifícios mais irritantes da nova temporada de “Damages”, que pula a todo instante para algum acontecimento bombástico seis meses no futuro, e anuncia a data com uma vinheta cafona).
[Spoilers para quem não viu o primeiro episódio da sexta temporada]

A partir de agora, os personagens sofrerão as consequências da explosão da bomba no final da temporada anterior – que reverteu a queda do avião, mas manteve na ilha (numa realidade alternativa, é isso?) aqueles que ainda estavam por lá. No lado místico as coisas estão esquentando, com o monstro de fumaça materializado na forma de John Locke (que bateu mesmo as botas, judiação), o Ben com aquela cara de apreensão, o Jacob morto (?) aparecendo para o Hurley sensitivo, o Swayer devastado pela morte da Juliet (que chegou a lhe dizer umas últimas palavras antes de sucumbir aos ferimentos), e o Sayid quase morto sendo levado ao templo dos maltrapilhos que se cagam de medo do monstro de fumaça Locke. Mas no aeroporto de Los Angeles, onde o avião pousou ileso, as coisas não estão menos interessantes: novas conexões estão se formando entre a turma antiga, desde Jack salvando a vida do Charlie (que teve uma overdose no banheiro) até a Kate escapando do agente federal (são muito incompetentes, esses “feds” das séries, né?) e sequestrando um táxi ocupado pela Claire. Foi cool, muito cool, rever a galera, muitos dos quais mortos pelos roteiristas várias temporadas atrás. Fica óbvio, no entanto, que não conseguiram fazer com que alguns atores assinassem para uma participação – vimos Boone, mas não a Shannon, e sequer tivemos um vislumbre de Michael & Walt, visto que o menino já é um homem feito. Me expliquem se perdi algum detalhe. “Lost” é difícil e, mesmo vendo com muita atenção, sou lento pra algumas coisas. O fato é que encerrei o episódio satisfeito, com a sensação de ter sido entretido por uma hora e meia (que sequer pesou). E nem precisei ficar anotando respostas e bolando teorias para tal.
Filmes do Oscar: O Mensageiro
“O Mensageiro” marca a estreia na direção de Oren Moverman, um dos roteiristas de “Não Estou Lá”. O filme, porém, não é anticonvencional como aquele dirigido por Todd Haynes em 2007. É bastante quadrado e acadêmico, sobre uma realidade próxima dos americanos: as mortes diárias na Guerra do Iraque, e os soldados designados exclusivamente a notificar as famílias dessas perdas. Seguindo sempre um protocolo rígido, frio e impessoal.

O protagonista, vivido com afinco por Ben Foster, é ele mesmo atormentado por fantasmas dessa Guerra, da qual voltou com problemas físicos (ferimentos na perna e no olho esquerdo) e psicológicos. Sem permissão para voltar à ação, tem de se contentar com esse cargo ingrato, que considera uma bobagem burocrática. É introduzido à função por um outro oficial (Woody Harrelson), com quem se espezinha a princípio, antes de uma aproximação inevitável. Há ainda um leque de personagens com os quais esses dois vão se deparar (a mais relevante é uma viúva que desperta o interesse de Ben, interpretada pela ótima Samantha Morton).
Sem mais lorotas, está estruturada a história, num plot simples, claro e direto, bem escrito e bem atuado. Talvez a montagem pudesse ter sido melhor elaborada: há cortes secos e abruptos, e a passagem de tempo não é muito bem delimitada. Mesmo com essa transição brusca entre as cenas, o ritmo não é ágil; pelo contrário, começa a se arrastar lá pela metade final, dando uma canseira no espectador. Do mesmo modo, algumas cenas caem no lugar comum – são exatamente idênticas a muitas que já vimos antes (como Ben espiando o funeral do marido da Samantha encostado numa árvore, ou a minha favorita, ele dando tapinhas no capô do táxi para o motorista acelerar). São pequenos clichês, que não prejudicam num plano geral, mas que banalizam o resultado.
É como se Movermann tivesse essas cenas acumuladas na cabeça, prontas para quando dirigisse um filme – e agora que tem a chance, coloca-as em prática, de qualquer jeito e sem criatividade. No entanto, é muito feliz quando aposta em planos-sequência, confiando no talento de seu trio principal. Há uma cena em particular que se estende por alguns minutos – uma conversa entre Foster e Morton na cozinha – que merece desde já uma menção entre as melhores da temporada. Com esse elenco, a gente perdoa qualquer defeito! Concorre aos Oscars de Ator coadjuvante (Harrelson) e Roteiro Original.
.:. O Mensageiro (The Messenger, 2009, dirigido por Oren Moverman). Cotação: B-
Oscar: Uma primeira olhada nos indicados
Algumas considerações avulsas sobre os indicados ao Oscar 2010:
- “Avatar” lidera as indicações, viva! Ao lado de “Guerra ao Terror” (muito bom), tem nove menções. Em seguida, o excelente “Bastardos Inglórios” tem oito.
- Peraí, “The Blind Side” entrou em Melhor Filme? O que esses votantes andaram fumando?
- Mas Sandra Bullock era inevitável, eu suponho. Só não pode ganhar. NÃO PODE!
- Nada de “(500) Dias Com Ela” em Roteiro Original, um choque. Não estou entre os seus maiores admiradores, mas garanto que “O Mensageiro” não é muito melhor.
- “In the Loop” em Roteiro Adaptado, acho que preciso mesmo assistí-lo…
- Será que “Distrito 9″ é tudo isso? Para mim uma indicação em Ator seria a mais merecida que o filme poderia receber. Não deu, já que aquela categoria está cimentada há semanas.
- Nada de Christian McKay em Ator Coadjuvante. Matt Damon, que horror.
- Ainda não vi “Nine”, mas será que precisávamos de Penelope Cruz indicada? Parece que o erro foi terem vendido Marion Cotillard, que todos dizem ser a luz do filme, como protagonista.
- Nenhuma Coadjuvante de “Bastardos Inglórios”, nem Julianne Moore, tampouco Samantha Morton. Mas quem se importa, quando temos Maggie Gyllenhaal recebendo a primeira indicação de sua carreira? (Ela conseguiu o feito por “Crazy Heart”, mas já lhe deviam menções por “Secretária”, “Happy Endings” e “Sherrybaby”). Melhor surpresa de todas.
- “Precious” no lugar de “Up in the Air” em Montagem. Chegou bem enfraquecido o filme do Reitman, não?
- “Harry Potter” e “Doutor Parnassus” lembrados onde não se esperava – e com méritos!
- “The Young Victoria” aconteceu hein? Não deu para Emily Blunt chegar a Melhor Atriz, mas taí o filme em Figurino, Direção de Arte, Maquiagem. Uau.
- Maquiagem, que depois de Canção é a categoria mais difícil de prever, também surpreendeu incluindo “Il Divo”. É um filme italiano bem cínico que vi na Mostra há dois anos. Acho que seria pedir demais que se lembrassem do Ator principal, o sensacional Toni Sevillo.
- Acertei as duas canções de “A Princesa e o Sapo”. E, por Cristo, ainda bem que aquela música cafona de “Avatar” não entrou. Idem para “Cinema Italiano”, de “Nine”, que tem uma letra ridícula.
- Categorias que não dizem muita coisa, como as duas de Som, costumam ser as mais fáceis de prever. Acertei praticamente tudo.
- Efeitos poderia expandir as vagas para cinco. Tem uns trabalhos super competentes que acabam não sendo reconhecidos, mesmo em fitas horríveis.
- Desconfio que os cinco filmes estrangeiros sejam, em sua totalidade, superiores aos dez da categoria principal. Dizem que o francês e o argentino são brilhantes, e garanto que os únicos que vi, o peruano “A Teta Assustada” e o alemão “A Fita Branca” (que também apareceu em Fotografia), são extraordinários.
- De onde surgiu esse quinto filme em Melhor Animação?
Começo a esboçar em breve minha previsão para os vencedores. A lista completa de indicados pode ser vista aqui. Direcione, também, suas perguntas para o meu formspring.me.
Vitória?
Ao assumir a presidência da África do Sul, Nelson Mandela encontrou a população de seu país dividida. De um lado, os brancos evidenciavam os resquícios de racismo, e viam o líder negro com desconfiança e ressalvas. De outro, os negros, feridos pelas décadas de opressão e injustiças, tinham seus planos de vingança contidos pelo representante. Para Mandela, era hora de paz e de perdão. Mas como unir essas facções? Foi ao constatar o grande interesse da massa pelo rugby – um jogo inglês mais violento que o futebol – que Mandela percebeu que, talvez, a solução para tantos anos de desavenças estivesse no esporte. Passou a encorajar a seleção nacional, e testemunhou o país derrubando barreiras éticas e sociais pela primeira vez na História. Tudo para torcer lado a lado, à medida em que o time sul-africano avançava nas etapas da Copa do Mundo de 95.

É este caso específico que Clint Eastwood narra em “Invictus”. Ainda que não seja uma biografia convencional, o filme está apinhado de clichês e convenções. Espere por aqueles momentos batidos e cafonas que você já conhece: a trilha sonora subindo a cada conquista, a câmera lenta nos instantes mais tensos das partidas, as pessoas se reunindo nas casas e nos bares para ver os jogos na TV, e é claro, os diálogos vem-e-vai (exemplo: “Obrigado pelo que você fez pelo país!”, ao que o outro retruca “Não, obrigado pelo que VOCÊ fez pelo país!”). Faça-me o favor! Sei que era para ser o relato de um caso edificante e absorvente, mas essas banalidades torram o saco de qualquer um. E nem vou me aprofundar na suposta canonização que o filme faz de Mandela. Até porque o velhinho tem valor, é simpático, carismático e fez muito pela sua raça. Inatacável, enfim. Só gostaria de uma visão mais imparcial e menos romantizada do líder.
Esquecendo, porém, o material que tinham em mãos, dá para se satisfazer com a fita. Visto como um filão do gênero “filme inspirador”, o resultado chega a ficar acima da média. Não é qualquer bobagem que conta, por exemplo, com a presença de Morgan Freeman. Ele está bastante bem como Mandela, ainda que o roteiro, pela sua própria ênfase e proposta, não lhe dê maiores chances. De qualquer modo deve chegar ao Oscar. E o mesmo pode acontecer com Matt Damon, que interpreta o capitão que leva o time às vitórias (embora nesse caso, sim, seria um desperdício de vaga: Damon não faz nada, de digno ou de indigno). Recomendado para os que gostam desse tipo de feijão-com-arroz.
.:. Invictus (Idem, 2009, dirigido por Clint Eastwood). Cotação: C+